1917 – há cem anos – trinta e três

30 de Julho – “França. A tosse vai desaparecendo? Em todas as igrejas de França existe a imagem de Joana d’Arc. Julgo que já te disse que a parte da casa mais cuidada é a cozinha; até aí colocam o piano! (…) Esta noite consegui dormir. Raro é o dia em que não chove ou troveja“.

O balanço postal relativo ao mês de Julho de 1917 mostra-nos: vindos de França, são 31 postais, dos quais 27 do tipo romântico, 2 de tema infantil e dois (dias 24 e 25) pintados à mão, enquanto de Portalegre se contam, apenas, duas cartas.

Desde 31 de Julho, com prolongamento até 6 de Novembro, travar-se-á a terceira e sangrenta Batalha de Ypres. Os britânicos, os australianos e os canadianos abrirão difícil caminho para a aldeia de Paachendaele.

Foi também neste mês de Julho de 1917 que a Inglaterra lamentou retirar do serviço português um dos dois navios que asseguraram a rotação das unidades, segundo nos conta a “História de Portugal”, dirigida por João Medina, Ediclube, 1933.

E em Agosto continuam os anos da Guerra, em França, “traduzidos” nos bilhetes postais ilustrados do capitão José Cândido Martinó para a filha Benvinda, em Portalegre, assim como as respostas desta.

 “O Tagarela” n.º 2, datado precisamente de 1 de Agosto de 1917, insere no seu “Carnet Mondain” (pág. 5) uma notícia pessoal relativa ao maestro militar: “Vai partir brevemente para a 1.ª D. o nosso querido amigo e insigne ‘maestro’ Martinó. Boa viagem, saúde e … [Notícia atrasada na Redacção, porque como sabemos já tinha partido!]”.

O próximo “capítulo” da presente evocação será dedicado, como anteriormente se fez, à reprodução integral do segundo exemplar deste “jornal das trincheiras”.

Entretanto chegou a França mais uma missiva de Portalegre.

28 de Julho – Portalegre: “Eu vou passando melhor, bastante melhor da coqueluche que, em princípio, me apoquentou bastante. Fui bem tratada. (…) Diziam que era moléstia para seis ou mais meses e que teria de mudar de ares, mas até ao presente nada disso foi preciso. Fiz no dia 14 o meu exame, ainda com muita tosse, mas com muita coragem“.

Em 5 de Agosto, “O Distrito de Portalegre” publica mais uma lista de: “Baixas em França. Infantaria 22. Faleceram de 8 a 21 de Julho, por efeito de ferimentos em combate: 1.ª Companhia de Portalegre: 1.º cabo n.º 549, António Belo Alfaia; 1.º cabo n.º 369, Reinaldo Mendes; soldados n.º 323, Custódio Mourato Ceia; n.º 363, José Brito; n.º 927, Manuel António; n.º 165, António Bruno. 5.ª Companhia de Abrantes: soldado n.º 466, José Martins (poderá ser este o nome a mais na relação de 8 de Julho?!). 9.ª Companhia de Elvas: soldado n.º 154, Joaquim Manuel.

10 de Agosto – “França. Faço votos pelo teu completo restabelecimento. Julgo que retiro no dia 15; aqui estava muito melhor mas não posso continuar porque tem que passar por todos. (…) O tempo continua a estar mau. Hoje talvez vá dar um passeio de automóvel a uma cidade já minha conhecida e bastante bonita“.

11 de Agosto – “França. Muito estimo  a continuação das tuas melhoras. (…) Sempre é no dia 15 que retiramos. Ontem não pude dar o tal passeio de automóvel. (…) Já recebeste algum bilhete meu com alguma palavra cortada ou pincelada?

As preocupações com a potencial intervenção da censura continuam…

12 de Agosto – “França. Fui hoje dar um belo passeio de automóvel; encontrei-me com alguns amigos que ainda cá não tinha visto. Os passeios de automóvel têm sido muito baratos”.

O jornal “O Distrito de Portalegre”, em 12 de Agosto de 1917, repetia a notícia já conhecida: “D. Maria Joana Dias Gonçalves. Mais uma vez esta senhora, distinta professora de ensino particular, mostrou o seu amor pela causa da instrução. Todos os seus alunos obtêm sempre boas classificações, o que prova as faculdades de inteligência de que é dotada e o seu aturado trabalho. Apresentou este ano a exame com óptimo resultado os seguintes alunos: 1.º grau – Benvinda d’Alegria Ceia Martinó…”

Ao lado, o mesmo jornal apresenta uma outra notícia, de tom muito menos agradável: Infantaria 22. Baixas em França. No dever sagrado da defesa da Pátria, faleceram em França de 21 a 28 de Julho; por efeito de intoxicação de gases: 1.ª companhia, N.º 174, Artur Gonçalves; 384, Apolinário Raimundo Cardigos; 486, Francisco Marques; 596, José Luís; 684, Augusto da Silva; 691, António Acates. Por efeito de ferimentos: 6.ª companhia, n.º 278, José Alves Pereira”.

Noutros semanários locais, como de costume pouco rigorosos, as relações acusam nomes diferentes ou variantes…

1917 – há cem anos – trinta e dois

O capitão José Cândido Martinó confirmaria pelo semanário “A Plebe”, na edição de 19 de Julho de 1917, que recebeu em França, o excelente resultado escolar da sua filhita Benvinda. Curiosamente, esta nota local inclui o nome de outros portalegrenses que se destacariam na sociedade local, como por exemplo Maria Luísa Firmino Costa Pinto, Maria Teresa Roma Alves de Sousa, António Firmino Costa Pinto ou Carlos José Maçãs Nogueiro. Mas só ao regressar à Pátria teve oportunidade de apreciar o respectivo diploma, documento oficial que ficou a atestar o magnífico comportamento da pequena aluna.

Continuava entretanto a preocupar-se com o seu abalado estado de saúde…

25 de Julho – “França. Tu vais estando melhor da tal coqueluche? (…) Passamos a ter exercícios matutinos, a certa altura a petizada que vai para as escolas junta-se à música e não quer saber da escola. [As Ordens dos dias 22, 23, 24 e 26 do corrente mês determinam que a banda de música acompanhe companhias de Infantaria 34 e 21 em exercícios de marcha] Nos dias chuvosos, as rãs vêm ter comigo à cama. Já temos protestos harmoniosos. A festa de amanhã promete estar animada“.

26 de Julho – “França. E tu já te encontras restabelecida da tal coqueluche? (…) As latas da ração são em tal quantidade que há ruas calçadas de latas. A lata está em foco! No dia 28 parto para onde ia várias vezes dar concertos, com demora de 15 a 20 dias. [Fica superiormente determinado que o chefe da banda desta Brigada de Infantaria e o respectivo pessoal marchem em diligência para o comando da 1.ª Divisão, em Lestrem] Para aquelas paragens não há arraiais“.

27 de Julho – (dois postais) “França. Muito estimo que vás melhorando da impertinente tosse. Sempre retiro amanhã. (…) Preciso saber se tens tomado a fosfiodoglicina e a emulsão. O serviço de correio é tudo quanto há de mais detestável e horrível“.

28 de Julho – “França. Vais melhorando da impertinente tosse? (…) Retiro hoje às 4 horas. Está um calor abrasador. Bem bom seria que não tivesse que voltar ao mesmo sítio“.

29 de Julho – (dois postais) “França.  A gente é velhaquíssima; apesar de pagar um franco diário pelo quarto, pela manhã pedi água para me lavar, disseram que fosse à fonte!… De tudo fazem dinheiro. Às 11 horas fui à missa, rezada por um padre-soldado. A novidade que aqui encontrei foi ver um homem muito alto e de grandes barbas, envergando uma farda à ministro, com o competente chapéu na cabeça, empunhando um grande…“; “França. … bastão com toda a pose, fazendo a polícia da igreja e ao mesmo tempo servindo de mestre de cerimónias; pois caminhava à frente do padre quando ia para o altar, à frente do pregador quando ia para o púlpito e à frente dos vários padres e ajudantes que por 5 ou 6 vezes fazem peditório aos fiéis que vão à igreja para ouvir missa, mas que mesmo ali têm de entortar o cotovelo para largar a histórica esmolinha. Temos música todos os dias, mas apesar disso quero ver se consigo fazer umas pequenas viagens“.

A 29 de Julho de 1917 tinha “A Plebe” divulgado mais um “Quadro de Honra”, que inserira, além de diversos feridos, o nome do soldado n.º 154 da 9.ª Companhia, Joaquim Manuel, falecido em 13 do corrente, em virtude de ferimentos em combate.

Velhos são os trapos mas os papéis não! – trinta e um

ECO MUSICAL EM PORTALEGRE

Retomando o espírito desta série, recorda-se hoje um quase ignorado episódio da história de Portalegre nos meados da década de 20 do passado século. Em boa verdade, o acontecimento limitou-se, na prática, a um encontro de natureza corporativa, envolvendo músicos militares. Tratou-se da visita de Arthur Odorico Rapozo, ao tempo director-editor da revista trimensal Eco Musical – Órgão Defensor dos Músicos Portugueses. Fundada em 1911 por Álvaro Raphael de Macedo e Ferreira Braga, a publicação pretendia dar corpo às aspirações dos músicos nacionais, especialmente os militares que, com as bandas regimentais então atravessando uma prolongada crise, justamente temiam pelo seu futuro.

Como se sabe, era entre estes que se encontrava a maioria dos regentes das filarmónicas civis, pelo que a manutenção e o desenvolvimento da prestigiada arte musical portuguesa estavam de certo modo ameaçados.

Foi neste contexto que Arthur Raposo encontrou em Portalegre, nos dias 25 a 27 de Outubro de 1925, um clima de carinho e interesse, revelado pela “reportagem” depois inserida na revista cujas páginas alusivas a seguir se reproduzem.

1917 – há cem anos – trinta e um

Novo texto de “A Plebe” é publicado na data de 15 de Julho de 1917, sob o título “Quadro de Honra”. Porém, este artigo contém apenas uma saudação às suas tropas, em França, subscrito pelo comandante do Regimento de Infantaria 22 na Ordem regimental de 9 do corrente: “Saudação. Mais uma gota do sangue histórico da Terra Transtagana acaba de ser vertida em prol da Pátria comum – do mesmo que correu em Montes Claros, em Atoleiros, nas Linhas de Elvas, nos plainos saudosos de Olivença. Forças deste regimento, as mais duramente provadas nos combates de 11-12 e 12-13, acabam de escrever uma bela página dos Novos Lusíadas. Em nome do regimento, em nome da Pátria agradecida, eu saúdo, cheio de emoção, o batalhão heróico do 22, que nos lugares santos onde a Civilização padece uma agonia suprema, se encontra nesta hora trágica batalhando, sofrendo e morrendo por uma Ressurreição luminosa da Justiça, que há de unir os homens pelos laços duma Fraternidade confiante; venero e sinto as lágrimas que neste momento brotam de olhos amargurados, caindo como orvalho piedoso sobre a Terra Portuguesa; envio um brado do meu entusiasmo aos vivos e presto uma derradeira homenagem de saudade aos mortos gloriosos. Francisco Soares de Lacerda Machado. Major”.

16 de Julho – (dois postais) “França. No dia 14, também tivemos uma grande revista. Puxámos alguns Batalhões a pau e corda. A certa altura, os meus artistas fizeram-me lembrar o círio de N.ª S.ª da Atalaia. Presumiam que a guerra era a história da “sorte grande” que só sai aos outros. Tive que lhes fazer ver que a guerra é uma rede que arrasta valentes e poltrões e que a guerra não é beber copinhos de vinho e jogar a bisca e o dominó. No que alguns heróis do 14 de Maio haviam de dar!… Em geral, nas festas, a nossa bandeira prima pela sua ausência“.

Neste dia 16 de Julho de 1917 registou-se um violento raid alemão contra o sector de Neuve Chapelle.

7 de Julho – Portalegre: retrato de Benvinda com dedicatória, em postal datado: “Como prova de muito amor oferece ao seu querido Papá a sua filhinha Benvinda d’Alegria Ceia Martinó“.

17 de Julho – “França. Recebi carta do Avozinho e os teus lindos retratos. Ficaste muito chic; obrigado pela tua oferta. Então ainda não estás livre da maçada do exame?

18 de Julho – “França. Logo que faças exame, vais para a Quinta de S. Nicolau passar uns dias“.

22 de Julho – “França. Hoje tenho música. (…) Não sei se já te mandei dizer que no dia 20 recebemos um presente das damas brasileiras“.

Este dia corresponde à terceira publicação do “Quadro de Honra” em “A Plebe”. Desta feita, e excluindo a relação de feridos em combate, é a seguinte a lista de: “Mortos. Que faleceram no 51 H. C. C. I, as seguintes praças: 1.º cabo n.º 852 – Carlos Monteiro, falecido em 12-6-917; soldado n.º 683 – José Esteves, falecido em 13-6-917; soldado n.º 470 – António Ribeiro Fernandes, falecido em 13-6-917; soldado n.º 554 – Luís Gonçalves, evacuado por um dos H. B.; soldado n.º 748 – Ramiro Dias, falecido em 14-6-917”.

24 de Julho – “França. Tu vais melhor da coqueluche?

17 de Julho – Portalegre: “Já deve saber do resultado do meu exame que principiou no dia 13 e concluiu no dia 14; fiquei aprovada com Distinção – um Óptimo. Alguns dias antes do meu exame fui atacada do mal que por aqui tem grassado bastante, a coqueluche, que me apoquentou bastante; já me sinto melhor; o snr. Dr. Abreu tem tratado de mim. Só me apoquenta a tosse convulsa; mas isto há-de passar. (…) O Papá já deve ter recebido os meus retratos. Gostou deles?

O jornal “O Distrito de Portalegre”, na sua edição de 19 de Julho de 1917, publicou a notícia local: “Pela instrução. Exames de instrução primária (1.º grau). Dia 14 – Das escolas particulares de D. Maria Joana Dias Gonçalves…: Óptimo – Benvinda d’Alegria Ceia Martinó…”

1917 – há cem anos – trinta

A data de 8 de Julho de 1917 assinala em Portalegre o início da publicação, na imprensa local, de listas de mortos, feridos e intoxicados com gás, pertencentes ao Regimento de Infantaria 21. Depois de textos iniciais eivados de algum ligeiro e irónico “patriotismo”, surge agora e triste realidade das baixas.

A Plebe” encabeça e lista com o título metafórico, e dramaticamente contraditório, de “Quadro de Honra”. O jornal, com regularidade, passará a divulgar relações, por vezes extensas, de nomes familiares às comunidades locais. As baixas referidas nesta data são: “Mortos no combate 11-12 (naturalmente, de Junho último!) – 1.ª companhia, 404 – Francisco Gonçalves; 1.ª, 690 – António Carrilho; 1.ª , 886 – José Dias; 3.ª, 258 – Gabriel Paulo. (…) Mortos no combate de 12-13 (idem!) – 1.ª companhia – Tenente Mário Augusto Teles Grilo; 1.ª, 1.º cabo 558 – António Carrilho Gonçalves; 1.ª, 1.º cabo 506 – Severino Estrela; 1.ª, 1.º cabo  575 – João Augusto Fernandes; 1.ª, 603 – Galiano Aires; 3.ª, 116 – Manuel Tomaz; 3.ª, 457 – António Pires Barqueiro Júnior; 4.ª, 1.º cabo 250 – Domingos António Penha; 4.ª, 1.º cabo 126 – José Vaz Sardinha; 4.ª, 1.º cabo 440 – José Faustino; 4.ª, 1.º cabo 412 – António Pratas; 4.ª, 1.º cabo 117 – João Soeirinho; 1.ª, 743 – Manuel António Cardoso.

Na sua edição deste mesmo dia, “O Distrito de Portalegre” inclui uma lista similar. Porém, além de nesta figurar mais um morto, José Martins, não há menção de qualquer posto, número ou data de falecimento. Para mais, alguns nomes revelam significativas diferenças: Francisco Gonçalves é aqui referido como Francisco Gavancha; Mário Augusto Teles Grilo é Mário Augusto Telo Grilo; Galiano Aires é António Galiano Arez; Domingos António Penha é António Penha; António Pratas é António Prates… Tratando-se de informação de tamanho melindre e exigindo, por isso, o máximo rigor, pasma-se em como tais disparidades se tornaram possíveis!

Ainda no mesmo dia (os três jornais coincidiam então na sua publicação dominical!) “A Rabeca” divulga a lista das baixas em França, relativas aos combates entre 11 e 13 de Junho. Esta relação é quase igual à publicada pelo seu colega “Distrito”, apenas concedendo razão à “Plebe” quanto ao nome Domingos António Penha. Esclarecedor!

Voltando ao “front”, retoma-se a série de postais ilustrados dali remetidos pelo capitão José Cândido Martinó à sua filhita Benvinda:

9 de Julho – “França. Durante o dia de ontem e parte do de hoje houve feriado. Hoje tivemos revista e marcha. Paralelo à estrada deslizava um canal com margens muito bonitas“.

10 de Julho – “França. Tens continuado a tomar alternadamente a fosfiodoglicina e a emulsão? Isto é, no tempo quente a fosfio. E no tempo fresco a emulsão? Consta que brevemente vamos mudar de localidade; talvez para o primitivo acantonamento. Bem bom será que assim seja porque estes ares não são nada saudáveis!…“.

Com efeito, nesta data de 10 de Julho de 1917, a ocupação plena, pelo C. E. P., da totalidade da frente de combate atribuída determinou uma nova instalação do seus comandos. Neste dia, ficou concluída tal operação, com o Quartel General Central em Saint Venant e o da 1.ª Divisão em Lestrem, no Chateau de la Cigale.

11 de Julho – “França. O vestidinho novo para o teu exame já está pronto e ficou bonito? O que é que ofereceste à tua professora no dia dos seus anos? Então o teu retrato quando chega?“.

12 de Julho – “França. Faz hoje um mês que houve grossa traulitada. Os campos estão lindíssimos. Esta região corresponde ao nosso Minho. Não há um palmo de terreno por cultivar, excepto a terra de ninguém, porque esse terreno está semeado de ferro e aço“.

13 de Julho – “França. Recebi ontem os jornais, e gostei muito da poesia da “Plebe”.(…) Na nossa Brigada também temos um periódico muito interessante pois publica piadas muito engraçadas“.

14 de Julho – “França. Hoje foi um dia de grande maçada, mal tendo tempo para te escrever. Cheguei à minha pobre cabana num estado lastimoso.”.

Nesta dia 14 de Julho de 1917, em Portalegre, Benvinda concluiu a sua habilitação do 1.º Grau de Instrução Primária, com a classificação de “optimamente habilitada”, na Escola Mista do Centro Democrático.

15 de Julho – “França. Pela manhã tive exercício, à tarde tive música e agradou muitíssimo. Depois da música fui convidado para um grande jantar onde me diverti também bastante. É muito à pressa que te estou escrevendo“.

1917 – há cem anos – vinte e nove

Datados de 7 de Julho de 1917, o capitão José Cândido Martinó guardará uns versos, manuscritos e assinados, com o título, ao cimo da página, de “Fado do Ganga”.

“Meus amigos, o Zé Mendes
Vê s’entendes
Vem à França passear
Gastando grossa massa
P’ra que a heróica populaça
Alguma não possa armar.

 Mas ir ao front é que não
Que o caso não é p’ra graças
(Espera lá por isso)
Deixa-se ficar gozando
E os outros marimbando
Não quer saber de desgraças

Com Florentino ao lado
Mostrando todo o seu gagá
D’automóvel ou a pé
Cada vez ‘stá mais inchado.

Por isso eu digo
Oh meus amigos
Cada vez isto vai pior
É preparar um bom cacete
De marmeleiro é o melhor.

Na escola, de granadas
Simuladas
Fez-se rubro como a chama
Que se fosse a valer
Não tinha p’ra s’esconder
Ali ao pé uma cama

Mas encheu-se de coragem
E fez de grande valente
Porque se fosse a valer
Não havia de p’rigo ter
Lá ia o Grilo na frente

Já no 14 ele deu
Provas de grande valor
Fugindo ao calor
No sítio onde se meteu.

Por isso eu digo
Oh meus amigos
Etc.

             7-7-917 

Na mesma página continuam os versos, depois da data e assinatura de J. C.:

“Rapazes da minha terra
Cá na guerra
Sejamos todos unidos!!
S’algum de nós voltar
A Portugal, vá ajustar
Contas com esses bandidos.

Vendidos como carneiros
Contra o voto da nação
Por artes e artimanhas
Nos trouxe a tal ambição.

 P’ra baixo é que é dar
Sem ter dó nem piedade
(Carrega-lhe)
Lembre as dores que sofreu
E os camaradas que perdeu
Dar p´ra baixo até rachar.

                  7-7-917″

O Zé Mendes aqui referido é José Mendes Ribeiro Norton de Matos, Ministro da Guerra, e o Florentino é o Cap. Florentino Martins, seu ajudante. A propósito do “Fado do Ganga” veja-se uma anterior referência.

Neste mesmo dia, 7 de Julho de 1917, o Rei de Inglaterra, George V, visitou a linha de batalha e o sector português, em Fauquembergues, elogiando as nossas tropas e agraciando o general Tamagnini com a Comenda da Ordem do Banho.

E prossegue o envio dos postais ilustrados…

7 de Julho – “França. Recebi ontem carta do Sr. Garção -ourives- em que me fala muito de ti. Ontem tivemos que mudar de casa de jantar porque nos enviaram bastantes caroços de azeitonas de Elvas. Ontem à noite também vi dois foguetes de lágrimas lindíssimos. Os pirotécnicos são artistas primorosos“.

8 de Julho – (dois postais) “França. A madrugada de 7 para 8 ainda foi pior que a de 12 para 13 do mês passado. À 1 da madrugada tive de me vestir e abandonar a minha barraca. Às três da madrugada desencadeou-se uma formidável trovoada acompanhada duma chuva torrencial. A noite estava escuríssima, e ouvia-se o tropel dos cavalos seguindo várias direcções, além do rodar dos carros conduzindo munições. Os relâmpagos, os trovões, as detonações, o vento e os foguetões para iluminar o espaço causavam pavor! É uma coisa estupenda a tal guerra. Enfim, quando a tormenta amainou, resolvi voltar para a barraca. O trajecto é relativamente curto, mas vi-me seriamente embaraçado para o vencer. O terreno estava encharcado e o piso escorregadio. Como a planície é grande, quando faziam relâmpagos, iluminavam duma maneira pavorosa o caminho que seguia… Vi-me dentro da barraca completamente encharcado e resolvi meter-me na cama. O meu companheiro de barraca, com a atrapalhação, vestiu as ceroulas às avessas e calçou umas botas altas. Um tipo em ceroulas e com botas de montar é muito interessante. É a 2.ª vez que cavo e tenho de avançar para a retaguarda“.

A ironia, embrulhada em “tranquilizadoras” metáforas, continuava…

Acrescente-se aqui, com esta mesma data de 8 de Julho de 1917, um documento interno de serviço: “C. E. P. 8-7-917 Ao Sr. Chefe da Banda da 1.ª B. I.  Em aditamento ao Art. 2.º da º n.º 8 de hoje, comunico a V.a S.a que a Banda de sua mui digna chefia deve acompanhar amanhã, tanto na ida como no regresso o 1.º B.º desta B.S. para a reunião a que o citado art. se refere – do seu acantonamento de Penin Mariage para Vieille Chapelle e vice-versa, para o que deverá comparecer em Penin Mariage às 15 horas. Pelo 2.º Comandante,  António Rodrigues Azevedo, Cap. (?)”.

1917 – Há cem anos – vinte e oito

Aproveita-se a “pausa” no relato de base epistolar para colocar em voz alta uma muda reflexão. Na prolongada época de comemorações centenárias que a nossa participação na I Grande Guerra vem proporcionando temos presenciado solenes conferências, luzidas exposições públicas e belas edições destinadas a guardar a memória desses tempos. O contexto bélico é denominador comum da maioria destes eventos, louvando a heroicidade ou chorando a tragédia, destacando as motivações políticas que nos mergulharam no conflito ou enaltecendo os altos valores militares envolvidos. Tudo isso é respeitável, lógico e natural.

O que aqui vou procurando divulgar assenta na guerra vivida na Flandres e na interpretação quotidiana dela deixada, em abundantes escritos, por uma testemunha presencial. Algo distante das abomináveis trincheiras, mas sujeito aos riscos dos bombardeamentos e dos ataques por gás, o militar em causa orientou neste caso particular as suas preocupações muito mais para a segurança daqueles que tinha deixado na Pátria do que para a própria. Não tendo de lutar em permanência pela própria vida, ele manteve sempre a tranquilidade possível que lhe permitiu analisar com certa profundidade, e até ironia, o contexto militar, social, antropológico e sobretudo cultural envolvente. Atrevo-me por isso a afirmar que as memórias de guerra do meu avô se inscrevem numa “historiografia” paralela à convencional, não “oficial”, muito mais humanizada que panfletária, bem mais singela que rebuscada.

Os sucessivos “capítulos” desta crónica têm sido decalcados da obra que publiquei em Setembro de 1999, a quando do 50.º aniversário da morte do meu avô. O volume José Cândido Martinó – Uma vida desenhada pela banda (Edições Colibri, Lisboa) tem constituído a base central da presente série 1917 – Há cem anos – De França a Portalegre, escritos de guerra e amor. Porém, não se trata agora de uma linear transcrição, pois tenho procurado actualizar a narrativa, introduzindo-lhe sobretudo imagens alusivas e demais informações que a edição em papel não podia conter.

Outros comentários pessoais deste tipo ficarão para mais tarde, em oportunidades que a narração me proporcionará, uma vez que esta ainda se vai estender por largos meses.

Para já, e como ficara prometido, aqui se reproduz integralmente o número 1 de O Tagarela, “jornal de trincheira” ainda assim redigido com razoável espírito crítico e humorístico “civil”, datado de 1 de Junho de 1917, onde se fala de madrinhas de guerra, de amigos… de Peniche e de músicos… de Alpalhão!