Um episódio na vida aventurosa de João de Azevedo Coutinho – dois

Pelo final de Outubro de 1913, mais exactamente a partir da madrugada do dia 21, verifica-se mais uma tentativa revolucionária monárquica, com intervenção directa de João de Azevedo Coutinho então exilado em França e que, de forma temerária e clandestina, entrara em Portugal.

A intentona foi bem mais simbólica do que efectiva, pois isso desde logo fica demonstrado pela escolha do alvo principal: o Museu da Revolução, instalado num edifício do Quelhas, onde se encontravam, por exemplo, os batéis em que embarcara na Ericeira a família real, assim como a carabina e a pistola de que se tinham servido os assassinos de D. Carlos e D. Luís Filipe.

Iniciara-se a revolta por meio de um assalto protagonizado pelos polícias da esquadra da Boa Vista contra os do Caminho Novo e a guarda do Parlamento. Ao mesmo tempo diante de alguns quartéis apareciam vultos suspeitos, tentando penetrar nesses recintos mas não o conseguindo. Pretendeu-se mesmo assaltar a prisão do Limoeiro, a fim de soltar os presos monárquicos que ali se encontram a fim de engrossar as fileiras revolucionárias. Aqui, alguns oficiais anteriormente detidos teriam na sua posse armas e instrumentos para arrombamento, depois apreendidos numa busca à cadeia.

Junto ao quartel da Marinha, foi repetidamente invocado o nome de Azevedo Coutinho, a fim de que o seu antigo prestígio pudesse arrastar as praças à rebelião.

Numa grande extensão, de Vila Franca para o norte, foram cortadas as linhas telegráficas e telefónicas, fizeram-se saltar pequenas pontes e desviaram-se rails nas linhas férreas.

Também na província havia indícios claros e concertados da rebelião. No Porto fizeram-se numerosas prisões, algumas de importância como as do conde de Mangualde e do seu ajudante Ferreira de Mesquita, assim como foi apreendido muito armamento. Nos arredores de Viseu, um bando armado dirigido por padres pretendeu assaltar os regimentos mas foi posto em debandada pelo grupo que o Governador Civil rapidamente organizou e dirigiu.

Em Vila Real e em Bragança fizeram-se também algumas prisões significativas, assim como foi detido em Vinhais um conhecido conspirador, que entretanto se evadira.

Aos fracassados assaltos na capital seguiu-se uma reacção popular de rua, em defesa mais ou menos espontânea do regime instituído, com a vandalização de redacções e tipografias de publicações conotadas com os monárquicos, como os jornais O Dia e A Nação, evitando a polícia que O Intransigente sofresse idêntico tratamento.

E, logo de imediato, começaram as prisões dos elementos ligados ao movimento. Entre as personalidades de maior realce detidas, contaram-se o general de Artilharia Jaime Leitão de Castro, o 1.º tenente da Armada Ressano Garcia, os coronéis Seabra de Lacerda e Adriano Madureira Bessa, o capitão-tenente Vieira da Fonseca, os Drs. Carvalho Monteiro,  José d’Arruella, José Lobo de Ávila Lima e Cunha e Costa, os Srs. João Morais Machado e Diogo Peres, o jornalista Moreira de Almeida, as sr.as D. Júlia Coelho da Silva, D. Júlia de Brito e Cunha e D. Adelaide Paiva, assim como muitos outros militares e civis. O sr. Constâncio Roque da Costa, também detido, foi acusado de chefiar o movimento.

Um episódio na vida aventurosa de João de Azevedo Coutinho – um

João de Azevedo Coutinho foi sempre um homem profundamente comprometido com a lealdade que devia aos seus ideais cívicos: a Pátria, o Rei e a Armada. E nunca abdicou desses juramentos de honra, embora com grave risco para a carreira e para a sua própria vida. A implantação da República criou-lhe as mais sérias dificuldades às quais, coerentemente, nunca subordinou a sua consciência de homem livre.

A quando da implantação da República, em 1910, João de Azevedo Coutinho era Lugar-Tenente do rei D. Manuel II. Teve um relevante papel na reacção possível aos acontecimentos assim como na defesa e segurança do seu soberano e família real.

Em 25 de Novembro desse ano, a seu pedido e por se recusar ao juramento de fidelidade ao novo regime, foi reformado com a graduação no posto de Capitão de Fragata da Marinha.

No dia 18 de Janeiro de 1911 morreu aos 70 anos a mãe muito querida de João de Azevedo Coutinho, D. Maria Efigénia de Azevedo Coutinho da Gama Lobo Pinto Guedes. Os seus restos mortais foram depositados junto aos do marido, no jazigo de família sito no cemitério do Alto de São João, em Lisboa. Num período difícil da sua vida, novo e profundo desgosto atingiu pois João Coutinho.

João Coutinho, recuperando da morte da mãe, viveu por estes tempos em Portalegre, em casa de familiares da esposa, o palácio Barahona. Entretanto, procurava refazer a vida ainda em plena pujança dos seus 46 anos, completados de fresco. Amigos pessoais  acenam-lhe do Brasil e ele deixara-se tentar.

Envia por isso requerimentos ao ministro da Marinha e Colónias, solicitando-lhe autorização para fixar residência no Rio de Janeiro e, ao mesmo tempo, para que um procurador possa receber em Portugal os seus vencimentos. As suas petições foram liminarmente indeferidas.

Assinou novo requerimento, ainda em Portalegre, onde invoca o facto de eventualmente perder a colocação de que já dispunha no Brasil por não lhe ter sido autorizada a fixação no Rio de Janeiro, solicitando desta feita que lhe fosse permitido estabelecer residência na República Argentina.

Esta nova petição foi deferida por despacho ministerial de 15 de Março de 1911, mas já ele entretanto desistira dessa aventura além-mar…

Porém João Coutinho, ainda que retirado da vida militar, era um perigo. O seu prestígio, praticamente intacto apesar de tudo, a aura do seu heroísmo nunca beliscado, os ecos do seu exercício de funções de evidência pública, em particular a de Governador Civil de Lisboa, a sua vitalícia fidelidade ao rei, todos estes invulgares adornos da sua forte e indomável personalidade tornavam-no num alvo a abater. Embora tecnicamente reformado, ele mantinha-se numa permanente actividade e exercia indiscutíveis influências em diversos sectores nacionais.

Portanto, a sua simples presença constituía uma ameaça, segundo os altos responsáveis republicanos. Por isso, em 26 de Maio de 1911, João de Azevedo Coutinho foi demitido da Armada “a bem dos superiores interesses da República Portuguesa”, conforme reza o respectivo decreto, com pretexto no envolvimento em actividades contra o regime.

Assim, na companhia de outras figuras monárquicas, João Coutinho foi obrigado a deixar Portugal e seguiu para Baionne, em França. Depois, deambularia por França, Inglaterra e Espanha, consoante a estratégia ou a necessidade de cada momento. Fixar-se-ia, durante algum tempo, na Villa Luciole, em Berk Plage, Pas-de-Calais, França. A esposa permaneceria ainda em Portugal, deixando a família a sua antiga e tão querida casa do Largo de Santo Estêvão, em Alfama, onde vai ficar o primo, Pedro de Azevedo Coutinho. D. Maria Inês, até se juntar ao marido, algum tempo depois, em Berk Plage, estará em Portalegre, na casa dos pais, ou em Évora, com os Caldeira Cordovil e os Barahona, seus familiares próximos.

Dezenas, muitas dezenas de monárquicos foram então expulsos ou decidiram sair voluntariamente do País. A maioria destes seguiu para Castela ou para a Galiza, onde se reagrupariam e preparariam incursões armadas.

Vivia-se portanto a antecâmara de uma autêntica guerra civil.

Em sequência da demissão, por todo o país, nomeadamente em locais significativos, são anuladas algumas anteriores honrarias públicas toponímicas. Em 26 de Junho desse ano, por proposta do vice-presidente da Câmara Municipal de Portalegre, Adelino do Carmo Brito, foi substituído o nome da Rua d’Azevedo Coutinho (antiga Rua da Carreira) pelo de Rua 19 de Junho.

Logo a seguir, em 13 de Julho, na sequência de uma iniciativa do vice-presidente da Câmara Municipal de Alter do Chão, Joaquim Pires dos Santos, a autarquia resolveu mudar o nome da Rua Azevedo Coutinho, por estar averiguado ser este ex-oficial da Marinha um conspirador contra a República. Por sugestão do vereador Francisco António Calado passou essa artéria a designar-se por Rua Vasco da Gama.

Lembrando o nascimento de João de Azevedo Coutinho

À uma e meia da noite do dia 3 de Fevereiro de 1865, na vila norte alentejana de Alter do Chão, nasceu um menino a quem foi dado o nome de João António de Azevedo Coutinho Fragoso de Sequeira, filho primogénito de Manuel de Azevedo Coutinho Fragoso de Sequeira, que ali administrava os antigos vínculos de família, e de Maria Efigénia Pinto Guedes da Gama Lobo de Azevedo Coutinho.

Passa portanto hoje mais uma efeméride do nascimento daquele que foi um dos mais autênticos heróis nacionais, homem e soldado que serviu o seu Rei e a sua Pátria acima de tudo e de todos.

Como simples mas significativa presença simbólica neste dia, aqui se recorda um documento pouco conhecido, um apenas entre mil possíveis. Trata-se de uma modesta publicação da Mocidade Portuguesa, datada de 1942, contendo o texto de alguns programas radiofónicos emitidos pela organização na Emissora Nacional.

Desconhece-se o seu autor, sabendo-se que o programa em apreço, dedicado a João de Azevedo Coutinho, foi para o ar no dia 8 de Março de 1942.

 

PORTALEGRE PERDEU-SE ALGURES ENTRE ALCÁCER QUIBIR E A LIXOSA

Portalegre é uma terra sem memória.

Talvez deva corrigir: Portalegre é uma terra com uma especial memória selectiva. O que é ainda pior. Lembra-se ou olvida-se o que em cada momento interessa ou convém.

A memória de uma terra é colectiva, mas funciona ao sabor de impulsos individuais. Depois, em permanência, a comunidade aceita ou rejeita a iniciativa.

Quando alguém, mais sensível, procura recordar figuras que por aqui viveram misturando ilustres bispos e modestos engraxadores, solenes governadores e simples cauteleiros, valentes guerreiros e habilidosos alfaiates, generosos sacerdotes e inspiradas doceiras, quando alguém o faz rompe as normas que prudentemente mandam colocar cada macaco no seu galho. E, portanto, isto das caras e dos nomes baralha, em muita gente, macacos e galhos.

A toponímia local é uma floresta onde se nota a confusão (ou será ignorância!?) em que nomes, datas, factos, figuras e memórias se encontram e se baralham. E se iludem ou se perdem…

Seria extensa a lista dos equívocos portalegrenses alusivos e por isso me escuso, por ora, da sua discriminação. Basta-me um exemplo, o que vem neste preciso momento mais a propósito.

Nasceu aqui bem perto embora tenha feito formação e vida pela capital, para onde cedo foram os pais. Alistou-se na tropa, optando pela vocação marítima, e comandou navios, onde logo deu nas vistas. Mas foi em terra, protótipo de fuzileiro, que mais se distinguiu, antecipando posteriores gestas guerreiras por antigas terras do nosso extinto Império.

Audaz, lutou com insuperável bravura e provocou iras e invejas, fustigando poderosos interesses, o que desencadeou dolorosa e rude intervenção estrangeira, impondo-nos a força dos seus canhões. O nosso hino nasceu daí, da impotente revolta nacional contra tão inaudita ofensa.

Reconhecendo a invulgar coragem do jovem marinheiro-soldado, saudaram-no as Cortes que o consideraram Benemérito da Pátria. Tinha ele apenas 25 anos.

Portalegre não ficou indiferente ao facto e repetiu aqui a iniciativa que Portugal assumiu em muitas outras localidades, atribuindo o nome do herói a uma das suas ruas. Depois, recebeu-o em delírio, como consta das crónicas do tempo. Acrescente-se que a oportunidade até foi facilitada pela frequente vinda do militar à nossa cidade, onde se enamorara de uma linda jovem.

Em África, onde voltaria, foi gravemente ferido num duro combate, passando largos meses em difícil mas bem sucedida convalescença. Pouco depois, a Portalegre viria para casar com a mulher amada.

A continuação da sua agitada vida seria repartida pela paz e pela guerra, escrevendo inspirados livros, governando terras, distritos e províncias, comandando duras e decisivas campanhas militares, desempenhando altas funções junto do seu Rei e do Estado. Foi Conselheiro e Ministro, devendo-lhe a Marinha e o Ultramar arrojadas, sábias e pioneiras iniciativas.

Recebeu as mais elevadas honrarias, entre as quais todos os graus da Ordem Militar da Torre e Espada. Raros portugueses, em todos os tempos, foram tão distinguidos e com semelhante justeza.

A implantação da República colocou-lhe o dilema de uma radical escolha alternativa e ele não hesitou no respeito pelos seus juramentos de honra perante o Rei e a Monarquia, o que lhe valeu inevitável demissão e temporário exílio. Lutou contra o Poder instituído e, em lógica consequência, foi o seu nome banido da sociedade. Também na sua terra, tal como em Portalegre, isso aconteceu. Aqui, o seu nome foi substituído por uma ignota datação, referência toponímica ao novo regime.

Mas Portalegre permaneceu para ele como local de preferência, tendo-lhe prestado valioso serviço público ao ser eleito senador monárquico pelo distrito. Aqui passou largos períodos, alternando com Lisboa, entregue à família, à escrita de memórias e ao combate político como Lugar-Tenente do pretendente ao putativo trono e como líder da Causa Monárquica.

Foi longo, por mais de trinta anos, o doloroso período que conduziu à justa e inevitável reparação pública, oficial, desse bravo português.

Foi então imediato e entusiástico o desencadear de sucessivas e vibrantes homenagens, porém lenta se processou a reposição das perdidas nomenclaturas toponímicas.

Em Portalegre nunca isso aconteceu, esgotando-se ingloriamente, sem remédio, as oportunidades mais adequadas para tal reparação, apesar de cíclicos alertas em tal sentido. Este absurdo fenómeno agora mesmo se repetiu.

Portalegre, de facto, é uma terra sem memória ou, pior do que isso, dotada da tal particular memória selectiva, ao sabor de conveniências ou fraquezas.

Ao mesmo tempo que aqui se evoca com invejável frequência e qualidade a gesta de um punhado de soldados combatentes na I Guerra Mundial, na Flandres e em África, sob a bandeira de dois gloriosos regimentos portalegrenses, persiste-se na deliberada e incoerente ignorância de um herói nacional, apeado de antiga e justa homenagem local. Inconfessáveis contradições!

Passa (passou!) neste exacto Domingo, 6 de Agosto de 2017, uma magnífica oportunidade para isso, na efeméride dos 125 anos do casamento, em Portalegre, do alterense João de Azevedo Coutinho com a portalegrense Maria Inês de Barahona Castel-Branco.

E os portalegrenses continuarão a ignorar o facto que as próprias escrituras confirmam, a histórica certeza de que a actual Rua 19 de Junho, antiga Rua da Carreira, entre 11 de Setembro de 1890 e 26 de Junho de 1911, se denominou Rua de Azevedo Coutinho.

Curiosamente, a localização patrimonial das Janelas Manuelinas do Palácio dos condes de Melo como Monumento Nacional, quer na Direcção-Geral do Património Cultural quer na própria Câmara Municipal de Portalegre, encontra-se oficialmente inscrita na Rua de Azevedo Coutinho, numa espécie de profética “fuga para a verdade”…

Falando de “profecias”, já afirmei por mais de uma vez o convencimento pessoal de que um dia Portalegre será liderada por alguém dotado da suficiente cultura, sentimento e respeito pela memória -a autêntica-, capaz de reparar as injustas ofensas para com os mortos ilustres e dignos de veneração, património colectivo da comunidade local.

O nevoeiro sebastianista que obscurece a visão de uns quantos, incapazes de identificar ou distinguir galhos e macacos, será um dia dissipado. Ver-se-á então mais claro aquilo que perdemos ou adiámos, caras e nomes de um passado de que nos deveríamos orgulhar.

Até quando persistirá Portalegre na sua deliberada amnésia?

António Martinó de Azevedo Coutinho

João de Azevedo Coutinho – Memórias de vida – III

No dia do 27.º aniversário, a 3 de Fevereiro de 1892, João Coutinho recebeu a grata visita de um missionário amigo, o padre jesuíta Aloy, que lhe ofereceu um rico estojo de caça. Anos depois, João Coutinho entregá-lo-ia como presente ao rei D. Carlos. Nesse dia sentaram-no pela primeira vez, para assistir à missa celebrada pelo missionário.

Começando a custo a levantar-se, recebeu ainda em Fevereiro a comunicação da parte do Governador Geral, por ordem expressa do Ministro, de que deveria retirar para Moçambique. Todos os sipaios sobreviventes da coluna seriam licenciados.

João Coutinho, mal se sente com força suficiente, segue para Sena e dali para Quelimane. Nesta localidade, foi visitado pelo seu grande amigo Pedro de Almeida e Noronha, que acabara de chegar de Lisboa e ia trabalhar como arrendatário do prazo Madal. Nesse momento não poderiam sequer imaginar que o destino os iria tornar compadres, quando, em 1923, o filho de João e a filha de Pedro vierem a casar em Lisboa!

De Quelimane, partiu de seguida para Moçambique, onde o Governador pusera à sua disposição o palácio da Cabaceira. E aí se instalou durante os dois meses ainda considerados necessários à convalescença total.

Pouco depois de chegar a Lisboa, a bordo do paquete Malange, em Maio de 1892, e tendo-se apresentado ao serviço da Marinha, o 1.º tenente João de Azevedo Coutinho é nomeado ajudante de ordens do ilustre almirante José Baptista de Andrade, que então desempenhava as funções de Presidente do Conselho do Almirantado.

No dia 6 de Agosto de 1892, João de Azevedo Coutinho realiza o seu sonho de amor, casando com a noiva, em Portalegre.

O jornal O Distrito de Portalegre, na sua edição do dia 10, publica a breve e sugestiva notícia “Enlace Auspicioso”:

Na casa da magnífica habitação do ex.mo sr. Inácio Cardoso de Barros Caldeira Castel-Branco, celebrou-se no dia 6 do corrente o consórcio de sua filha a ex.ma sr.ª D. Maria Ignez de Barahona Caldeira Castel-Branco, com o ex.mo sr. João d’Azevedo Coutinho.

Ambos os noivos fidalgos por nascimento, não o são menos por suas acções:

Ele, o destemido oficial da nossa armada, faz lembrar por seus feitos heróicos na África, que lhe conquistaram o cognome de herói do Chire, as façanhas quase lendárias dos vultos épicos da história marítima de Portugal, das nossas descobertas e conquistas.

Ela, o anjo dedicado e consolador de seu bondoso pai, exemplo de austeridade nos costumes domésticos, boa, simples, esmoler, junta a todos estes predicados o de uma fisionomia simpática e atraente.

Foram testemunhas as ex.mas sr.as D. Inácia Ramalho Barahona e Viscondessa de Alter, tia e prima da noiva, e os ex.mos srs. Dr. Luís da Costa Azevedo Coutinho e Pedro d’Azevedo Coutinho Fragoso de Sequeira, tio e irmão do noivo.

À tarde reuniu-se muito povo à porta da habitação do sr. Inácio Caldeira e imediações da cidade como para se despedirem dos noivos, os quais acompanhados de grande número de pessoas de família seguiram, por sete horas, para a estação e daí em comboio especial para Lisboa, onde vão fixar a sua residência.

Que do céu lhe chovam todas as venturas de que por tanta maneira são dignos”.

O jovem casal foi então morar num rés-do-chão da Rua Alexandre Herculano, em Lisboa, rua em que nessa época havia construídas bem poucas casas.

Durante alguns meses, por estes tempos, publica umas singelas narrativas (é sua a expressão) nas páginas de O Mundo Português e da Revista do Exército e da Armada. O desafio de amigos e os seus apontamentos, colhidos durante momentos únicos da sua vida em Moçambique, motivaram-no para este trabalho emocionalmente reconfortante.

É notável o conjunto de crónicas que então produz, num estilo literário de qualidade, servindo temas onde a História, a Etnografia e o próprio romanesco confluem, num todo interessantíssimo onde se vai encontrar muito do material que informará, cinquenta anos depois, as suas Memórias.