1919 – Há cem anos – noventa (fim)

Encerra-se hoje a longa série aqui iniciada no dia 19 de Maio de 2016, há mais de três anos. Nesta procurou-se descrever a permanência quotidiana do capitão chefe-de-banda-de-música José Cândido Martinó no cenário da frente da I Grande Guerra, em França, bem como as vivências familiares centradas na sua filhita, Benvinda.

O contexto descrito apoiou-se na obra publicada em 1999, José Cândido Martinó – Uma Vida desenhada pela Banda (Ed. Colibri), tendo utilizado como gravuras, essencialmente, a reprodução de centenas de postais ilustradas trocados entre ambos nessa época, seleccionados de um ainda mais vasto universo.

O pretexto relacionado com este derradeiro episódio tem a ver com uma significativa efeméride portalegrense que há dias passou: o centenário da regresso à cidade da gloriosa bandeira do Regimento de Infantaria 22.

Em 7 de Junho de 1919, era um sábado, a população portalegrense em peso participou nesse festivo acontecimento.

A bandeira regimental de Infantaria 22 foi uma companheira constante de José Cândido Martinó que, dirigindo a sua banda, valorizou musicalmente o sagrado símbolo da Pátria nas inúmeras cerimónias decorridas em diversos cenários junto à frente de combate, na Flandres.

Reproduz-se integralmente um interessante folheto publicado a propósito do episódio hoje evocado. Trata-se de A Bandeira de Portugal, edição da Imprensa da Universidade de Coimbra, em 1919, em comemoração do regresso vitoriosos da Bandeira de Infantaria 22 do teatro de Grande Guerra, tal como consta da sua folha de rosto.

Foi esta a forma julgada mais adequada para lembrar entes queridos e para homenagear uma das unidades mais ilustres do passado militar da cidade de Portalegre.

António Martinó de Azevedo Coutinho

1918 – Há Cem Anos – oitenta e nove

Em 1 de Agosto de 1918, José Cândido Martinó reentrara definitivamente em Portugal, no gozo da licença de campanha que lhe fora concedida.

A crónica sucessiva com a qual pretendi descrever a sua permanência no seio da guerra em curso foi por isso aqui interrompida, com o número 88 da ordem, no passado dia 10 de Agosto. Agora, três meses depois, há um novo e forte pretexto para um brevíssimo recomeço alusivo.

Como ocupara o capitão José Cândido Martinó este curto lapso temporal?

Sem músicos nem banda, a sua vida profissional esteve suspensa, até porque gozava a licença militar concedida. A preocupação pessoal que o absorve tem a ver com a educação da filhita Benvinda. Concluída em Portalegre a sua instrução primária, ele deseja conceder-lhe a melhor preparação académica possível. Assim, entre todos os estabelecimentos de ensino que consultara, e foram muitos, acaba por escolher o Colégio de Nossa Senhora da Rocha, em Lisboa.

José Cândido deslocara-se propositadamente à capital para avaliar a qualidade dessa escola, em cujo internato Benvinda será instalada.

De acordo com os regulamentos, no dia 5 de Setembro de 1918, o capitão músico foi considerado apresentado por ter terminado a licença de campanha de noventa e um dias que lhe tinha sido concedida.

A imprensa local fala entretanto dos concertos da Banda Euterpe e da Banda dos Bombeiros. Quanto à Banda do 22, essa não irá tão depressa retomar o seu lugar – assim se escrevera em A Plebe no dia 1 de Setembro…

Vai iniciar-se entre o pai e a filhita uma nova cadeia de comunicação, quase sempre por intermédio de postais ilustrados trazidos de França. Desta feita, ele está em Portalegre e ela em Lisboa.

A guerra jamais será tema para o diálogo. Aliás, para o militar, esse capítulo da sua vida nunca será evocado. Não me lembro, uma vez sequer, de o meu avô ter dado conta dessa sua experiência, mesmo quando me iniciava na leitura dos mapas de combate publicados nos jornais diários durante a II Guerra Mundial.

No decurso dos meses de Setembro e Outubro de 1918, embora ainda por lá permanecendo outros, regressam de França mais alguns dos músicos da Banda do 22 que aí tinham ficado. Disso nos dá conta A Rabeca de 3 de Novembro, numa curta nota: “De França. Encontram-se já em Portalegre, vindos de França, os hábeis músicos de infantaria 22 srs. B. Guanilho, A. Guanilho, J. Casaca e M. Oliveira, que faziam parte do C. E. P. As nossas saudações”.

Finalmente, a 11 de Novembro de 1918, procede-se à solene assinatura do Armistício que conclui a Grande Guerra, com a derrota da Alemanha.

É grande o regozijo de que dá conta a imprensa, nacional, regional ou local, traduzindo a natural alegria e o profundo alívio que a boa nova causa, ainda que já esperada em função do rumo dos últimos meses do conflito. Em Portalegre são inúmeras e coincidentes as manifestações públicas e, obviamente, também os seus jornais as relatam.

Na véspera desse dia, A Plebe escreve “Vitória” antecedendo o principal texto de capa, que termina com um apelo profético: “… Há feridas a sangrar, nesta linda terra portuguesa, que forçoso é cicatrizar, e há lágrimas dolorosas a enxugar! Compenetremo-nos todos, mas já, dessa necessidade, para que haja paz e concórdia cá dentro. Viva a Liberdade! Viva a República!

E destaque-se o título, a toda a largura da sua primeira página, constante da edição de 17 de Novembro do mesmo jornal: “Paz e Glória!” No final da curta dúzia de linhas lê-se: “Honra a Bernardino Machado, Afonso Costa e António José d’Almeida, os três grandes portugueses que, numa visão clara de patriotas apaixonados, conduziram a Pátria para a Vitória! Vivam os Aliados! Viva a República! ” Significativamente, nem uma palavra sequer sobre Sidónio Pais, que ocupava então a Presidência…

O Distrito de Portalegre divide a sua primeira página da edição deste mesmo dia entre a Paz e a recordação da morte, há precisamente 3 anos, do seu antigo Director, Leonardo Augusto. Sob o título “A Paz Bendita” ostenta o sub-título “Festejos por ela em Portalegre – As aspirações de todo o verdadeiro patriota neste momento – Ao lado da paz internacional, importa colocar sem demora a interna – Desprezo aos desordeiros – Só dentro da ordem e do respeito pelas ideias de cada um se pode caminhar”, onde fica definido o conteúdo do longo texto que se prolongará pela página seguinte.

Linha similar segue A Rabeca, em 24 do mesmo mês, quando salienta o papel e as palavras do Presidente da República, a abrir o artigo: “Vitória!… Vitória!… Vivam os Aliados! Viva Portugal!… ‘Nesta hora solene, um grande pensamento deve preocupar-nos: honrarmos a memória dos que verteram o seu sangue pela Pátria e pela Humanidade, norteando firmemente a nossa conduta pelos altos ideais por que eles se sacrificaram’ São as palavras com que o Sr. Presidente da República Portuguesa exprimiu o seu pensamento. Após a notícia da queda do imperialismo, num autógrafo destinado ao Século e que aquele jornal publicou…”

A vida política nacional viverá um período de turbulência, a que não escapa o presidente da República. Em 5 de Dezembro de 1918, durante a cerimónia da condecoração dos sobreviventes do NRP Augusto de Castilho, Sidónio Pais sofreu um primeiro atentado, do qual conseguiu escapar ileso. O mesmo não aconteceu dias depois, na Estação do Rossio, onde em 14 de Dezembro de 1918 foi morto a tiro por José Júlio da Costa, ex-sargento do exército e militante republicano. Sidónio Pais acaba por falecer na Sala do Banco do Hospital de São José, em Lisboa.

Quanto a Portalegre, a nota citadina mais significativa relaciona-se com uma proposta do vereador da Câmara Municipal Dr. Laureano Sardinha que, a 21 de Dezembro de 1918, cria o Museu Municipal, cujas primeiras instalações se vão situar no Convento de S. Bernardo, até 1961.

Falta um último pretexto, ou episódio, para encerrar esta extensa crónica.

A efeméride vai acontecer em Junho do próximo ano.

António Martinó de Azevedo Coutinho

1918 – Há Cem Anos – oitenta e oito

No dia 13 de Agosto de 1918, Aurora Martinó conclui o Curso de professora na Escola Normal de Portalegre. Valeu-lhe portanto em termos de futuro a estadia na cidade, onde acompanhou a sobrinhita Benvinda.

Ainda nesse mês, José Cândido leva a cabo um atento estudo aos inúmeros folhetos de publicidade a diversos estabelecimentos de ensino particular da capital, e não só, que solicitara em correspondência travada e que obtivera, até, em visitas pessoais a alguns deles. Ele pensa numa educação esmerada para a filha, que a oferta portalegrense -segundo o seu exigente critério- não garante.

No dia 18 de Agosto, “A Rabeca” assinalara a estada em Portalegre de alguns combatentes: “Expedicionários. Vindos do ‘front’ acham-se entre nós os nossos prezadíssimos amigos: 1.º sargento José de Albuquerque, 2.os sargentos Augusto da Silva e Frederico Mourato e sargento-músico Serpa. Também aqui se encontra de licença o sr. Cândido Martinó, chefe da banda de infantaria 22. Com um abraço, a todos saudamos.”

“Músicas” é o título de uma curta local que “A Plebe” inclui na sua edição do dia 1 de Setembro. Aí se resume a “solução” que compensara, junto da comunidade portalegrense, a prolongada e dolorosa ausência da sua banda predilecta: “No Jardim Público, delicia-nos hoje das 20 ½ às 22 ½ com alguns números do seu reportório a distinta Banda Euterpe. Na pretérita 2.ª feira não tivemos o prazer de ouvir a apreciada Banda dos Bombeiros, conforme noticiámos aos nossos leitores, em virtude do falecimento dum filhinho dum dos executantes. Esta banda dará em breve o anunciado concerto”. Quanto à Banda do 22, essa não irá tão depressa retomar o seu lugar…

Um dedicado músico da banda enviaria ao seu maestro, José Cândido, notícias sobre o que dela resta por França. Dois postais ilustrados alusivos dão conta dessas informações.

O dia 4 de Setembro de 1918 torna-se histórico quando a Conferência dos Aliados, reunida em Versalhes, chega a acordo sobre os termos de uma paz com a Alemanha. Quase coincidentemente, logo no dia seguinte, o capitão José Cândido é considerado apresentado no regresso ao País por ter terminado a licença de campanha (noventa e um dias) que lhe fora concedida em França.

Ei-lo, portanto, reintegrado em Portalegre nas suas funções artístico-militares, desta feita bastante reduzidas no que respeita à primeira componente. Com a filha, já no seu internato escolhido em Lisboa, vai reatar-se a cadeia comunicativa por intermédio dos habituais bilhetes ilustrados.

Mas esta nova série, mensagens em tempo de paz, já não cabem aqui. Ficarão, eventualmente, para um outro conjunto…

De França, as notícias bélicas acentuam os sinais de uma próxima vitória dos Aliados. Mas um novo drama irá instalar-se entre nós, com a questão dos prisioneiros portugueses na Alemanha, onde se contam alguns portalegrenses.

A crónica presente interrompe-se aqui. Voltará quando houver um novo pretexto. E este existe.

1918 – Há Cem Anos – oitenta e sete

Em 1 de Agosto de 1918, o capitão José Cândido Martinó reentra definitivamente em Portugal, no gozo da licença de campanha que lhe fora concedida.

A profusão de carimbos alusivos, impostos no seu passaporte, atesta a enorme burocracia militar e civil que controlava todos os movimentos relacionados com o conflito bélico.

Findara assim a exaustiva troca de correspondência de guerra com a filhita, Benvinda, em Portalegre. Mais de meio milhar de postais ilustrados, datados de França, ficaram a documentar esta relação.

Poucos dias depois, precisamente a 6, Benvinda conclui, com distinção, a sua habilitação primária, com a realização do exame do 2.º Grau, em Portalegre.

Poderá então, mais tranquilamente, apreciar os blocos de colecções de postais ilustrados que o pai trouxera da França e das suas viagens: Aire-sur-la-Lys; Saint-Omer (13/4/917); Béthune (duas), Boulogne-sur-mer e Brest; Madrid; Madrid (Recuerdo, 1.ª, 2.ª e 3.ª séries); Real Palácio de Madrid; Salamanca; Paris; Paris (séries 1 e 2); Versilles et les Trianons; Musée du Louvre; Musée du Luxembourg; Bordeaux (2); Toulouse; Bayonne; Pau; Chateau de Pau; Lourdes; Biarritz; Pyrénées Centrales; três blocos da série “A Grande Guerra – La Grande Guerre“, do Serviço Fotográfico do C. E. P., Fotografias de Garcez: – Os Portugueses em França;- Os Portugueses na Frente de Batalha;- Sector Português: Zona devastada; – Le Chemin de La Croix (Editions Artistiques, Paris); – Jeanne d’Arc; – Collezione Artistica di Cartoline – 12 Angeli del F. Angelico; – Napoleon Bonaparte, etc.

A propósito das inúmeras edições de diversa natureza que José Cândido adquire em França, saliente-se uma grande profusão e variedade de músicas soltas ou em volume. Entre as mais interessantes, estão a “Canção do Minho”, para piano e canto, com letra do alferes de infantaria Ernesto Sardinha e música do maestro militar Inácio M. da Costa, numa edição impressa francesa, datada de 15 de Julho de 1917; “Hymne de Paix”, palavras e música de Madeleine Frondoni Lacombe, composição dedicada a madame Camille Flammarion, da Associação “La Paix et le Désarmement par les Femmes“; “La Marseillaise et le Chant du Départ”, magnífico estudo ilustrado da autoria de René Brancour, editado por Henri Laurens, Paris, em 1915.

Pelas indicações datadas, local e dia, constantes em alguns destes documentos, foi possível reconstituir com elevado grau de probabilidade as deslocações do capitão José Cândido Martinó, nos finais da sua estadia em França, neste ano de 1918.

Entretanto, na frente de combate, em França, a partir de 8 de Agosto e até 10 de Novembro, os exércitos aliados conseguem voltar à guerra de movimento, dominando a iniciativa, e obrigam as tropas alemãs a um pesado e doloroso regresso às suas próprias fronteiras. O exército alemão só se salvará do aniquilamento total com o armistício de 11 de Novembro de 1918.

Porém, o Corpo Expedicionário Português terá um fim pouco compatível com o desejado e até merecido. Terminará a guerra com meia dúzia de baterias e batalhões, forças dispersas incluídas em unidades inglesas e empregues principalmente em actividades de segunda linha.

O enorme esforço português conduziria a uma triste sucessão de desastres tanto na Europa como em África. A razão de fundo não fora militar nem humana, mas antes política: a nação não estava unida, motivada ou preparada para lutar na Primeira Guerra Mundial.

Esta é a rigorosa verdade que ressaltará de toda esta inglória gesta.

1918 – Há Cem Anos – oitenta e seis

18 de Julho – “França. Tens passado bem? O teu exame deverá estar muito próximo. Os meus requerimentos continuam sem solução”.

19 de Julho – “França. Continuo aguardando a solução dos meus requerimentos”.

20 de Julho – “França. Continuo passando bem. Se amanhã não chegar o deferimento do meu requerimento, já não posso retirar no dia”.

21 de Julho – “França. Já perdi a esperança de partir no dia 22. Veremos se isso será possível em 28”.

Passados meses sobre a tragédia humana de La Lys, a imprensa nacional ainda inclui notícias e comentários sobre esse drama bélico que enlutou centenas de famílias portuguesas. È o caso da conceituada revista Ilustração Portugueza, uma edição semanal do jornal O Século, no seu número datado de 22 de Julho de 1918.

22 de Julho – “França. Por causa dum patifório, desde longa data meu conhecido, é que hoje não parti para aí no gozo de licença. Caso não vá em 28, já não sei quando poderei retirar definitivamente“.

23 de Julho – “França. Continuo aguardando a malfadada solução dos meus requerimentos. Cada vez tenho menos esperança de poder retirar em 28“.

24 de Julho – (dois postais) “França. Ainda nada de licença. Há já umas duas ou três noites que não aparecem os vendedores de rhum.” ; “França. Acaba de chegar a concessão da minha licença. Se não houver qualquer caso imprevisto, parto do ponto onde me encontro no dia 28. Talvez ainda possa festejar o dia do teu 10.º aniversário“.

A pequena Benvinda fazia anos em 13 de Agosto…

25 de Julho – “França. Como já ontem te disse, tenciono partir para Paris no dia 28, para depois aguardar na fronteira ocasião para a poder passar. Até que enfim! Sinto-me mais aliviado!

26 de Julho – “França. Cada dia me parece um século. Só acredito no meu regresso a Portugal quando me vir dentro do comboio, e já bastante afastado destas paragens bastante doentias“.

 

O balanço postal deste mês de Julho de 1918, revela-se muito desigual. De França, partiram 27 postais, sendo 15 do tipo romântico e 12 de tema religioso, enquanto de Portalegre apenas chegou uma carta.

Existem ainda uma carta de Aurora e mais duas cartas de Benvinda, estas nunca referidas na correspondência de José Cândido, que talvez as não tenha chegado a receber em França…

A carta da irmã Aurora, data de 10 de Junho – Portalegre: “Meu querido Padrinho. (…) Tem este bilhete o fim de pedir ao Padrinho para que dê ordem ao Papá para me comprar um vestido e uns sapatos pois faço agora exame e não tenho vestido nenhum em termos. (…) A Mamã e o Papá mandam-se recomendar e a Benvinda envia-lhe muitos beijinhos. Envia-lhe um abraço a sua afilhada muito amiga,  Aurora Martinó“.

1918 – Há Cem Anos – oitenta e cinco

12 de Julho – “França. Já aí terá chegado o músico Serra? O tempo tem estado horrível. Continuo aguardando o resultado do meu requerimento“.

13 de Julho – “França. Consta que vão restabelecer as licenças de campanha. Se for verdade, requeiro imediatamente licença pois estou na ver que nunca mais chega a solução do meu requerimento. Deram-me hoje notícias do filho do major Piedade. Está bom“.

14 de Julho – “França. Entreguei hoje um requerimento pedindo licença; talvez com este novo requerimento se lembrem de dar despacho ao primeiro que fiz. Há mais de um mês que deixei de saber notícias tuas“.

Nesta precisa data, apesar dos sinais militares prometedores, ninguém se atreveria a prognosticar que dali a um ano preciso, em 14 de Julho de 1919, um contingente de 150 soldados do Corpo Expedicionário Português, integrado nas forças aliadas do marechal Foch, marcharia no Desfile da Vitória, na Place de L’Etoile, em Paris, sob o comando do coronel de Infantaria Adriano Ribeiro de Carvalho, tendo precisamente como porta-bandeira o tenente de Infantaria Perestrello D’Alarcão e Silva, do Regimento de Infantaria n.º 22, de Portalegre.

15 de Julho – “França. Cada vez me sinto mais desanimado. Actualmente aguardo a solução dos dois requerimentos. Já perdi as esperanças de assistir aos teus anos“.

A denominada 2.ª Batalha do Marne ou Batalha de Reims começou neste dia 15 de Julho de 1918, prolongando-se até 5 de Agosto. Foi a última importante ofensiva alemã na Frente Ocidental e falhou quando um contra-ataque maciço dos Aliados, liderados pelas forças francesas e contando com várias centenas de tanques, oprimiu os alemães no seu flanco direito, infligindo-lhes pesadas baixas.

16 de Julho – “França. Mudei de casa onde me deram quarto com uma bela cama. É um luxo que eu há mais de 3 meses não apreciava. Já hoje partiram alguns de licença mas eu cá vou continuando a esperar o resultado dos meus dois requerimentos“.

Um pormenor interessante dá conta de que, apesar do evidente estado de angústia vivido pelo capitão José Cândido Martinó, isso não lhe perturbou o permanente sentido cultural. Neste preciso período, dia-a-dia, enviou à filhita Benvinda uma preciosa colecção de 7 postais ilustrados, alusivos à Criação do Mundo…

17 de Julho – “França. Hoje não recebi jornais nem qualquer outra correspondência. Se tal facto não é devido aquilo que eu suponho, acho isto muito extraordinário! Nada de solução aos dois requerimentos .

Nesta mesma época, com os alemães a perderem coesão a olhos vistos, o general francês Ferdinand Foch -nomeado comandante-chefe dos exércitos aliados durante a pior fase dos ataques alemães- declara que chegou o momento certo para uma ofensiva. Vai iniciar-se agora, portanto, um contra-ataque dos Aliados em grande escala.

1918 – Há Cem Anos – oitenta e quatro

1 de Julho – “França. Do meu requerimento, ainda nada. Hoje, para me distrair, fui dar um grande passeio de que muito gostei e assisti à inauguração de um Club e escola“.

2 de Julho – “França. Faz hoje 17 meses que cheguei a França pela 1.ª vez, e nunca me senti tão aborrecido e desanimado como actualmente. Ainda não chegou a solução ao meu requerimento“.

3 de Julho – “França. Continuo aguardando a solução do meu requerimento. Com tanta demora, vou perdendo um pouco a esperança de retirar“.

5 de Julho – “França. Já me vai dando bastante cuidado o não receber correspondência tua e de casa. Assim como recebo jornais, também poderia receber o resto, se me escrevessem. Estou aguardando ordens“.

6 de Julho – “França. Ainda não veio resposta ao meu requerimento. Já vai demorando bastante“.

7 de Julho – “França. Cada vez estranho mais o não receber correspondência tua. Hoje fui dar um grande passeio de automóvel. Ainda nada veio relativamente à minha retirada para Portugal“.

Estes regulares passeios de automóvel permitem, de certo modo, reconstituir os percursos do capitão José Cândido Martinó por terras francesas, sobretudo através dos postais ilustrados que ele sempre adquiria em todos os locais visitados. Pelas colecções que conservou é também possível conhecer um pouco da mentalidade social francesa patente nessa iconografia. Curiosamente, pelo confronto com a imagem nacional revelada por postais portalegrenses da mesma época, deduz-se uma notável semelhança, pois em ambas as sociedades urbanas se revela o particular gosto por uma certa pose colectiva.

Para memória futura…

8 de Julho – (dois postais) “França. Além de gerente de mess perpétuo também sou censor. Ontem à noite, quando estava desempenhando o meu ingrato papel de censor, fui obrigado a interromper tal servicinho, por 3 vezes, e os últimos vidros do meu quarto voaram.“;” Na ocasião em que procurava um pequeno abrigo, fui intimado a sair duma forma bastante singular. Nunca como desde que vim para França apreciei, nos devidos termos, o que é a boa camaradagem e o verdadeiro egoísmo!… Já quando da minha estada em Tancos, tinha tirado grandes ensinamentos; mas nunca como agora eu apreciei tal intimidade!…

Os sublinhados existem no original!

9 de Julho – “França. Hoje fiquei apenas com 2 músicos! Será conveniente que o Avozinho se informe com o Aspirante Pestana se eu já poderia passar a receber correspondência da minha família“.

10 de Julho – “França. Ainda nada de ordem para partir. Já vou estando outra vez bastante desanimado“.

Neste mesmo dia, em Portugal, é publicada a portaria que nomeia o novo comandante do C. E. P., o general alentejano Garcia Rosado.

11 de Julho – “França. Não compreendo a razão porque recebo jornais e não recebo correspondência tua ou de casa. Ainda não veio resposta ao meu requerimento. Requeri para remeterem para Portalegre as duas malas vazias e o arquivo“.

A prolongada ausência de notícias de casa, sobretudo da filha, agrava a angústia do pai…