Crónica desportiva q.b.

A 30 de Março de 2013, deixei aqui uma primeira referência à obra da qual hoje reproduzo dois excertos. Trata-se de A história maravilhosa do País bimbo, da autoria de Pedro Barroso, cantautor encartado.
Hoje, data decisiva para a crónica dos bravos que, por terras de Vera Cruz, logo paulo-bento lutarão contra os peles-vermelhas americanos em disputa pela sobrevivência, lembrei-me de os homenagear e, com eles, a todos que estarão ao seu lado nessa épica jornada. A Nação inteira (ou quase) contará com eles, esquecida já da inglória jornada contra os hunos. Em sua lembrança e incentivo, ainda que distante, evoco as palavras, antigas já de uma década mas sempre actuais, que Pedro Barroso dedicou à fenomenologia desportiva nacional. Dos capítulos De externa ostentativa tendentia e De jornalística reportativa importantia retirei, em honra de D. Paulo Bento y sus muchachos, os breves excertos seguintes.

De externa ostentativa tendentia

O mesmo critério nacional de ardilosas minúcias e pesados encargos se aplica neste País aos automóveis. Assim, após vários e sucessivos impostos somados ao seu preço de venda, os cidadãos têm, enfim, direito a carros caríssimos e à mais cara gasolina do Mundo. Aparentemente, por motivos pedagógicos de grande nobreza, forçando ao muito saudável exercício da marcha.
capaÉ também vulgar que, sendo os carros sempre estrangeiros, o preço das peças de substituição ou extras de ornamento encomendados custe cerca de dez vezes mais que o seu preço/fábrica, sempre que o serviço pós-venda não as considere abrangidas pela garantia. O que parece normal para santinhas no tablier, almofadas de crochet, volantes em madeira e cães de peluche no vidro traseiro.
Mas constatámos também que, com aparente indiferença à crise, os cidadãos se fazem acompanhar de caras e potentes aparelhagens áudio, próprias para bimbos, cujas integram nos seus artilhados carros, para mais patente potenciamento prostático dos seus motores.
E, pressupostamente, para maior admiração pelas suas bimbas pessoas.
Aliás, a preocupação deste preclaro e avançado País é sempre, a auto-estima e o bem-estar do seu cidadão.
Para alimentar esse projecto de Saúde pública gastaram-se grandes somas, por exemplo, em duplicação de Estádios, coisa aparentemente incompreensível, ordenada pela Grande Confederação a um obediente governus sportivus eruditus.
Porém, se atentarmos ao facto de que em todos os grandes Clubes existem sempre as equipas A e B, além dos juniores, juvenis, infantis, chinquilho e tiro ao arco, é evidente que cada clube, só por si, justificaria a construção de, pelo menos, sete espaços semelhantes.
Mas isso seria compreensivelmente mais difícil. A simples duplicação foi já, visivelmente, um enorme esforço nacional.
Foi de início intrigante para nós, vindos de outra noção e lógica do pensamento da sociedade, compreender como era possível passar tamanhas privações orçamentais para se gastarem milhões na construção de Estádios novos, a princípio ainda ao lado de outros em perfeito funcionamento.
Aí começámos a aperceber-nos do gigantesco jogo de conveniências em causa. É do domínio público o enorme interesse nacional neste espectáculo. A protecção de um jogo de prioridade cívica absoluta contribui para a estabilidade nacional e o bem-estar colectivo e, por isso mesmo, é fulcral na popularidade das governações.
Nenhum governante em seu perfeito juízo poderia negar o que quer que fosse ao mundo do tal Futebol, sob pena de enorme penalização nas urnas em qualquer futuro acto eleitoral.
Daí o compromisso nacional nessa diligente renovação desportiva que incluiu Estádios tapando castelos e outras curiosidades urbanísticas de grande arrojo e modernidade.
No entreacto, de resto, fortes derrapagens em tempos de execução e orçamentos significariam grossas maquias de indemnizações, sempre fluidas e pouco divulgadas, de grande proveito a todas as partes financeiras envolvidas.
Mas o prestígio do Estado, apesar das dificuldades, tinha sempre que estar acima de quaisquer pormenores sem qualquer importância. Sobretudo quando comparados com uma desejável imagem mundial de País próspero, moderno, activo, empreendedor, pacífico, desportista, arejado. Ora precisamente.
A Nação tem o seu amor-próprio, como é evidente e justo. E o Mundo, logicamente atento, aprende com esta preclara e organizada Pátria anfitriã.
Conforme viemos a saber, um qualquer colectivo compromisso governamental em realizar os Campeonatos Europeus de Matraquilho, ou modalidade semelhante, cujo nome nos passou por distracção, mandou destruir todas as velhas tabernas. Os obsoletos tabuleiros foram também substituídos por mesas em aço inox, com bolas aquecidas e equipamentos de famosos clubes europeus, tudo em unidades de restauração renovadas, onde se proibiu também, como é óbvio, o peixe frito, o vinho tinto e outras porcarias, passando a servir-se petit fours, caviar e salmão fumado acompanhado a flutes de champagne. Só após grande insistência de um deputado mais regionalista foi autorizada música ambiente pelo grupo de Santa Marta do Tornozelo, embora em apropriada versão discossound, para uma muito discreta pincelada de cultura local. De tão airosa e feliz síntese sairia um esmagador sucesso nacional: – “Azar na relva”.

De jornalística reportativa importantia

(…) A Imprensa desportiva, essa aborda, exultante, os mais disparatados e íntimos detalhes da tal coisa do Futebol. A vida dos jogadores, as suas pubalgias recidivas, a execução do passe para o golo com o pé esquerdo ao canto oposto, o estado do relvado. O tempo. As claques. Tudo é nota de exaustiva reportagem.
E como é apaixonado e nervoso o relato pela rádio das épicas hostilidades desportivas, vindo lá de longe e ouvido com paixão, como pertence, na tasca do Efigénio, entre arrotos e uivos colectivos e uma montanha de cervejas na mesa!…
Na televisão, são noites de rigor e orçamento livre. Vinte câmaras, cinco comentadores e quatro repórteres. Vox populi abundante. Todo o rigor na cobertura do jogo. Estranhamente, tal cuidado não implica, no entanto, a visão de todos os ângulos da jogada duvidosa que deu penalty. Se não convém discuti-la é vista de relance mas será passada vinte vezes, se o programa assim o entender. Tendências desculpáveis, integrando o Sistema. Tal como a expulsão; a bola que não chegou a entrar; o fora de jogo mal assinalado. A cotovelada clandestina. Seria mesmo?
De todo a subsequente discussão sobre tão importantes matérias releva uma conclusão maior: – a de que a injustiça futebolística é uma excelente indústria de papel, paixão, insulto e audiências. E uma enorme canalização de ódios e energias.
Uma catarse colectiva de extrema inteligência e eficácia para manutenção da contracapaordem pública. Já o víramos no capítulo dedicado à ostensiva opulência.
Por isso, todos os árbitros corruptos, todos os comentários e críticas de favor, todas as postergâncias de treinadores e dirigentes, todos os excitados e trapalhões relatores de Futebol são, afinal, vitalmente úteis ao bem-estar da Nação, como condutores de manobra escapatória a conflito alargado noutros horizontes.
Daí a nossa compreensão tardia da importância política de tal actividade, que sempre julgáramos desprovida de qualquer sentido e este estudo tanto aclarou.
Como já vimos, a máquina governativa, com arguta visão, tudo tolera ao Futebol, incluindo o estacionamento em cima da relva, a dívida, o insulto e todas as contra-ordenações graves do Código Fiscal e da Estrada.
A Comunicação auxilia, endeusando o bimbo-clubismo e seus pares. E todos ganham, afinal, pois a revolta social converte-se numa mera luta de cachecóis.
Mas juntemos a isto os jornais de denúncia de bruxarias e episódios satânicos; os descobridores de insólitas anomalias do reino vegetal; os paparazzi profissionais que nos ilustram o beijo clandestino da princesa da Manchúria no groom do elevador; os observadores independentes que representam, afinal, uma corrente de opinião; os analistas da Bolsa que nos explicam como a queda pode trazer lucros e a subida prejuízos; as langorosas apresentadoras de “Nutícias”; os artigos de fundo sobre a vida sexual dos ídolos pop; os lúgubres fazedores da Necrologia; os aéreos especialistas em Meteorologia; os furões especialistas em burlas e gestões danosas; os músicos que nunca o foram e passam a críticos.

Pedro Barroso
in A história maravilhosa do País bimbo
Edição CALIDUM
(escrito em Riachos, Novembro de 2004)

Pedro Barroso, o (último?) Trovador – VII

Termino esta série de pequenas crónicas sobre Pedro Barroso e, sobretudo, sobre a sua intervenção sócio-cultural. Por isso, desejo agora revelar, ainda que de forma muito sumária, a sua faceta de escritor.
Dele possuo apenas o volume que me ofereceu –A história maravilhosa do Paíspb bimbo bimbo– e é daí que transcrevo a seguir uma parcela do capítulo introdutório, De preliminaria historica.
A obra desenrola-se de um modo articulado, onde o autor procura abordar todos os aspectos relevantes do País bimbo, tal como ele o vê e sente, em facetas como a história, a incompetência,  a ostentação, a burocracia, a subsidariedade, a política, as artes, o jornalismo, a corrupção, a justiça, o legislativo, a restauração, a arquitectura, a riqueza e a pobreza, o sentido da responsabilidade, a piromania, a solidão, a prosperidade, o mar e a terra, o ensino e a cultura, a tropa, a religião, o desporto e os tempos livres, eu sei lá…
Creio que nada terá escapado ao sentido cáustico, saudavelmente crítico e pedagógico, de Pedro Barroso, aqui tornado um Fernão Mendes Pinto dos tempos modernos, um Alexandre Herculano actualizado, um demolidor Eça de… Riachos.
Do Prefácio, da autoria de António Vitorino, de Almeida, até à Sumaria culminantíssima conclusiva, o denso volume lê-se dum fôlego, embrenhando o leitor numa floresta de imagens, conceitos e observações tão desconcertantes como certeiros.  O drama tornado humor, a descrição virada retrato terno e duro, sempre implacável, sempre compreeensivo, a um tempo definitivo mas também provisório, tudo servido num estilo muito personalizado, quase único e inimitável – eis o que apetece dizer como tradução deste livro intraduzível.
Se vale a pena ouvir Pedro Barroso, também ele deve ser lido. A sua mensagem, sempre coerente, faz-nos bem. Cria esperança mesmo quando parece demolidor. Porque está sempre detrás, e por dentro, de tudo o que cria uma alma de poeta.
E bem portuguesa, das antigas, das eternas.
Eis uma prova, nas linhas iniciais d’A história maravilhosa do País bimbo:

“Era uma vez um inefável País, povoado por gente genuinamente bimba, boçal, simples, complicada, levemente maldosa, um pouco li­mitada. Era, contudo, um povo generoso, inventivo, hábil, sonhador, esforçado, dado a grandes feitos.

Heroicamente chão, alegremente triste.

Na sua tristeza incluía fados, amarguras doces e ingénuas, quase poéticas, logo, belamente tristes. Na sua bimbice, às vezes, uma sur­preendente nobreza popular e espantosos cometimentos individuais e colectivos, logo, menos bimbos.

Na sua maldade sentia-se uma imensa e dedicada sacanice, reple­ta de ternura, observação e piedoso aconselhamento, logo, muito me­nos sacana.

Este estranho povo ateava fogos que depois, denodadamente, apa­gava, com risco da própria vida. Alternava revoluções apaixonadas com longas e sofridas ditaduras. Amava-se e odiava-se a si mesmo. Depois de lixar o próximo, era funda e comoventemente solidário.

Era, em síntese paradoxal, digamos que amigo e inimigo de si mes­mo.

Em suma, uma curiosíssima Nação, digna de aturado e interessan­te estudo.

Tal insólito conjunto intrigou-nos e conduziu a este despretensio­so mas apaixonado trabalho, que ousamos agora apresentar à vossa benevolente atenção.

Trata-se de um País actual apesar de muito antigo, onde, habilmente, o acumular dos mais crassos erros de gestão praticados pelos séculos fora soubera tecer uma sociedade tolerante, e até, a espaços, com momentos de gloriosa riqueza.

Muito central – situado algures entre o Norte e o Sul, o Oriente e o Ocidente – de clima agreste mas estatisticamente temperado – isto é,  muito quente e seco no Verão, frio e chuvoso no Inverno – possui mar, campo, praia e montanha, como tantos outros países, mas destaca-se, sobretudo, por uma latente, imperiosa e compulsiva tendência prolixo-complicativa, dos seus habitantes.

De genética complexa e difusa, torna-se hoje difícil saber a origem do mal, pois por tal região passaram, em épocas sucessivas ou coinci­dentes, Bárbaros, Suevos, Alanos, Judeus, Genoveses, Árabes, Celtas, Iberos, Celtiberos, Gregos, Cartagineses, Visigodos, Romanos, Fenícios e até Lusitanos, numa amálgama de culturas e línguas que fomentou a mais confusa das tendências individualistas.

Assim, com o decorrer dos tempos e o acumular dos conflitos, tornara-se natural que cada um se fechasse em si e, compreensivelmente, tentasse prejudicar o vizinho, do qual, pelas suas torpes e nem sempre claras ascendências, urgia, como é evidente, desconfiar. A dois passos da crueldade, com acintoso afecto, tramar o próximo tornou-se, pois, um curioso desporto local, um modus operandi nacional.

Tal arte apoiou-se na instalação generalizada e inteligente da maldade,  da inveja e da satisfação na mediocridade, tudo adequado ao carácter assaz peculiar do seu povo. Sem outra intenção que o mero sucesso pessoal, é justo confessar.

Já Suetónio, o preclaro cronista dos imperadores romanos, relatara que, na opinião de Júlio César, havia na região oeste da Ibéria um povo inculto, velhaco e sacanote que não se governava nem se deixava governar.

Impotentes para detectar a origem do mal, digamos apenas que os extractos de sacanismo, de complicadez e de maldade bebiam no tronco comum da bimbalhice e da obscurância, daí a classificação genérica científica de bimbus vulgaris lineus utilizada para designação dos res­pectivos habitantes.

Com efeito, até os magníficos, meritíssimos e doutorados Sacaníssimos, cultos, sabedores e proeminentes, não deixam de entroncar no grande radical dos sacanensis lusitanus vulgaris lineus em muitas das suas exponenciadas magnificências. A um mais elevado nível, claro, condizente com a suas doutas, calibradas e cheirosas pes­soas a merecerem-nos adiante adequada atenção.

Não sabemos também de onde veio esta torpe designação, subliminarmente indexante de tais negativos predicados aos Lusita­nos, gente honrada e apenas medianamente inculta, esforçados servos da gleba e viajantes, zelosos espoliadores do corso, pacatos piratas nas horas vagas; apenas vagamente culpabilizáveis, quando muito, pelo facto de, impulsionados pela Fé, a Grei e a busca imperiosa da canela, terem tido grande heroísmo e desempenho na piedosa degola dos gentios”…

Pedro Barroso. Eterno.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Pedro Barroso, o (último?) Trovador – VI

Neste penúltimo texto da curta série dedicada a um cidadão pelo qual tenho profundo apreço, quer como cantor, poeta ou homem de cultura viva e actuante, comprometido com os seus coerentes ideais, desejo partilhar alguns dos seus testemunhos públicos.

Trata-se duma pequena “antologia” de videogramas, colhidos e seleccionados entre os muitos disponíveis no Youtube.

O primeiro data de 2 de Dezembro de 2009, retirado de um noticiário da RTP2, o Jornal 2, com uma entrevista realizada na véspera de um concerto de Pedro Barroso no S. Luís, em Lisboa, comemorativo dos 40 anos da sua carreira. Tem a duração de 8 minutos e 44 segundos.

O segundo clip de vídeo é relativo à belíssima iniciativa do locutor/jornalista Armando Carvalhêda (da Antena 1) que, sob a designação de Viva a Música, realiza no Teatro da Luz (em Lisboa), regulares apresentações de artistas da rádio. Foi em 15 de Março de 2012 que Pedro Barroso aí voltou e, dessa aparição, ficou um registo sumário de pouco mais de 15 minutos. Ele aqui está.

Pelo final desse ano de 2012, aconteceu o memorável concerto do Rivoli, em 2 de Outubro, já aqui apresentado, na íntegra. O que agora se lhe acrescenta é uma curta entrevista concedida pelo artista ao Porto Canal precisamente antes desse espectáculo. Como complemento, reveste-se do maior interesse. Dura um pouco menos de 8 minutos…

Finalmente, o depoimento mais recente. Foi a 22 de Janeiro deste ano, há cerca de dois meses. Pedro Barroso, a propósito de uma sua intervenção no excelente Fórum de Idanha-a-Nova, a comemorar mais um aniversário. Então, foi entrevistado pela Reconquista TV, jornal e televisão regional de Castelo Branco. É esse depoimento, com cerca de 7 minutos e meio, que conclui esta “antologia”.

Pedro Barroso, o (último?) Trovador – V

Em Dezembro de 1985, Pedro Barroso fora protagonista de um memorável concerto no Rivoli do Porto, onde teve como convidado especial o seu amigo Manuel Freire.

Depois, aconteceu um grande vazio na cidade capital do Norte.

Recentemente, após muitos anos de expectativa, Pedro Barroso voltou à carismática grande sala nortenha de concertos. Foi no serão de 2 de Outubro de 2012.

O espectáculo foi anunciado como uma “memória do futuro“, com a intenção decartaz relembrar canções de uma vida e também da vida de companheiros de jornada, alguns já desaparecidos, geração de coragem que ajudou a tecer, pela canção, os bastidores da Liberdade e da Democracia em Portugal. Assim foi prometido para essa noite de emoções à solta…

Esperava-se pois um encontro, anunciado, com aquele (e cito as expectativas divulgadas a propósito) a quem chamam, pelo estilo, pela poesia, pela diferença, o último trovador português.

Pedro Barroso, ele próprio, contribuiu para a antecipada criação desse clima. Na sua página de facebook escrevera:

Seremos quase mil cantando pela Liberdade, em nome da memória e do futuro.
Dia 2 quero fazer do palco uma pátria diferente. Que pelo mundo do sonho se distinga, voe e saiba diferir do cinzento dos dias tristes. Quero que comigo sejam conjurados de um outro sentir, outro saber; o sitio onde o Douro encontra o Tejo e juntos arrasam todos os medíocres que nos controlam o prazer e a alegria. Como detesto esta gente pintada de séria e corrupta até à raiz dos cabelos. Como me bastei de misérias impostas e roubos declarados. Estarei como um povo inteiro, na rua; só que isso será na rua livre de um palco, entre canções.
Mas o meu discurso, embora poético, apela a tudo o que de positivo é possível fazer e rejeita a submissão dos dias ao jugo germânico da esmola como moeda de exigência. Temos mil anos de história. Que raio! Não podemos temer o futuro. Só há que saber dizer isto bem alto, sem medo de amanhã. Porque o futuro só meterá medo precisamente se não o dissermos. Quero que todos no fim do Concerto sintam e digam: valeu a pena.
E que sintam que é possível mudar as coisas porque viver tem de ser mais que isto a que nos estão a obrigar. E a memória que vos trago traz um futuro iminente de acontecer. Que todos saiamos do Rivoli de portas abertas e vontade expressa.
Conto convosco. É tempo de agir.
Em relação ao 2 de Outubro no Porto, acho sinceramente que a publicidade entre amigos é a que mais desejo e a que mais resulta. Quero ter a casa cheia de amigos cúmplices e solidários, bem precisamos todos dessa alma colectiva!

Escolhi deliberadamente um Domingo para inserir este texto, o antepenúltimo da série dedicada a Pedro Barroso. É que vos proponho a audição integral do Concerto (deixem-me escrever com maiúscula!) do Rivoli. São duas horas de encanto e provocação e é preciso tempo para isso. Nos Domingos costuma haver tal disponibilidade…

Vale a pena ver e ouvir o que aconteceu. A bela reportagem de Porto Canal mostra, por dentro, pormenores desse serão. Duas horas. Liguem o som, ampliem a imagem, deixem apenas uma luz de presença e tornem-se cúmplices do encantamento feito canção, em qualidade do mais alto nível.

Artística e humana.

Pedro Barroso, o (último?) Trovador – IV

Muito se tem escrito sobre Pedro Barroso. Ele próprio, a diversos pretextos, tempb0 falado de si próprio.

De entre a vasta panóplia de textos, alguns confessionais, excertos de entrevistas de épocas várias, inscrições em folhetos de discos, pedaços de vida e de alma sem data porque intemporais, aqui deles fica uma breve antologia, selecção da minha inteira responsabilidade, sem qualquer alusão de origem que para aqui, e agora, nada interessa.

A influência dos professores, sente-a como poucos Pedro Barroso, ele próprio filho de professor, e por isso registou esse significativo dado de formação, decisivo para o seu percurso cívico e cultural:

Este último (Vergílio Ferreira), que me ensinou a pensar e me marcou profundamente, dava aulas de Latim porque estava proibido de ensinar Literatura, onde, pensavam os senhores do regime, seria muito perigoso… Li todas as suas obras, a influência foi tal que até comecei a falar um bocadinho “axim”, e continuo a pensar que o Prémio Nobel lhe foi sonegado. Mas isso são outros contos“.

pb1Decidi regressar porque tenho um culto muito grande da pátria. Motivado pelo estudo da História e pela forma apaixonada como me foi dado. Tive professores exemplares, a começar pelo meu pai. Era um pedagogo em “full time” e, mesmo nas férias, estávamos sempre a aprender com ele. Ele olhava para um castelo e contava-nos a batalha que ali tinha ocorrido, como é que tinham resistido. E atrás desse castelo vinha a análise da torre que era cilíndrica… e como é que se determina a superfície de um cilindro? E o alcance das bestas para disparar as setas? Iam até cem metros. Quanto é cem metros? E também derramavam azeite quente sobre os invasores. Porquê? Porque ali havia oliveiras. […] Era a chamada lição por centros de interesse: íamos visitar Marvão e acabávamos na Matemática, na História, na Geografia, tudo“.

A História, mestra de ensinamentos, sobretudo a História Pátria e os seus ideais. Pedro Barroso demarca claramente as águas por onde se atreve, por onde navega… e nos leva a navegar, consigo ao leme.

Prometi-vos a dignidade de ser livre. Prometi-vos o sonho e a maresia a golpes depb2 aventura contra o nevoeiro e deparo com as limitações próprias de uma costa imprópria para grandes navegações. Contudo há que seguir a viagem e não sei doutra grandeza mais deslumbrante que a luta contra um mar demente em tempestade. Não serei dessa barca grande capitão – mais Febo Moniz que Condestável, mais eremita que Arcebispo. Nem sequer me sinto o mais seguro dos timoneiros – procuro apenas manter intacta a honra e o sentido maior das rotas que aprendi com o tempo. Duro e agreste contra esta serra que me olha a cada dia, serei Pedro ou pedra e continuarei crítico de tudo o que pesa e perturba mas simultaneamente me transcende. Peço hoje, por isso mesmo, humilde perdão do ensandecimento galopante que se me torna, a espaços, insuportável. Mas é quando o verbo me embebeda de opinião que mais me desvaneço de vida. E mais consigo dar-vos de mim, para o que quer que sirva. E já que outras dependências se não instalaram descobri, pois, o discreto prazer da ironia como exercício incontornável do existir. Porque creio na minoria escassa mas intensa que ainda pensa e escuta e sonha com futuros de seriedade e intenção e sofre com a incultura enorme e boçal que a cada dia nos afoga entre temperos de culinária em patético gosto musical de gosto flatulento e propósito duvidoso e portuguesmente suicida, com a conivência sorridente das mais altas instâncias intelectuais“.

Os nossos vizinhos espanhóis têm Paco Ibáñez, Patxi Andión ou Pi de la Serra, os franceses tiveram Léo Ferré, os irmãos brasileiros Vinicius ou Caetano, os americanos Joan Baez e por aí fora. Nós também temos alguns cantores de protesto de primeira água e Pedro Barroso na linha da frente. Mas será que ele conta?

Como é sabido, tecnicamente, eu não existo. Todos os indícios espúrios e avulsos da minha existência são seguramente ilusões de óptica incomodando as consciências estabelecidas. Como se sabe, ouve e publicamente pode comprovar-se, em Portugal apenas há uma dúzia de músicos e cantores. Gente extraordinária, cheia de valor. Mas eu não sou nenhum deles. Por isso, oficialmente, não existo. O que faço atinge, consequentemente – tanto quanto o sinto e me é recorrentemente comunicado – as raias da clandestinidade. […] Mas tantos ilustres foram desconhecidos, a seu tempo, neste País de interesses e sistemas que, se calhar, este é o modo como acaba por indicar-se, sem querer, o caminho das pedras aos fabricantes da esperança e a glória oculta aos milagres do improviso e da resistência. São trilhos difíceis da diferença, os que, terra a terra, convosco tenho convivido. Por isso, amigos sinceros e imensos, consumam devagar este produto de artesão, como quem quebrou a norma e saiu da clausura. Como quem celebra a festa do encanto arredado e proibido, abrindo um vintage guardado para ocasião especial“.

pb3

Pedro Barroso faz um balanço, o balanço possível duma luta, persistente, onde ainda se mantém. E onde oxalá se mantenha, para nosso consolo e fortaleza, por muitos anos.

A espaços, ouço-me agora nesta pequena colectânea e sinto que há já uma História possível. Que as canções, em parte, relatam, falando do que falam. Ao fim de 36 anos de Música e Palavras, só posso ouvir com um sorriso distante mas bom tudo o que aqui se encerra. Quem fez isto fui eu, sim. Um outro jovem e distante eu, que hoje resultou num autor dorido e bem mais exigente. Mas guardo a memória de um exaltado e incansável rapaz que perdia noites guiando; que estragou e viveu amores desconcertados; que acreditou muito em coisas demais; que foi sincero até à alma e ao sangue. E que nos intervalos do trabalho, de tanta saga, de tanta e tão espalhada vivência de palcos, viagens e cansaços, foi compondo canções conformes à sua identidade e ao seu acreditar. É esse o espaço que aqui se reviu e agora se apresenta. Foi bom repensá-lo e reemocionar-me. Teria nessa altura trinta e muito poucos anos. Ou se calhar foi ontem. E eu não dei por isso“.

Nós também não demos.

António Martinó de Azevedo Coutinho