1918 – Há Cem Anos – oitenta e oito

No dia 13 de Agosto de 1918, Aurora Martinó conclui o Curso de professora na Escola Normal de Portalegre. Valeu-lhe portanto em termos de futuro a estadia na cidade, onde acompanhou a sobrinhita Benvinda.

Ainda nesse mês, José Cândido leva a cabo um atento estudo aos inúmeros folhetos de publicidade a diversos estabelecimentos de ensino particular da capital, e não só, que solicitara em correspondência travada e que obtivera, até, em visitas pessoais a alguns deles. Ele pensa numa educação esmerada para a filha, que a oferta portalegrense -segundo o seu exigente critério- não garante.

No dia 18 de Agosto, “A Rabeca” assinalara a estada em Portalegre de alguns combatentes: “Expedicionários. Vindos do ‘front’ acham-se entre nós os nossos prezadíssimos amigos: 1.º sargento José de Albuquerque, 2.os sargentos Augusto da Silva e Frederico Mourato e sargento-músico Serpa. Também aqui se encontra de licença o sr. Cândido Martinó, chefe da banda de infantaria 22. Com um abraço, a todos saudamos.”

“Músicas” é o título de uma curta local que “A Plebe” inclui na sua edição do dia 1 de Setembro. Aí se resume a “solução” que compensara, junto da comunidade portalegrense, a prolongada e dolorosa ausência da sua banda predilecta: “No Jardim Público, delicia-nos hoje das 20 ½ às 22 ½ com alguns números do seu reportório a distinta Banda Euterpe. Na pretérita 2.ª feira não tivemos o prazer de ouvir a apreciada Banda dos Bombeiros, conforme noticiámos aos nossos leitores, em virtude do falecimento dum filhinho dum dos executantes. Esta banda dará em breve o anunciado concerto”. Quanto à Banda do 22, essa não irá tão depressa retomar o seu lugar…

Um dedicado músico da banda enviaria ao seu maestro, José Cândido, notícias sobre o que dela resta por França. Dois postais ilustrados alusivos dão conta dessas informações.

O dia 4 de Setembro de 1918 torna-se histórico quando a Conferência dos Aliados, reunida em Versalhes, chega a acordo sobre os termos de uma paz com a Alemanha. Quase coincidentemente, logo no dia seguinte, o capitão José Cândido é considerado apresentado no regresso ao País por ter terminado a licença de campanha (noventa e um dias) que lhe fora concedida em França.

Ei-lo, portanto, reintegrado em Portalegre nas suas funções artístico-militares, desta feita bastante reduzidas no que respeita à primeira componente. Com a filha, já no seu internato escolhido em Lisboa, vai reatar-se a cadeia comunicativa por intermédio dos habituais bilhetes ilustrados.

Mas esta nova série, mensagens em tempo de paz, já não cabem aqui. Ficarão, eventualmente, para um outro conjunto…

De França, as notícias bélicas acentuam os sinais de uma próxima vitória dos Aliados. Mas um novo drama irá instalar-se entre nós, com a questão dos prisioneiros portugueses na Alemanha, onde se contam alguns portalegrenses.

A crónica presente interrompe-se aqui. Voltará quando houver um novo pretexto. E este existe.

1918 – Há Cem Anos – oitenta e sete

Em 1 de Agosto de 1918, o capitão José Cândido Martinó reentra definitivamente em Portugal, no gozo da licença de campanha que lhe fora concedida.

A profusão de carimbos alusivos, impostos no seu passaporte, atesta a enorme burocracia militar e civil que controlava todos os movimentos relacionados com o conflito bélico.

Findara assim a exaustiva troca de correspondência de guerra com a filhita, Benvinda, em Portalegre. Mais de meio milhar de postais ilustrados, datados de França, ficaram a documentar esta relação.

Poucos dias depois, precisamente a 6, Benvinda conclui, com distinção, a sua habilitação primária, com a realização do exame do 2.º Grau, em Portalegre.

Poderá então, mais tranquilamente, apreciar os blocos de colecções de postais ilustrados que o pai trouxera da França e das suas viagens: Aire-sur-la-Lys; Saint-Omer (13/4/917); Béthune (duas), Boulogne-sur-mer e Brest; Madrid; Madrid (Recuerdo, 1.ª, 2.ª e 3.ª séries); Real Palácio de Madrid; Salamanca; Paris; Paris (séries 1 e 2); Versilles et les Trianons; Musée du Louvre; Musée du Luxembourg; Bordeaux (2); Toulouse; Bayonne; Pau; Chateau de Pau; Lourdes; Biarritz; Pyrénées Centrales; três blocos da série “A Grande Guerra – La Grande Guerre“, do Serviço Fotográfico do C. E. P., Fotografias de Garcez: – Os Portugueses em França;- Os Portugueses na Frente de Batalha;- Sector Português: Zona devastada; – Le Chemin de La Croix (Editions Artistiques, Paris); – Jeanne d’Arc; – Collezione Artistica di Cartoline – 12 Angeli del F. Angelico; – Napoleon Bonaparte, etc.

A propósito das inúmeras edições de diversa natureza que José Cândido adquire em França, saliente-se uma grande profusão e variedade de músicas soltas ou em volume. Entre as mais interessantes, estão a “Canção do Minho”, para piano e canto, com letra do alferes de infantaria Ernesto Sardinha e música do maestro militar Inácio M. da Costa, numa edição impressa francesa, datada de 15 de Julho de 1917; “Hymne de Paix”, palavras e música de Madeleine Frondoni Lacombe, composição dedicada a madame Camille Flammarion, da Associação “La Paix et le Désarmement par les Femmes“; “La Marseillaise et le Chant du Départ”, magnífico estudo ilustrado da autoria de René Brancour, editado por Henri Laurens, Paris, em 1915.

Pelas indicações datadas, local e dia, constantes em alguns destes documentos, foi possível reconstituir com elevado grau de probabilidade as deslocações do capitão José Cândido Martinó, nos finais da sua estadia em França, neste ano de 1918.

Entretanto, na frente de combate, em França, a partir de 8 de Agosto e até 10 de Novembro, os exércitos aliados conseguem voltar à guerra de movimento, dominando a iniciativa, e obrigam as tropas alemãs a um pesado e doloroso regresso às suas próprias fronteiras. O exército alemão só se salvará do aniquilamento total com o armistício de 11 de Novembro de 1918.

Porém, o Corpo Expedicionário Português terá um fim pouco compatível com o desejado e até merecido. Terminará a guerra com meia dúzia de baterias e batalhões, forças dispersas incluídas em unidades inglesas e empregues principalmente em actividades de segunda linha.

O enorme esforço português conduziria a uma triste sucessão de desastres tanto na Europa como em África. A razão de fundo não fora militar nem humana, mas antes política: a nação não estava unida, motivada ou preparada para lutar na Primeira Guerra Mundial.

Esta é a rigorosa verdade que ressaltará de toda esta inglória gesta.

1918 – Há Cem Anos – oitenta e seis

18 de Julho – “França. Tens passado bem? O teu exame deverá estar muito próximo. Os meus requerimentos continuam sem solução”.

19 de Julho – “França. Continuo aguardando a solução dos meus requerimentos”.

20 de Julho – “França. Continuo passando bem. Se amanhã não chegar o deferimento do meu requerimento, já não posso retirar no dia”.

21 de Julho – “França. Já perdi a esperança de partir no dia 22. Veremos se isso será possível em 28”.

Passados meses sobre a tragédia humana de La Lys, a imprensa nacional ainda inclui notícias e comentários sobre esse drama bélico que enlutou centenas de famílias portuguesas. È o caso da conceituada revista Ilustração Portugueza, uma edição semanal do jornal O Século, no seu número datado de 22 de Julho de 1918.

22 de Julho – “França. Por causa dum patifório, desde longa data meu conhecido, é que hoje não parti para aí no gozo de licença. Caso não vá em 28, já não sei quando poderei retirar definitivamente“.

23 de Julho – “França. Continuo aguardando a malfadada solução dos meus requerimentos. Cada vez tenho menos esperança de poder retirar em 28“.

24 de Julho – (dois postais) “França. Ainda nada de licença. Há já umas duas ou três noites que não aparecem os vendedores de rhum.” ; “França. Acaba de chegar a concessão da minha licença. Se não houver qualquer caso imprevisto, parto do ponto onde me encontro no dia 28. Talvez ainda possa festejar o dia do teu 10.º aniversário“.

A pequena Benvinda fazia anos em 13 de Agosto…

25 de Julho – “França. Como já ontem te disse, tenciono partir para Paris no dia 28, para depois aguardar na fronteira ocasião para a poder passar. Até que enfim! Sinto-me mais aliviado!

26 de Julho – “França. Cada dia me parece um século. Só acredito no meu regresso a Portugal quando me vir dentro do comboio, e já bastante afastado destas paragens bastante doentias“.

 

O balanço postal deste mês de Julho de 1918, revela-se muito desigual. De França, partiram 27 postais, sendo 15 do tipo romântico e 12 de tema religioso, enquanto de Portalegre apenas chegou uma carta.

Existem ainda uma carta de Aurora e mais duas cartas de Benvinda, estas nunca referidas na correspondência de José Cândido, que talvez as não tenha chegado a receber em França…

A carta da irmã Aurora, data de 10 de Junho – Portalegre: “Meu querido Padrinho. (…) Tem este bilhete o fim de pedir ao Padrinho para que dê ordem ao Papá para me comprar um vestido e uns sapatos pois faço agora exame e não tenho vestido nenhum em termos. (…) A Mamã e o Papá mandam-se recomendar e a Benvinda envia-lhe muitos beijinhos. Envia-lhe um abraço a sua afilhada muito amiga,  Aurora Martinó“.

1918 – Há Cem Anos – oitenta e cinco

12 de Julho – “França. Já aí terá chegado o músico Serra? O tempo tem estado horrível. Continuo aguardando o resultado do meu requerimento“.

13 de Julho – “França. Consta que vão restabelecer as licenças de campanha. Se for verdade, requeiro imediatamente licença pois estou na ver que nunca mais chega a solução do meu requerimento. Deram-me hoje notícias do filho do major Piedade. Está bom“.

14 de Julho – “França. Entreguei hoje um requerimento pedindo licença; talvez com este novo requerimento se lembrem de dar despacho ao primeiro que fiz. Há mais de um mês que deixei de saber notícias tuas“.

Nesta precisa data, apesar dos sinais militares prometedores, ninguém se atreveria a prognosticar que dali a um ano preciso, em 14 de Julho de 1919, um contingente de 150 soldados do Corpo Expedicionário Português, integrado nas forças aliadas do marechal Foch, marcharia no Desfile da Vitória, na Place de L’Etoile, em Paris, sob o comando do coronel de Infantaria Adriano Ribeiro de Carvalho, tendo precisamente como porta-bandeira o tenente de Infantaria Perestrello D’Alarcão e Silva, do Regimento de Infantaria n.º 22, de Portalegre.

15 de Julho – “França. Cada vez me sinto mais desanimado. Actualmente aguardo a solução dos dois requerimentos. Já perdi as esperanças de assistir aos teus anos“.

A denominada 2.ª Batalha do Marne ou Batalha de Reims começou neste dia 15 de Julho de 1918, prolongando-se até 5 de Agosto. Foi a última importante ofensiva alemã na Frente Ocidental e falhou quando um contra-ataque maciço dos Aliados, liderados pelas forças francesas e contando com várias centenas de tanques, oprimiu os alemães no seu flanco direito, infligindo-lhes pesadas baixas.

16 de Julho – “França. Mudei de casa onde me deram quarto com uma bela cama. É um luxo que eu há mais de 3 meses não apreciava. Já hoje partiram alguns de licença mas eu cá vou continuando a esperar o resultado dos meus dois requerimentos“.

Um pormenor interessante dá conta de que, apesar do evidente estado de angústia vivido pelo capitão José Cândido Martinó, isso não lhe perturbou o permanente sentido cultural. Neste preciso período, dia-a-dia, enviou à filhita Benvinda uma preciosa colecção de 7 postais ilustrados, alusivos à Criação do Mundo…

17 de Julho – “França. Hoje não recebi jornais nem qualquer outra correspondência. Se tal facto não é devido aquilo que eu suponho, acho isto muito extraordinário! Nada de solução aos dois requerimentos .

Nesta mesma época, com os alemães a perderem coesão a olhos vistos, o general francês Ferdinand Foch -nomeado comandante-chefe dos exércitos aliados durante a pior fase dos ataques alemães- declara que chegou o momento certo para uma ofensiva. Vai iniciar-se agora, portanto, um contra-ataque dos Aliados em grande escala.

1918 – Há Cem Anos – oitenta e quatro

1 de Julho – “França. Do meu requerimento, ainda nada. Hoje, para me distrair, fui dar um grande passeio de que muito gostei e assisti à inauguração de um Club e escola“.

2 de Julho – “França. Faz hoje 17 meses que cheguei a França pela 1.ª vez, e nunca me senti tão aborrecido e desanimado como actualmente. Ainda não chegou a solução ao meu requerimento“.

3 de Julho – “França. Continuo aguardando a solução do meu requerimento. Com tanta demora, vou perdendo um pouco a esperança de retirar“.

5 de Julho – “França. Já me vai dando bastante cuidado o não receber correspondência tua e de casa. Assim como recebo jornais, também poderia receber o resto, se me escrevessem. Estou aguardando ordens“.

6 de Julho – “França. Ainda não veio resposta ao meu requerimento. Já vai demorando bastante“.

7 de Julho – “França. Cada vez estranho mais o não receber correspondência tua. Hoje fui dar um grande passeio de automóvel. Ainda nada veio relativamente à minha retirada para Portugal“.

Estes regulares passeios de automóvel permitem, de certo modo, reconstituir os percursos do capitão José Cândido Martinó por terras francesas, sobretudo através dos postais ilustrados que ele sempre adquiria em todos os locais visitados. Pelas colecções que conservou é também possível conhecer um pouco da mentalidade social francesa patente nessa iconografia. Curiosamente, pelo confronto com a imagem nacional revelada por postais portalegrenses da mesma época, deduz-se uma notável semelhança, pois em ambas as sociedades urbanas se revela o particular gosto por uma certa pose colectiva.

Para memória futura…

8 de Julho – (dois postais) “França. Além de gerente de mess perpétuo também sou censor. Ontem à noite, quando estava desempenhando o meu ingrato papel de censor, fui obrigado a interromper tal servicinho, por 3 vezes, e os últimos vidros do meu quarto voaram.“;” Na ocasião em que procurava um pequeno abrigo, fui intimado a sair duma forma bastante singular. Nunca como desde que vim para França apreciei, nos devidos termos, o que é a boa camaradagem e o verdadeiro egoísmo!… Já quando da minha estada em Tancos, tinha tirado grandes ensinamentos; mas nunca como agora eu apreciei tal intimidade!…

Os sublinhados existem no original!

9 de Julho – “França. Hoje fiquei apenas com 2 músicos! Será conveniente que o Avozinho se informe com o Aspirante Pestana se eu já poderia passar a receber correspondência da minha família“.

10 de Julho – “França. Ainda nada de ordem para partir. Já vou estando outra vez bastante desanimado“.

Neste mesmo dia, em Portugal, é publicada a portaria que nomeia o novo comandante do C. E. P., o general alentejano Garcia Rosado.

11 de Julho – “França. Não compreendo a razão porque recebo jornais e não recebo correspondência tua ou de casa. Ainda não veio resposta ao meu requerimento. Requeri para remeterem para Portalegre as duas malas vazias e o arquivo“.

A prolongada ausência de notícias de casa, sobretudo da filha, agrava a angústia do pai…

1918 – Há Cem Anos – oitenta e três

23 de Junho – “França. Já recebeste a encomenda que te mandei pelo músico Serra?

24 de Junho – “França. Ontem fiquei esperançado em que brevemente regressarei a Portalegre. O tempo continua frio e chuvoso“.

25 de Junho – “França. Já lá chegou o músico Serra? Ainda não veio resposta ao meu requerimento“.

26 de Junho – “França. Afinal de contas não há forma de ver a solução dada ao meu requerimento! Que vida tão aborrecida e estúpida eu tenho tido ultimamente! Restam-me apenas 8 músicos da minha Banda“.

27 de Junho – “França. Mandaram-me hoje dizer que brevemente devo melhorar bastante de situação e dando até esperança de breve regresso a Portugal. Inf. 22 sai de Portalegre?

Esta pequena nota, uma simples pergunta, encerra a informação ainda difusa sobre o futuro destino da unidade. A banda e depois o regimento terão os dias contados na cidade de Portalegre…

Porém, em flagrante contraste com o pessimismo pessoal de José Cândido, nesta mesma data de 27 de Junho de 1918 publicava-se em Portalegre um artigo: “A Rabeca em França. Ontem recebemos em postal a seguinte boa nova: Redacção da Rabeca – Portalegre. A banda de música de infantaria 22 encontra-se de boa saúde e recomenda-se a suas famílias e a todos os amigos. Temos esperança na vitória, que sem dúvida será nossa. Viva Portugal.” Não assinado…

28 de Junho – “França. Não compreendo qual a razão porque os mais recebem correspondência e eu não! Tens escrito todos os dias?

29 de Junho – “França. Há quanto tempo não me escreves? Estou à espera de ser chamado para a Base“.

30 de Junho – “França. Terás recebido a minha correspondência diária?

A angústia do pai perante a ausência de notícias da filha persiste. Aliás, a desproporção da correspondência enviada e recebida pode avaliar-se pela estatística do mês de Junho de 1918: de França – foram enviados 34 postais, sendo 33 de cariz romântico e 1 de tema religioso, enquanto de Portalegre a recepção se limitou a uma carta e três postais ilustrados: 2 românticos e 1 com vista de Póvoa do Varzim. 

1918 – Há Cem Anos – oitenta e dois

16 de Junho – “França. Que feliz eu seria se já pudesse assistir ao teu exame!… Já vai tardando a solução ao meu requerimento. Cada dia me parece um século. Nunca me senti tão desanimado e aborrecido de tudo isto que me rodeia e vejo!

18 de Junho – “França. Maldita guerra que não tem fim! Ainda nada veio relativamente ao meu requerimento“.

7 de Junho – Portalegre: “Ficou hoje solucionada a greve dos Caminhos de Ferro que durou desde Domingo. Ainda para mais vimos agora no Século que está fechada a fronteira franco-espanhola e franco-suiça também está fechada; tudo são atrasos e dificuldades; mas tudo se remedeia, o principal é que o Papá tenha saúde. (…) Já morreu o grilinho, apareceu morto na gaiola; tive pena, porque era um bom cantador“.

No terreno, em França, os exércitos locais conseguem atacar com sucesso o flanco do avanço alemão na chamada Ofensiva Gneisenau. O general alemão Eric Ludendorff empenha fortemente o seu 7.º Exército nas operações e a luta é muito intensa sobretudo entre 11 a 28 de Junho de 1918, com a participação de divisões norte-americanas. No final, o avanço alemão é reduzido mas as baixas foram superiores a 150 mil homens, de ambos os lados. 

Ludendorff sente que a resistência aliada aumenta e sabe que sofreu perdas muito pesadas, mas é obrigado a insistir na ofensiva, como única forma de decidir a guerra. Por outro lado, o general francês Ferdinand Foch acredita que o novo ataque alemão será na direcção de Paris e prepara-se para resistir. Mas pensa já no contra-ataque. O general inglês Douglas Haig recuperara forças quando a pressão alemã passou para o sector francês e, por isso, prepara-se igualmente para passar ao ataque.

A guerra parece começar a inclinar-se, finalmente, para o lado dos Aliados…

19 de Junho – (dois postais) “França. Não calculas o estado de aborrecimento e desânimo em que me encontro actualmente! “; “França. Já depois de ter escrito o 1.º bilhete é que recebi cartinha tua, que muito agradeço, pois há já bastante tempo que não recebia notícias tuas. Não há maneira de haver sossego no país! Com que então o grilo não quis esperar pela noite de S. João?

20 de Junho – “França. Hoje recebi apenas o Século. Enfim, já vou recebendo alguma coisa! Ainda não veio a resposta ao meu requerimento. Já vou estranhando bastante a demora“.

21 de Junho – “França. Ainda nada veio relativamente ao requerimento em que pedia para regressar a Portugal“.

22 de Junho – “França. O tempo tem estado muito agreste; não parece estarmos em Junho“.

As alterações climáticas, pelos vistos, já por essa altura se faziam sentir nas terras da Flandres…