1917 – Há cem anos – quarenta e um

Trata-se de uma curiosa coincidência, abrangendo seis precisos meses, o acontecido em França entre 24 de Março e 24 de Setembro de 1917.  Na primeira dessas datas, o capitão José Cândido Martinó, num dos seus postais para a filhita Benvinda, dava conta de uma insólita situação acontecida numa sessão cinematográfica, logo após o desembarque em França, onde o director da orquestra local pretendeu ser simpático aos olhos dos recém-chegados militares. Fez então interpretar o monárquico Hino da Carta, em vez do republicano Hino Nacional. Em conclusão, ainda não éramos reconhecidos como uma Nação que já tinha atingido maioridade política. Anos após a Implantação da República, permanecíamos quase desconhecidos no seio da Europa dita culta…

Aliás, uns dias antes, como confirmação, o capitão adquirira um caderno com música impressa: “Hymnes & Chants Nationaux” transcritos por Edouard Jouve, editado por Paul Beuscher, Paris, em 1915 (!?). Datado pela mão de José Cândido de Coyecques, 17 de Março de 1917, continha à margem da capa, também manuscrita, uma nota: Hino da Carta Constitucional, e a respectiva letra. Na página onde está o Hymne Portugais, à margem, a lápis, uma interrogação: D. Fernando ?

O caderno contém os hinos de França, Rússia, Grécia, Áustria, Argentina, Alemanha, Bélgica, Holanda, Sérvia, Inglaterra, Sião, Estados Unidos da América, Dinamarca, Noruega, Suécia, Itália, México, Roménia, Espanha, Egipto, Suíça, Brasil, Portugal, Vaticano, Japão, Montenegro, Pérsia, Turquia e China. Agora, a 24 de Setembro de 1917, um outro caderno impresso (Librairie Hachette & C.ie, Paris, 1916) com músicas: “Hymnes et Chants Nationaux des Alliés” (França, Rússia, Inglaterra, Japão, Bélgica, Sérvia, Montenegro, Itália, Roménia e Portugal), datado de Aire por José Cândido, incluía o Himne National Portugais (La Portugaise), com tradução francesa de Félix Castanier e arranjo musical do Ad. Gauwin. Desta vez, constava finalmente a “correcção”!

Para além do estilo épico e revolucionário do nosso Hino, nascido em revolta contra o ultimato inglês, também dessa “atmosfera” comungam outras canções nacionais, aqui e ali adoçadas pela inspiração divina.

Assim acontece com La Marseillase francesa, com o God Save the King inglês, com La Brabançonnne belga e o italiano Fratelli O Italia, cujas melodias e letras são a seguir reproduzidas a partir do citado caderno.

Aliás, o Hino Imperial Russo, obviamente de antes da Revolução, diz Deus guarde o nosso Czar, o Hino Nacional Japonês começa pela prece Que o soberano reine mil anos, e os sérvios cantam Deus da justiça salva-nos enquanto os romenos proclamam Viva o Rei na paz e na honra

1917 – Há cem anos – quarenta

Em 9 de Setembro de 1917, mais um “Quadro de Honra” é divulgado pelo jornal portalegrense “A Plebe”, dele constando, para além de diversos feridos em combate, o nome do soldado n.º 530 da 5.ª Companhia, Francisco da Silva, “falecido nas trincheiras em 21-8-917”.

Em 14 de Setembro, verificou-se mais um raid alemão contra o sub-sector esquerdo de Ferme du Bois e sub-sector direito de Neuve Chapelle, zonas portuguesas com tropas portalegrenses.

14 de Setembro – “França. Passas melhor da tosse? Partiu hoje para aí o Maltez. Leva uma caixa de lata cheia de “souvenirs” e algumas colecções de bilhetes postais. Os dias que concedem de licença são poucos – 15 dias. Na viagem gasta-se metade e não me sinto com coragem de nova despedida. Tenciono visitar Paris, Londres e parte da Itália; isto no caso de pedir a licença e ma concederem“.

15 de Setembro – “França. E tu estás melhor? Pela leitura dos jornais vejo que a greve dos Correios continua, a que se juntou também o pessoal dos Caminhos de Ferro. Cada vez menos juízo. (…) Como não sabia da retirada do Maltez, nada pude comprar para te mandar“.

16 de Setembro – “França. Continuo sem receber notícias tuas, o que bastante lamento. A tal greve veio em muito má ocasião. Hoje também tivemos concerto”.

17 de Setembro – “França. Desejo bastante que já estejas restabelecida. Como a greve não tem carácter permanente, tem-se recebido alguma correspondência. Quando me escreveres, podes fazê-lo nos bilhetes que enviei pelo Maltez; são muito bonitos , mas eu guardo-os. A feira está muito animada?

18 de Setembro – “França. Continuo a não receber notícias tuas, isto apesar de receber correspondência de Lisboa e do Porto; naturalmente em Portalegre estão mais renitentes na greve; tiveram alguma birra e custa-lhes a passar!… Faz amanhã 8 meses que eu parti de Portalegre“.

19 de Setembro – “França. Estimo que já estejas restabelecida. Pelo que vejo os grevistas de Portalegre são mais renitentes. Brevemente mudo de lugar. (…) Já lá vão 8 meses que te disse adeus! O tenente Maltez contou-te coisas bonitas da guerra?

Em 22 de Setembro, saiu do 2.º sub-sector de Ferme du Bois o Regimento de Infantaria 22, a quem é concedida uma curta estadia para repouso, em Marthes, na retaguarda.

Na sua edição de 23 de Setembro de 1917, “A Rabeca” publica diversas notas de França, donde se salienta: “Pedem madrinhas de guerra os músicos expedicionários: de 1.ª classe, Joaquim José de Carvalho e Francisco Baía; de 2.ª, Viriato Silvério Rocha; de 3.ª, Joaquim António Casaca, Francisco de Almeida, Júlio Augusto Meira Serra e Aníbal Gonçalves Aranha. Todos de infantaria 22 do C. E. P. – S. P. C. 4. França, para onde deve ser dirigida correspondência. Estes nossos amigos e briosos militares que, também por intermédio do nosso jornal, se recomendam às suas famílias e amigos, agradecem desde já o deferimento do seu pedido”.

Existe um caderno impresso (Librairie Hachette & C.ie, Paris), datado de Aire a 24 de Setembro (manuscrito por José Cândido Martinó), com músicas: “Hymnes et Chants Nationaux des Alliés” (França, Rússia, Inglaterra, Japão, Bélgica, Sérvia, Montenegro, Itália, Roménia e Portugal). A brochura inclui o Himne National Portugais (La Portugaise), com tradução francesa de Félix Castanier e arranjo musical do Ad. Gauwin,  onde constam mais duas estrofes originais, agora “esquecidas”, para além da primeira, a única que hoje se canta.

1917. Há cem anos – trinta e nove

23 de Agosto – Postal de S. Nicolau, visado pela Censura: Eu graças a Deus estou mais gordinha e com melhor cor. (…) Saudades da família de S. Nicolau. Muitos beijinhos da sua discípula muito amiga Maria de Vries“.

1 de Setembro – “França. Muito estimo a continuação das tuas melhoras. Recebi hoje o teu apreciado bilhete de 23-8, ainda escrito em S. Nicolau. (…) O tempo continua bastante invernoso“.

2 de Setembro – “França. Muito desejo que já estejas restabelecida. Recebi carta do Dr. Abreu a quem mandaram mudar de ares para o Mação! (…) Hoje também tive concerto que agradou muito. Fui convidado pelo comandante para jantar“.

3 de Setembro – “França. Fui hoje dar um passeio à cidade onde várias vezes tenho ido e em tão boa hora que me encontrei com o meu melhor amigo (oficial) que tive em Abrantes [Béthune, Merville ou Estaires?]; fiquei muito satisfeito com tão feliz encontro. Todos os dias estou vendo velhos amigos e conhecidos. A feira este ano tem estado animada e divertida? (…) Parece-me que tem havido grande roubalheira nos bilhetes que te tenho enviado. São bons!…

Nas Ordens dos dias 3, 4, 8, 12 e 17 deste mês de Setembro de 1917 são determinadas intervenções da banda de música no campo de instrução, no campo de Vieille Chapelle e junto ao Quartel General.

4 de Setembro – “França. Muito desejarei que ao receberes este bilhete já estejas completamente restabelecida. Ontem e hoje estiveram uns dias lindíssimos“.

27 de Agosto – Portalegre: “Com respeito à minha tosse, muito poucas vezes me apoquenta; tende a desaparecer completamente. (…) No dia 19 também, eu, o Avozinho e a Aurorinha o felicitámos pelo seu aniversário“.

6 de Setembro – “França. Se as noites estiverem frias, não te demores até tarde na feira, mesmo por causa da poeira que faz muito mal à garganta e aos olhos“.

7 de Setembro – “França. Já estás completamente restabelecida? Hoje vieram-me buscar de automóvel para ir jantar com uns amigos. Passei uma tarde bastante agradável. Ontem tivemos concerto, mas a certa altura teve de ser interrompido em virtude duma grande trovoada, e formidável carga de água. (…) Tens continuado a trabalhar no mapa? Como vamos a respeito de música e entoação? “.

8 de Setembro – “França. Espero que já estejas restabelecida. Faz amanhã um ano que fomos dar um passeio a Castelo de Vide. Recebi hoje carta do Dr. Sampaio em que me fala de ti. Diz ao Avozinho para comprar no Oliveira, em frente da antiga farmácia Matos, dois pares de liras oxidadas e que mas remeta. Se não houver em Portalegre que mande vir de Lisboa “.

Com data de 2 de Setembro, chegará à posse do capitão José Cândido Martinó o Ofício da Sopa Económica de Portalegre n.º 36 – “À Banda de Infantaria n.º 22 França. A Direcção da Sopa Económica para os pobres, desta cidade, vem agradecer, muito penhorada,  a generosa oferta que os componentes dessa Banda se dignaram enviar-lhe. Aproveita ainda esta direcção apresentar-lhes o testemunho da sua mais viva simpatia, pois é bem para frisar que, embora sofrendo os horrores da guerra, não esquecem os nossos compatriotas, aqueles a quem a mesma guerra acarreta a miséria do lar. Por último, vem a mesma direcção saudar todos os que, em terras distantes, tão valentemente têm defendido e levantado o nome da nossa querida Pátria! Saúde e fraternidade, Portalegre, 2 de Setembro de 1917. Pelo Presidente da Direcção, O Tesoureiro, Júlio Fernandes“.

A Banda do 22, mesmo longe e sempre em risco, não esquecia as funções culturais e altruístas, sobretudo lembrando a sua Portalegre distante…

4 de Setembro – Portalegre: “A minha tosse, durante todo o dia, já desapareceu completamente; de noite apenas uma vez ou outra, mas sem violência. Pelo motivo de todos os empregados do Correio estarem em greve, já há 4 dias não lhe escrevi; no Correio não distribuíam nem aceitavam correspondência“.

5 de Setembro – Portalegre: “Foi ontem o primeiro dia que principiaram a aceitar correspondência no Correio Geral“.

6 de Setembro – Portalegre: Eu vou passando melhor dos meus incómodos; isto é nada. Demorei-me 17 dias em casa da Sr. D. Ema“. Postal visado pela Censura…

1917 – Há cem anos – trinta e oito

Com data de 26 de Agosto de 1917, um documento interno manuscrito informava: “Amigo Martinó, o nosso Comandante encarrega-me de lhe dizer que a Banda da sua mui digna regência tocará hoje, 26, das 17 às 19 horas, junto a este Q. G., seu att. (?) Azevedo, Major”.

26 de AgostoFrança. Muito desejarei que já estejas restabelecida da impertinente tosse. Tive hoje concerto, a uma parte do qual assistiu o general que gostou muito, tendo-me felicitado pelo magnífico desempenho. Quando retirei, foi acompanhado pelo comandante durante algum tempo. No regresso, o comandante mandou-me convidar para jantar e esteve dizendo que o general me fez as mais elogiosas referências. Fiquei muito satisfeito, como deverás calcular. Por enquanto tudo vai decorrendo bem. Principiou hoje o inverno; muito frio e alguma chuva“.

Mais uma relação de baixas preenche o novo “Quadro de Honra” que “A Plebe” divulga a 26 de Agosto: “Militares falecidos em França. Intoxicado com gases asfixiantes: Contra-mestre de corneteiros n.º 850 de 5.ª Companhia, António Garraio. Por ferimentos em combate: 1.ª Companhia – 1.º cabo n.º 719, José Pires; 1.ª C. – soldado n.º 365, Francisco Carranca; 9.ª C. – soldado n.º 99, Luís António Pedro”.

27 de Agosto – “França. Tu vais melhorando? Hoje estava para haver uma grande revista [Em Vieille Chapelle, segundo a Ordem], mas teve de ser adiada em virtude do mau tempo. Ontem encontrei-me com mais um conhecido. É raro o dia que não deparo com conhecimentos antigos. Nunca mais tiveste nada na vista?

29 de Agosto – “França. Muito estimarei que ao receberes este bilhete já estejas restabelecida. É preciso não esquecer a entoação e principiar com a educação musical. Há três dias que tem estado um vento terrível; tem atirado com quase toda a fruta ao chão. Estou numa grande quinta onde têm um bezerrinho. A petizada costuma organizar umas touradas muito interessantes“.

30 de Agosto – “França. Desejarei que estejas restabelecida da tua doença. Estou feito censor de alguma correspondência e vejo-me seriamente atrapalhado com tal ofício. Censurar cartas escritas em francês de soldado é um grande bico de obra. O Joaquim escreve em três línguas: português, espanhol e francês! Actualmente, tenho por companheiros de mess dois refinadíssimos patifes. São amadores de música“.

O balanço postal de Agosto de 1917, inclui, de França: 21 postais, dos quais 17 são do género romântico, 2 do tipo infantil e 2 de tema histórico; de Portalegre: uma carta, dois postais ilustrados de tipo romântico e dois postais dos correios.

E os anos da Guerra, em França, vão continuar e também a troca de bilhetes postais entre o capitão José Cândido Martinó e a filha Benvinda, em Portalegre.

É pouco animadora a avaliação do se passa. Eis um exemplo: “Pouco se sabe do que se passa no nosso sector e mesmo o pouco que transpira é rigorosamente censurado. As nossas tropas têm sofrido bastante com os ataques inimigos e com as deficiências de alimentação, visto que lhes falta a comida a que estavam habituadas“. In “História da Guerra Europeia”, colectânea de M. da Silva Ferreira, Biblioteca de Educação Nacional, s/d.

Poderia ter sido de Setembro, de Julho ou de Janeiro. A data, que não existe no documento, manuscrito, é o que menos interessa. Faz parte de outra guerra, a “psico”, e José Cândido também contactou com esta. Trouxe de França uma folhita tamanho A5, rasgada de outra maior, com linhas onde uma escrita em língua híbrida, meio “português”, meio castelhano, francês ou italiano, não deixa margem para muitas interpretações quanto à origem e intenções:

Soldados portugueses. Porque luchaes por la irrezonable y ja perdita cósa de los ingleses e frangeses, dejaes mataoos porque estan pagados da Inglaterra vuestros señores ministros. No quedas ni uma hora mas en la trinchera inglesa, venid a nós el soldato aleman recibe amabli a cada inimigo que venga sin armas, en particular a los canciados portugueses abandonad en seguida la irrazonable cósa de los ingleses, assi retornais despoes de la guerra a vuestra patria. Les souvenir qui vous nous envoyes vous devez les envoyer au Ministre de la Guerra que ce lui que vous a envoyé par ici”.

 

1917 – Há cem anos – trinta e sete

9 de Agosto – Portalegre: “Salvé! 19 de Agosto de 1917! Grande dia!… Pena é eu estar tão longe do meu querido Papá, para lhe dar, como eu desejava, muitos beijos e muitos abraços como merece. Eu já vou passando melhor; já não me apoquenta tanto a tosse“.

19 de Agosto – “ França. Sempre fui hoje em passeio a uma cidade bastante bonita. [Merville ou Estaires?] Recebi a carta do Avozinho, bilhete da Aurora e teu. Muito reconhecido vos agradeço as felicitações pelo meu 45.º aniversário. Encontrei-me com o capitão Miranda; é meu vizinho. Fala-se em permissões que poucos poderão aproveitar. (…) Brevemente escrevo ao Dr. Abreu a agradecer-lhe os cuidados que teve contigo”.

Neste dia 19 de Agosto, José Cândido cumpre em França os seus 45 anos, o que motivou a correspondência alusiva recebida.

Entretanto, “A Plebe” divulgara mais um “Quadro de Honra”: “Regimento de Infantaria 22. Militares falecidos em França de 23 a 30 de Julho. Por ferimentos em combate: 6.ª Companhia – soldado 372, Joaquim Mendonça; 9.º C. – soldado 151, José S. E. Rita; 9.ª C. – soldado 456, Joaquim António Alturas. De 29 de Julho a 4 de Agosto. Por ferimentos em combate: 1.ª Companhia – soldado 616, Joaquim B. Crespo; 5.ª C. – soldado 320, Joaquim da S. Sobreira; 6.ª C. – soldado 311, José Augusto, José Augusto Martinho; 9.ª 1.º cabo 408, João dos S. M. Caldeira. Por motivo de desastre: 6.ª Companhia – soldado 472, José Mendes Ribeiro”.

Sem outros comentários, registe-se a hipótese (?!) de este último ser o soldado 427, José Mendes Ribeiro, da 9.ª Companhia, falecido igualmente por motivo de desastre, entre 21 e 28 de Julho, segundo constava no “Quadro de Honra” da passada semana… A ostensiva falta de rigor nestas sucessivas comunicações públicas na imprensa tornou-se hábito.

12 de Agosto – Portalegre: “Eu vou melhorando dos meus incómodos, já pouco incomodativos; mas as melhoras completas deverão ainda demorar algum tempo. Continuo tomando os remédios indicados pelo Snr. Dr. Abreu“.

Em 19 de Agosto de 1917 aconteceu um forte bombardeamento aéreo alemão a Isbergues e a Saint Venant, bem na retaguarda das nossas linhas defensivas. Na primeira destas localidades situavam-se altos fornos da indústria e, na segunda, alojava-se o Quartel General do Corpo Expedicionário Português.

No dia seguinte, 20 de Agosto, as tropas francesas conquistam importantes posições na 2.ª batalha de Verdun.

Datado de 13 de Agosto, chegou a José Cândido um postal de um amigo, visado pela Censura, com notas musicais e um interessante texto “charadístico”:

Do íntimo agradeço as felicitações
Recebidas no dia 13.
seras e pobres são as minhas palavras;
Façam elas, porém, sentir o meu reconhecimento.
Solicito as aceite como muito sinceras,
Lamentando apenas não poder, d’outra forma, a
Si provar quanto me honram as saudações

                                               Que recebi de V.a Ex.a de
                                               Quem me confesso
                                               Muito atento, venerador e obrigado,
                                                                            Quim (ou Dimas?)

20 de Agosto – “ França. Todos os dias encontro gente conhecida, que só aqui poderia encontrar”.

21 de Agosto – “ França. Faço votos de que te restabeleças o mais rapidamente possível. É necessário todo o cuidado com todos os bilhetes que tenho remetido. Não calculas a grande quantidade de fruta que há por estes sítios. As árvores de fruta atingem grandes proporções. Escrevi uma carta à tua professora; não recebeu?”.

22 de Agosto – “ França. Na casa onde estou há muitas crianças. Recebi hoje carta do Sr. Dr. Clemente Ramos dando-me os parabéns pelo brilhantismo do teu exame”.

14 de Agosto – Portalegre: “A minha partida está para breve, para S. Nicolau“.

1917 – há cem anos – trinta e seis

O Tagarela, “jornal da trincheira”, terá deixado de se publicar neste seu número 3, datado de 16 de Agosto de 1917. Pelo menos, na recolha que dele fez o capitão chefe-de-música José Cândido Martinó, terminou aqui a sua colecção.

A curiosa publicação, policopiada, continha as impressões pessoais dos seus redactores sobre o que os impressionava numa visão da vida na frente de combate e, sobretudo, nos bastidores da guerra. O Expediente, as Informações, o Diz-se, as Crónicas Científicas, a Entrevista, o Cancioneiro, os Segredos de Alcova, as Definições, os Anúncios, as Variedades, as Publicações Recebidas e outras rubricas revelam a produção de uma equipa experimentada, com inegáveis dotes editoriais e espírito culto e crítico. Não foi possível descobrir a sua identidade.

Realça-se a qualidade estética da separata. Na base reflecte uma profunda crítica  na alusão em cartoon à requintada vida social dos oficiais, na retaguarda, em contraste com o quotidiano da dura permanência dos soldados e sargentos nas trincheiras da frente.

Para alguns, pelo menos segundo O Tagarela, a guerra não seria tão má como a pintavam!…

1917 – há cem anos – trinta e cinco

Na mesma data, 12 de Agosto de 1917, verifica-se a publicação de mais um “Quadro de Honra” em “A Plebe”. Agora, graficamente, a relação vai deixar de se apresentar como composição em coluna de texto para assumir a forma de um autêntico quadro enquadrado por filete negro e encimado pela expressão “Pela Pátria!”. Os “Quadros de Honra” restantes manterão este aspecto gráfico. Porém, no caso concreto desta publicação, repetem-se divergências, como as anotadas em relação às listas de 8 de Julho: José Alves Pereira morreu por efeito de ferimentos (“Distrito”) ou por intoxicação de gases (“Plebe”)?! Apolinário tem o apelido Cardigos (“Distrito”) ou Cardoso (“Plebe”)?! Augusto da Silva era o soldado n.º 684 (“Distrito”) ou n.º 634 (“Plebe”)?! O soldado n.º 427 da 9.ª Companhia, José Mendes Ribeiro, morto por motivo de desastre, segundo “A Plebe”, não figura na relação do “Distrito”… Mantém-se a perplexidade perante estas objectivas e repetidas faltas de rigor informativo, sobretudo partindo do óbvio princípio de que a fonte era oficial e única, o Ministério da Guerra.

13 de Agosto – “França. Vais melhorando da impertinente tosse? Hoje, dia do teu 9.º aniversário, envio-te sinceras felicitações por tão feliz data, esperando em Deus que possamos juntos festejar o teu 10.º aniversário, livres desta calamitosa guerra a que as armas não poderão pôr termo. O mês de Agosto tem decorrido bastante invernoso; é raro o dia em que não chove“.

14 de Agosto – “França. Desejo a continuação das tuas melhoras. Já recebi ordem para retirar no dia 16; chego nesse mesmo dia à boa vizinhança“.

Neste dia aconteceu um violento raid alemão contra o sub-sector esquerdo do Neuve Chapelle e o sub-sector direito de Fauquissart.

15 de Agosto – “França. Fui hoje dar um passeio e tive ocasião de ver a 1.ª Procissão desde que estou em França; ia belamente posta e com muita ordem; gostei muitíssimo“.

16 de Agosto – “França. Estimo que vás melhorando da impertinente tosse. A procissão de ontem: à frente iam as meninas de todas as escolas e colégios, com os seus rosários, livros de orações e fitinhas com medalhas. Cada escola ou colégio distinguia-se pela cor das fitas. Os andores eram conduzidos por meninos todos vestidos de branco e coroa de flores; seguiam-se os rapazes das escolas e colégios e muito povo; seguindo-se os clarins e tambores, executando marchas; fechava o cortejo um pequeno andor conduzido por meninos do coro e os padres ricamente paramentados. À frente de tudo ia o barbaças fardado e de moca em punho dirigindo o cortejo. Tudo rezava e cantava. Os homens que iam incorporados não levavam chapéu; mas à passagem da procissão ninguém se descobria“.

Com esta data, 16 de Agosto de 1917, surge o terceiro (e último conhecido) exemplar do jornal de trincheira “O Tagarela”. Com algumas páginas hoje desprovidas de uma legibilidade aceitável -cem anos têm o seu preço!- é dominado pela habitual ironia e dispõe de uma separata bastante crítica. Será publicada a sua reprodução no próximo “capítulo” destas crónicas.

17 de Agosto – (dois postais) “França. Estimo a continuação das tuas melhoras. Partimos ontem à tarde e chegámos bem; a viagem demorou meia hora, pois viemos de camion. [Concluída a diligência da banda em Lestrem, verificou-se o seu regresso para mais perto da frente: Vieille Chapelle?] O dia 15 de Agosto é um dia muito festivo em França. O que é que escolheste para o dia dos teus anos?“; (…)França. Como já disse, cheguei e desta vez consegui arranjar um quarto regularmente decente e com cama“.

18 de Agosto – “França. Faço votos para que vás melhorando da teimosa tosse que tanto te tem apoquentado, e a mim também. Recebi os jornais de Portalegre. A gente em casa de quem estou é boa. Amanhã talvez vá dar um passeio muito bonito. O general deu-nos três dias de licença como prémio do serviço que fizemos“.

Chegou entretanto às mãos do capitão José Cândido um postal de Portalegre, datado do dia 9, da autoria da sua irmãzinha Aurora: “Meu querido Padrinho. Estimo que continue passando bem; a Benvinda melhorzinha. Não tem nada que agradecer por eu ter concorrido para o bom exame da Benvinda. Não fiz mais do que era o meu dever. Não é costume na Escola darem a média final senão no 3.º ano e por isso só lhe posso dizer que pelas médias fui a melhor. Este ano como é de exame tenho que estudar muito. Fui com a professora ver o exame da Benvinda e realmente foi um gosto. Saudades de nós todos e beijinhos da Benvinda. Sua afilhada muito amiga, Aurora Martinó.”.