Dois em um – III

Dois dias após as emoções vividas na Buchholz, o previsto calendário de eventos enviou-me à Casa do Alentejo. Como alentejano, é-me sempre gratificante entrar na sede de uma das agremiações regionalistas mais conceituadas da capital.

Ainda que, tecnicamente, se tratasse de um idêntico pretexto, era fácil prever um bem distinto desenlace. E assim foi.

Havia aqui e agora evidentes, ainda que discretas, medidas de segurança. A sala apenas ficou disponível próximo da hora prevista.

Antes, pude confraternizar com amigos e conterrâneos portalegrenses, tanto o João Miguel Tavares como os seus pais e irmão. Vinham carregados com boleima de Portalegre, agora laureada com recente título de glória gastronómica em referendo (!?) com contornos de fútil novo-riquismo. Li no acontecimento algo bem diverso: JMT provava assim, de forma prática e conseguida, que uma boleima alentejana é de facto bem mais útil ao país do que um romance de Inês Pedrosa. Apenas foi pena, já agora, não ter trazido o padeiro…

A minha admiração pelo João Miguel levou-me, em 2007, a pedir-lhe para prefaciar um dos meus livros. Portanto, posso reivindicar tê-lo “descoberto” muito antes do presidente Marcelo, o que nada espanta dada a nossa comum condição lagóia. Somos poucos, cada vez menos, e conhecemo-nos uns aos outros.

Com os seus textos, tanto o prefácio das Crónicas Lagóias como o discurso nacional do 10 de Junho, João Miguel Tavares obteve o mesmíssimo resultado, o de “abafar” o restante contexto, as minhas crónicas e o discurso presidencial…

A inspiradíssima paródia gráfica criada por Luís Rodrigues no “blog” Insónias em Carvão, que JMT reproduz no seu livro, é metafórica a este propósito.

Dei anteriormente conta da minha total adesão aos escritos de Nuno Pacheco, no Público. Não acontece exactamente o mesmo quanto aos de JMT. Por oportuno e adequado exemplo, lembro um, recentíssimo, acerca da “cultura zulu”… Estou rigorosamente nos antípodas das suas convicções!

JMT desencadeia amores e ódios de estimação. Culto e inteligente, sempre politicamente incorrecto, inequivocamente usando coragem e frontalidade, escorrega por vezes para posições insustentáveis, defendendo causas perdidas ou desencadeando autênticas “guerras santas” sem fim à vista.

Mas não quero perder-me no, agora, assessório. Regresso por isso ao salão da Casa do Alentejo, já com o presidente Marcelo (quase pontual) e JMT no uso da palavra, em estilos bem mais sóbrios e económicos dos que aconteceram na Buchholz. Houve absoluta dignidade de parte a parte. São gente que sabe estar.

A assembleia, também muito distinta da outra, encheu o salão. Vi imensas caras conhecidas, sobretudo das telas da televisão, que não consegui identificar. Concluo que não são suficientemente importantes, no meu limitado entendimento social, para que me tenha dado ao trabalho de lhes associar os nomes… Very insignificant persons, assim os posso classificar. Creio, sinceramente, que estavam muito mais interessados em ser vistos do que em ver. Registei portanto uma outra modalidade de feira pública de vaidades, algo distinta da colectada na Buchholz.

Aliás, o fenómeno pode confirmar-se pela imensa bateria de câmaras de cinema e TV instalada nos fundos da sala. A imagem comanda o mundo…

Para quem lê ou acompanha João Miguel Tavares, a obra Dêem-me alguma coisa em que acreditar – O discurso de 10 de Junho e outros textos não traria, a priori, novidades de maior. No entanto, aos seus dois discursos (Portalegre e Mindelo), já amplamente reproduzidos, o autor juntou-lhes dois artigos alusivos assim como duas entrevistas a propósito. O conjunto, pela sua complementaridade, fornece interessantes guias para um melhor entendimento do que foi, de facto, um 10 de Junho diferente. E muito mais próximo de nós, povo.

Acresceu a este evento um relevante facto suplementar, o de ao lançamento da obra ter ficado associada a estreia da sua editora, mais um projecto de João Miguel Tavares. A novel editora Cinco Um Zero, Lda pretende desenvolver actividades relacionadas com a criação e exploração de meios de comunicação social, independentes do suporte e forma de difusão, bem como a criação, produção, agregação, gestão, distribuição e publicação de conteúdos e, ainda, o agenciamento e representação de produtores de conteúdos. Naturalmente, como se verificou, inclui a edição de revistas, jornais e livros, bem como a organização de eventos alusivos.

Penso que a estreia, boleima de Portalegre incluída, esteve à altura. Boa sorte para o futuro, dada a forte concorrência!

Recordando a amizade de há muito, o João Miguel manifestou na sua simpática dedicatória o desejo de que eu apreciasse o discurso de Portalegre.

No louvor como na crítica estou sempre ao seu lado.

Dois em um.