João de Azevedo Coutinho e Peniche – dezassete (final)

Não poderia contar com um mais perfeito final nesta fase de apresentação pública de uma pretensão que defendo com convicção, na certeza do seu inegável interesse de vária ordem para Peniche.

Jorge Russo é um amigo que admiro. Na situação de especialista de renome internacional na matéria em apreço o seu testemunho é significativo; na condição de natural de Peniche a sua opinião tem o peso suplementar de um perfeito conhecimento da realidade local.

A sua imediata aceitação do incondicional convite que lhe fiz honra-me.

O seu texto, dotado da autoridade e do conhecimento que detém, merece ser lido. E meditado.

Obrigado a Jorge Russo pela sua voluntária e valiosa cumplicidade.

Agora, Peniche que decida.

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

Jorge Russo nasceu em 1969, em Peniche, é licenciado em História pela Universidade Aberta e mestrando em História Marítima na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e Escola Naval. É investigador associado no CINAV – Centro de Investigação Naval, da Marinha Portuguesa, e no IHC – Instituto de História Contemporânea da FCSH/UNL.

O seu principal interesse centra-se na História e Arqueologia dos navios a vapor em ferro e aço, especialmente em ambiente submerso de profundidade, enquanto mergulhador de circuito fechado, e em metodologias forenses de identificação de destroços e correlação destroço-navio.

Na História dedica-se principalmente ao estudo de temáticas marítimas e navais em torno dos dois grandes conflitos mundiais. Na Arqueologia dedica-se principalmente em torno das questões tecnológicas de propulsão além da vela, e na aplicação de metodologias de estabelecimento da relação destroço/navio como forma de identificação dos primeiros.

Ganhou as Jornadas do Mar nas edições de 2012, 2014 e 2016, em História na Categoria de Licenciados e Mestrados, e o prémio “Adopt-a-Wreck-Award” da Nautical Archaeology Society, em 2013 em nome próprio e em 2015 no Projeto do CINAV relativo à ação do U-35 ao largo de Sagres e Lagos durante a Grande Guerra, em coautoria com o Comandante Augusto Salgado.

Atualmente é cocoordenador daquele projeto “O U-35 no Algarve” e corresponsável científico do projeto em torno do navio de salvamento Patrão Lopes, no Bugio, em Lisboa, com Jorge Freire.

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Destroço é um substantivo masculino que, se referindo ao património cultural submerso, mais vulgarmente significa objeto afundado, a maioria das vezes correspondendo a um navio.

Esta é apenas uma das dimensões, provavelmente a de menor relevância, certamente se nos referirmos à relevância cultural.

Na tangibilidade, e do ponto de vista arqueológico e histórico, encerra e transcreve o testemunho dos Homens e do seu tempo, do ponto de vista antropológico não nos esqueçamos que o objeto se transfigura pela relação que o Homem estabelece com ele, numa relação de transformação cultural que é recíproca. Há inclusivamente autores (por exemplo Igor Kopytoff) que defendem que estes objetos, logo também os destroços, transportam biografias que desaguam em diferentes significados que se acumularam no conjunto do seu fabrico, uso e usufruto, a dimensão intangível.

Ora é esta última que gostaríamos de sublinhar. Na verdade, os destroços podem ser além de testemunhos culturais, excelentes oportunidades económicas.

Excelentes porque o seu usufruto é tendentemente uma atividade racional, responsável, sustentável, de baixo impacto ambiental, e que regista muitas vezes ramificações importantes quanto às atividades económicas que mobiliza ao seu redor, possuindo ainda a capacidade de combater a sazonalidade.

Estamos naturalmente a referir-nos ao sector de atividade económica do mergulho recreativo.

Se por um lado existem preocupações de pressão e carga deste sector sobre o património cultural submerso, e devem haver, nomeadamente aquele mais sensível, a verdade é que a própria UNESCO aconselha a sua fruição na CONVENÇÃO SOBRE A PROTECÇÃO DO PATRIMÓNIO CULTURAL SUBAQUÁTICO que Portugal ratificou prontamente.

Mas há, nesta matéria, uma solução e oportunidade imperdíveis há muito ensaiadas em todo o mundo e mais recentemente em Portugal: o afundamento de navios para fins lúdicos como o mergulho recreativo.

Por todo o mundo e Portugal não tem sido exceção, multiplicam-se os casos de enorme sucesso nesta ação. Os destroços afundados possuem uma orgulhosa história que honrosamente será perpetuada através dos milhares de visitantes que a conhecerão na oportunidade da sua visita em ambiente submerso, rapidamente se transformam num oásis de vida e biodiversidade, todos os estudos o indicam, são um vetor de enorme importância e capacidade de mobilização e dinamização económica, combatem a sazonalidade, e se geridos de forma ampla e telescópica ao invés de microscópica, são uma forma eficaz de combater a monocultura turística que tantas, demasiadas, vezes se apodera da orla costeira.

Podia juntar aqui esses exemplos, mas maçar-vos-ia pela extensão interminável.

 

Após este breve conjunto de argumentos, apetece perguntar a Peniche o que espera para acolher, numa primeira fase ouvindo mas com atenção, a ideia de afundar a Corveta João Coutinho.

Jorge Russo

João de Azevedo Coutinho e Peniche – dezasseis

Ponto da situação.

Procurei nada deixar omisso quanto a este projecto, que é uma provocação.

Deixei claro que todo o processo apenas pode ser desencadeado por uma iniciativa da autarquia penichense. O seu presidente não desconhece a pretensão -bem pelo contrário!- e portanto cabe-lhe assumi-la ou não. À maioria, silenciosa, da edilidade compete depois a decisão colectiva.

Ninguém ignora que o projecto tem passos difíceis a cumprir e exige um investimento considerável. No entanto, responsáveis da autarquia não se têm cansado de afirmar a existência de um gabinete cuja função é, precisamente, a de encontrar os aliados, procurar os fundos e preparar as candidaturas. Eis uma magnífica oportunidade para testar a sua eficácia…

A questão fundamental, que não pode nem deve ser iludida, é de provar uma visão arrojada de futuro para a comunidade local contrastando com a banal gestão da vulgaridade quotidiana. Esta é uma diferença, decisiva, entre freguesia e cidade.

Adiar um projecto como este com cómodas e estafadas desculpas de circunstância será perder oportunidades que outros não desdenharão. E hipotecar o futuro.

O mar é, aqui, uma realidade incontornável. Desperdiçar as suas potencialidades, quando estas podem servir como motor de desenvolvimento local, é negar as mais lógicas evidências. A museologia subaquática e o mergulho em profundidade são em tudo compatíveis com o surf superficial.

A família Azevedo Coutinho está, como sempre, profundamente empenhada no culto da memória do seu mais ilustre antepassado. A Armada, na sequência de todas as atitudes até agora assumidas, tem por timbre honrar os seus gloriosos membros com justificada nobreza. A Câmara Municipal de Peniche está pois confrontada com uma proposta cujas premissas são claras, num deve e haver que lhe compete apreciar, decidindo em conformidade. Do que fizer -ou não!- terá de prestar contas a uma comunidade necessariamente atenta e com memória futura..

Na interpretação pessoal dos factos, embalado num optimismo que recuso abandonar, apresentei claramente ao Chefe do Estado-Maior da Armada uma data cujo profundo simbolismo poderia ser adequado para a concretização do acto: 2 de Maio de 2019, quando se cumprirá o preciso meio século sobre a data do lançamento à água, em Kiel, da corveta João Coutinho.

Os meses inactivos -portanto perdidos!- que entretanto já passaram inviabilizam, na prática, esse sonho. Mas não faltam, no futuro próximo, outras válidas efemérides. Em 7 de Dezembro de 2019 passam 75 anos sobre a morte do Almirante João de Azevedo Coutinho e em 7 de Março de 2020 cumprir-se-ão os 50 anos da entrada da corveta com o seu nome ao serviço da Armada Portuguesa.

Teremos ainda, em 6 de Fevereiro de 2020 a “comemoração” de dois anos passados sobre a data oficial do abate da corveta…

Um Condado, uma Corveta e Futuro – uma proposta para Peniche inspirada num Herói nacional: João de Azevedo Coutinho.

Fico, de momento, por aqui. A série terminará no próximo dia 30, com um “capítulo” especial.

António Martinó de Azevedo Coutinho

João de Azevedo Coutinho e Peniche – quinze

BREVES  DADOS  BIOGRÁFICOS  DE
JOÃO  DE  AZEVEDO  COUTINHO – anexo

1945 – É publicada uma biografia de João de Azevedo Coutinho, por Marinho da Silva, com incidência quase exclusiva sobre a sua carreira militar e governativa em Moçambique.

1956 – O Presidente general Craveiro Lopes inaugura em Quelimane uma estátua, em homenagem a João de Azevedo Coutinho.

1967 – 20 de Abril – A Câmara Municipal de Alter do Chão repõe solenemente a designação toponímica de JAC numa rua da Vila.

1969 – 2 de Maio – É lançada à água, em Kiel (Alemanha), uma corveta da Armada Portuguesa a que é dado o nome de João Coutinho.

1970 – 27 de Outubro – Pelo Banco Nacional Ultramarino é emitida em Moçambique uma nota com o valor facial de 50 escudos, com a efígie de JAC.

1975 – 25 de Junho – Com a independência, Moçambique muda o nome das avenidas João de Azevedo Coutinho para Avenida da OUA (em Maputo) e Avenida 1 de Julho (em Quelimane).

A sua estátua, aqui erigida em 1956, é retirada e destruída.

2002 – 26 de Outubro – Alter do Chão, em cooperação com a Armada Portuguesa, homenageia o seu filho João de Azevedo Coutinho, na passagem do I Centenário da Campanha do Barué.

É erigido um memorial alusivo e lançado um livro biográfico.

2014 – 6 de Julho – A família Azevedo Coutinho visita a corveta João Coutinho, em vésperas de desactivação.

2015 – 3 de Fevereiro – São solenemente comemorados, na Sociedade de Geografia, em Lisboa, os 150 anos do nascimento de João de Azevedo Coutinho.

2018 – 6 de Fevereiro – Pela portaria 140/2018 do Ministério da Defesa Nacional, o Governo manda abater ao efectivo dos navios de guerra o NRP João Coutinho, a partir de 1 de Fevereiro de 2018.

António Martinó de Azevedo Coutinho

João de Azevedo Coutinho e Peniche – catorze

BREVES  DADOS  BIOGRÁFICOS  DE
JOÃO  DE  AZEVEDO  COUTINHO – III

1911 – 26 de Maio João de Azevedo Coutinho é demitido da Armada “a bem dos superiores interesses da República Portuguesa”, conforme reza o respectivo decreto, por envolvimento em actividades contra o regime. Prefere o exílio, por terras de Espanha e França.

1911 – 26 de Junho Por proposta do vice-presidente da Câmara Municipal de Portalegre, Adelino do Carmo Brito, foi substituído o nome da Rua Azevedo Coutinho (antiga Rua da Carreira) pelo de Rua 19 de Junho.

1913 – 21 de Outubro Nova intentona revolucionária monárquica com a participação de João de Azevedo Coutinho que, disfarçado, consegue regressar ao exílio num golpe audacioso.

1915 – Devido a uma amnistia, João Coutinho pode regressar à Pátria.

1923 – 16 de AbrilO filho Francisco Eduardo casa com D. Maria Antónia de Almeida de Noronha, tornando-se conde de Peniche.

1919 – Embora então bastante doente, João de Azevedo Coutinho envolve-se com Aires de Ornelas numa conspiração monárquica em Monsanto. Preso e julgado, em Agosto, é absolvido após recurso.

1925 – 8 de Novembro É eleito senador monárquico, pelo distrito de Portalegre, com significativa votação popular.

1932 – 25 de Setembro D. Duarte Nuno de Bragança, sucessor de D. Manuel II, nomeia João Coutinho como seu Lugar-Tenente.

Lidera a Causa Monárquica.

1934 Publica “Valor e eficiência patriótica das missões coloniais”.

1935 Publica “As duas conquistas de Angoche” e “O combate de Macequece: notas sobre algumas das determinantes próximas e remotas do conflito”.

1936 Publica “Manuel António de Sousa, um capitão-mor da Zambézia”.

1939João de Azevedo Coutinho visita a Zambézia, encontrando antigos camaradas.

1941 Publica a obra: “Memórias de um velho marinheiro e soldado de África”.

1942 – 21 de Fevereiro É-lhe conferido o título de Presidente de Honra do Instituto Ultramarino.

1942 – 7 de Março A Sociedade de Geografia de Lisboa escolhe João de Azevedo Coutinho para seu presidente.

1942 – 11 de Março – É-lhe conferida, a título honorário e por deliberação unânime da Assembleia Nacional, a patente de vice-almirante e é reintegrado na Armada.

1942 – 15 de Março – É homenageado pela Mocidade Portuguesa e pela Agência Geral das Colónias, tendo aí sido proferido pelo Dr. Marcelo Caetano um discurso que ficou célebre.

1942 – 26 de Junho – É solenemente acolhido e homenageado na cidade do Porto.

1943 – 28 de Maio – Como “Herói de África”, recebe publicamente as suas últimas condecorações: as Grã-Cruzes das Ordens do Império e da Torre e Espada.

1944 – 7 de Dezembro – Morre em Lisboa, aos 79 anos.

António Martinó de Azevedo Coutinho

João de Azevedo Coutinho e Peniche – treze

BREVES  DADOS  BIOGRÁFICOS  DE
JOÃO  DE  AZEVEDO  COUTINHO – II

1892 – 6 de Agosto João de Azevedo Coutinho casa, em Portalegre, com D. Maria Inês de Barahona Castel-Branco, filha de Inácio Cardoso de Barros Caldeira Castel-Branco Barba Mouzinho e Matos e de D. Maria José de Barahona Fragoso Cordovil da Gama Lobo.

1892 – Durante alguns meses, João Coutinho publica narrativas e crónicas, sobretudo sobre temas de História e Etnografia, em “O Mundo Português” e na “Revista do Exército e da Armada“.

1893 É publicada a sua primeira obra de fundo: “Do Nyassa a Pemba – Os territórios da Companhia do Nyassa – O futuro porto comercial da região dos lagos”.

1983 – 23 de Junho – Nasce o seu primeiro filho, Manuel.

1896 – 17 de Dezembro Vai comandar voluntariamente a companhia de guerra de Marinha enviada a combater os namarrais.

1897 – 8 de Abril – É nomeado Governador do distrito da Zambézia, tendo comandado novas operações militares, para além da função administrativa.

1897 – 1 de Maio – João Coutinho é oficialmente louvado pelo Comissário Régio Mouzinho de Albuquerque.

1899 É nomeado Oficial às ordens, honorário, de Sua Majestade D. Carlos I, que entretanto lhe atribuíra mais uma comenda da Ordem da Torre e Espada.

1901 – 22 de Março – Nasce mais um filho de João Coutinho, de nome Francisco Eduardo.

1902 – 24 de Maio João de Azevedo Coutinho toma posse, novamente, do governo da Zambézia.

1902 – 18 de Julho Assume o comando da coluna do Barué, determinando a primeira ordem de marcha para o dia seguinte, por via fluvial.

1902 – 30 de Outubro João Coutinho manda publicar a ordem de dissolução da coluna do Barué, esforçando-se por fazer aí  a devida justiça ao brio e valor das forças que tivera a honra de comandar.

1904 Publica o volume “A Campanha do Barué em 1902”.

1904 – Dezembro – João de Azevedo Coutinho é agraciado com a Legião de Honra francesa.

1905 – 20 de Fevereiro Toma posse do Governo Geral de Moçambique, que servirá com zelo e inteligência.

1905 – 1 de Dezembro Recebe o título de Conselheiro.

1908 – 9 de Fevereiro É nomeado Governador Civil do Distrito de Lisboa.

1908 – 24 de Abril – São-lhe concedidas as honras de Ajudante de Campo de Sua Majestade El-Rei o Senhor D. Manuel II.

1909 – 11 de Abril – É nomeado Ministro da Marinha e Ultramar no governo de Sebastião Teles.

1909 – 14 de Maio É exonerado a seu pedido do cargo de Ministro da Marinha e Ultramar.

1909 – 22 de Dezembro – É nomeado Ministro da Marinha e Ultramar no governo de Veiga Beirão.

1909 – 24 de Janeiro – É publicada no “Diário do Governo” uma portaria assinada por João de Azevedo Coutinho, visando a profunda reorganização da administração colonial, baseada numa larga autonomia e considerando as justas aspirações e a concessão local de liberdades…

1909 – 17 de Junho – É assinado um importante e vultoso contrato entre o Estado Português e estaleiros italianos, para o fornecimento dos primeiros submarinos à Armada.

1910 – 26 de Junho É exonerado a seu pedido do cargo de Ministro da Marinha e Ultramar.

1910 A quando da implantação da República, João de Azevedo Coutinho é Lugar-Tenente de D. Manuel II.

1910 – 25 de Novembro Por decreto, é reformado com a graduação do posto de Capitão de Fragata da Marinha.

1910 É eleito deputado.

1910 Publica “A questão do álcool de Angola: proposta de lei”.

António Martinó de Azevedo Coutinho

João de Azevedo Coutinho e Peniche – doze

BREVES  DADOS  BIOGRÁFICOS  DE
JOÃO  DE  AZEVEDO  COUTINHO – I

1865 – 3 de Fevereiro – Nasce em Alter do Chão João António de Azevedo Coutinho Fragoso de Sequeira, filho primogénito de Manuel de Azevedo Coutinho Fragoso de Sequeira (administrador dos antigos vínculos de família no Alto Alentejo) e de D. Maria Efigénia Pinto Guedes da Gama Lobo de Azevedo Coutinho.

1880 – 13 de Outubro Assenta praça no regimento de Cavalaria 4 aquartelado em Belém, Lisboa, como soldado.

– Cursa na Escola Politécnica os Preparatórios para a Escola Naval.

1882 – 10 de Novembro – É transferido para o serviço da Armada, para a companhia dos guardas-marinhas.

1884 – 29 de Setembro É promovido a guarda-marinha.

1885 – 10 de Fevereiro – Embarca na canhoneira “Vouga”, para uma primeira missão de soberania em Moçambique.

1887 – 14 de Janeiro – É louvado pelo governador-geral de Moçambique, pela sua luta pela extinção do tráfico de escravos e pela elaboração de planos hidrográficos no rio Muíte.

1887 – Numa “república” de estudantes em Coimbra, alguns alterenses tomam a iniciativa de fazer construir na sua terra um teatro a que darão o nome de João de Azevedo Coutinho.

1889 – Janeiro – Enfrentando uma terrível tempestade a bordo do vapor Mac-Mahon, João Coutinho amarra-se ao leme durante 17 horas consecutivas, e salva o navio carregado de material para Moçambique.

1889 – Outubro – É louvado pelo Ministro da Marinha e Ultramar, em nome de El-Rei, pela bravura de que deu provas ao conduzir voluntariamente vapores da esquadrilha do Zambeze, de Quelimane ao Chinde.

1889 – 17 de Novembro As forças do 1.º tenente Azevedo Coutinho tomam Chilomo, derrotando o régulo Melaure. É o início de inúmeras operações militares que lhe conferem uma aura de herói.

1889 Serpa Pinto mostra a sua amizade e apreço para com João de Azevedo Coutinho, dando a Chilomo o nome de “Vila Coutinho”.

1890 – 11 de Janeiro – A ocupação do Chire por João de Azevedo Coutinho, substituindo Serpa Pinto -retirado por doença-, constitui a “afronta” que acaba por conduzir ao ultimato inglês.

1890 – Agosto – As Cortes proclamam-no “Benemérito da Pátria” e é-lhe conferida a mais alta condecoração nacional: a Ordem de Torre e Espada, de Valor, Lealdade e Mérito.  Tem 25 anos de idade…

1890 – 11 de Setembro A Câmara Municipal de Portalegre, tendo “em atenção ao procedimento altivo e corajoso do jovem oficial da nossa marinha, o valente Azevedo Coutinho, delibera que, de hoje em diante, se denomine Rua d’Azevedo Coutinho a antiga Rua da Carreira, para que assim dê esta municipalidade um testemunho do muito apreço em que tem os serviços feitos à Pátria, nas nossas possessões ultramarinas por aquele tão digno português, bravo e simpático militar”.

1891 – Março A vila de Alter do Chão, sua terra natal, presta a João de Azevedo Coutinho uma grande homenagem.

1891 – 5 de Abril Da Acta da Sessão Extraordinária da Câmara Municipal de Portalegre :

Aberta a sessão às onze horas da manhã, disse o Senhor Presidente que, em harmonia com a respectiva convocatória, tinha esta sessão por fim deliberar o meio de manifestar a Azevedo Coutinho, o herói do Chire, que se acha nesta cidade hoje, a simpatia e alto reconhecimento que esta Câmara e todos os Munícipes do concelho tributam ao seu ilustre compatriota. Resolveu a Câmara, por unanimidade, ir cumprimentar o valente e benemérito africanista, congratulando-se pela subida honra que esta cidade acaba de receber com a sua visita – e logo saiu em cumprimento daquela deliberação, eram onze horas e meia da manhã”.

1891 – Fins de Maio João Coutinho regressa a Moçambique, para novas campanhas.

1891 – 19 de Novembro Fica gravemente ferido no ataque à aringa de Mafunda, em virtude de tiros e da explosão de um cunhete de pólvora, onde as suas forças sofrem mais de trezentas baixas, chefiando a retirada em trágicas circunstâncias.

1892 – Lutando pela própria sobrevivência, em condições precárias, a recuperação do ferido vai prolongar-se por três longos meses…

António Martinó de Azevedo Coutinho

João de Azevedo Coutinho e Peniche – onze

Como seria natural, depressa se fez chegar a Henrique Bertino Antunes, novel presidente da autarquia penichense, o dossier contendo o essencial da sugestão familiar acerca da musealização subaquática da corveta João Coutinho. Foi tão simpático o acolhimento como ineficaz, por ausente, a sua indispensável actuação.

Em virtude da demora verificada quanto a uma iniciativa oficial que se desejaria célere, decidi aproveitar a vinda a Peniche do Chefe de Estado Maior da Armada, por ocasião das comemorações locais do Dia da Marinha, para lhe apresentar pessoalmente a pretensão.

Assim aconteceu. Na tarde do dia 13 de Maio de 2018, tive a ventura de encontrar, e com ele confraternizar, um antigo e querido companheiro de trabalho na Escola Superior de Educação de Portalegre, Bellém Ribeiro, que como ex-comandante da Armada se encontrava na magnífica mostra patente nas vastas instalações dos Bombeiros Voluntários de Peniche. Aí esperei a comitiva oficial, aguardando a oportunidade julgada conveniente para expor sumariamente ao almirante Mendes Calado, conterrâneo de João de Azevedo Coutinho, o essencial do projecto em causa.

Estava presente o presidente Henrique Bertino, tendo a certa altura um elemento da comitiva, oficial da Armada, declarado que havia já um certo compromisso quanto ao destino final do navio em causa. Porém, eu estava informado quanto a isso. O almirante Silva Ribeiro, actual Chefe de Estado Maior das Forças Armadas, professor do meu neto Manuel no seu curso de Relações Internacionais na Universidade de Lisboa e conhecedor do projecto, dera-lhe conta de que havia diversos navios desactivados e disponíveis pelo que seria certamente possível contar com a corveta João Coutinho para Peniche, desde que houvesse uma efectiva e empenhada diligência local neste sentido. A minha resposta terá esclarecido a dúvida colocada…

Foi interessado e animador o acolhimento dispensado. O almirante declarou que o afundamento de um navio era para a Armada um tema de maior importância e foi-me solicitado o envio de informações complementares.

Assim fiz logo no dia imediato, por e-mail contendo um texto de apresentação, onde historiei as anteriores diligências, assim como o dossier organizado para o efeito, material enviado ao comandante Nuno Sacchetti Viana Machado, chefe de gabinete do Chefe de Estado Maior da Armada.

Continua a faltar o essencial, isto é, a explícita manifestação do interesse oficial da autarquia de Peniche. Aqui, nada pode a vontade familiar.

É claro, por evidente, que nenhuma das forças concorrentes à autarquia terá inscrito no seu programa eleitoral um projecto concreto de musealização subaquática. Surge agora esta oportunidade em que nada é preciso inventar. Basta saber adaptar com inteligência a Peniche o programa de sucesso implementado em diversos locais, como são os casos de Portimão e da Madeira, já relatados.

Sabe-se como é e quanto custa, as sucessivas fases e diligências, e até onde procurar apoios, patrocínios e colaboração.

É patente a excelente relação institucional, certamente também personalizada, entre a autarquia penichense e as mais altas autoridades da Armada.

Vive-se presentemente, por simples coincidência, um momento local de entusiasmo em torno de uma invulgar actividade desportiva de mar. Mas este estratégico envolvimento, em Peniche, não se pode esgotar na meritória prática do surf. Há mais vida marítima para além das ondas e das pranchas…

Esta autêntica Cidade do Mar vale muito mais do que como simples Capital da Onda. Na museologia subaquática pode ganhar uma outra e nova atractividade, onde ao desporto alie todas as outras vertentes, ecológicas, científicas e sobretudo económicas, integradas num projecto de complementaridade e desenvolvimento.

À gestão autárquica de base paroquial, olhando para o seu próprio umbigo, deve contrapor-se uma política ambiciosa de futuro, estruturante. Só assim se progride, servindo tanto a comunidade local como os desejáveis -e indispensáveis- visitantes. E o turismo subaquático, nomeadamente o ligado ao mergulho desportivo, constitui um fenómeno social universalista, de qualidade e em franco crescimento.

Peniche mudou recentemente a sua imagem de marca e fez disso um motivo de destaque. Pode e deve ser este simbólico pretexto um ponto de partida para fazer da nossa cidade, a mais ocidental do continente europeu, um lugar de referência e de procura.

Aqui insere-se, entre outros, este projecto que há muito venho defendendo.

Pessoalmente, quase nada perderei com o seu insucesso. No meu íntimo, apenas se adiará a oportunidade, mais uma, de reforçar na memória colectiva o nome e os feitos de um herói nacional, marinheiro e soldado de Portugal, João de Azevedo Coutinho.

Com um breve sumário da sua vida encerrarei esta série.

António Martinó de Azevedo Coutinho