1917 – há 100 anos – vinte e cinco

10 de Junho – (dois postais) “França. Pediram-me por cada pêssego 3 francos e por duas couves muito pequenas 1 franco. Não calculas o quanto a vida está cara por estas paragens. As lavadeiras estragam a roupa; fica quase negra e levam caríssimo por tão belo servicinho“; “França. Diz ao Avozinho para te levar ao fotógrafo tirar o retrato (bilhete postal) igual ao meu que te mandei. (…) Tenciono ir hoje ver a Procissão do Corpo de Deus onde fui na 5.ª feira“.

11 de Junho – “França. Mandei hoje buscar as fotografias; se vierem, envio-te amanhã uma. (…) As jarras da mesa de jantar são dois ovos de águia. Ontem e hoje tem chovido bastante. O serviço, por enquanto, continua a ser pouco“.

Continua o uso de óbvias metáforas…

Em 12 de Junho, são enviadas duas fotografias de José Cândido Martinó, datadas de França: uma, fardado, num postal para a filha com dedicatória: “Ofereço-te mais este retrato, como recordação da minha peregrinação por estas santas terrinhas. Logo que recebas, avisa imediatamente“. Na outra, também fardado, apresenta-se com capa, capuz, capacete e máscara anti-gás.

Foi demolidor o efeito que esta fotografia produziu na pequena Benvinda, ao julgar o pai morto, sob aquela aterradora máscara e seu complementar “disfarce”… Demorou a recompor-se.

12 de Junho – “França. Ao lado da minha barraca, instalaram-se hoje mais dois vizinhos, e hoje mesmo brigaram. Um grande herói do 14 de Maio ficou contentíssimo por o ter eu enviado para ponto mais distante, e por isso menos perigoso“.

13 de Junho – “França. A noite de ontem e a madrugada de hoje foram uma coisa medonhamente horrível. A certa altura, fugi para a rua embrulhado numa manta. De vez em quando a Lua iluminava o grande arraial de S.to António. Será uma noite memorável para mim (…) A guerra é uma coisa medonha. Não há pena que possa descrever tal horror.

Este foi, de facto, o “baptismo de fogo” do militar, o que provará a sua instalação bem perto do sector de Ferme du Bois, na frente de combate…

Chegou a noite de 12 para 13, véspera de Santo António, o taumaturgo popular, glorificado em folguedos e descantes, e os alemães, como se quisessem solenizar essa noite, bombardearam com inaudita violência as nossas trincheiras, pondo fora de combate perto de 200 homens, atingidos por gases asfixiantes…” – assim descreve aquele dia a “História da Guerra Europeia“, de Manuel da Silva Ferreira (Edição da Tipografia de Francisco Luís Gonçalves, Lisboa, s/d).

14 de Junho – “ França. Vou hoje tocar ao tal palácio onde tenho ido ultimamente e que por sinal é bem bonito”.

4 de Junho – Portalegre: “Envio-lhe, junta, a minha prova escrita de 5.ª feira“.

15 de Junho – (dois postais) “França. Tem estado hoje um calor horrível(…)França. Ontem tive concerto onde já tive ocasião de ir várias vezes; fomos de automóvel (…) Tiveram uma boa ideia em me mandarem as provas escritas“.

16 de Junho – “França. O mau vizinho voltou novamente para o mesmo sítio, mas até à hora em que escrevo tem estado regularmente sossegado”.

17 de Junho –  (dois postais) “França. Hoje também há concerto musical. Comprei hoje um coelho por 2.500 reis. Não calculas o quanto a vida está cara por estas paragens; isto além das grandes dificuldades em encontrar qualquer coisa”; “França. Como já te disse, tive hoje concerto. Ao lado onde a banda estava tocando, há uma barraca onde os ingleses fazem os seu exercícios religiosos, de maneira que tive ocasião de apreciar os seus cânticos em missa, 3.as e 8.as. Fomos e viemos de automóvel“.

18 de Junho – “França. Tem estado muito calor e tem havido bastantes trovoadas. Tenho lido que por aí há bastante falta de gás. Por aqui, há gás em abundância, mas com uma pequena ou grande diferença; por estas paragens o gás elimina e aí serve para iluminar. Estou com bastante interesse em ver se o S. João e S. Pedro serão tão festejados como o S.to António“.

Curiosa a anterior metáfora sobre os efeitos do gás, assim como a alusão seguinte às “senhas” de reconhecimento e segurança usadas nas trincheiras…

19 de Junho – “França. Faz hoje 5 meses que eu me despedi de ti. Apesar de tudo, o bom humor do soldado manifesta-se a propósito de qualquer coisa. Quando em serviço das trincheiras, pergunta: Quem vem lá? Resposta: ‘Na minha Companhia ainda não pagaram ao preto’. Ou então: ‘Um pão para 3 quando não é para 5’… Isto é o suficiente para ter livre trânsito. Além disto, há outras partes muito engraçadas. E nisto se resume o santo e a senha. Cavar – é sinónimo de fugir“.

1917 – Há cem anos – vinte a quatro

Os bilhetes postais ilustrados de José Cândido Martinó (França) para a filha Benvinda (Portalegre) e as respostas desta continuaram pelo mês de Junho de 1917.

1 de Junho – (três postais) “França. Como já ontem te disse, fui tocar a uma terra bastante bonita. (…) Fomos e viemos de automóvel.”; “França. Também tive ocasião para ver os restos de algumas casas. Voltei para o mesmo sítio onde esteve a “Mess“. “; “ França. Quando retirávamos, encontrei uma música inglesa, que estava tocando ao marchar, e compunha-se de: à frente estava o tocador de bombo tendo dos lados 6 caixas (tamboris), seguiam-se 6 flautas e uns 12 flautins; cada executante tinha suspensa uma corneta (bluques). Executaram vários trechos, sendo o último o hino inglês; depois disto cada músico empunhou a respectiva corneta e tocaram o recolher, que por sinal é muito semelhante ao do nosso exército. Tudo executado com muita correcção e aprumo. O compasso era marcado pelo tocador de bombo que fazia várias habilidades com as duas macetas.”; “França. O tocador de bombo cruzava as baquetas, colocava-as na posição horizontal, vertical, etc., mas tocando sempre e cheio de grande importância. Os tocadores de caixa também faziam palhaças com as baquetas. O maestro de tal música estava ao lado dos executantes, mas sem fazer a mais leve indicação nem um gesto. À frente, e a certa distância, estavam os dois oficiais de serviço. Havia vários mirones a apreciar o interessante e original concerto”.

2 de Junho – “França. Disseram-me que ontem tinham caçado um dos tais pássaros; tive bastante pena de não ter visto“.

Desta data, 2 de Junho de 1917, consta um Boletim do Corpo Expedicionário Português relativo à entrega de 500 francos, remetidos por José Cândido ao pai,  Manuel Maria Martinó, Portalegre e datado de “Em campanha, 2 de Junho de 1917”.

Também deste dia, de Portalegre (Quinta Robinson) foi enviado a José Cândido Martinó um postal, com carimbo de Censura, agradecendo-lhe a lembrança  e retribuindo com um afectuoso abraço, do “amigo dedicado Manuel do Carmo Peixeiro”.

3 de Junho – “França. O museu foi enriquecido com mais uns exemplares novos. Continuo habitando a minha barraca, que é muito superior à de Tancos (…) O Joaquim foi ontem fazer compras à cidade que brevemente tenciono visitar“.

4 de Junho – “França. Tem-se estranhado bastante que em França ainda não haja enfermeiras portuguesas; assim como a acção nula da Cruzada das Mulheres Portuguesas. Os pássaros continuam a aparecer aos bandos mas não se deixam apanhar“.

Neste dia 4 de Junho de 1917, o nosso Batalhão de Infantaria 35 sofreu um forte raid alemão, que conseguiu repelir.

5 de Junho – “França. Recebi ontem o lindo postal com a 2.ª prova escolar que me enviaste. Gostei e fiquei muito satisfeito por verificar o quanto tens progredido. Brevemente enviarei mais 500 Fr. O dinheiro que aí for juntando é para mais tarde fazeres uma visita na minha companhia a França“.

Entre 7 e 14 de Junho aconteceu a Batalha de Messines. Depois de uma grande explosão de minas, as forças britânicas “limparam” o terreno para a seguinte importante ofensiva.

7 de Junho – “França. Ontem houve uma formidável trovoada acompanhada de muitíssima chuva; é a primeira desde que estou em França. Não pudemos jantar no retiro dos pacatos porque ficou tudo encharcado. Como a parte exterior da barraca é de ferro zincado, a chuva ao cair fazia um charivari medonho.”.

8 de Junho – (dois postais) “França. Fui ontem dar um passeio de que gostei muitíssimo. É uma cidade muito bonita com belos prédios e grandes edifícios. O interior da Catedral é imponente e com vitrais como ainda não tinha visto melhor. (…) Não calculas o estado em que vi alguns prédios; é tudo obra dos passarões“. [A cidade será Béthune, um pouco a sul, a localidade importante que mais perto se encontra da linha das trincheiras, junto ao sector de Ferme du Bois?]; “França. Vi belíssimas cerejas, mas a 4 francos cada quilo; batatas a 2,50 cada quilo e um peixe qualquer a 8 francos cada quilo, e tudo assim. França. Tirei novamente uma fotografia que depois te enviarei. Hei-de voltar qualquer dia à mesma terra; é perto e fui a pé com o secretário do ex-ministro do trabalho. Daqui a pouco tempo, Portugal muda-se para França“.

9 de Junho – “França. Quando ontem (dia 7) fui passear, contava assistir à Procissão do Corpo de Deus mas foi adiada para Domingo; se tiver vagar, volto lá novamente. A estrada parece uma sala: é varrida, alcatroada, regada e desinfectada. Tive conhecimento que a Fábrica das Rolhas fechou. É uma grande calamidade para Portalegre. Pobre gente; deve haver muita miséria. Quando alguém vá a casa pedir esmola, vai dando alguma coisa“.

Sobretudo desde fins de Abril de 1917, toda a imprensa de Portalegre vinha dando conta da crise laboral na Robinson e, ao mesmo tempo, tomando a iniciativa (nomeadamente “O Distrito” através do seu redactor Armando Neves) de instituir a “Sopa para os Pobres”, destinada a minorar as graves dificuldades do operariado no desemprego. O próprio industrial George W. Robinson associar-se-á ao meritório e colectivo empreendimento que vai mobilizar toda a comunidade portalegrense.

1917 – há cem anos – vinte e três

27 de Maio – (dois postais) “França. Já me chegaram as malas e mudei logo de quarto, porque aquele onde estava era uma verdadeira espelunca“; “França. O trabalho, por enquanto, não é nenhum. A direcção passa a ser a seguinte: Chefe de Música de Inf. 22 S. P. C. 4 C. E. P. França, até nova indicação. (…) De quase todas as povoações onde tenho estado consegui álbuns e bilhetes ilustrados para depois te oferecer“.

28 de Maio – (quatro postais) “França. Em regra às refeições ouve-se boa música e, quando não há luz, os foguetes encarregam-se de iluminar tudo“; “França. Ontem. Durante o dia, houve algum descanso musical; naturalmente os artistas limparam os instrumentos e prepararam as palhetas e embocaduras. (…) Ontem um papagaio que estava preso pelo pézinho fugiu. Às tais peças de fogo que ontem admirei dão-lhes o nome de patos bravos. A alvorada de hoje foi bastante estrondosa“; “França. O arraial do Espírito Santo foi muito bonito; admirei peças de fogo ainda não vistas por mim. As cegonhas (como as de S.ta Clara em Portalegre) executam trechos da Viúva Alegre com bastante correcção. A minha barraca é em forma de túnel; tem janelas com vidros de pano branco e os reposteiros são de linhagem; o lavatório é um caixote“; “França. Desde que me levanto até que me deito, ando sempre de saco a tiracolo, dando ideia dum peregrino ou pedinte. É admirável a indiferença com que tudo isto se encara. As caçadas são constantes, ou os pássaros são de bico amarelo, ou os caçadores são pouco experimentados, ainda não vi cair nenhum. Ontem fui ouvir missa a uma barraca onde houve, noutros tempos, vários divertimentos; ao fundo estavam os restos de um pobre piano que mãos hábeis puseram em tão miserável estado. Era digno de figurar num museu. Comprei uma valise e um saco de dormir; a valise serve de cama e mala (apanha tudo) e o saco de dormir é para me meter dentro dele; é tudo impermeável e forrado de lã por dentro e liga-se tudo com uma fortíssima correia. Com tal música é que dificilmente se consegue dormir. Já tomei banho na minha banheira de algibeira“.

No dia 28 de Maio de 1917, o Regimento de Infantaria 22 rendeu um batalhão inglês no 2.º sub-sector de Ferme du Bois. Tudo leva a crer que J. C. e os seus companheiros estarão ficado alojados nas proximidades de Lestrem [?], onde se irá em breve instalar o Quartel General da 1.ª Divisão.

29 de Maio – (dois postais) “França. Os malditos pássaros andam constantemente voando por cima da minha cabeça. Não são medrosos. Nesta altura, ainda se encara tudo isto como um divertimento. Joga-se o foot-ball com todo o entusiasmo sem ligar a menor importância ao que se está vendo e ouvindo. Durante o dia não se pode estar dentro da barraca por causa do calor. Passo os dias no quintal e faço da mesa de jantar secretária“.

30 de Maio – (dois postais) “França. Temos outra mudança de casa. Actualmente temos uma vida muito semelhante à dos ciganos. Não nos deixam aquecer muito o lugar“; “França. O tempo refrescou muito e com tendência para chuva. A grande filarmónica não me deixou dormir absolutamente nada na madrugada de 29; foi uma coisa medonha. (…) Por estas paragens há mais ferro que pedra“.

31 de Maio – (dois postais) “França. Há uns 8 dias que não tenho serviço algum; já vou estranhando tanto descanso. Ontem houve um copo de água oferecido aos oficiais ingleses que nos cedem o lugar“; “França. Hoje vamos tocar a uma povoação muito bonita. Fazemos a viagem em automóvel. Principia outra vez o serviço a apertar“.

Balanço postal do mês de Maio de 1917. De França chegaram a Portalegre 42 postais, dos quais 15 são de tema romântico, 2 com navios, 8 infantis, 3 com bandeiras dos aliados, 6 de caça e 8 de tema militar, com figuras femininas.  De Portalegre foram recebidos em França uma carta e um postal, este do tipo infantil.

1917 – há 100 anos – vinte e dois

15 de Maio – “França. Hoje tenho concerto musical onde já fui por várias vezes. Hoje convidámos para jantar na nossa “Mess” o professor, professora e a família.  A “Mess” está cada vez mais aumentada e não há meio de me ver livre da direcção de tal espiga“.

Neste dia 15 de Maio entra nas trincheiras o 2.º Batalhão português, precisamente o B. I. 22. A banda de música não o acompanha. No entanto, como claramente se deduzirá dos próximos testemunhos do seu maestro, a situação de todo o efectivo vai agravar-se significativamente.

16 de Maio – “França. O jantar oferecido ontem esteve animadíssimo e divertido. Veio mais uma professora, que por sinal canta muito bem. Hoje pela 1.ª vez  fui dar um passeio a cavalo; dei uma volta duns 25 Km“.

17 de Maio – “França. Ontem, durante mais de uma hora usei máscara e capuz e fizeram-me chorar, mesmo sem eu querer. Hoje está um dia muito desagradável; chuva e frio, apesar de ser 5.ª Feira de Ascensão. Em França é um dia muito festejado e ninguém trabalha“.

Como se pode depreender, um ataque por gás fez-se sentir e obrigou ao uso de máscaras.

18 de Maio – “França. Hoje foi o dia de maior trabalho que tenho tido; principiei às 9 horas para só terminar às 9 da noite. Não sei se já te disse que é coisa rara ver uma mulher ou menina com brincos. Em todas as Villages há nos cruzamentos de estradas – principalmente – uns Calvários lindíssimos e muito bem arranjados, com árvores próximas“.

19 de Maio – “França. Faz hoje precisamente 4 meses que me despedi de ti e retirei de Portalegre. Tivemos hoje uma grande revista. O sítio por onde passei é lindíssimo, fez-me lembrar a nossa Serra de Portalegre. Comprei uma travesseira, uma banheira e uma bacia para me lavar; as três coisas reunidas cabem num bolso do casaco. Trago os pés em mísero estado“.

20 de Maio – “França. O quanto isto era frio no Inverno é agora lindíssimo. Amanhã continuo a minha peregrinação“.

Continuaram a verificar-se os motins no Exército francês, sobretudo na Champagne.

10 de Maio – Portalegre: “O tempo tem estado muito bom; ainda aparecem as cerejas, mas eu já provei os primeiros morangos, poucos e pequeninos. Também agora tenho escola aos Domingos, das 10 horas da manhã até às duas da tarde“.

23 de Maio – (dois postais) “França. Nos dias 21 e 22 não pude escrever. (…) A região que atravessei é lindíssima e muito pitoresca. Pela 1.ª vez vi grandes barcos deslizando na água puxados por parelhas de cavalos.[É óbvia a aproximação física da frente de combate, que o C. E. P. vai progressivamente ocupar, nos sectores que lhe estão reservados]França. Cheguei bem. À nossa chegada houve grande arraial que se prolongou por bastante tempo. Vi porcos voadores. Não podes fazer ideia do quarto onde fiquei e da cama em que me deitei; e principalmente da bacia onde lavei a cara. Os lençóis eram da cor das botas. Enfim, vai havendo saúde e francos. Ainda não chegaram as malas, por isso vejo-me seriamente atrapalhado“.

O grande arraial e os porcos voadores, metáforas com que José Cândido “ilude” a censura, correspondem obviamente a bombardeamentos (artilharia?) e a aviões alemães.

24 de Maio – (dois postais) “França. O arraial continua cada vez mais animado. Olha-se para tudo isto com um desprendimento extraordinário. (…) Enfim, haja saúde e que Deus te proteja“; “França. Faço votos para que continues a ser aplicada a fim de te preparares para seres uma menina educada e apresentável; pois que a instrução é mais necessária que a própria alimentação, sem a qual não podemos viver“.

25 de Maio – (dois postais) “França. Não me canso de admirar a vegetação e a paisagem destes sítios. As andorinhas são muito mais bonitas que as que aparecem em Portugal“; “França. O arraial continua animadíssimo. À noite, também deitam foguetes de lágrimas. Ontem assisti a uma grande caçada a um grande pássaro que não se deixou apanhar”.

26 de Maio – (dois postais) “França. Ontem, durante quase todo o dia, assisti a verdadeiras caçadas aos pássaros mas nenhum se deixou apanhar. O Joaquim chegou ontem à tarde mas as malas ainda não chegaram. Se visses o quarto e a cama onde me deito fugias horrorizada. O arraial e foguetório cada vez mais animados. Durante a manhã choveu bastante.“;França. Fiquei deveras satisfeito com os teus progressos, prova evidente da tua aplicação e boa vontade em te instruíres. A instrução é o melhor bem que qualquer pessoa pode possuir, principalmente uma pessoa dotada de bons sentimentos e bom coração. Nunca como agora eu reconheço o quanto a instrução faz falta a qualquer pessoa que tenha de desempenhar qualquer cargo de alguma representação“.

Os “arraiais“, o “foguetório nocturno” e as “caçadas aos grandes pássaros” constituem expressões metafóricas de fácil descodificação…

1917 – há 100 anos – vinte e um

5 de Maio – “França. Hoje tenho uma grande revista e talvez principie a usar uma grande máscara durante algumas horas. Já há alguns dias que uso autênticas ferraduras nas botas. As botas estão à prova de água“.

28 de Abril – Portalegre: “O tempo corre muito lindo, parece que estamos no Verão“.

6 de Maio – (dois postais) “França. Ontem também tive concerto onde fui ultimamente mas fomos de carro. (…) A noite de 5 e madrugada de 6 foi uma coisa horrível. Nunca poderás fazer uma ideia aproximada de quanto isto é medonho. Estive deitado na cama, mas com a máscara. Ninguém pode dormir“; “França. Amanhã tenho grande passeio. [A Ordem deste dia determina que a Banda de Música se apresente amanhã em Bleury, em ordem de marcha, para acompanhar o 3.º Batalhão que segue para a 1.ª linha] Durante as manhãs encontramos grande quantidade de perdizes, coelhos e lebres. Há três anos que a caça está proibida. Tem estado um vento horrível; já me parece estar na Póvoa ou Portalegre“.

7 de Maio – “França. Cheguei bastante fatigado do passeio. (…) Como nesta região não há pedra, o sistema de vedação e divisão da propriedade é feito com uns arbustos especiais. Agora que tudo está verde é dum efeito lindíssimo“.

8 de Maio – “França. Há por aqui raparigas com 200 e 300 contos de fortuna guardando vacas e lavrando e fazendo serviços bastante pesados como qualquer ganhão no nosso Alentejo. Também usam cangas onde seguram dois grandes baldes para ir buscar água. Nesta região há grandes canais de irrigação“.

9 de Maio – (dois postais) “França. Ontem tive concerto com a Banda numa terra onde já fui. (…) Em regra, todos os franceses são miseráveis e avarentos“;França. Continuo passando bem e tudo vai decorrendo o melhor possível. Já deverás saber de cor a 1.ª parte dos meus bilhetes!? Sinto-me bem disposto e durmo regularmente. Já vai longe o pesadelo da viagem marítima em que de madrugada aparecia o índio no camarote e perguntava se queria tomar café e à hora das refeições ia para a mesa para me servirem sopa de casca de laranja azeda e doce sem açúcar. Quando aparecia algum pitéu mais comível, de que só uma dose aproveitava, ouvia-se a voz do índio dizendo a frase sacramental: Finish! “.

11 de Maio – “França. Ontem tive concerto com a Banda. Entre outros trechos toquei a Tosca e a Sinfonia do Guilherme Tell, que agradou muitíssimo. A Banda apresenta-se com muita correcção e o serviço artístico é primoroso. Tenho muito trabalho, mas consigo o que desejo. Quando em confronto com as outras bandas é que se nota a grande superioridade da minha banda. Apresentam-se muito bem fardados, calçados, barbeados e com os instrumentos musicais bem limpos“.

Neste dia, 11 de Maio de 1917, entrou nas trincheiras o 1.º Batalhão português, o Batalhão de Infantaria 34.

12 de Maio – “França. Hoje tenho concerto onde já fui várias vezes. A professora pediu-me a Portuguesa para vozes para a ensinar a entoar às meninas. A França é o país das gorjetas; é uma verdadeira caça à gorjeta. Nunca se discute o preço de qualquer coisa. Quando se pergunta o preço de qualquer coisa é pegar ou largar“.

13 de Maio – “França. Actualmente está um calor abrasador. Não calculas o estado em que chego a casa depois duma estopada de 4 a 5 léguas“.

Neste mesmo 13 de Maio de 1917, aconteceu na Cova da Iria a denominada 1.ª aparição de Fátima.

14 de Maio – “França. O concerto de ontem foi muito concorrido e agradou muitíssimo. A festa da comunhão foi muito bonita. (…) A Primavera é um encanto; as estradas estão atapetadas de flores de várias cores; sobressaindo o branco; tardou mas agora está tudo muito bonito“.

Dispõe da inscrição de 15 de Maio de 1917 a folha com o poema “Vive la France“, cinco quadras manuscritas em francês, datadas de Enquin, com assinatura de José L. P. Faria, Capitão Adj.t.

1917 – há 100 anos – vinte

25 de Abril – “França. Ontem cheguei muito maçado do tal passeio. Actualmente uso pulseira gravada. Se puder hei-de fazer-te presente de tal preciosidade, que deverá ter grande valor estimativo como recordação da minha peregrinação por estas paragens“.

A pulseira em causa é de metal com “correia” em mola de bicha, do mesmo material. Tem a inscrição, gravada, “1.ª B I  Martinó  I. 22  C. E. P.”.

26 de Abril – (5 postais) “França. Ontem passou-se entre a dona da minha casa e os impedidos uma cena que me fez rir. Ela, uma dama já velha, arrebitada e muito misteriosa, quer semear o quintal sem gastar cinco reis e então, num francês aportuguesado, não larga os ordenanças e impedidos, dizendo num tom de velha gaiteira “ai portuguais bons garçon, tres bom pour travail…”. Esta madrugada uma das muares soltou-se e foi para a horta em passeio matinal mas tanto brincou sozinha que desenterrou algumas batatas que os rapazes já tinham semeado. Passado um bocado lá andavam os pobres soldados, levados pelas palavras doces da madame a arranjar o que a menina mula tinha feito de noite e mais ainda porque agora, 15 horas, ainda a velha cheia de folhos anda dando ordens aos rapazes. Um deles, muito maroto e com certeza a fazer joguinho a alguns “sous”, dizia-lhe, no meio do sorriso agarotado dos outros: “madama portugais bon garçon, compri? Beaucoup travaiores, compri?” Então a madame toda inchada, por ver que cada vez tinha mais terreno cavado, dizia “ui, ui, compris, tres bon garçon”; mas enquanto a madame se derretia com elogios iam eles dizendo (então em bom português): “sim, namora-me que ainda não almocei” e a seguir já todos diziam: “isto já não bone…” A velha então saiu um pouco da sua avareza e chamou-os para lhes dar um copinho de vinho a que dava o nome de Porto, mas que com certeza aqui mesmo foi feito! N. B. para todos se compreenderem o melhor possível, ela falava um francês aportuguesado e eles um português afrancesado, e que mais engraçada tornava a cena“.

27 de Abril – “França. Ontem fui com a música tocar a uma terra que ainda não conhecia. A banda agradou bastante. Hoje tenho uma grande marcha; das 7 da manhã às 5 da tarde“.

20 de Abril – Portalegre: “Até que enfim, depois do mau tempo que houve, apareceu um tempo lindíssimo que nos tem consolado já há bastantes dias“.

28 de Abril – “França. Ontem cheguei muito maçado; andei 25 Km. (…) O Avozinho que mande dizer como ficou resolvida a importância com que contribuíste para a assistência religiosa em campanha. Hoje tenho um grande passeio e no domingo há uma grande festa militar onde também vou. Já há oito capelães militares em França; no nosso regimento está um“.

 29 de Abril – “França. Tenho os pés em mísero estado; não calculas as grandes caminhadas que ultimamente tenho feito. Estou em vésperas de dizer adeus à velhota“.

30 de Abril – “França. A festa militar foi muito concorrida e bonita. Chegou hoje o alferes Santos Lima que trouxe recomendações do Avozinho. Ontem esteve um dia bastante quente.”

Balanço da correspondência no mês de Abril de 1917. De França: 44 postais, dos quais o do dia 18 é uma aguarela; 10 são de tema infantil, 3 patrióticos, 12 de paisagens, 4 com animais (gatos) e os restantes 14 do tipo romântico. De Portalegre: três cartas e um postal, este do tipo infantil.

2 de Maio – “França. Já fiz as minhas despedidas à velhota. Também já cá está o Dr. Guerreiro, mas ainda não estive com ele. O tempo melhorou bastante“.

No dia 3 de Maio de 1917, em Arras, um forte ataque dos ingleses (Operação Alberich) quebrou a Linha (alemã) de Hindenburg.

3 de Maio – “França. O calor apertou a valer; já estou mais preto do que quando regressei de Tancos a Portalegre. Melhorei alguma coisa“.

4 de Maio – “França. Eu e o Alferes Pereira recebemos hoje uma caixa de amêndoas de Portalegre que o Dr. Malato nos enviou como lembrança da Festa Pascal“.

Francisco António Malato, nascido em Portalegre em 3 de Abril de 1883, foi ordenado padre em 1904, depois de formado em Teologia pela Universidade de Coimbra. Foi cónego capitular da Sé de Portalegre e Vigário Geral da Diocese. Nos anos 20 comprará a Tipografia Leonardo, que põe ao serviço da Diocese com a nome de “Nun’Álvares”. Foi localmente um dos fundadores e animadores do Corpo Nacional de Escutas. Morreu a 18 de Dezembro de 1962.

5 de Maio – (dois postais) “França. A revista militar foi muito bonita; os oficiais ingleses gostaram, principalmente do desfile. Ao atravessarmos uma village, a rapaziada das escolas formou alas. Vínhamos tocando uma marcha sobre motivos duma canção francesa muito vulgar (alguns compassos escritos!). O calor tem sido horrível. O quanto à chegada era de frio é agora quente; se assim continuar não sei onde isto irá parar. (…) Quando pela manhã chego às janelas, os pombos e galinhas saltam para o parapeito para me cumprimentar. Tenho que lhes oferecer alguma coisa para lhes agradecer a visita, bastante matinal, às vezes. Julgo que amanhã há outra revista muitíssimo mais importante que a de hoje“.

Neste dia 5 de Maio de 1917, inserida na Ofensiva Nivelle, aconteceu a importante Batalha do Chemin des Dames.

1917 – há 100 anos – dezanove

20 de Abril – “França. Vou hoje dar um passeio de carro. O tempo continua péssimo. Ontem, quando cheguei da minha passeata, trazia mais de 2 quilos de lama agarrados às botas e às grevas”. 

21 de Abril – (5 postais, com vistas de jardins) “França. Fiquei encantado com o passeio que ontem dei. A cidade onde fui é minha conhecida, pois vou lá amiudadas vezes. [Fruges?] Vi o desfile de um batalhão inglês. A música ia ao centro do batalhão; mas uma música muitíssimo original: 4 flautins, 8 flautas, 3 cornetins, ferrinhos, caixas, um par de pratos e um bombo enorme tocado com duas macetas. À frente da música ia o tambor mor com o bastão dirigindo a música, fazendo muitas piruetas com a moca. O conjunto musical de tal instrumental é tudo quanto há de mais interessante e original. O bombo e as caixas iam muito bem pintadas com vários emblemas e arabescos. Já tinha ouvido falar neste género de bandas inglesas, mas ainda não tinha tido a dita de apreciar tais artistas. Quando me preparava para a retirada, vi uma banda em direcção para o coreto. Já não pensei em partida. Uma banda de marinha inglesa deu um primoroso concerto das 3 às 4. Fiquei satisfeitíssimo. É a 2.ª banda da Inglaterra. É um primor. Tocaram um lindíssimo ordinário, uma fantasia da Carmen, uma outra fantasia, uma rapsódia inglesa, uma valsa e dois hinos. A execução foi magistral. 40 ou 50 figuras tinha a banda. Flautins, 2 flautas, requinta, oboé, 12 clarinetes, 1 saxofone, 3 fagotes, 5 cornetins, 4 trompas de mão, 2 trombones de vara, 2 trombones de pistons, 2 barítonos, 2 c. baixos em mi b, 3 contrabaixos em si b, bombo e pratos e 1 caixa. O sub-chefe conduz a banda ao coreto, destina os lugares e, ao aproximar-se a hora de principiar o concerto, desce do coreto e vai participar ao chefe que tudo está a postos; o qual se dirige para o coreto com toda a pose; quando entra no coreto, das partes dos músicos não há o mais leve sinal de respeito. O sub-chefe fica passeando. Quando terminou o concerto o chefe retira com a mesma pose e o sub-chefe toma conta da banda que conduz para onde está alojada. E assim terminou o mais belo dia que tenho passado em França“.

Por esta altura, acumulou-se diversa correspondência de amigos portalegrenses para o capitão Martinó.

12 de Abril – Postal de Portalegre para J. C.: “Tem-se sentido aqui muito a sua falta. As meninas freguesas do passeio público requerem a sua presença. Portanto venha depressa para as consolar com as suas harmonias musicais. Vale Fernandes“.

14 de Abril – Postal de Portalegre para J. C., com carimbo de Censura: “Todos os seus estão de perfeita saúde. Aí vai essa linda dama (ilustração) já que não lhe posso mandar uma de carne e osso. Mas aí deve haver muitas. Um abraço para o Pestana de Vasconcelos. António Ribeiro“.

14 de Abril – Postal de Portalegre para J. C., com carimbo de Censura: “Dei, há dois dias, um beijo na sua filhita, que vai bem. João Augusto da Costa“.

15 de Abril – Postal de Portalegre para J. C., com carimbo de Censura: “Sinceramente lhe desejo saúde e coragem para animar os nossos soldados no cumprimento dum dever cívico. Vejo amiudadas vezes sua filhinha com o avô, sempre bons. A. Charais“.

Entre 19 e 29 de Abril verificou-se uma grande ofensiva do general Nivelle contra as linhas alemãs no Chemin des Dames. Os ganhos franceses foram escassos e seguiram-se alguns motins entre esses militares.

Entretanto, nestas datas, completou-se a instalação do Quartel General da 1.ª Divisão portuguesa, chefiado pelo general graduado Gomes da Costa, em Thérouanne, enquanto o Q. G. do C. E. P. ficava em Roquetoire. Marthes, por sua vez, albergava o campo de instrução geral.

22 de Abril – “França. Ontem foi um dia de grande maçada; apanhei uma estopada de 5 léguas. Nas escolas há um pequeno órgão a fim de facilitar o ensino do canto coral e orfeónico aos rapazes e raparigas. O tempo continua mau.“.

23 de Abril – “França. Não acreditem em qualquer notícia que os jornais portugueses dêem a nosso respeito, porque é tudo um amontoado de mentiras. Nos jornais portugueses que ontem li só vi disparates, e custa a crer que permitam a publicação de tantas asneiras“.

23 de Abril – “França. Ontem tivemos música. Do sítio onde estávamos, via um campo de aviação. Era lindo ver os aeroplanos subir, descer e deslizar pelo campo fazendo várias evoluções. A música agradou muito. Na 4.ª feira damos um concerto oferecido ao Maire. O tempo parece que quer melhorar. Só em Agosto é que a primavera nos cumprimentará“.

24 de Abril – “França. Depois que vim para França, readquiri o hábito de me barbear e andar em bicicleta. Alguma coisa tenho aproveitado com isso. Amanhã há baile de roda. Três vezes por semana se repete esta brincadeira. 3.as, 5.as e sábados“.