1917 – Há cem anos – cinquenta

13 de Novembro – Portalegre: Já há tanto tempo que não recebo notícias suas; nos primeiros dias custou-me bastante; depois constou aqui que a fronteira franco-espanhola estava fechada, motivo esse por que a correspondência não transitava e assim fiquei mais tranquila; não era por doença que o meu querido Papá não escrevia“.

20 de Novembro – “França. Estimo bastante a continuação das tuas melhoras“.

21 de Novembro – “França. Estimo a continuação das tuas melhoras. Só hoje é que recebi a mala pequena que me tinha ficado no sítio donde ultimamente retirei. Já lá vão 10 meses que daí parti. A história das licenças parece-me que se complicou bastante“.

22 de Novembro – “França. Muito estimo a continuação das tuas melhoras. Temos nova encravação com o correio; não há maneira disto entrar nos eixos. Tens dificuldade em leres a minha caligrafia?

Agora, na posse de caneta e tinta, já é possível ao capitão Martinó abandonar a precária solução da escrita dos postais a lápis.

23 de Novembro – “França. Muito estimo a continuação das tuas melhoras. O bico de obra das licenças ainda não está resolvido“.

17 de Novembro – Portalegre: “Eu continuo passando bem“.

As dificuldades de ligação entre a França e Portugal provocaram atrasos, e até extravios, na correspondência travada entre pai e filha…

24 de Novembro – “França. Com as fronteiras fechadas ou abertas quero que me escrevas diariamente, como já bastantes vezes indiquei“.

25 de Novembro – “França. Há já dois dias que tem estado um frio e vento horríveis. Hoje principiaram os nevões. A história das licenças continua complicada. Parece-me que já não consigo passar aí o Natal. Hoje tive música“.

26 de Novembro – “França. Hoje fui dar um grande passeio, mas com todas as comodidades. Aonde actualmente me encontro a lavadeira rouba-me 1.100 reis pela lavagem da roupa duma semana; ficando a roupa com um cheiro nauseabundo“.

27 de Novembro – (dois postais) “França. O frio já vai sendo bastante. No meu quarto, o termómetro já marcou 5 graus positivos; porque não demorará muito que não sejam negativos.”;França. Realmente com 8 livros já tens bastante com que te entreter. (…) Realmente, a carestia da vida é um verdadeiro pavor. (…) A história das licenças está muitíssimo complicada. Já tenho 30 dias concedidos. Já sabia da tal história do músico Carvalho“.

A motivação representada pela hipótese de uma licença militar, tecnicamente já concedida, que permita ao pai, no “front”, rever a sua filha, em Portalegre, é o tema mais significativo nestes tempos de proximidade natalícia.

1917 – Há cem anos – quarenta e nove

11 de Novembro – (escrito a lápis) “França. Estimo a continuação das tuas melhoras. Daqui a pouco precisas de um carrinho para transportar os teus livros para a mestra!“.

4 de Novembro – Portalegre, com o carimbo de Censura: “Eu estou melhor da minha tosse“.

12 de Novembro – (escrito a lápis)França. Estimo a continuação das tuas melhoras. Hoje esteve um dia lindíssimo que aproveitei dando um grande e lindo passeio. [Lillers ou Auchel?] Recebi hoje um bilhete do ‘Bichinha Gata“.

Bichinha-a-Gata era o anexim de um barbeiro portalegrense, figura muito conhecida e popular na cidade, que como era tradição entre os profissionais desse ofício também arrancava dentes, sem anestesia… Morava e tinha “consultório” na Rua da Carreira, na esquina que dava para o Largo do Município.

13 de Novembro – (escrito a lápis) “França. Estimo a continuação das tuas melhoras. Ainda não me chegou a mala, por isso tenho escrito a lápis. Recebi hoje carta do Major Piedade“.

Ficou explicada a razão dos postais serem escritos a lápis: a bagagem do capitão Martinó tinha-se atrasado nesta sua recente alteração de “domicílio”…

Aliás, a difícil adaptação continuaria.

5 de Novembro – Portalegre: “Só senti tosse uma vez. (…) O coelhinho não é um coelho, é uma coelha, mas é muito bonita e está muito crescida; não se mata senão quando o Papá vier“.

14 de Novembro – “França. Estimo muito a continuação das tuas melhoras. Só ao 3.º dia é que consegui dormir na minha nova cama, mas para isso foi necessário arranjar palha para encher dois sacos de que fiz colchão. (…) A casa onde estou não tem rendinhas nas janelas; até hoje é a única nestas condições. (…) Tenciono ver a coelhinha para o Natal, se Deus quiser“.

15 de Novembro – França. Desejo bastante a continuação das tuas melhoras. Como aí tenciono ir passar o Natal, nessa ocasião será regulada a melhor forma de ocorrer às várias despesas a fazer. O requerimento em que pedia para me mandarem a mala grande para Portugal foi deferido. Veremos o que agora farão. Como vamos de música? “.

A esperança de uma próxima ida, embora precária, a Portalegre dominava o espírito do pai, preocupado…

6 e 7 de Novembro – Portalegre, o segundo com carimbo de Censura: Sinto-me bem. Já entrou hoje mais uma menina para a escola.“;Eu passo bem.

16 de Novembro – “França. Muito estimo a continuação das tuas melhoras. Sei que uma das meninas que ultimamente foi para a tua mestra é filha do tenente Faustino. Um dia destes, o nosso capelão disse a missa na nossa casa de jantar; foi uma missa a que só os comedores assistiram“.

17 de Novembro – “França. Estimo a continuação das tuas melhoras. O Avozinho que não se esqueça de comprar as agendas e o Almanaque do Século como já mandei dizer“.

18 de Novembro – “França. Estimo a continuação das tuas melhoras. Hoje tive música; depois do concerto o Maltez mandou-me buscar num carro para ir jantar com , pois a senhora dele faz hoje anos. O nosso açúcar actualmente vem misturado com arroz, chá, café, etc. Não esquecer a agenda e o almanaque do Século“.

19 de Novembro – “França. Continuo bem e muito estimo a continuação das tuas melhoras. Talvez que daqui a um mês já esteja em viagem para aí. Ainda há umas dificuldades a resolver; bem bom será que tal negócio se liquide até ao fim do mês”.

Entre 20 de Novembro e 6 de Dezembro de 1917, vai travar-se na frente a dura Batalha de Cambrai. Os tanques britânicos chegaram a romper as linhas defensivas alemãs, mas não tardaram a ter de recuar, perdendo o terreno que haviam conquistado. Foi a primeira grande batalha que envolveu tanques de guerra, uma nova arma bélica.

 

1917 – Há cem anos – quarenta e oito

5 de Novembro – (dois postais) “França. Hoje fui dar um passeio; fui de carro e voltei de camion. O sítio onde agora estamos é um perfeito lamaçal.”; “França. Brevemente volto para muito próximo do local onde ultimamente estive. Por ali, já se ouve música wagneriana. Já tenho a licença concedida, é provável que aí vá passar o Natal e Ano Bom. Já requeri para me devolverem a mala grande para Portalegre; se tal conseguir bem bom será“.

6 de Novembro – “França. Hoje fui dar outro passeio. Fui e vim de camion; vou aproveitando enquanto é tempo. Desde manhã à noite ando com os pés enterrados em lama“.

30 de Outubro – Portalegre: “O frio tem sido muito. No sábado e no domingo estive quase sempre na cama; o snr. Dr. Abreu receitou-me uma purga, pinceladas e umas hóstias; tudo produziu bom efeito; uma angina benigna; anda por cá muito disso

7 de Novembro – (dois postais) “França. O Avozinho que dê sempre cumprimentos meus ao tenente coronel Lacerda e major Piedade.”; “França. Sinto bastante que tenhas estado doente e faço ardentes votos pelo teu rápido restabelecimento”.

31 de Outubro – Portalegre: “Ainda hoje não saí de casa; o frio e o vento não dá licença; eu estou melhor. O Snr. Coronel do 22 ainda está em Portalegre“.

8 de Novembro – “França. Desejo bastante a continuação das tuas melhoras. O meu colega José Nunes já me mandou a “Continência à Bandeira”. (…) As vitelas também passeiam de carro juntamente com as senhoras. Como já disse, tenciono ir aí passar o Natal“.

A 8 de Novembro de 1917, o Regimento de Infantaria 22 assume a co-defesa do sector de Neuve Chapelle, na frente de combate. Trata-se de mais uma escalada na assunção dos riscos do combate próximo por parte das tropas portalegrenses… E o tempo, meteorológico, com chuvas intensas, também nada favorece a difícil permanência nas trincheiras. Pelos sucessivos relatos da correspondência do maestro militar, embora bem mais resguardado, pode entender-se um pouco das deploráveis condições sofridas, onde o frio e a lama desempenham o seu papel de activos e negativos agentes. 

Leiam-se as “entrelinhas”: num local onde já se ouve música wagneriana (os canhões e a metralha) as carências até obrigam a usar o lápis na escrita…

Porém, o cumprimento da missão, a banda e o seu serviço, continuam como a prioridade local de primeira linha. Como é evidente, intercalada com a preocupação pela frágil saúde da filhita distante. A probabilidade de uma ida, de licença, a Portalegre pelo Natal e Ano Novo começa a constituir uma esperança no horizonte próximo…

9 de Novembro – “França. Muito desejo a continuação das tuas melhoras. Parto hoje às 10 horas e devo chegar amanhã às 12 ou 14. O tempo está horrível: chuva, frio e muitíssima lama. A marcha é a pé“.

10 de Novembro – (dois postais, escritos a lápis) “França. Muito estimo a continuação das tuas melhoras. Parti ontem às 10 e fui dormir numa escola, onde me trataram muito bem. Durante o serão, uma menina esteve estudando Doutrina e a lição; era filha do professor. Dei-lhe um “souvenir”.” ; “França. Durante a viagem choveu bastante, com algum frio e muitíssima lama. O quarto onde estou é melhor que o último, mas a cama é muito ratona. As janelas têm vidros de todas as qualidades e feitios. O local é já bastante meu conhecido.” [Provavelmente, sobretudo pelos locais que em Dezembro serão assinalados para serviço da banda, o capitão José Cândico regressa para local perto de Vieille Chapelle?]

1 e 2 de Novembro – Portalegre, o segundo visado pela Censura: “Estou melhor; o tempo também melhorou“.

3 de Novembro – Portalegre: “O Avozinho procurou as músicas que já foram pelo correio. Estou melhor mas a tosse ainda não passou de todo“.

1917 – Há cem anos – quarenta e sete

24 de Outubro – Portalegre: “O músico Vieira encontra-se aqui, creio que ainda pertence ao efectivo. Já lhe mandei 7 cartões da colecção – Jeanne D’Arc -, agora pouco falta para acabar a colecção.”, com carimbo de Censura.

24 de Outubro – Postal de Portalegre: “Todos os seus bem, e a sua menina está muito bonita e gordinha.  Rosado“.

31 de Outubro – “França. Tenho recebido os bilhetes da colecção. Por esse caminho, daqui a pouco, a tua professora tem necessidade duma ajudante! É isso bom sinal. A parte mais interessante dos jornais franceses é tratada na 1.ª e 4.ª página, principalmente na 4.ª“.

O balanço postal do mês de Outubro de 1917 apresenta o seguinte resultado: de França, 35 postais, todos do género romântico, à excepção de um, histórico; de Portalegre, sete cartas, seis postais dos correios e um ilustrado (romântico).

Este mês foi o tempo histórico da Revolução de Outubro, na Rússia, que irá ter demorada e decisiva influência em todo o Mundo, que jamais será o mesmo, dada a profunda alteração social, cultural e política trazida pela implantação do comunismo.

E no mês seguinte, Novembro, os anos da Guerra, em França, proporcionaram a continuação do intercâmbio epistolar, com os bilhetes postais ilustrados do capitão José Cândido Martinó para a filha Benvinda e as respostas desta.

1 de Novembro – “França. O Avozinho que não esqueça de comprar a agenda de algibeira, e do Chiado e o almanaque do Século, mas que mande só a agenda de algibeira, como já há tempo indiquei noutro postal. Já tens comido muitas castanhas? Ainda cá não as vi”.

2 de Novembro – “França. Faz hoje 9 meses que cheguei a estas paragens. Em regra, esta gente alimenta-se muito mal. O tempero que empregam nos cozinhados é uma coisa horrível. Há ocasiões em que me vejo obrigado a fugir de casa porque o aroma é de respeito!

3 de Novembro – França. Tens gostado dos meus últimos bilhetes?

Em várias datas deste mês, 3, 17, 24 e 30, fica determinado pela Ordem de Serviço que a banda toque publicamente, no entanto sem indicação expressa do local.

4 de Novembro – “França. A resposta a qualquer pergunta gasta pelo menos 18 a 20 dias. Estive hoje com o Basso e o Tavares“.

Um novo texto assinado por J. Vieira é publicado em “O Distrito de Portalegre” de 4 de Novembro de 1917. Desta vez o seu título é “França. Aire-sur-la-Lys” e descreve “a primeira cidade francesa que conhecemos, depois de abandonarmos o grande Oceano e suportar uma viagem de três dias e três noites em caminho de ferro.

1917 – Há cem anos – quarenta e seis

19 de Outubro – “França. Faz hoje 9 meses que retirei daí. Por cá também já está muito frio, apesar do Outubro ser o melhor tempo nesta parte da França. (…) Quem é que te ofereceu o coelhinho? (…) O Dr. Abreu também foi promovido a capitão? Já está em Portalegre? (…) Cuidado com a direcção: 1.º B. I.  Q. G. (evita-se que vá parar ao 22)“.

20 de Outubro – “França. Muito estimo saber que continuas com os bonecos do mapa às voltas e que já recomeçaste com as lições de música. Nada de violências, mas é necessário aprender de tudo um pouco”.

21 de Outubro – “França. No sítio onde actualmente estou, cultivam em larga escala os agriões. Nunca vi tanto agrião; há centenas e centenas de metros quadrados com tal verdura“.

22 de Outubro – “França. No sítio onde agora nos encontramos é tudo muitíssimo caro.(…) Por estas paragens já o frio vai apertando bastante“.

23 de Outubro – “França. Estimo as tuas melhoras. Hoje fui dar um passeio com um colega muito meu amigo que se encontra ao pé de mim há bastantes dias”.

16 de Outubro – Portalegre: “Ontem de manhã senti mais um bocadinho de tosse; já passou e agora estou melhor. (…) O meu lindo coelhinho tem crescido muito e come bem“.

Neste dia 23 de Outubro de 1917, verificou-se em Aisne uma significativa vitória das tropas francesas.

24 de Outubro – “França. Estimo as tuas melhoras. Guarda o coelhinho para me mostrares. Gostaste do postal que te mandei pelo músico Guanilho?

18 de Outubro – Portalegre, tendo o carimbo de Censura: O dia hoje tem estado muito chuvoso, um dia de inverno, mas houve mestra que, por ser quinta-feira, acabou às 3 horas“.

25 de Outubro – “França. Estimo as tuas melhoras. (…) Hoje esteve um dia muito chuvoso e frio“.

20 de Outubro – Portalegre: “Os postais que vieram ultimamente são muito lindos.”;

26 de Outubro – “França. Estimo a continuação das tuas melhoras“.

Para este dia 26, a Ordem de Serviço interna determinou que a banda acompanhasse um exercício do Batalhão em Nametz.

27 de Outubro – “França. A mala grande está na base. Hoje fui dar um passeio, fui a pé e voltei de carro“.

28 de Outubro – “França. Estimo as tuas melhoras. (…) A pessoa que faz o rascunho da tua correspondência deverá arquivar o espírito e as reticências por mais algum tempo“.

22 de Outubro – Portalegre:Então o Papá é muito estimado na casa em que agora reside? É isso bom e muito me contenta.

29 de Outubro – “França. Continuo a ser bastante estimado na casa onde ainda estou. Diz ao Avozinho para que em meu nome subscreva com 500 reis para a lápide – Gueifão. Recebi hoje um par de liras e alguns botões que tinha pedido para Lisboa“.

30 de Outubro – “França. Tens continuado a contribuir para a assistência religiosa e Sopa dos Pobres? Que não esqueça o que disse a propósito da subscrição para a lápide Gueifão – 500 reis. Hoje recebi um bilhete postal da tal velha muito avarenta em que te falei muito“.

O postal referido é ilustrado (Enquin-lez-Mines (P.-de-C.) – Mairie – École Communale des Garçons) e apresenta o seguinte conteúdo: “Madame Clément se rapelle au bom souvenir de Monsieur Martino et lui présente ses respectueux hommages.” A tal “velhota” dos episódios de Abril/Maio era afinal, e no mínimo, razoavelmente culta e reconhecida…

1917 – Há cem anos – quarenta e cinco

14 de Outubro – “França. Hoje esteve um dia lindíssimo; como não tive serviço, fui dar um passeio, tendo-me encontrado com um professor meu conhecido; depois fui passar a tarde a um sítio onde vi coisas muito lindas e interessantes

Neste mesmo dia, o capitão José Cândido Martinó recebeu mais uma comunicação interna: “1.º B. I. n.º 22 Obser. Urgente Em campanha: Ao Sr. Chefe da Banda de Música da B. Por determinação superior deverá a Banda da digna regência de V.a Ex.a acompanhar uma Companhia do 3.º Batalhão (Inf. 34) que amanhã pelas 10 H. deve comparecer no Chateau de St. André (Witerness) para fazer a guarda de honra a S. Ex.a o Presidente da República. Pel’o Ajud. Luis Lello, Ten.”.

A 15 de Outubro de 1917, o Presidente da República Portuguesa, Dr. Bernardino Machado, sai do Sector Português, depois de ter visitado as sensíveis zonas da frente em Ferme du Bois e Fauquissart. José Cândido, pela terceira vez, acolhe-o em Witerness, à frente da sua banda. E depois comentará brevemente o sucedido.

15 de Outubro – “França. Fizemos hoje a guarda de honra da despedida. A nada temos faltado. A vida actualmente é um verdadeiro pavor. Admiro-me como certas famílias podem viver. (…) O tal músico Vieira ainda pertence ao efectivo? O tal coronel que aí está fica comandando o 22?

8 de Outubro – Portalegre: “Muito estimo que fizesse a sua jornada e mudança com muita saúde; eu vou passando bem. (…) Então o Papá já tem vidros na janela do seu quarto? Graças a Deus“.

9 de Outubro – Portalegre: “Como se dá com a sua nova habitação? O Papá está com sorte, anda sempre a encontrar-se com antigos amigos“, com carimbo de Censura.

16 de Outubro – “França. Fui hoje dar um passeio de automóvel. Comprei-te uma coisa bonita e boa que enviarei quando aí for algum músico de licença”.

17 de Outubro – (dois postais) “França. Estou muito bem na minha habitação“. [Nova mudança, provavelmente para local um pouco menos próximo da frente, talvez para os lados do Quartel General?]; “França. O Avozinho que veja se na estante das músicas lá está o ordinário – Continência à Bandeira – de Moraes. Julgo que está nas costas doutra – Le Depart. Também julgo que os ordinários estão todos juntos. Se lá estiver, mande já e registado“.

Ainda que sem data precisa, um manuscrito de José Cândido sobre uma folha com pauta musical deve reportar a estes tempos:

Bombo. Para ser bom é necessário ter grandes dimensões, e deve ter umas varinhas com torno em volta, que servem para tender a pele, e que devem operar com muita igualdade sobre toda a sua circunferência. Coloca-se sobre um cavalete. Em marcha é sustido por meio duma correia de suspensão com os respectivos colchetes que se engancham a uns anéis que tem o instrumento. Para tocar o bombo emprega-se uma baqueta grande; a cabeça desta deve estar coberta de pele. O golpe deve ser dado ao centro. Deve ser dado de cima para baixo, volvendo a mão à sua primitiva posição. Quando há golpes sucessivos devem alternar: de cima para baixo e vice-versa. Nunca se deve deixar a baqueta sobre a pele. O braço não se move; apenas o ante-braço. Para apagar o som em um golpe seco, coloca-se suavemente a mão esquerda sobre a pele inferior; mas apenas em seguida ao golpe“.

18 de Outubro – “França. Quando fizerem qualquer pergunta, esperem pela minha resposta. No dia 26 deves oferecer qualquer lembrança ao Avozinho. A gramática e corografia são difíceis de estudar?

12 de Outubro – Portalegre: “Por cá já principiou o tempo frio. Tenho um coelhinho branco e pequenino; gosto muito dele“.

Sem data, mas quase seguramente desta época, José Cândido guardará um relatório interno das operações militares…

Portalegre num Colóquio na Universidade Nova de Lisboa

FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS
UNIVERSIDADE NOVA DE LISBOA

 COLÓQUIO: BANDAS E MÚSICA PARA SOPROS:
(RE)PENSAR HISTÓRIAS LOCAIS
E CASOS DE SUCESSO

As bandas de música estão disseminadas em Portugal desde o século XIX e, desde então, a sua actividade tem sido uma das principais práticas musicais no país, pese embora os obstáculos de natureza diversa, sobretudo entre as décadas de 1950 e 1970. Após a Revolução Democrática a actividade das bandas refloresceu e beneficiou de múltiplas mutações, quer ao nível da disponibilidade de recursos humanos, quer do ponto de vista da solidez financeira, da aposta na formação musical dos músicos, nas novas tipologias de reportório ou nos novos espaços performativos. Não podemos descurar, igualmente, a aposta feita em regentes com formação superior na área da música, a disseminação de conservatórios, academias e escolas profissionais de música ou a evolução do modelo organológico, mediante o acrescento de diversos instrumentos musicais.

O propósito do colóquio Bandas e música para sopros: (Re)pensar histórias locais e casos de sucesso é reunir investigadores de distintas áreas do saber, criar sinergias, cruzar ideias, reflectir e estimular o debate sobre este campo académico, particularmente relevante da cultura portuguesa, que tem vindo a ganhar visibilidade na última década. Pretende-se fomentar e divulgar a prática musical para sopros (as bandas em particular), partilhar informação e disseminar resultados de investigação, promover a inclusão desta temática no âmbito das investigações académicas e discutir questões e desafios para o futuro desenvolvimento das bandas de música. Além de serem o motivo da fundação de inúmeras colectividades locais ‒ muitas delas constituídas no século XIX ‒ uma parte significativa dos instrumentistas de sopro mais conceituados iniciou a carreira musical precisamente em bandas de música, alguns dos quais continuam a dar o seu contributo, sobretudo como maestros.

Inscrito numa perspectiva de estudo transdisciplinar, este encontro está particularmente vocacionado para as áreas científicas da Antropologia Cultural, Arquivística, Estudos Artísticos, Etnomusicologia, História Contemporânea, Musicologia, Performance Musical e Sociologia. Assim, tendo a música para sopros e as bandas de música como enfoque temático, aceitam-se comunicações enquadradas nas seguintes linhas temáticas:

– Correntes interpretativas e composição de reportório musical para conjuntos de sopro;
– Pedagogia do instrumento e da Direcção Musical;
– Arquivos de bandas civis e militares;
– Aprendizagem musical nas escolas de música das bandas;
– Crítica musical;
– Desenvolvimento do modelo organológico;
– Papel social das bandas;
– Histórias locais de bandas;
– Biografias de personalidades relevantes ligadas a bandas de música.

 Programa

1 – PROGRAMA FINAL – Bandas e música para sopros
LOCAL: 10 de Outubro – Auditório 1, torre B, piso 1, FCSH
11 de Outubro – Sala Multiusos, edifício ID

PROGRAMA
10 de Outubro | terça-feira

 9:00h | Recepção aos participantes/ Entrega da documentação
09:30h | Sessão de abertura
Maria Fernanda Rollo, Secretária de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior
Intervenções do Director da FCSH e do Presidente do IHC
Conferência inaugural
10:00h | Rui Vieira Nery | O lugar mutante das bandas de música na vida musical do Portugal contemporâneo
10:45h | Coffee break
11:00h | Painel I – Música para Banda
Moderador | Pedro Marquês de Sousa
Alberto Roque | Sons Ibéricos – Projecto de encomendas e divulgação de obras de compositores da Península Ibérica
André Granjo | a designar
Luís Cardoso | Composição para Bandas: O contexto performativo em partitura
12:00h | Debate
12:15h | Almoço
14:00h | Painel I (cont.) – Música para Banda
Moderador | Bruno Madureira
Rui Magno Pinto | Testemunhos ignorados de uma “música nacional”: as rapsódias portuguesas tardo-oitocentistas e primo-novecentistas para banda
Renata Oliveira | Compositoras Europeias para Banda e as suas Obras
Jorge Costa Pinto | Reportório na Banda Filarmónica
Hernâni António Petiz Figueiredo | Arquivo das bandas filarmónicas – passagem para a realidade contemporânea
15:20h | Debate
15:35h | Painel II – Da banda para outros palcos
Moderador | André Granjo
Carlos Martins | Da Filarmónica ao Jazz – Criatividade Social e Improvisação
Jorge Campos | Banda vs outras áreas performativas
16:15h | Debate
16:30h |Coffee break
16:45h | Painel II(cont.) – Da banda para outros palcos
Moderador | Soraia Simões
Aurélio Nogueira de Sousa |Ensino colectivo em bandas marciais brasileiras: a realidade na cidade de Goiânia-Goiás
José Eduardo Cavaco | Academia de Música da Banda da Covilhã: onde a música nos inspira!
Miriam Cardoso | A flauta no contexto da música de câmara contemporânea portuguesa – Os últimos 40 anos
Paulo Vinícius Amado | Quando a banda toca choro: maxixes e tangos da banda de Anacletos de Medeiros e da bandinha de Altamiro Carrilho
18:05h | Debate
18:30h | Momento Musical com ensemble de sopros da Banda de Música da Força Aérea Portuguesa

 11 de Outubro | quarta-feira

 0:00h | Painel III – Micro-histórias
Moderador | Carlos Martins
Manuel Jerónimo | Leonel Duarte Ferreira e a Academia de Instrução e Recreio Familiar Almadense: uma relação proveitosa
Renato Pistola e Sofia Lopes | Há mais de 150 anos a pautar a cidade de Portalegre. A Sociedade Musical Euterpe (1860 a 2017)
Luís Miguel Tomé Correia | J.C. Martinó: um músico na Grande Guerra
11:00h | Debate
11:15h | Coffee break
11:30h | Painel III (cont.) – Micro-histórias
Moderador | Diogo Vivas
Margarida Cardoso | Sociedade Filarmónica Lobelhense: perspectiva sobre o seu passado, presente e futuro
Nicolás Rincón | El paisaje sonoro de la ciudad republicana. Las bandas de música en España entre 1931 y 1939
Leonel Batista Parente | Wehrmacht Musikkorps: a Música das Bandas Militares na Alemanha Nazista e sua Função Social
12:30h | Debate
12:45h | Almoço
14:15h | Painel IV – Memória| Arquivos| Preservação
Moderador | Maria do Rosário Pestana
Margarida Amaral |O acervo documental do Maestro Marcos Romão: diálogos em torno do seu conhecimento e preservação
Ana Sofia Costa | As Sociedades Filarmónicas de Almada: entre a afirmação da autenticidade cultural e a adaptação à mudança social
Pedro Marquês de Sousa | Foi há um século: O Repertório das Bandas entre o Pitoresco e o Idealismo Musical
15:15h | Debate
15:30h | Coffee break
15:45h | Apresentação do livro As bandas de música na história da música em Portugal, de Pedro Marquês de Sousa
Apresentação a cargo de _____?______
16:30h | Conferência de encerramento
Maestro António Victorino d´Almeida a confirmar
Tema: a designar

Há mais de 150 anos a pautar a cidade de Portalegre. A Sociedade Musical Euterpe (1860 a 2017) – Renato Pistola (CLPUL e CIDH) e Sofia Lopes (INET-md)

Resumo: Há mais de 150 anos que a “velhinha” Euterpe, fundada a 1 de Dezembro de 1860, dá música à cidade de Portalegre e participa no seu quotidiano, pautando-o com o seu som e com mestria. O seu nascimento e desenvolvimento estão indelevelmente ligados à associação mutualista Montepio Euterpe Portalegrense, na qual a filarmónica representava uma vertente cultural e recreativa que, no entanto, se afirmou e se manteve mesmo após a alteração na legislação sobre as associações mutualistas operada a partir de 1931 que ditou o fim de muitas destas associações. Este percurso de mais de cento e cinquenta anos confunde-se com a história de Portalegre e com os momentos que têm marcado esta cidade. Na reconstrução desta longa história, o importante acervo documental da Euterpe, bem como outras fontes documentais de Portalegre permitiram-nos acompanhar a evolução da Banda ao longo de século e meio, uma História que a Euterpe partilha não só com a sua cidade, mas igualmente com aqueles que a têm acompanhado nos mais diversos papeis. Deste modo, os testemunhos dos que partilham a sua vida com a Euterpe foram fundamentais para recriar as práticas musicais e para mapear as motivações que os têm movido. Num trabalho a quatro mãos, e ao cruzar as diferentes fontes e os diversos testemunhos, conseguiu-se levantar o véu sobre o papel social e cultural da Sociedade Musical Euterpe ao longo de mais de 150 anos.

Palavras-chave: Associação mutualista; Portalegre; Montepio; Euterpe Portalegrense

Biografias: Renato Pistola, doutorando em História Contemporânea na FLUL, é licenciado em História (2006) pela FCSH e mestre em História Contemporânea (2009) pela mesma instituição. É investigador no CLEPUL e na Cátedra Infante Dom Henrique para os Estudos Insulares e a Globalização (CIDH). Entre as suas publicações de maior relevância encontra-se a coautoria da obra Sob o Signo do Pelicano. História do Montepio Geral 1840-2015 (2015) e a autoria do artigo premiado internacionalmente Growing from Crises. The Portuguese Saving Bank Montepio Geral in the nineteenth-century (2012).

Sofia Vieira Lopes é investigadora e doutoranda em Ciências Musicais – Etnomusicologia no INET-md, na FCSH-NOVA, com um projecto financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia intitulado: “Em Playback” – o Festival RTP da Canção e a produção musical em Portugal (1964-2014). É Licenciada e Mestre em Ciências Musicais – Etnomusicologia pela mesma faculdade, concluindo com uma dissertação intitulada “Duas horas vivas numa TV morta”: Zip-Zip, Música e Televisão no preâmbulo da democracia em Portugal. Durante a licenciatura foi bolseira da FCT (BII) noINET-MD, no âmbito do projecto A indústria fonográfica em Portugal no Séc. XX. Actualmente desenvolve trabalho de investigação em torno do Festival RTP da Canção, Musica e media e Indústrias da música. O seu interesse académico pelo universo das Bandas Filarmónicas em Portugal reflecte-se na publicação bilingue comemorativa dos 150 anos da Sociedade Musical Euterpe de Portalegre (Pistola e Lopes, 2013) e no Trabalho de Campo realizado na Orquestra de Sopros de Ourém (2008-2009). Foi Vogal da Direcção Pedagógica e leccionou as disciplinas de Formação Musical, Desenvolvimento Criativo e Classe de Conjunto na Escola das Artes do Alentejo Litoral, Sines (2012-2013). Leccionou História da Música e História da Cultura e das Artes no Conservatório de Artes da Canto Firme, Tomar (2014-2015), e no Conservatório de Música de Ourém e Fátima (2013-2015), onde havia leccionado (2009-2012), as disciplinas de História da Música, Classe de Conjunto e Área de Projecto Artístico. Estudou Clarinete no Centro de Formação Artística da Sociedade Filarmónica Gualdim Pais – Tomar, onde trabalhou com os professores António Rosa e Gonçalo Conceição, realizando masterclasses com os clarinetistas Nuno Silva, Bruno Graça e Paulo Gaspar.

 J.C. Martinó: Um músico na Grande Guerra – Luís M. T. Correia (Escola Superior de Música de Lisboa / Banda do Exército)

Resumo: Através da vida de José Cândido Martinó (1872-1949) conseguimos um testemunho único para a compreensão da história da música militar em Portugal desde as últimas décadas da Monarquia ao Estado Novo, passando pela crise latente da música militar na I República e o relato impressionante testemunhado na primeira pessoa, do que foi a experiência de um músico e da sua Banda na 1.ª Guerra Mundial (c. 500 postais enviados de França à sua filha). Músico militar desde os 12 anos (1884, Caçadores 9, Viana do Castelo) e chefe de banda aos 22 (1894, Infantaria 22, Portalegre), aqui se observam também as relações institucionais entre o Conservatório e as Bandas militares (a legislação de 1870 obriga a exame no Conservatório para a ascensão aos postos cimeiros da carreira de músico militar). Reflexo da conexão profunda com o meio civil, são os exemplos apontados de frequentes notícias na imprensa local e nacional, constituindo esta um verdadeiro fórum de informação, opinião e discussão aberta sobre estes temas, com crítica aberta a opções artísticas e a disputas locais pela sua banda, fazendo um retrato muito vivo da importância social que esses organismos detinham junto das populações por todo o território nacional. Por outro lado, a participação activa da banda militar em festividades religiosas e espectáculos sociais, bem como as actividades de José Cândido Martinó como professor de Liceu, autarca e cronista na imprensa local, dão-nos conta do papel interventivo do músico militar nos mais diversos campos da sociedade de então.

Palavras Chave – Músico Militar; Banda Militar; Grande Guerra

Biografia: Luís Miguel Tomé Correia. Mestrado em Artes Musicais, Professor nas áreas de Fagote e Música de Câmara da Escola Superior de Música de Lisboa, membro da Banda Sinfónica do Exército e 1.º fagote da Orquestra Sinfonietta de Lisboa, foi ainda professor convidado do Mestrado em Direcção de Orquestra de Sopros do ISEIT- Piaget, Almada. Nasceu em 1968 em Mafra onde inicia os seus estudos musicais na escola de música da banda local. Em 1986 ingressa como voluntário na banda militar da EPI. Mais tarde estuda no Conservatório Nacional e posteriormente na Escola Superior de Música de Lisboa, pela qual é Licenciado em fagote. Em 2007 atinge o grau de Mestre em Artes Musicais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, na qual apresentou a Dissertação subordinada ao tema: Bandas e Músicos Militares em Portugal.