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IV – Os Tapetes e as Sedas de Portalegre

 Entretanto, a nossa cidade assistira, em júbilo colectivo, a um mês de Junho de 1938 verdadeiramente excepcional no plano festivo. As Festas da Primavera, aliadas ao VI Congresso Nacional dos Bombeiros, ficaram ainda associadas à inauguração do Miradouro e à implantação dos painéis de azulejos decorativos, a uma grande exposição-mostruário da actividade do concelho e do distrito, a uma tourada, a um rallye automobilístico, a fogo-de-artifício, a concertos musicais e a um sem-número de actividades desportivas e recreativas de cariz popular. Porém, a responsabilidade maior no êxito do vasto programa cabe quase por inteiro ao dr. Galiano Tavares, com influente participação artística do dr. João Tavares. Manuel Peixeiro, que exporá as suas apreciadas produções -sobretudo as sedas e os tapetes- não dispõe no evento duma intervenção organizativa ao nível dos mencionados responsáveis.
Já em 1940, para participação na grandiosa Exposição do Mundo Português, em Lisboa, coube a Manuel Peixeiro a concepção do Stand Alentejano, que foi muito apreciado.
Uma década depois, este seu sentido artístico e criativo proporcionar-lhe-ia um èxito público similar, ao organizar o Pavilhão de Arte Popular incluído nas grandes comemorações levadas a cabo em Portalegre, por altura das suas Festas Centenárias. Neste pretexto, deve-se-lhe ainda a original ornamentação da Sé Catedral, coberta com sedas de sua fabricação.

 

Ao mesmo tempo, no tal pequeno tear que construíra e que praticamente nunca abandonava, Manuel Peixeiro ia desenvolvendo as suas experimentações, tanto em Portalegre como em Marvão, a partir dos pontos clássicos e tradicionais que constantemente adaptava e modificava, na ânsia de criar algo de novo… e melhor. As amostras que foi tecendo e coleccionando dão conta dum labor sistemático e traçam, simultaneamente, um percurso evolutivo. A certa altura, tinha atingido a meta que há muito vinha prosseguindo. O segredo parecia-lhe agora simples, mas tinha consumido meia vida para o dominar. A técnica que descobrira consistia no cruzamento simples dos fios da teia, vertical, com os da trama, horizontal, alternando os fios pares com os ímpares. Assim, o envolvimento completo dos fios da teia pela trama decorativa permitia desenhar, ponto a ponto, as manchas de cor e os precisos contornos, de modo a reproduzir com rigor as tonalidades e as texturas mais delicadas.
O espírito inventivo de Manuel Peixeiro, aliado a uma persistente coragem e aos sólidos conhecimentos técnicos adquiridos, tinha triunfado. O ponto de Pedra tornara-se o ponto de Portalegre, o ponto português!

 

Mas não deixaria de ser irónica a circunstância de o contexto lhe ser então desfavorável. Os tempos da guerra entretanto desencadeada tinham agravado as condições de sobrevivência das suas empresas, a tal ponto que Manuel Peixeiro chegou a encarar a hipótese de emigrar para o Brasil. Mas a familia de sangue e a outra, a dos operários que de si também dependiam, levaram-no a resistir e a ficar.
A subsistência dos seus colaboradores, os operários, era de tal modo por ele respeitada que chegou a sacrificar bens pessoais para que nunca lhes faltasse o seu salário, a “féria”, como era denominada ao tempo a compensação financeira da prestação de trabalho.
O seu sonho parecia portanto adiado, sem prazos. Pormenor bem revelador desta crise é um pequeno anúncio inserido no Boletim do Desportivo (número único, comemorativo do XX aniversário do Grupo Desportivo Portalegrense), relativo a Julho de 1945. Aí pode ler-se:
SÊDAS DE PORTALEGRE, LTD. – FÁBRICA DE TECIDOS DE SÊDA – TELEFONE QUARENTA E SEIS – PORTALEGRE, espera poder, em breve, recomeçar a fabricação das suas afamadas sêdas naturais para roupa de senhora e camisas de homem.

 

Porém, em 1946, tudo mudou.
Um filho de Manuel Peixeiro, Manuel Celestino, tinha ingressado na aeronáutica mas sofrera um grave acidente de avião que lhe interrompeu a carreira com que sonhara. Em Portalegre, procurou Guy Fino, seu amigo e antigo colega no Liceu local, para lhe propor um negócio conjunto.
Guy Fino, covilhanenese como o pai, era então aqui empresário num ramo próximo dos lanifícios. Escutou o amigo, que lhe propunha algo no domínio da serração de madeiras. Rejeitando esta hipótese, Guy Fino discutiu com Manuel Celestino outras oportunidades mais convincentes. De conversa em conversa, de sugestão em sugestão, chegou um momento em que ambos ficaram sensíveis ao eventual renascimento da indústria dos tapetes de ponto de nó, que nos anos 20 tinha atingido localmente algum êxito.
Assim, combinados os pormenores do negócio, foi constituída entre ambos a firma Tapetes de Portalegre, Ltd.ª, oficialmente concretizada a 26 de Setembro de 1946.

 

Após a realização de alguns ensaios na antiga Fábrica das Sedas, onde ainda estavam montados os velhos teares, estes foram transferidos para novas instalações, no amplo edifício da Fábrica Real, à Corredoura. Foram devidamente aproveitadas as sinergias locais, sobretudo as proporcionadas pelo apoio do Francisco Fino Ltd.ª, onde o acesso às diversas qualidades de lã necessárias e, sobretudo, ao indispensável serviço de tinturaria, se verificou de extrema utilidade para a nascente indústria. A boa aceitação pública concedida às diferentes categorias de tapetes colocados no mercado permitiu o êxito inicial da manufactura, cuja produção assentava nos tipos tradicionais: o Esmirna, o Argélia e o Alentejo, sobretudo.
No entanto, a concorrência revelou-se feroz e colocou no mesmo mercado produções a preços de combate, ainda que relativas a uma qualidade nitidamente inferior. Assim, a empresa local entrou num período de grandes dificuldades de sobrevivência, porque se recusou a reduzir a qualidade, seu timbre de honra.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Manuel do Carmo Peixeiro – 3

III – Ao serviço da comunidade

Continuava Manuel Peixeiro incansável nas suas persistentes pesquisas no universo dos pontos da tapeçaria, espécie de Santo Graal entre os seus objectivos profissionais e artísticos de vida. A 1 de Setembro de 1928, ele registará a Fábrica Sedas de Portalegre, mais uma etapa nas suas sucessivas iniciativas empresariais sempre em torno dos tecidos e do têxtil.
Mas a “fábrica das sedas”, tal como na designação popular passaram a ser conhecidas aquelas instalações, não teve o êxito esperado. A lenta aproximação de nova guerra mundial ocasionou falhas no abastecimento da matéria-prima, enquanto dificuldades de financiamento agravaram a situação.

 

No entanto, apesar do crescente e preocupante agravamento da situação laboral, ele foi sempre dominado pelo seu objetivo de investigar e inovar na arte tapeceira.
Porém, deve salvaguardar-se daqui o pleno êxito da produção de sedas naturais, do ponto de vista da sua qualidade. Esta era tal que, nas melhores lojas de Lisboa e do Porto, eram vendidas como estrangeiras, assim sendo “valorizadas”. Esta habilidade comercial desgostava profundamente a Manuel Peixeiro, por revelar a falta de confiança na produção nacional e um certo desprezo pela sua própria competência profissional.
Adquirira entretanto uma pequena casa em Marvão, para onde deslocava sempre que podia fazê-lo, por ali encontrar um ambiente de calma e descontracção, propício às suas longas e persistentes investigações e aos ensaios práticos de variantes de pontos, num pequeno tear manual que sempre o acompanhava. Escreveu o padre José Patrão, a propósito desta casa:
 “Tive alguns encontros com Manuel do Carmo Peixeiro, em Marvão, na minha juventude. Aqui tinha uma casa que ostentava na fachada a reprodução de uma inscrição paleocristã, descoberta a poucos quilómetros de Marvão. Não sei porquê, associei, na altura, a solicitude em colocar aquela reprodução em lugar destacado a um Homem que vivia ‘as coisas do espírito’, alguém fora do comum dos homens, incapaz de ignorar os valores humanos. Quando o conheci, depois, seus olhos, seus gestos revelavam bem a sensibilidade, a cultura, o criador original que experimentava a urgência de encontrar, a cada momento, um suplemento de alma. Uma visão que me ficou, mas que, em certa medida, se ajustava à pessoa de Manuel do Carmo Peixeiro.”

 

Entretanto, em 1929, nascera-lhe uma outra sua filha, Maria de Lourdes, que virá a casar com o arq.º António Cruz Homem, personalidade nascida no Crato que Portalegre bem conhecerá e estimará, pela sua actividade profissional e por ter sido competente professor na Escola do Magistério local.
A partir do início de 1938 vai encetar-se um novo capítulo na vida de serviço público de Manuel Peixeiro. Contrariando as múltiplas ocupações, e preocupações, da sua ocupação profissional, ele aceita integrar um executivo municipal.
A acta da sessão preparatória da Câmara Municipal de Portalegre, relativa a 3 de Janeiro de 1938, relata que aí compareceram os senhores António Pires Ventura, tenente Carlos Aberto de Serpa Soares, dr. César Moreira Batista, capitão João António de Almeida Tavares, João Simões Pereira de Lima e Manuel do Carmo Peixeiro, vogais eleitos e empossados.
Por esta mesma acta, a nova Câmara tem conhecimento do ofício da anterior Comissão Municipal de Turismo que apresenta a sua demissão. Acrescente-se que o anterior presidente desta Comissão, o dr. António Raúl Galiano Tavares, tinha revelado uma invulgar dinamismo e deixado obra feita, para além de interessantes projectos em marcha.
Na reunião seguinte, extraordinária, acontecida a 7 de Janeiro, é apresentada uma proposta de distribuição de pelouros, que atribui a Manuel do Carmo Peixeiro os sectores da Urbanização e do Turismo.
Na sessão do dia 13, já ordinária, fica completo o elenco do executivo, pela presença do dr. Afonso José Leite de Sampaio, nomeado presidente. E, logicamente, é reiterada confiança no vereador Manuel do Carmo Peixeiro como natural presidente da Comisssão Municipal de Turismo, sendo-lhe ainda definidas responsabilidades nos domínios da elaboração do plano geral de urbanização, da apreciação dos projectos de obras particulares, do arranjo de jardins e parques e da propaganda regional.

 

Este normal episódio da sucessão do titular de um cargo municipal deu lugar a um equívoco traduzido nas capas do semanário local A Voz Portalegrense. Com efeito, na edição de 22 de Janeiro de 1938, o jornal diz que “foi reconduzida a Comissão Municipal de Turismo deste concelho que continua, assim, a ser presidida pelo Sr. Dr. Galiano Tavares. Estava tal resolução naturalmente indicada visto que Portalegre se habituou a ver no Sr. Dr. Galiano Tavares o bairrista, o homem de acção, qua à frente daquele organismo tanto tem feito e tanto pode valorizar a nossa região e a nossa cidade.” Precisamente uma semana depois poderá ler-se: “como antes da publicação do novo código administrativo era o sr. dr. Galiano Tavares o presidente da Comissão de Turismo, dissemos erradamente que este nosso apreciado colaborador havia ficado de novo à frente daquele organismo, mas depois de sabermos que o presidente da C. Turismo é sempre o vereador que ali representa a Câmara Municipal, rectificamos o lapso, noticiando que o actual Presidente da referida Comissão é o sr. Manuel do Carmo Peixeiro, elemento de valor em que muito confiamos.” Era assim a imprensa da época…
E a Comissão, com o seu novo presidente, recomeça o trabalho, dando conta, pelos jornais locais, dos projectos em marcha, de onde se destacam o estudo das possibilidades de contrair um empréstimo na Caixa Geral para a construção de um edifício para Pensão, na Serra; a solicitação de um parecer autárquico sobre as tradicionais Festas da Primavera e o Congresso dos Bombeiros a realizar proximamente em Portalegre; o pedido, aos Serviços Florestais, de mais 140 árvores para replantação na Serra; a tomada de conhecimento de estarem em execução os painéis de azulejos destinados ao embelezamento de algumas ruas da cidade; a intenção de restituir à sua pureza primitiva alguns pórticos de casas citadinas que mereçam restauro pelo seu valor artístico, etc.
Foi acarinhado e incentivado o projecto, já na sua fase de ultimação, do novo miradouro na Serra de Portalegre. Mas a cidade vivia com júbilo, e alguma preocupação, a realização do Congresso dos Bombeiros, a primeira realização de âmbito nacional a que Portalegre se atrevera. Dada a escassez de alojamentos na cidade (tal como ainda se verifica!), é lançada uma campanha pública de voluntária disponibilização de quartos para proporcionar aos congressistas interessados. E Manuel Peixeiro é o primeiro duma lista que engloba diversas personalidades locais, como António de Paiva Tavares, Mário e José Forjaz de Sampaio, Jorge Macedo, Manuel Fonseca, Hernâni de Oliveira, Joaquim da Silva, Carita Polido, Hildebrando Amaral, Armando Boavida Malcata, etc.

 

Em Março de 1938 terão chegado a Portalegre os primeiros painéis de azulejos, executados na conceituada fábrica Aleluia, de Aveiro. Estes painéis, patrocinados por empresas regionais, sobretudo do ramo agrário, ainda hoje constituem uma das peculiaridades mais originais e interessantes da cidade, autêntica e permanente exposição ao ar livre de cenas e paisagens de outros tempos.
A Comissão de Turismo, em Abril, dá conta da sua actividade, traduzida, por exemplo, no pedido à Câmara para colocação desses painéis; na organização da próxima Exposição Distrital; na tomada de conhecimento das obras do Miradouro e na decisão de colocar canteiros para flores na Estrada da Serra e de vasos decorativos na Fonte dos Amores; na construção de mais um troço da estrada para São Mamede; na preparação das Festas da Primavera, etc.
Porém, a multiplicidade das tarefas exigidas a Manuel Peixeiro, em acumulação com a difícil gestão das suas empresas, leva-o a solicitar, na sessão autárquica de 25 de Abril, a concessão duma licença “pelo maior prazo de tempo possível”, por motivos de falta de saúde e afazeres da sua vida particular. A Câmara, por unanimidade, concedeu-lhe uma licença por sessenta dias, o máximo regulamentar.
Na sessão ordinária seguinte, a 2 de Maio de 1938, ele foi substituído por Miguel Albuquerque de Azevedo Coutinho, bancário e proprietário local.
Quase um ano depois, a acta da sessão de 13 de Fevereiro de 1939 contém uma exposição do presidente que considera a mudança de residência do vereador César Moreira Batista e a falta de saúde do vereador Manuel do Carmo Peixeiro, para os fazer substituir, oficialmente, pelos senhores Jorge dos Reis Nunes e Miguel de Albuquerque de Azevedo Coutinho.
César Moreira Baptista mudara-se definitivamente para a Grande Lisboa, distinguindo-se mais tarde como presidente da Câmara Municipal de Sintra, entre 1953 e 1957, onde ganhará a notoriedade que o vai conduzir ao poderoso Secretariado Nacional da Informação (SNI), a partir de 1 de Fevereiro de 1958.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Manuel do Carmo Peixeiro – 2

II – Em Portalegre cidade…

 Manuel do Carmo Peixeiro decidira regressar a Portalegre, pois sabe que aqui poderá encontrar condições para desenvolver o seu sonho e também pelas raízes familiares que criara. Em Dezembro de 1923, já recebera as licenças oficiais para aqui instalar uma nova indústria, dedicada à fabricação de veludos, sedas e algodões.
Em 1925, monta uma fábrica de tapetes, em Portalegre, no sítio do Moinho de Vento, onde hoje se situa o pátio de recreio da Escola Cristóvão Falcão, ao Bonfim. Neste mesmo ano, nasce a primeira filha do casal, Maria do Carmo.
O jornal O Distrito de Portalegre refere o facto de ter sido publicamente exposto um tapete produzido na fábrica. Na edição de 3 de Janeiro de 1926 escreve:
 “UM TAPETE. No edifício, vago para obras, do Banco nacional Ultramarino, tem estado em exposição um lindíssimo tapete, fabricado pelo nosso amigo, sr. Manuel do Carmo Peixeiro, que, como os que tem exposto por ocasião da feira de Setembro, tem prendido as atenções gerais, pelo seu primoroso acabamento, artística distribuição de cores e rigorosa execução. O tapete a que nos referimos pertence ao nosso amigo sr. Henrique de Sá Nogueira e nele se vêem as armas da família Accaioli. O sr. Manuel do Carmo Peixeiro recebe desde ontem as encomendas que queiram fazer-lhe.”
Logo a seguir vai nascer oficialmente a firma Tapetes de Portalegre, Lda., que significa um passo decisivo em termos do futuro. Esta empresa, constituída entre Manuel do Carmo Peixeiro e Eduardo dos Santos, é formada por escritura pública de 22 de Dezembro de 1926, como sociedade por quotas de responsabilidade limitada, com sede em Portalegre, e tendo como principal objectivo o fabrico de tapetes. A fábrica dos tapetes, ao Bonfim, fica anexada à nova empresa.
A escritura da nova empresa, como é obrigatório na época, será divulgada nas páginas d’O Distrito de Portalegre, em 23 de Janeiro de 1927, assinalando que a sua gerência será da responsabilidade do sócio Manuel do Carmo Peixeiro.

 

Este período é tempo de certo fulgor cultural, desportivo e cívico na cidade. Abrem cafés e hotéis, realizam-se festividades populares com regularidade, fundam-se clubes desportivos, inauguram-se empresas e edifícios públicos, renovam-se os jardins, arrancam carreiras e ligações de transportes colectivos, são organizadas exposições de diversa natureza, efectuam-se espectáculos teatrais e recreativos, projecções de cinema ao ar livre, assim como concertos musicais públicos, acontecem visitas de personalidades nacionais, enfim, acontece um movimento colectivo de apreciável animação que motiva e abarca todos os estratos da população local.
Quase seguramente, foi por esta altura criada e reforçada a amizade entre José Cândido Martinó e Manuel do Carmo Peixeiro, dados os interesses culturais, embora de distinta natureza, que os ligavam, para além se ambos serem cidadãos com reconhecida intervenção pública no pequeno meio portalegrense.

 

Num texto sobre Portalegre, que o então coronel Lacerda Machado (depois general) escreve em 1926 para a Grande Revista Ilustrada Terras de Portugal n.º 2 (especial) dedicada ao Alemtejo, existe uma curiosa alusão:
No interior (da Sé) são dignos de apreço: (…) os tapetes da mesma capela-mor, de fabrico manual, em estilo Renascença, um dos quais mede 18 metros quadrados, tendo os emblemas heráldicos dos prelados que fundaram, concluiram e sagraram o templo, -executados primorosamente na fábrica do sr. M. do Carmo Peixeiro, técnico têxtil, sob desenho do tenente Lacerda Machado, a quem por melindre de consanguinidade (era filho do articulista) não devo negar a parcela de justiça que lhe cabe.”
Acontecerá um interessante episódio relacionado com aquela tapeçaria encomendada à primeira fábrica local de Manuel Peixeiro pelo Bispo de Portalegre, D. Domingos Maria Frutuoso. Este caso foi superiormente relatado pelo Padre José Patrão na sua obra Portalegre – Fundação da Cidade e do Bispado. Levantamento e progresso da Catedral, Edições Colibri. Por isso, com a devida vénia, aqui fica a respectiva transcrição:
O pavimento da capela mor esteve coberto por uma tapeçaria, desde 1926, obra da primitiva Fábrica de Tapeçarias de Manuel Peixeiro, criador do conhecido ponto português de tapeçaria. Esta peça, precursora da famosa “Manufactura de Tapeçarias de Portalegre”, nascida em 1947 e que se celebrizou, e continua, pela originalidade do ponto deste Artista.
Parte da tapeçaria cobre o pavimento, ao lado, da capela de São Pedro ou das Almas. Adquirida para a “sagração” da Catedral, em 1926, pelo Bispo D. Domingos Maria Frutuoso, exibia os brasões dos três Bispos – D. Julião de Alva, que fundou a Catedral, D. Manuel Tavares Coutinho da Silva, que a aperfeiçoou e D. Domingos Maria Frutuoso, que a consagrou. Este Prelado mandou retirar os brasões da tapeçaria, nos seus escrúpulos, evitando serem pisados. Apenas permaneceram os nomes dos Bispos com as palavras, em latim, que vão sublinhadas. Hoje, na História da Tapeçaria, serve ou devia servir de referência artística, percursora das Tapeçarias de Portalegre.”
Lamentavelmente, este desígnio não se concretizará. A dada altura, décadas depois, um pároco responsável pela freguesia decidiu retirar a tapeçaria substituindo-a por uma outra, industrial, de uniforme cor vermelha escura. A original, dividida em partes, foi distribuída por capelas alheias à Sé, acabando por perder-se sem remédio. A sensibilidade cultural e o respeito pelo valor histórico do património não são aquisiçóes muito generalizadas, mesmo em estratos desejavelmente dotados de tais atributos…

 

Acrescente-se que entre o autor daquele texto, o saudoso Padre José Dias Heitor Patrão, e Manuel do Carmo Peixeiro, se estabeleceria uma relação de profunda amizade e recípocra admiração, que originou, por exemplo, um magnífico artigo –Na pré-história das Tapeçarias de Portalegre – Manuel do Carmo Peixeiro – O Homem-Artista que viveu para a Cidade – O Criador do “ponto português” de Tapeçaria-, da autoria do primeiro e incluído no inesquecível exemplar n.º 1000 do já desaparecido jornal O Distrito de Portalegre, de 27 de Abril de 1984.
Convirá acrescentar ao texto anterior que a tapeçaria ostentava as iniciais (ou logotipo) dos Tapetes de Portalegre e fora executada, como já ficou atrás relatado, com base num desenho (ou cartão) da autoria do tenente Lacerda Machado.

 

A mesma revista turística então referida incluia, sob a forma de anúncio publicitário especialmente dirigido aos visitantes da importante Feira de Estremoz, o aviso/convite alusivo à exposição dos tapetes de Portalegre (os melhores tapetes que se fabricam em Portugal) patente num dos salões da Câmara Municipal local. Mais informava que tais peças se executavam em qualquer estilo, tamanho e feitio, devendo ser pedidas a Tapetes de Portalegre, L.da.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Manuel do Carmo Peixeiro – 1

 I – Prólogo e primeiros passos

 Quando redigi a biografia do meu avô José Cândido registei que este recebera, pelo Natal de 1942, um belo presente. Tratou-se duma pequena encomenda vinda da Covilhã, contendo um cartão-de-visita e o exemplar dum jornal local, dessa época: o Notícias da Covilhã, de 29 de Novembro de 1942. Neste, tinha sido publicada uma crónica assinada por Celestino David, intitulada Memórias do meu Tempo – O velho Pelourinho. Podia aí ler-se:
Os trabalhos de urbanização das grandes ou pequenas povoações estão preocupando as câmaras municipais do país e o governo da Nação. (…) O Largo do Pelourinho, informam-me, está sofrendo algumas transformações. (…) Mas esta geração com certeza o não viu já como eu o vejo na memória. Aquela praça com árvores a emoldurá-la, velho coreto onde vi executar os programas escolhidos do velho Dowens e do Martinó, não pode oferecer-lhes já o interesse que ela me despertava quando a via cheia…” 

 

Ora estes concertos que o meu avô dirigira, à frente da banda do regimento de Infantaria 21, então sediado na Covilhã, tinham acontecido nos já distantes anos de 1901 e 1902, portanto há quatro décadas atrás. Quem se lembrara disso e tivera a gentileza e a prova de amizade reflectidas naquele envio? O pequeno cartão-de-visita dizia: “Cumprimenta e envia um jornal com um artigo que faz referência a V.ª Ex.ª, Manuel do Carmo Peixeiro.”

Manuel do Carmo Peixeiro, o cidadão que revela, neste quase ignorado episódio pessoal, exemplar, gentil e solidária admiração por um amigo, é um Homem de Portalegre, alguém a quem muito devemos enquanto comunidade e que marcou, de forma indelével, esta cidade.

Nascido na Covilhã, freguesia de S. Pedro, a 14 de Dezembro de 1893, primogénito de nove irmãos, o jovem Manuel distinguiu-se logo na escola primária, onde desde cedo revelou uma nítida propensão para as artes e a inventiva. Principiou os prometedores estudos de debuxo (desenho) na Escola Industrial Campos Melo, na sua terra. Os pais, Manuel Vicente Peixeiro e Emília Rosa do Carmo, decidiram por isso proporcionar ao filho uma preparação condigna com a vocação revelada e, apesar das suas modestas posses, conseguiram enviá-lo para Roubaix, cidade francesa perto da fronteira com a Bélgica, conhecida pelo seu dinamismo e avanço no sector têxtil. Curiosamente, esta semelhança com a Covilhã natal do jovem Manuel Peixeiro viria a traduzir-se, já nos tempos modernos, numa motivada geminação estabelecida em 14 de Outubro de 2000.

 

O curso de engenharia têxtil que ele concretizou com êxito na cidade francesa, foi motivo para reforçar a sua ligação às artes. Para além de se ter ali notabilizado enquanto brilhante aluno e conquistado diversos prémios escolares, juntou às suas aquisições técnicas uma interessada e profunda experimentação no campo da tecelagem, onde começou e investigar novos pontos originais, após ter estudado meticulosamente os clássicos pontos franceses de Gobelins e Aubusson.
Em 1914, um período perturbado pela guerra que se desencadeava pela Europa, regressou a Portugal. Tinha então 21 anos.
O seu primeiro emprego acontece numa fábrica de lanifícios instalada em Alenquer. Mas não ficará por ali muito tempo, pois virá para Portalegre, reforçar a equipa que aqui desenvolve essa indústria pela mão da família Fino, também oriunda da Covilhã.
Aqui conhece e virá a casar com Maria de Lourdes Cid de Araújo Juzarte Lopes, nascida em Portalegre, Sé, em 14 de Abril de 1899, de uma estimada e conhecida família local. O enlace acontece na Graça, em Lisboa, a 20 de Abril de 1918. Viverão na Quinta da Bemposta, em Portalegre.

 

A estadia na Fábrica de Lanifícios é acompanhada pela elaboração manual de tapetes, carpetes e outras peças semelhantes, onde Manuel Peixeiro continua a experimentar e aprofundar as iniciativas desenvolvidas em França. Usa então o ponto tradicional, embora insista em variantes que já ensaiara em Roubaix. A facilidade de acesso à lã e às cores produzidas na empresa proporciona-lhe renovadas incursões no fascinante universo da tecelagem manual, que continua a apaixoná-lo.
E é esta mesma paixão que o leva a aceitar o convite que um seu tio, radicado no Porto, lhe faz. Com ele, e outros industriais dessa área, funda na capital do Norte uma empresa denominada Manufactura Portuguesa de Tapeçarias, Lda., que teve a sua sede na Rua do Clérigos, n.º 70. Além de ser sócio da firma, Manuel Peixeiro era a sua alma, como técnico e orientador artístico da produção.
Estávamos então em 1921, já no pós-guerra, na recuperação da produção industrial que tinha estagnado um pouco. Manuel Peixeiro, utilizando as peças experimentais que criara em Portalegre, organizou nesse mesmo ano uma exposição pública de tais obras, nas instalações do prestigiado Ateneu Comercial do Porto.
O Distrito de Portalegre, na sua edição de 3 de Julho, noticia a existência da empresa, localização e objectivos, acrescentando sobre a exposição: “Manuel do Carmo Peixeiro já aqui, em Portalegre, deu provas de arte e bom gosto, pois tivemos ocasião de apreciar os seus primeiros tapetes. E certos estamos de que, reunindo tão boas qualidades, há-de criar nome em todo o País e até no próprio estrangeiro.
Continuando o seu percurso criativo, ele inaugurou uma nova empresa, nos arredores do Porto, num local junto à Ponte da Pedra, designação que ele achou adequada para então baptizar o ponto aí praticado, uma evolução do tradicional, fruto das persistentes tentativas de inovar com segurança técnica e artística. Mas ainda não estava satisfeito…

 

As Tapeçarias da Ponte da Pedra ganharam relevo e, sobretudo após uma nova exposição alusiva, agora em Lisboa, na Sociedade Nacional de Belas Artes, em 1924, tornaram-se famosas no nosso universo artístico.
Também esta mostra pública justificará nova reportagem inserida n’O Distrito de Portalegre. Na edição de 11 de Janeiro de 1925, publica um texto datado de Lisboa, de 2 desse mês, assinado por J. Cerqueira Moreirinhas, professor no Liceu local. Pode aí ler-se:
 “AS TAPEÇARIAS DA PONTE DA PEDRA. Um dos maiores acontecimentos artísticos de 1924 -no seu género posso até chamar-lhe o primeiro- foi a exposição de tapeçarias artísticas da Ponte da Pedra, realizada na Sociedade de Belas Artes, em Lisboa. (…) Não posso porém passar em silêncio o nome da alma criadora de todas estas maravilhas, porque é preciso que cada um de nós aprenda a venerá-lo como benemérito de Portugal. Manuel do Carmo Peixeiro, que acaba de erguer em Portalegre uma fábrica a que está destinado um largo futuro, é o autor das Tapeçarias da Ponte da Pedra. Conseguiu com a sua tenacidade e com o seu incontestável valor realizar uma obra altamente patriótica, que dará maior nome ao nosso país, que muitas missões científicas ou intelectuais ao estrangeiro de resultados muito problemáticos. (…) A velha amizade com que me honra não pode obliterar em mim o senso crítico. Como bom Português, de que me prezo ser, entendo que são as iniciativas arrojadas que se devem fomentar, e que é delas que Portugal muito tem a esperar. Do contrário manter-nos-emos sempre no mesmo marasmo, vítimas dos mercados estrangeiros que nos impingem o que têm de pior, a nós que temos capacidade para produzir melhor e mais barato do que eles. Para o M. Peixeiro vai pois toda a minha admiração. Ao Sr. Redactor do ‘Districto de Portalegre’ agradeço reconhecido o favor de acolher no seu conceituado jornal esta meia dúzia de linhas que a visita à exposição me sugeriu.”

 António Martinó de Azevedo Coutinho