Lembrando o nascimento de João de Azevedo Coutinho

À uma e meia da noite do dia 3 de Fevereiro de 1865, na vila norte alentejana de Alter do Chão, nasceu um menino a quem foi dado o nome de João António de Azevedo Coutinho Fragoso de Sequeira, filho primogénito de Manuel de Azevedo Coutinho Fragoso de Sequeira, que ali administrava os antigos vínculos de família, e de Maria Efigénia Pinto Guedes da Gama Lobo de Azevedo Coutinho.

Passa portanto hoje mais uma efeméride do nascimento daquele que foi um dos mais autênticos heróis nacionais, homem e soldado que serviu o seu Rei e a sua Pátria acima de tudo e de todos.

Como simples mas significativa presença simbólica neste dia, aqui se recorda um documento pouco conhecido, um apenas entre mil possíveis. Trata-se de uma modesta publicação da Mocidade Portuguesa, datada de 1942, contendo o texto de alguns programas radiofónicos emitidos pela organização na Emissora Nacional.

Desconhece-se o seu autor, sabendo-se que o programa em apreço, dedicado a João de Azevedo Coutinho, foi para o ar no dia 8 de Março de 1942.

 

PORTALEGRE PERDEU-SE ALGURES ENTRE ALCÁCER QUIBIR E A LIXOSA

Portalegre é uma terra sem memória.

Talvez deva corrigir: Portalegre é uma terra com uma especial memória selectiva. O que é ainda pior. Lembra-se ou olvida-se o que em cada momento interessa ou convém.

A memória de uma terra é colectiva, mas funciona ao sabor de impulsos individuais. Depois, em permanência, a comunidade aceita ou rejeita a iniciativa.

Quando alguém, mais sensível, procura recordar figuras que por aqui viveram misturando ilustres bispos e modestos engraxadores, solenes governadores e simples cauteleiros, valentes guerreiros e habilidosos alfaiates, generosos sacerdotes e inspiradas doceiras, quando alguém o faz rompe as normas que prudentemente mandam colocar cada macaco no seu galho. E, portanto, isto das caras e dos nomes baralha, em muita gente, macacos e galhos.

A toponímia local é uma floresta onde se nota a confusão (ou será ignorância!?) em que nomes, datas, factos, figuras e memórias se encontram e se baralham. E se iludem ou se perdem…

Seria extensa a lista dos equívocos portalegrenses alusivos e por isso me escuso, por ora, da sua discriminação. Basta-me um exemplo, o que vem neste preciso momento mais a propósito.

Nasceu aqui bem perto embora tenha feito formação e vida pela capital, para onde cedo foram os pais. Alistou-se na tropa, optando pela vocação marítima, e comandou navios, onde logo deu nas vistas. Mas foi em terra, protótipo de fuzileiro, que mais se distinguiu, antecipando posteriores gestas guerreiras por antigas terras do nosso extinto Império.

Audaz, lutou com insuperável bravura e provocou iras e invejas, fustigando poderosos interesses, o que desencadeou dolorosa e rude intervenção estrangeira, impondo-nos a força dos seus canhões. O nosso hino nasceu daí, da impotente revolta nacional contra tão inaudita ofensa.

Reconhecendo a invulgar coragem do jovem marinheiro-soldado, saudaram-no as Cortes que o consideraram Benemérito da Pátria. Tinha ele apenas 25 anos.

Portalegre não ficou indiferente ao facto e repetiu aqui a iniciativa que Portugal assumiu em muitas outras localidades, atribuindo o nome do herói a uma das suas ruas. Depois, recebeu-o em delírio, como consta das crónicas do tempo. Acrescente-se que a oportunidade até foi facilitada pela frequente vinda do militar à nossa cidade, onde se enamorara de uma linda jovem.

Em África, onde voltaria, foi gravemente ferido num duro combate, passando largos meses em difícil mas bem sucedida convalescença. Pouco depois, a Portalegre viria para casar com a mulher amada.

A continuação da sua agitada vida seria repartida pela paz e pela guerra, escrevendo inspirados livros, governando terras, distritos e províncias, comandando duras e decisivas campanhas militares, desempenhando altas funções junto do seu Rei e do Estado. Foi Conselheiro e Ministro, devendo-lhe a Marinha e o Ultramar arrojadas, sábias e pioneiras iniciativas.

Recebeu as mais elevadas honrarias, entre as quais todos os graus da Ordem Militar da Torre e Espada. Raros portugueses, em todos os tempos, foram tão distinguidos e com semelhante justeza.

A implantação da República colocou-lhe o dilema de uma radical escolha alternativa e ele não hesitou no respeito pelos seus juramentos de honra perante o Rei e a Monarquia, o que lhe valeu inevitável demissão e temporário exílio. Lutou contra o Poder instituído e, em lógica consequência, foi o seu nome banido da sociedade. Também na sua terra, tal como em Portalegre, isso aconteceu. Aqui, o seu nome foi substituído por uma ignota datação, referência toponímica ao novo regime.

Mas Portalegre permaneceu para ele como local de preferência, tendo-lhe prestado valioso serviço público ao ser eleito senador monárquico pelo distrito. Aqui passou largos períodos, alternando com Lisboa, entregue à família, à escrita de memórias e ao combate político como Lugar-Tenente do pretendente ao putativo trono e como líder da Causa Monárquica.

Foi longo, por mais de trinta anos, o doloroso período que conduziu à justa e inevitável reparação pública, oficial, desse bravo português.

Foi então imediato e entusiástico o desencadear de sucessivas e vibrantes homenagens, porém lenta se processou a reposição das perdidas nomenclaturas toponímicas.

Em Portalegre nunca isso aconteceu, esgotando-se ingloriamente, sem remédio, as oportunidades mais adequadas para tal reparação, apesar de cíclicos alertas em tal sentido. Este absurdo fenómeno agora mesmo se repetiu.

Portalegre, de facto, é uma terra sem memória ou, pior do que isso, dotada da tal particular memória selectiva, ao sabor de conveniências ou fraquezas.

Ao mesmo tempo que aqui se evoca com invejável frequência e qualidade a gesta de um punhado de soldados combatentes na I Guerra Mundial, na Flandres e em África, sob a bandeira de dois gloriosos regimentos portalegrenses, persiste-se na deliberada e incoerente ignorância de um herói nacional, apeado de antiga e justa homenagem local. Inconfessáveis contradições!

Passa (passou!) neste exacto Domingo, 6 de Agosto de 2017, uma magnífica oportunidade para isso, na efeméride dos 125 anos do casamento, em Portalegre, do alterense João de Azevedo Coutinho com a portalegrense Maria Inês de Barahona Castel-Branco.

E os portalegrenses continuarão a ignorar o facto que as próprias escrituras confirmam, a histórica certeza de que a actual Rua 19 de Junho, antiga Rua da Carreira, entre 11 de Setembro de 1890 e 26 de Junho de 1911, se denominou Rua de Azevedo Coutinho.

Curiosamente, a localização patrimonial das Janelas Manuelinas do Palácio dos condes de Melo como Monumento Nacional, quer na Direcção-Geral do Património Cultural quer na própria Câmara Municipal de Portalegre, encontra-se oficialmente inscrita na Rua de Azevedo Coutinho, numa espécie de profética “fuga para a verdade”…

Falando de “profecias”, já afirmei por mais de uma vez o convencimento pessoal de que um dia Portalegre será liderada por alguém dotado da suficiente cultura, sentimento e respeito pela memória -a autêntica-, capaz de reparar as injustas ofensas para com os mortos ilustres e dignos de veneração, património colectivo da comunidade local.

O nevoeiro sebastianista que obscurece a visão de uns quantos, incapazes de identificar ou distinguir galhos e macacos, será um dia dissipado. Ver-se-á então mais claro aquilo que perdemos ou adiámos, caras e nomes de um passado de que nos deveríamos orgulhar.

Até quando persistirá Portalegre na sua deliberada amnésia?

António Martinó de Azevedo Coutinho

João de Azevedo Coutinho – Memórias de vida – III

No dia do 27.º aniversário, a 3 de Fevereiro de 1892, João Coutinho recebeu a grata visita de um missionário amigo, o padre jesuíta Aloy, que lhe ofereceu um rico estojo de caça. Anos depois, João Coutinho entregá-lo-ia como presente ao rei D. Carlos. Nesse dia sentaram-no pela primeira vez, para assistir à missa celebrada pelo missionário.

Começando a custo a levantar-se, recebeu ainda em Fevereiro a comunicação da parte do Governador Geral, por ordem expressa do Ministro, de que deveria retirar para Moçambique. Todos os sipaios sobreviventes da coluna seriam licenciados.

João Coutinho, mal se sente com força suficiente, segue para Sena e dali para Quelimane. Nesta localidade, foi visitado pelo seu grande amigo Pedro de Almeida e Noronha, que acabara de chegar de Lisboa e ia trabalhar como arrendatário do prazo Madal. Nesse momento não poderiam sequer imaginar que o destino os iria tornar compadres, quando, em 1923, o filho de João e a filha de Pedro vierem a casar em Lisboa!

De Quelimane, partiu de seguida para Moçambique, onde o Governador pusera à sua disposição o palácio da Cabaceira. E aí se instalou durante os dois meses ainda considerados necessários à convalescença total.

Pouco depois de chegar a Lisboa, a bordo do paquete Malange, em Maio de 1892, e tendo-se apresentado ao serviço da Marinha, o 1.º tenente João de Azevedo Coutinho é nomeado ajudante de ordens do ilustre almirante José Baptista de Andrade, que então desempenhava as funções de Presidente do Conselho do Almirantado.

No dia 6 de Agosto de 1892, João de Azevedo Coutinho realiza o seu sonho de amor, casando com a noiva, em Portalegre.

O jornal O Distrito de Portalegre, na sua edição do dia 10, publica a breve e sugestiva notícia “Enlace Auspicioso”:

Na casa da magnífica habitação do ex.mo sr. Inácio Cardoso de Barros Caldeira Castel-Branco, celebrou-se no dia 6 do corrente o consórcio de sua filha a ex.ma sr.ª D. Maria Ignez de Barahona Caldeira Castel-Branco, com o ex.mo sr. João d’Azevedo Coutinho.

Ambos os noivos fidalgos por nascimento, não o são menos por suas acções:

Ele, o destemido oficial da nossa armada, faz lembrar por seus feitos heróicos na África, que lhe conquistaram o cognome de herói do Chire, as façanhas quase lendárias dos vultos épicos da história marítima de Portugal, das nossas descobertas e conquistas.

Ela, o anjo dedicado e consolador de seu bondoso pai, exemplo de austeridade nos costumes domésticos, boa, simples, esmoler, junta a todos estes predicados o de uma fisionomia simpática e atraente.

Foram testemunhas as ex.mas sr.as D. Inácia Ramalho Barahona e Viscondessa de Alter, tia e prima da noiva, e os ex.mos srs. Dr. Luís da Costa Azevedo Coutinho e Pedro d’Azevedo Coutinho Fragoso de Sequeira, tio e irmão do noivo.

À tarde reuniu-se muito povo à porta da habitação do sr. Inácio Caldeira e imediações da cidade como para se despedirem dos noivos, os quais acompanhados de grande número de pessoas de família seguiram, por sete horas, para a estação e daí em comboio especial para Lisboa, onde vão fixar a sua residência.

Que do céu lhe chovam todas as venturas de que por tanta maneira são dignos”.

O jovem casal foi então morar num rés-do-chão da Rua Alexandre Herculano, em Lisboa, rua em que nessa época havia construídas bem poucas casas.

Durante alguns meses, por estes tempos, publica umas singelas narrativas (é sua a expressão) nas páginas de O Mundo Português e da Revista do Exército e da Armada. O desafio de amigos e os seus apontamentos, colhidos durante momentos únicos da sua vida em Moçambique, motivaram-no para este trabalho emocionalmente reconfortante.

É notável o conjunto de crónicas que então produz, num estilo literário de qualidade, servindo temas onde a História, a Etnografia e o próprio romanesco confluem, num todo interessantíssimo onde se vai encontrar muito do material que informará, cinquenta anos depois, as suas Memórias.

João de Azevedo Coutinho – Memórias de vida – II

João Coutinho assinalaria depois, a tal propósito, a coragem dos seus companheiros brancos e negros, assim como, em particular, a fidelidade dos mil e quinhentos sipaios que nunca abandonaram o seu lugar e a sua missão.

Chegados ao Zambeze, quis ainda o jovem comandante que o médico, já extenuado e quase sem medicamentos, cuidasse dos feridos mais graves. Ao chegar às praias do Mitondo tinha mesmo desfalecido mas, recuperando um pouco de ânimo, teimou no seu altruísta propósito.

Para se avaliar a extensão e gravidade dos ferimentos sofridos, bastará atentar na leitura do documento oficial subscrito pelo dedicado e competente médico da expedição, Dr. Brás de Sá:

“Atestado do médico que tratou o 1.º Tenente da Armada, João António de Azevedo Coutinho Fragoso de Sequeira, dos ferimentos recebidos em combate no dia 19 de Novembro de 1891.

José Manuel Braz de Sá, facultativo de primeira classe do quadro de saúde de Moçambique e médico da expedição “João Coutinho” – atesto que esteve sob o meu tratamento o Excelentíssimo Senhor João António de Azevedo Coutinho Fragoso de Sequeira, primeiro tenente da Armada Real, chefe da Expedição “João Coutinho”, ferido no braço esquerdo por arma de fogo e muito gravemente queimado por explosão de pólvora no dia dezanove de Novembro de mil oitocentos e noventa e um, quando ele atacou a aringa de Mafunda, explosão que se deu no respectivo depósito de pólvora ao cabo de nove horas de fogo vivo.

As queimaduras eram muito extensas e bastante profundas, chegando por vezes a ser desesperado o estado do doente. Elas estendiam-se pela forma seguinte: abrangiam a região cervical toda, a metade esquerda das regiões dorsal e lombar, estendendo-se do lado esquerdo até ao ângulo anterior das costelas; na região hipocondríaca esquerda havia algumas queimaduras, sendo uma delas muito profunda; o fogo tinha invadido toda a face esquerda, as pálpebras e toda a região temporal, o mento, os lábios inferior e superior até à comissura labial direita; estavam em carne viva ambas as mãos tanto do lado palmar como do lado dorsal, os dois antebraços em todas as suas três faces e o braço esquerdo até à omoplata; estava também queimada e desnudada a pele na região temporal direita, especialmente o pavilhão da orelha. Desta forma era para o doente extremamente dolorosa a posição quer de decúbito dorsal, quer nos decúbitos laterais. O sentido da vista estava muito alterado em consequência da inflamação das membranas do globo ocular. Do olho esquerdo não via nada durante dois meses, conservando depois enfraquecida a vista.

A cura durou dois meses e meio. E por ser verdade passo este atestado sob juramento – Guengue, 25 de Fevereiro de 1892 – (a) José Manuel Braz de Sá”.

De facto, a impressionante luta de João Coutinho pela sobrevivência e, depois, pela recuperação vai durar mais de dois longos meses de sofrimento, rodeado de condições muito precárias.

A derrota e desastre da Mafunda atrasaram pelo menos uma década a conquista ou pacificação do Barué, assinalando uma viragem decisiva na história da Zambézia.

No dia 17 de Dezembro, ainda no seu leito de dor, João de Azevedo Coutinho é promovido a 1.º tenente do quadro da Armada Real.

Nas suas Memórias, lembra com emoção os dias intermináveis e dolorosos que passou naquele catre incómodo, assim como os sofrimentos físicos e sobretudo morais que experimentou. Foram, segundo escreveu, mais de dois meses de inacção forçada, porque as dores e a fraqueza não permitiam outra coisa.

Muito continuavam a atormentar João Coutinho as lembranças e saudades da sua boa mãe e de sua amada noiva, quanto a esta iniciando aí um verdadeiro noviciado da vida de preocupações e cuidados de que nunca mais se libertaria…

João de Azevedo Coutinho – Memórias de vida – I

Pelas 8 horas da manhã do dia 19 de Novembro de 1891, o 1.º tenente João de Azevedo Coutinho encontra-se com os seus companheiros e o seu arsenal -uma peça de 8 cm de carregar pela boca, uma peça de tiro rápido Hotchkiss e uma metralhadora- em frente da impressionante praça forte dos revoltosos, a enorme aringa da Mafunda, defendida por um capitão do Mas­sangano, Muanambua-a-cuva (o cão esperto).

Vai acontecer aí um dos mais dramáticos episódios da sua vida aventurosa.

Azevedo Coutinho dispunha aparentemente de um efectivo bélico importante, mas não contava com tropas regulares, que lhe inspirassem confiança. E, na Mafunda, toda reparada de novo, estavam os fugitivos de Mitondo, assim como muitos outros reforços, sendo avaliada a guarnição da poderosa aringa em cerca de 4.000 homens, muitos deles munidos de armas de fogo modernas, adquiridas na Machona, fornecidas pelos ingleses ou roubadas. A fortaleza ostentava uma paliçada dupla de três me­tros de altura e, em toda a volta, não havia posições dominantes de onde se pudesse assestar fogo contrário de artilharia.

E o combate começou da forma clássica, pelos disparos do nosso fogo da artilharia, respondendo os sitiados com muita energia.

Com efeito, pelas quatro horas da tarde, o fogo da Mafunda enfraquecera de forma sensível. De súbito, aconteceu o drama, de todo inesperado.

Tudo aconteceu num ápice; enquanto João Coutinho era ferido por uma bala no braço esquerdo e o tiro da peça era disparado, uma planqueta inimiga perdida atingia em cheio um cunhete intacto.

Uma formidável explosão atroou os ares, numa bola de fogo cujo clarão cegou todos os presentes. Depois, entre a densa fumarada e o pó levantado, revolviam-se homens transformados em archotes e os gritos de dor eram tais que suspenderam o próprio combate. Alguns feridos corriam sem rumo, direitos mesmo à aringa inimiga, ou rebolavam desesperados entre os cadáveres daqueles que logo tinham morrido.

A João Coutinho, imóvel de pasmo, era o fiel Ávista que lhe arrancava os restos queimados da farda juntamente com farrapos da própria pele.

Os mais feridos começaram logo a ser transportados para as praias junto ao rio, para serem evacuados a bordo da Obuz.

E, perante o espanto geral, o jovem comandante aguenta-se em pé, ensanguentado, com um tiro num braço, meio cego, com o rosto e o tronco queimados, em carne viva, tentando trautear uma canção popular e animando os companheiros. Sobretudo, ele nunca perderá consciência dos seus deveres de responsável pelas vidas dos subordinados, orientando a necessária e arriscadíssima retirada que se iniciou, ordenadamente, pelas cinco horas da tarde.

Quiseram à força metê-lo numa machila, e conseguiram-no apenas provisoriamente, porque dela saltava a todo o momento, inquieto com a segurança da operação da fuga, sempre controlada. Sentindo-se a todo o momento desfalecer, apenas vestindo um pano indígena cingido aos rins e as botas, João Coutinho foi comendo um bocado de bolacha e chouriço, a que se agarravam farrapos da própria carne (in Memórias), e bebeu um pouco de vinho. É que nada tomara havia mais de 12 horas!

Desde o início da retirada, grupos de homens da Mafunda surgiram de repente e aproximavam-se atroando a ar com os seus gritos de guerra e insultos. Os sipaios, estrategicamente colocados nos flancos da coluna pelo comandante, protegeram-na com eficácia. A metralhadora, que o próprio João Coutinho ainda conseguiu manobrar, afugentou o inimigo que apenas pode fazer alguns tiros à distância, antes de desaparecer no mato. Depois, até essa arma foi abandonada, já sem munições.

Nos 75 anos do regresso de um herói – 16 (fim)

Concluí a longa série de artigos dedicados ao grato e dilatado período da justíssima reabilitação cívica de João de Azevedo Coutinho. Aproveitei para isso uma efeméride, a dos 75 anos decorridos sobre esse conjunto de acontecimentos.

Naturalmente, como sempre tenho feito desde 2002, procuro que evocações deste tipo tenham uma diversa e mais ampla ressonância, muito para além das minhas limitadas e modestas possibilidades. E isso, na generalidade, tem acontecido. O último exemplo ficou patente nas dignas comemorações dos 150 anos do nascimento do herói, em 3 de Fevereiro de 2015, na Sociedade de Geografia de Lisboa, a que se associou a Armada Portuguesa.

Ao pedido de audiência devidamente motivado, subscrito por quatro familiares de João de Azevedo Coutinho e dirigido ao Ex.mo Senhor Chefe do Estado-Maior da Armada em 16 de Janeiro deste ano, correspondeu o mais absoluto silêncio. Enquadrando o facto em diversas outras similares diligências, é a primeira vez que esta ostensiva indiferença se verifica. Pela minha parte foi também a última, calando, para já, a interpretação pessoal que faço do comportamento da suprema autoridade da Armada.

Lamento ainda a indiferença que, com raras e honrosas excepções, sinto da parte dos parentes, familiares com quem partilho a herança do prestigiado nome de João de Azevedo Coutinho. Algumas sugestões com que tenho procurado empenhar a sua indispensável cumplicidade esbarram sistematicamente no mais vulgar alheamento.

Para já, neste particular, perderam-se agora sem remédio algumas oportunidades da parte da Marinha, da Sociedade de Geografia, do Turf Club de Lisboa e da Câmara Municipal do Porto. Relendo os recortes de imprensa patentes nos dossiers dos Fundos Pessoais de João de Azevedo Coutinho à guarda da Torre do Tombo agora reproduzidos, assim como a documentação que recolhi -e partilhei- de outras fontes, facilmente se compreenderá o que afirmo.

Daqui a vinte e cinco anos cumprir-se-á um preciso centenário sobre o acontecido. Ainda haverá entre nós memória e sensibilidade? Não especularei sobre tempos que já não serão meus.

Naquilo a que a consciência pessoal me impele continuarei, mesmo isolado e solitário. A próxima etapa está marcada no calendário dos afectos e acontecerá a 6 de Agosto de 2017, daqui a uns dois meses e meio. Nessa data passarão 125 anos sobre o casamento, em Portalegre, de João de Azevedo Coutinho com Maria Inês Barahona de Castelo Branco.

Portalegre tem para com a memória de João de Azevedo Coutinho uma prolongada e injustíssima dívida, traduzida na falta de reposição do seu nome na toponímia local. No material agora reproduzido encontram-se, aliás, sucessivas vozes de protesto contra esse facto.

Já tentei, em 2002, que tão flagrante injustiça comunitária fosse reparada, tendo então esbarrado numa inqualificável quebra de carácter que inviabilizou a pretensão. Já aqui em tempos expliquei, longa e documentalmente, tal incidente. Não o repito, por doloroso…

Portalegre disporá, um dia, de uma vontade colectiva informada, inteligente e corajosa que saldará a sua dívida de honra para com João de Azevedo Coutinho.

Por mim, jamais desistirei de sustentar esta pretensão.

António Martinó de Azevedo Coutinho