Nos 75 anos do regresso de um herói – 04

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Para obra de tal  monta, de pouco se dispunha, além do muito que era a coragem dos homens. Deu-lhe Coutinho a valentia e toda a resistência da sua juventude, a decisão segura e a prudência do seu carácter forte, o bem senso e o saber, e, além do mais, a modéstia e a bondade que tanto o impuseram a amigos e inimigos.

Dele disse Serpa Pinto em relatório enviado ao Ministro:

… sendo rigorosíssimo no castigo e fazendo-se amar de tal modo dos pretos que qualquer arrisca a sua vida por ele. Eu atrevo-me a chamar a atenção de V. Ex.ª para este heróico oficial, que tem apenas vinte e quatro anos de idade.

E, sobre a tomada de Chilomo, informou nestes termos:

Serviu debaixo das minhas ordens o tenente da armada real João de Azevedo Coutinho; se todos os oficiais que tive a honra de comandar foram dignos de elogio, nenhum se igualou ao tenente Coutinho em bravura e coragem. À frente da tripulação do vapor Cherim tomou a povoação fortificada de Chilomo, que era defendida por quatro mil macololos, pondo-os em debandada completa. A ele confiei o comando de uma coluna que submeteu o país até às cataratas, missão que desempenhou com a sua habitual coragem  e ainda com prudência superior a todo o elogio, porque conseguiu pacificar o país, convertendo os vencidos em amigos.

Só inteiro desinteresse de si próprio e inexcedível devoção ao serviço da Pátria podiam permitir levar a cabo quanto Coutinho fez em Moçambique. Nele concorreram, no mais alto grau, os grandes predicados dos que primeiro entraram no sertão africano e o desbravaram, cujo entusiasmo não era de ceder às privações e a quem o saber das coisas e dos mistérios de África dava força e prestígio para lutar e vencer.

Desse saber se armou em todas as campanhas; não menos que a bravura lhe serviu uma visão equilibrada e clara.

Sobre o ataque a Mafunda, em que, mal ferido já, seguia combatendo, escreveu Aires de Ornelas:

… experimenta-se um profundo sentimento de respeito por tamanha energia. Não fica mal mesmo se a compararmos à de D. Lourenço de Almeida, sentado no chapitéu da nau, com as pernas partidas e comandando tranquilamente o combate naval contra os rumes.

Mas o militar esforçado e valoroso das guerras da Zambézia não só em Moçambique vincou a sua acção. A pouca permanência por Angola não impediu que firmasse domínio entre povos do Zaire. Nem na vida do mar faltou a evidência, em provas repetidas do seu ser animoso e pleno de recursos.

E não se vá esquecer, por ver o militar, como continuou em seus governos a obra que pelas armas encetara. Fala Mouzinho do seu forte prestígio quando por duas vezes governou a Zambézia. Governador Geral e mais tarde Ministro, juntou por seu saber sucessos novos aos muitos conquistados, dos combates do Chire à campanha do Barué.

Não há que provar a justiça do projecto. Atestam-na os chefes junto de quem serviu Azevedo Coutinho e o apreço do Rei, do Povo e do Governo por quem com tal denodo soube servir a Pátria.

Informa este parecer a folha dos serviços que prestou. Não há comentário a acrescentar. O ilustre Ministro da Marinha, com sua autoridade, assim julgou também quando escreveu a carta que vem junta ao projecto.

Com promulgar a lei se enaltece a Nação. E com distinguir o heróico marinheiro se dignifica a Armada, por ser ele um dos seus, e porque se escolheu, para distinção, restituir-lhe a farda da Marinha.

Também, como o Ministro, a Câmara Corporativa, dando parecer favorável ao projecto, o faz com caloroso aplauso.

Palácio de S. Bento e Sala das Sessões da Secção de Defesa Nacional, 10 de Fevereiro de 1942.

Eduardo Augusto Marques (general)
João Baptista de Almeida Arez (general)
José de Almada (D.)
José Filipe de Barros Rodrigues (coronel)
Vasco Lopes Alves(capitão de mar e guerra) relator.”

A carta do ministro da Marinha, Ortins de Bettencourt, citada no parecer, é do seguinte teor:

Ex.mo Sr. Dr. Vasco Borges, ilustre deputado:

– Estou certo de que a Armada Portuguesa, orgulhosa de ter contribuído para a formação e consolidação do Império, verá com satisfação reaparecer na lista dos seus oficiais o nome glorioso de João de Azevedo Coutinho que, mercê de altos feitos praticados em terras de África foi então proclamado Benemérito da Pátria.

Restituir a farda a quem tão bem soube honrá-la, além de acto de justiça, é homenagem que não atinge somente o homem mas ainda a própria Armada em que serviu e que agora é meio através do qual a Nação procura distingui-lo.

Por mim, se em vez de ser Ministro ocupasse neste momento a minha cadeira de deputado, daria à proposta de V. Ex.ª não apenas o meu voto mas caloroso aplauso.

De V., etc.                                          20-1-942               

a) Ortins de Bettencourt

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Nos 75 anos do regresso de um herói – 03

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Vale a pena conhecer o texto do “Parecer sobre o projecto de lei n.º 169, para concessão da patente de vice-almirante, a título honorário ao ex-oficial da armada João de Azevedo Coutinho Fragoso de Siqueira”, disponível no Suplemento ao n.º 123 do Diário das Sessões da II Legislatura, relativo a 11 de Fevereiro de 1942:

Consultada, nos termos do artigo 103.º da Constituição, acerca do projecto de lei n.º 169 (concessão da patente de vice-almirante, a título honorário ao ex-oficial da armada João de Azevedo Coutinho Fragoso de Siqueira), da autoria do ilustre Deputado Dr. Vasco Borges, a Câmara Corporativa, por intermédio das secções de Defesa Nacional e de Política e Economia Coloniais, emite o seguinte parecer:

Em sessão de 21 de Janeiro último foi apresentada à Assembleia nacional um projecto de lei que honra o Deputado que o assina. A elevação do propósito ajusta-se à alta concepção dos deveres morais do Estado com que naquela casa servem os representantes da Nação.

Propõe-se que um grande português vista de novo a farda que dignificou, durante longos anos, em excepcional carreira de bravo militar e insigne colonial.

As secções desta Câmara que agora se reúnem exprimem quanto lhes apraz intervir nesta homenagem a quem tanto a mereceu.

Azevedo Coutinho já estava consagrado. Uma vida de esforços e coragem, de honradez e trabalho, de valor e saber ao serviço da Pátria, mostrou-o ao País em toda a estrutura da sua alma forte, como um dos construtores da história nacional.

Fez-lhe a consagração o povo de Lisboa, quando se lhe atrelou à carruagem no regresso do Chire e do M’lolo. Fê-la El-Rei D. Carlos por múltiplas mercês e com oferta pessoal das insígnias da Ordem da Torre e Espada. Fizeram-na as Cortes quando lhe concederam o título de Benemérito da Pátria.

O reconhecimento dos seus méritos mostram-no os louvores que enchem a sua folha militar, as condecorações altas que possui, o prestígio entre amigos que o serviram e até inimigos que bateu, as dedicações que conquistou por seu elevado proceder.

Faltava devolver-lhe a farda que por direito de sangue lhe pertence. Mais que qualquer outra, restava prestar-lhe essa homenagem – a ele e à Marinha. Com ela se enobrecem aqueles que representam a Nação e em seu nome lha prestam e todo o Portugal pelos seus representantes.

João Coutinho foi sempre modelar na força de carácter e no patriotismo. Se outro fim não houvesse na distinção proposta, bastaria a lição de dar à gente nova, mostrando gratidão por um levantado exemplo.

Não nos afastaremos da função de apreciar o projecto de lei, nem iremos entrar na de biografar, ilustrando o parecer com alguns episódios da brilhante carreira que Coutinho traçou.

Serviu como soldado e marinheiro, por dilatados anos, no mar e em várias terras do Império, como só servem os maiores da raça cujos nomes e feitos se têm de memória. Não vá este relato apoucar quanto fez, por defeito da cor ou muito resumir. Mas não há que temer. O pouco que se diga não relega para a sombra quanto é inevitável que fique por dizer.

Também os mais modestos, que o viram combater em terras africanas, puderam descrevê-lo, com singela expressão das suas almas simples, na síntese de termos que se ajusta ao que é grande. Por vezes a justiça de um cognome vale a imposição de uma mercê. Coutinho mereceu, dos que o serviram, títulos de apreço que, a despeito da forma, mereciam, pela intenção, alinhar com as veneras de El-Rei e do Governo.

Coutinho transformou as oportunidades em triunfos; e pelo dinamismo, pela fé, pelo valor, moldou as circunstâncias e criou ocasiões. Podia ter nascido em qualquer tempo ou ter actividade em qualquer campo; marcaria a passagem na sua época.

Foi mais na ocupação de Moçambique que, longa e fortemente, se sentiu sua acção. Para lá seguiu, jovem guarda-marinha, trocando a ambição de uma estação na China pelo risco e privações de uma campanha de África. Começou a carreira por uma demonstração do seu alto carácter.

Era missão espinhosa servir em tais paragens na profissão das armas, mesmo a quem não tivesse tão exaltado brio.

A uma estreita faixa do litoral se limitava o mando da coroa portuguesa. Tornava-se difícil reprimir, na extensíssima costa, o tráfico de escravos que potentados negros e outros exerciam. Era mais do que precária a nossa soberania sobre régulos hostis com arraiais assentes junto às autoridades. E pesavam ainda sobre terras, nossas de longa data, as pretensões de estranhos.

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Nos 75 anos do regresso de um herói – 02

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Na sessão de 21 de Janeiro de 1942, o presidente da Assembleia Nacional informara os parlamentares que se encontravam na mesa diversos decretos-leis para ratificação e as contas gerais da Junta de Crédito Público referentes a 1940. O deputado Sr. Dr. Vasco Borges pede a palavra, que lhe é concedida. Declara então o orador que vai apresentar o projecto de lei que lerá de seguida, com verdadeira e justificada emoção:

A Marinha de Guerra Portuguesa ostenta nos seus navios esta velha legenda:

A Pátria honrai que a Pátria vos contempla!

João de Azevedo Coutinho pertenceu à Armada e, enquanto marinheiro, serviu e honrou a Pátria como a bem poucos tem sido dado servi-la e honrá-la. A Nação, agradecida e nesta hora, como sempre, altiva e zelosa do Império Colonial que ele, com sacrifício do seu sangue e da sua carne, e o seu heroísmo inexcedível, ajudou a engrandecer e firmar, deseja, por isso, que o pacificador insigne da Zambézia volte a envergar a gloriosa farda dos marinheiros de Portugal.21-vasco_borges-1

E, assim, tenho a honra de enviar para a Mesa o seguinte projecto de lei:

Artigo único – É concedida, a título honorário, ao ex-oficial da Armada João António de Azevedo Coutinho Fragoso de Sequeira, a patente de vice-almirante“.

Das bancadas sobem espontâneas vozes de apoio e de aplauso e a proposta, aceite, sobe para apreciação por parte da Câmara Corporativa.

No dia seguinte, o Diário de Lisboa publica um crónica alusiva, onde se pode ler:

Escusado é dizer que estamos de acordo. Mal conhecemos o ilustre português que serviu a Pátria, sem pedir a conta dos seus duros trabalhos. Em todo o caso, a dívida existe; se ele não estende a mão para a receber, visto ser nobre por instinto, cabe-nos a nós a obrigação moral e patriótica de a pagar, com o dever à altura da honra. O antigo oficial da nossa Armada andou por terras de África, cobrindo de glória o seu nome e todo o nome português.

A política um dia levou-o a uma grave resolução – separar-se da sua farda. Sofreu muito com isso, porque deixava a carreira que era todo o seu orgulho – o seu vasto campo de acção.com o tempo, as paixões acalmaram, sem destruir as convicções firmes.

João de Azevedo Coutinho continua monárquico, tantos, tantíssimos outros mantêm-se republicanos, de antes quebrar que torcer – fiéis às ideias da sua mocidade. Adversários, batem-se sem ódios nem rancores.

Como o amor da Pátria não é um privilégio de ninguém, mas uma virtude comum, não tem Portugal mais que um sentimento e uma opinião, quando se trata de dizer a João de Azevedo Coutinho:

– Pela grandeza que conquistaste, a gratidão que mereces“.

O jornal Correio de Portalegre, fazendo-se eco do seu colega da capital, A Voz, divulga a boa nova na região do Norte Alentejano através do seu número 17, I ano, em 4 de Fevereiro:

Conselheiro Azevedo Coutinho

O Sr. Dr. Vasco Borges propôs ontem na Assembleia Nacional que ao glorioso marinheiro João de Azevedo Coutinho, um dos construtores do Império português, seja concedida a patente de vice-almirante.21-manuel_ortins_de_bettencourt-1

Honra-se o Estado português, honra-se a Armada com este acto de justíssima homenagem ao herói da Zambézia, que o Parlamento um dia declarou ‘benemérito da Pátria’.

“Restituir a farda a quem tão bem soube honrá-la, além de acto de justiça, é homenagem, que não atinge somente o homenageado, mas ainda a própria Armada em que serviu” – escreveu o Sr. Ministro da Marinha, Ortins de Bettencourt, ao Sr. Dr. Vasco Borges.

Na verdade, Azevedo Coutinho é um desses homens extraordinários que honram a sua Pátria com a vida heróica e generosa que levaram ao serviço da Nação, desses homens que fazem parte do património moral dos povos. As honras que se lhes tributam revertem para a Comunidade, como a luz que se faz incidir sobre as estátuas dos heróis, que devolvem à cidade o clarão que recebem”.

Nos 75 anos do regresso de um herói – 01

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Logo após a implantação da República, em 1910, muitos oficiais monárquicos foram detidos e mandados apresentar nos quartéis-generais. Alguns outros recusaram-se a prestar o obrigatório juramento de fidelidade à República por não quererem renegar a sua fidelidade para com a Monarquia ou para com a pessoa do rei. O Governo Provisório da República puniu com a demissão os ofi­ciais que assim tinham procedido, engrossando as fileiras dos que alinhariam nas incursões monárquicas de 1911 e 1912, desejosos de vingar o seu brio militar ofendido.

Para citar apenas alguns casos concretos, basta recordar o comandante Paiva Couceiro, que recusou um convite para inspector na província de Angola; o tenente Júlio da Costa Pinto, coberto de louros na Campanha dos Dembos, que quebrou ostensivamente a sua espada; o capitão Aires de Ornelas, antigo ministro, que foi preso e logo solicitou a exoneração, o mesmo sucedendo com o capitão-tenente João de Azevedo Coutinho. Todos eram heróis de África que durante o banido regime haviam sido galardoados como Beneméritos da Pátria.

João Coutinho preferiu uma saída honrosa à recusa dos seus ideais, à quebra dos seus juramentos sagrados. E solicitou oficialmente a sua passagem à reforma. Fê-lo, segundo as normas regulamentares, através de um requerimento datado de 14 de Novembro e dirigido ao ministro da Marinha e Colónias, pedindo para ser submetido a exame da Junta de Saúde, a fim de mudar de situação. E deve reconhecer-se que se revelou adequada e rápida a resposta, quando, no dia 17 de Novembro de 1910, foi por despacho ministerial deferido o requerimento.

Para justificar o pedido, o requerente juntara-lhe um atestado médico subscrito pelo conceituado oftalmologista Dr. Gama Pinto, do seguinte teor:

Atesto sob juramento que o Ill.mo e Ex.mo Sr. João de Azevedo Coutinho Fragoso de Sequeira tem no olho esquerdo hemetropia com visão normal, e no direito miopia de dez dioptrias, com a visão reduzida a um terço da normal. No fundo deste último olho há um estafiloma posterior bastante extenso e rarefacção de pigmento para a região macular.
                                                  Lisboa, 5 de Novembro de 1910. Dr. Gama Pinto

19-jacOs efeitos do desastre da Mafunda, que João Coutinho até então minimizara, impunham agora as suas leis e, no dia 18, a Junta de Saúde Naval julgou-o incapaz de todo o serviço, pela tabela respectiva. A 25 de Novembro de 1910, João de Azevedo Coutinho foi reformado, por decreto, com a graduação de Capitão de Fragata da Marinha.

Mas João Coutinho, ainda que retirado da vida militar, era um perigo. O seu prestígio, praticamente intacto apesar de tudo, a aura do seu heroísmo nunca beliscado, os ecos do seu exercício de funções de evidência pública, em particular a de Governador Civil de Lisboa, a sua vitalícia fidelidade ao rei, todos estes invulgares adornos da sua forte e indomável personalidade tornavam-no num alvo a abater. Embora tecnicamente reformado, ele mantinha-se portanto numa permanente actividade e exercia indiscutíveis influências em diversos sectores nacionais.

Assim, por ordem do Governo e na companhia de outras figuras monárquicas, João de Azevedo Coutinho foi obrigado a deixar Portugal e a seguir para Baionne, em França. Depois, deambularia por França, Inglaterra e Espanha, consoante a estratégia ou a necessidade de cada momento. Fixar-se-ia, durante alguns anos, na Villa Luciole, em Berk Plage, Pas-de-Calais, França. A esposa permaneceria ainda em Portugal, deixando a família a velha e tão querida casa do Largo de Santo Estêvão, onde vai ficar o primo, Pedro de Azevedo Coutinho. D. Maria Inês, até se juntar ao marido, algum tempo depois, em Berk Plage, estará em Portalegre, na casa dos pais, ou em Évora, com os Caldeira Cordovil e os Barahona, seus familiares próximos.

Os governantes republicanos sentiam a necessidade de oficializar a expulsão e o desterro de João de Azevedo Coutinho. Por isso, através de um decreto publicado no Diário do Governo no dia 26 de Maio de 1911 demitem-no da Armada. É este o texto completo do diploma oficial:

A bem dos superiores interesses da República Portuguesa, o seu Governo Provisório há por bem decretar, para valer como lei, o seguinte:
Art.º único. É demitido de oficial da Armada o capitão de fragata reformado João de Azevedo Coutinho Fragoso de Sequeira; determina-se portanto que todas as autoridades a quem o conhecimento e execução do presente decreto com força de lei pertencer, o cumpram e façam cumprir e guardar tão inteiramente como nele se contém.
Os ministros de todas as repartições o façam imprimir, publicar e correr.
                            Dado nos Paços do Governo da República, em 25 de Maio de 1911“.

No tempo em que os heróis valiam… – III (fim)

Alentejano, nascido na vila de Alter do Chão em 1865, João de Azevedo Coutinho bem cedo revelou a sua têmpera. Os breves sumários biográficos constantes das cadernetas dos Heróis de Portugal disso dão uma modestíssima conta. Desde o episódio com o régulo Sangage em 1885 até 1902, na Campanha do Barué, o bravo marinheiro-soldado viveu anos de uma intensa saga guerreira onde mil vezes arriscou a vida, sempre à frente dos seus homens no combate, sempre atrás deles na retirada, leal para com os camaradas de armas como para com os inimigos, que sabia respeitar em todas as circunstâncias.

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Aclamado Benemérito da Pátria pela Monarquia aos vinte e cinco anos, seria proscrito pela Primeira República aos quarenta e seis, pouco mais de duas décadas depois, sempre em consequência de atitudes coerentes para com os jurados deveres da honra de que nunca abdicaria.

Serviu a Pátria como poucos e nos mais diversos lugares, postos e situações onde as circunstâncias o colocaram, na guerra como na paz, nas selvas como nos gabinetes ou nos parlamentos, nos febris comandos em combate como no pacífico governo das terras e das gentes, do Ultramar ao Continente. Pioneiro e homem de iniciativas, sempre na vanguarda do seu tempo, João de Azevedo Coutinho foi comandante, líder, explorador, cartógrafo, legislador, chefe de família, administrador, político, dirigente associativo, até mesmo escritor de mérito.

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Acumulou distinções de mérito sem conta, até as máximas e mais solenes, incluindo a Torre e Espada, da qual percorreu todos os graus.

No que em si mesmo reúne de atributos necessários para superar de forma excepcional as dificuldades e os obstáculos, a noção arquetípica do herói assenta, plenamente, em João de Azevedo Coutinho. O homem guiado em permanência por ideais nobres e altruístas, como a liberdade e a fraternidade, a coragem física e o espírito de sacrifício, o carácter e o elevado sentimento de honra, o culto da justiça e da ética moral, enfim, o supremo objectivo da paz, tudo encontramos em João de Azevedo Coutinho, que não deixa de se revelar, também, como um ser dotado de natural capacidade afectiva e até de algumas fragilidades humanas.

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João de Azevedo Coutinho não foi, jamais poderia ter sido, um super-homem.

Esta evocação coincide, por mera casualidade, com a maciça divulgação pública de “super-heróis” da História de Portugal. Uma iniciativa editorial do jornal de maior expansão nacional, o Correio da Manhã, reedita a obra premiada de dois consagrados veteranos da nossa BD, o argumentista António Gomes de Almeida e o desenhador Artur Correia.

São vinte e oito “biografias em quadradinhos” alusivas a outras tantas personalidades consideradas como “super-heróis” nacionais. Felizmente, João de Azevedo Coutinho não foi aqui recenseado.

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Um dos dois volumes originais agora recuperados em fascículos foi distinguido pelo nosso mais significativo festival do género, o Amadora BD, com o prémio do Melhor Álbum Português em 2005. Nada tenho a opor, pois o estilo ligeiro e inteligente usado na tentativa de aproximar o leitor das figuras nacionais crismadas de super-heróis compensa com vantagem os excessos de erudição normalmente usados em similares finalidades e por tal razão funciona, sob o ponto de vista comunicacional. Portanto não critico, nem lá perto, a forma didáctica e bem humorada escolhida, pois esta cumpre em absoluto os objectivos visados.

As minhas reservas são de outra natureza e dirigem-se aos critérios (ou à sua absoluta ausência!) de escolha dos “seleccionados”. Pretende-se uma selecção nacional e, tal como no futebol, incluem-se “estrangeiros” talvez “naturalizados”, como a condessa Mumadona, proto-portuguesa, ou Leonor Pimentel, que até era cidadã italiana. Inclui-se uma lendária e muito discutível Padeira de Aljubarrota e ignora-se, pura e simplesmente, Nun’Álvares. Escolhem-se os fugidios e quase vulgares Fernão Vasques ou Inês Negra e olvidam-se Santo António de Lisboa ou a rainha D. Leonor. Realça-se o episódico Martim Moniz e esquece-se o consistente Afonso Henriques. Destaca-se o vulgar Fernão Mendes Pinto e remete-se ao silêncio o incontornável Infante D. Henrique. Finalmente, para abreviar uma longa listagem de falhas (ou incoerências!?), eleva-se o bandoleiro Zé do Telhado à condição de figura histórica nacional, qual espécie indígena de Robin Hood… 

Estes são meros exemplos indicativos.

Citei nos inícios desta breve crónica dois distintos casos de heroísmo nacional, os de Aristides de Sousa Mendes e de Salgueiro Maia, por coincidência também contemplados com inclusão nesta contraditória lista de “super-heróis” e por isso aqui tratados com intencional bonomia e certa ligeireza formal. Acontece que ambos tinham merecido álbuns autónomos de banda desenhada em estilo realista, adulto e sério, portanto bem mais consistentes e funcionais em termos de adequada e rigorosa divulgação biográfica e de inerente e justa homenagem.

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Salgueiro Maia – O rosto da Liberdade, álbum de 32 páginas, com texto e desenhos de António Martins, foi uma edição da Câmara Municipal de Santarém, em 1999, enquanto Aristides de Sousa Mendes – Herói do Holocausto, álbum de 32 páginas, com texto e desenhos de José Ruy, foi uma iniciativa de Âncora Editora, em 2005. O serviço que ambos os álbuns prestaram a uma mais próxima divulgação da figura e obra destes dois autênticos heróis nacionais foi e é apreciável.

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Por tudo isto, a pergunta e o desafio que aqui deixo expressos são muito simples e lógicos: quando é que uma instituição nacional como a gloriosa Armada Portuguesa, que contou  João de Azevedo Coutinho como seu insigne membro, uma prestigiada associação como a Sociedade de Geografia de Lisboa que teve em João de Azevedo Coutinho um seu digno presidente, a Câmara Municipal de Alter do Chão que viu nascer na sua terra o excepcional cidadão que foi João de Azevedo Coutinho, e nós, os familiares que afirmamos ter em João de Azevedo Coutinho um ilustre e muito admirado parente, quando é que todos, aliados nesse comum objectivo, assumimos a iniciativa de perpetuar nas páginas de um álbum de banda desenhada de qualidade compatível com tal desígnio a memória da vida e dos feitos de um dos heróis mais autênticos e completos da História de Portugal?

Até quando deixaremos tal desígnio aos cuidados, ainda assim louváveis mas modestos, de um ignoto jornal de quadradinhos dos anos 50, ou de populares mas já esquecidas cadernetas de cromos desses tempos?

Até quando continuaremos distraídos perante uma tão imperiosa e urgente obrigação de honra?

António Martinó de Azevedo Coutinho

No tempo em que os heróis valiam… – II

As cadernetas de cromos de jornal acompanham de algum modo os seus “antepassados”, cromos de rebuçados ou caramelos. Aproveitam a sua popularidade e copiam-lhe certas características, sobretudo a colagem em espaços devidos das suas peças soltas. Só que, em vez da surpresa do cromo aleatório, a publicação no jornal corresponde a uma programação prévia. Não há portanto cromos repetidos nem para trocar. Também não há o número único, o da bola, pois os brindes das cadernetas dos jornais são sujeitos a sorteio.

Diversos diários se tornaram clássicos pela regular publicação de cromos para serem colados em cadernetas próprias, numeradas, ligadas a sorteios por vezes dotados de prémios de relevo, como automóveis e até mesmo moradias. Lembro-me sobretudo do Diário de Notícias, do Diário Popular, de A Bola e, acima de todos, de O Século. Eram deste as mais frequentes e famosas colecções de cromos.

Aliás, não podemos aqui esquecer alguns saudosos jornais de quadradinhos que também publicaram colecções de cromos que ficaram famosas. Tenho ainda presentes as do Diabrete, O Mosquito, O Mundo de Aventuras, Cavaleiro Andante, Camarada e outros. 

Estas colecções de cromos fizeram furor e foram populares, sobretudo, nas décadas de 40 e 50 do século XX e tiveram diversos temas como desporto,  história, espectáculos, usos e costumes, lendas, figuras célebres, provérbios, casas típicas, etc.

Uma intenção didáctica e até mesmo pedagógica era por vezes subjacente a estas publicações. A que está agora em causa é disto um bom exemplo: Heróis de Portugal teve duas edições, a destinada aos adultos e a infantil.

1caderneta adulta 2 caderneta infantil

Os cromos eram publicados dia a dia, aos pares, incluindo uma miniatura para colar em ambas as cadernetas. Os textos biográficos que funcionavam como legendas das imagens dos cromos eram semelhantes com pequenos trechos complementares. A televisão oficial, a única então existente, integrava-se nesta campanha cívica ao transmitir uma curta rubrica alusiva ao herói do dia.

Esses tempos, com efeito, prestavam-se ao culto dos heróis nacionais e João de Azevedo Coutinho é um destes.

A imagem escolhida para o representar mostra-o a cavalo, comandando as suas tropas numa sanzala. Os textos, das cadernetas adulta e infantil, procuram sumariar a sua impressionante biografia. Ei-los:

3 jac adulto

Ainda com o simples posto de guarda-marinha bateu e avassalou o régulo Sangage e, no decurso da sua carreira militar, que logo havia de suscitar a admiração de Serpa Pinto, cometeu verdadeiros prodígios de coragem. Tantos foram que, ocupada Chilomo, em homenagem à valentia do seu companheiro de armas, Serpa Pinto a baptizou com o nome do jovem marinheiro. O Parlamento, já então o prestigioso oficial tinha participado em mais de vinte acções militares, proclamou-o Benemérito da Pátria. Bem desejava ele prosseguir a sua acção, mas o ultimatum inglês de 1890 obrigou-o a suspender as operações. Depois de uma expedição em que vingou a morte do tenente Valadim, bateu e pacificou os gentios de Muira e na acção dos Namarrais conquistou, por proposta de Mousinho, a medalha de Bons Serviços a que juntou  a Torre e Espada. Foi ministro da marinha em 1909.

4vjac infantil

Nasceu em Alter do Chão, no ano de 1865 [a data 1885 está errada!], este herói de lendária bravura, que, com 20 anos apenas, e no posto de guarda-marinha, bateu e avassalou o régulo Sangage – primeira vitória de uma extensa e ininterrupta série de espantosos feitos militares. Quando Serpa Pinto chegou a África, comandava a canhoneira “Cherim”, cuja guarnição, no total de apenas 44 homens, venceu o régulo dos macocolos, entrincheirado em Chilomo. No decurso da acção, o moço oficial viu o chefe varado pelas balas inimigas. Ocupada Chilomo, Serpa Pinto, em homenagem à bravura do seu companheiro de armas, baptizou-a com o seu nome. Entretanto, surgiu o ultimato inglês e o valente marinheiro que, apesar da sua extrema juventude, já interviera em vinte acções militares e fora proclamado benemérito da Pátria, pelo Parlamento, viu-se coagido a suspender as operações. Nomeado, mais tarde, para comandar uma coluna punitiva, infligiu nova derrota aos negros revoltados no Mataca, vingando a morte do tenente Valadim. Logo a seguir chefiou outra expedição que bateu e pacificou os gentios de Muira. Na acção militar empreendida contra os namarrais, conquistou, por proposta de Mouzinho, a medalha dos Bons Serviços, que se juntou ao oficialato da Torre e Espada e às insígnias de Cavaleiro da Ordem de Cristo, com que fora agraciado em 1891. O seu nome ficou indestrutivelmente ligado à história da nossa África, e o seu exemplo de valentia é recordado com o maior respeito. Não obstante a luta da política interna, num período fremente de paixões, o herói conquistou o seu lugar entre aqueles a quem a Pátria mais deve.

Benemérito da Pátria
Quando era ainda um rapaz!
De que títulos de orgulho
O heroísmo é capaz!

O negro rebelde e astuto
Que no mato nos traía
Perante tanta coragem
Fraquejava e se rendia.