Pedro Barroso, o (último?) Trovador – V

Em Dezembro de 1985, Pedro Barroso fora protagonista de um memorável concerto no Rivoli do Porto, onde teve como convidado especial o seu amigo Manuel Freire.

Depois, aconteceu um grande vazio na cidade capital do Norte.

Recentemente, após muitos anos de expectativa, Pedro Barroso voltou à carismática grande sala nortenha de concertos. Foi no serão de 2 de Outubro de 2012.

O espectáculo foi anunciado como uma “memória do futuro“, com a intenção decartaz relembrar canções de uma vida e também da vida de companheiros de jornada, alguns já desaparecidos, geração de coragem que ajudou a tecer, pela canção, os bastidores da Liberdade e da Democracia em Portugal. Assim foi prometido para essa noite de emoções à solta…

Esperava-se pois um encontro, anunciado, com aquele (e cito as expectativas divulgadas a propósito) a quem chamam, pelo estilo, pela poesia, pela diferença, o último trovador português.

Pedro Barroso, ele próprio, contribuiu para a antecipada criação desse clima. Na sua página de facebook escrevera:

Seremos quase mil cantando pela Liberdade, em nome da memória e do futuro.
Dia 2 quero fazer do palco uma pátria diferente. Que pelo mundo do sonho se distinga, voe e saiba diferir do cinzento dos dias tristes. Quero que comigo sejam conjurados de um outro sentir, outro saber; o sitio onde o Douro encontra o Tejo e juntos arrasam todos os medíocres que nos controlam o prazer e a alegria. Como detesto esta gente pintada de séria e corrupta até à raiz dos cabelos. Como me bastei de misérias impostas e roubos declarados. Estarei como um povo inteiro, na rua; só que isso será na rua livre de um palco, entre canções.
Mas o meu discurso, embora poético, apela a tudo o que de positivo é possível fazer e rejeita a submissão dos dias ao jugo germânico da esmola como moeda de exigência. Temos mil anos de história. Que raio! Não podemos temer o futuro. Só há que saber dizer isto bem alto, sem medo de amanhã. Porque o futuro só meterá medo precisamente se não o dissermos. Quero que todos no fim do Concerto sintam e digam: valeu a pena.
E que sintam que é possível mudar as coisas porque viver tem de ser mais que isto a que nos estão a obrigar. E a memória que vos trago traz um futuro iminente de acontecer. Que todos saiamos do Rivoli de portas abertas e vontade expressa.
Conto convosco. É tempo de agir.
Em relação ao 2 de Outubro no Porto, acho sinceramente que a publicidade entre amigos é a que mais desejo e a que mais resulta. Quero ter a casa cheia de amigos cúmplices e solidários, bem precisamos todos dessa alma colectiva!

Escolhi deliberadamente um Domingo para inserir este texto, o antepenúltimo da série dedicada a Pedro Barroso. É que vos proponho a audição integral do Concerto (deixem-me escrever com maiúscula!) do Rivoli. São duas horas de encanto e provocação e é preciso tempo para isso. Nos Domingos costuma haver tal disponibilidade…

Vale a pena ver e ouvir o que aconteceu. A bela reportagem de Porto Canal mostra, por dentro, pormenores desse serão. Duas horas. Liguem o som, ampliem a imagem, deixem apenas uma luz de presença e tornem-se cúmplices do encantamento feito canção, em qualidade do mais alto nível.

Artística e humana.

Pedro Barroso, o (último?) Trovador – IV

Muito se tem escrito sobre Pedro Barroso. Ele próprio, a diversos pretextos, tempb0 falado de si próprio.

De entre a vasta panóplia de textos, alguns confessionais, excertos de entrevistas de épocas várias, inscrições em folhetos de discos, pedaços de vida e de alma sem data porque intemporais, aqui deles fica uma breve antologia, selecção da minha inteira responsabilidade, sem qualquer alusão de origem que para aqui, e agora, nada interessa.

A influência dos professores, sente-a como poucos Pedro Barroso, ele próprio filho de professor, e por isso registou esse significativo dado de formação, decisivo para o seu percurso cívico e cultural:

Este último (Vergílio Ferreira), que me ensinou a pensar e me marcou profundamente, dava aulas de Latim porque estava proibido de ensinar Literatura, onde, pensavam os senhores do regime, seria muito perigoso… Li todas as suas obras, a influência foi tal que até comecei a falar um bocadinho “axim”, e continuo a pensar que o Prémio Nobel lhe foi sonegado. Mas isso são outros contos“.

pb1Decidi regressar porque tenho um culto muito grande da pátria. Motivado pelo estudo da História e pela forma apaixonada como me foi dado. Tive professores exemplares, a começar pelo meu pai. Era um pedagogo em “full time” e, mesmo nas férias, estávamos sempre a aprender com ele. Ele olhava para um castelo e contava-nos a batalha que ali tinha ocorrido, como é que tinham resistido. E atrás desse castelo vinha a análise da torre que era cilíndrica… e como é que se determina a superfície de um cilindro? E o alcance das bestas para disparar as setas? Iam até cem metros. Quanto é cem metros? E também derramavam azeite quente sobre os invasores. Porquê? Porque ali havia oliveiras. […] Era a chamada lição por centros de interesse: íamos visitar Marvão e acabávamos na Matemática, na História, na Geografia, tudo“.

A História, mestra de ensinamentos, sobretudo a História Pátria e os seus ideais. Pedro Barroso demarca claramente as águas por onde se atreve, por onde navega… e nos leva a navegar, consigo ao leme.

Prometi-vos a dignidade de ser livre. Prometi-vos o sonho e a maresia a golpes depb2 aventura contra o nevoeiro e deparo com as limitações próprias de uma costa imprópria para grandes navegações. Contudo há que seguir a viagem e não sei doutra grandeza mais deslumbrante que a luta contra um mar demente em tempestade. Não serei dessa barca grande capitão – mais Febo Moniz que Condestável, mais eremita que Arcebispo. Nem sequer me sinto o mais seguro dos timoneiros – procuro apenas manter intacta a honra e o sentido maior das rotas que aprendi com o tempo. Duro e agreste contra esta serra que me olha a cada dia, serei Pedro ou pedra e continuarei crítico de tudo o que pesa e perturba mas simultaneamente me transcende. Peço hoje, por isso mesmo, humilde perdão do ensandecimento galopante que se me torna, a espaços, insuportável. Mas é quando o verbo me embebeda de opinião que mais me desvaneço de vida. E mais consigo dar-vos de mim, para o que quer que sirva. E já que outras dependências se não instalaram descobri, pois, o discreto prazer da ironia como exercício incontornável do existir. Porque creio na minoria escassa mas intensa que ainda pensa e escuta e sonha com futuros de seriedade e intenção e sofre com a incultura enorme e boçal que a cada dia nos afoga entre temperos de culinária em patético gosto musical de gosto flatulento e propósito duvidoso e portuguesmente suicida, com a conivência sorridente das mais altas instâncias intelectuais“.

Os nossos vizinhos espanhóis têm Paco Ibáñez, Patxi Andión ou Pi de la Serra, os franceses tiveram Léo Ferré, os irmãos brasileiros Vinicius ou Caetano, os americanos Joan Baez e por aí fora. Nós também temos alguns cantores de protesto de primeira água e Pedro Barroso na linha da frente. Mas será que ele conta?

Como é sabido, tecnicamente, eu não existo. Todos os indícios espúrios e avulsos da minha existência são seguramente ilusões de óptica incomodando as consciências estabelecidas. Como se sabe, ouve e publicamente pode comprovar-se, em Portugal apenas há uma dúzia de músicos e cantores. Gente extraordinária, cheia de valor. Mas eu não sou nenhum deles. Por isso, oficialmente, não existo. O que faço atinge, consequentemente – tanto quanto o sinto e me é recorrentemente comunicado – as raias da clandestinidade. […] Mas tantos ilustres foram desconhecidos, a seu tempo, neste País de interesses e sistemas que, se calhar, este é o modo como acaba por indicar-se, sem querer, o caminho das pedras aos fabricantes da esperança e a glória oculta aos milagres do improviso e da resistência. São trilhos difíceis da diferença, os que, terra a terra, convosco tenho convivido. Por isso, amigos sinceros e imensos, consumam devagar este produto de artesão, como quem quebrou a norma e saiu da clausura. Como quem celebra a festa do encanto arredado e proibido, abrindo um vintage guardado para ocasião especial“.

pb3

Pedro Barroso faz um balanço, o balanço possível duma luta, persistente, onde ainda se mantém. E onde oxalá se mantenha, para nosso consolo e fortaleza, por muitos anos.

A espaços, ouço-me agora nesta pequena colectânea e sinto que há já uma História possível. Que as canções, em parte, relatam, falando do que falam. Ao fim de 36 anos de Música e Palavras, só posso ouvir com um sorriso distante mas bom tudo o que aqui se encerra. Quem fez isto fui eu, sim. Um outro jovem e distante eu, que hoje resultou num autor dorido e bem mais exigente. Mas guardo a memória de um exaltado e incansável rapaz que perdia noites guiando; que estragou e viveu amores desconcertados; que acreditou muito em coisas demais; que foi sincero até à alma e ao sangue. E que nos intervalos do trabalho, de tanta saga, de tanta e tão espalhada vivência de palcos, viagens e cansaços, foi compondo canções conformes à sua identidade e ao seu acreditar. É esse o espaço que aqui se reviu e agora se apresenta. Foi bom repensá-lo e reemocionar-me. Teria nessa altura trinta e muito poucos anos. Ou se calhar foi ontem. E eu não dei por isso“.

Nós também não demos.

António Martinó de Azevedo Coutinho

Pedro Barroso, o (último?) Trovador – III

De entre a vasta obra de Pedro Barroso, que possuo quase na totalidade, é-me difícil escolher a interpretação mais interessante.

A diversidade e a qualidade são denominadores comuns e, entre a declamação e o canto de poemas invulgares, não se afigura tarefa simples tal escolha. A cada momento, em cada pormenor, na palavra como no acorde, o autor surpreende e seduz, empolga e emociona, sugere e aponta,  reduz ou alarga os horizontes da nossa imaginação.

Ouvi-lo é assumir uma cumplicidade, pois nada nele é neutro ou decorativo. Em cada frase há conteúdo, liminarmente directo ou subtilmente metafórico.

Depois, ele é como o vinho do Porto, sabendo melhorar com a idade o sabor das suas canções.

Mas devo revelar a minha escolha, pessoal ainda que pouco segura, mas896210 sinceramente esforçada. E nem preciso de convocar a primeira dama para abrir o sobrescrito surpresa: o meu voto vai para Longe d’Aqui, faixa do disco de 1990 com o mesmo nome, talvez o mais fascinante de todos os fascinantes trabalhos assinados por Pedro Barroso.

Em vez de falar do que sinto por tal canção -forma e conteúdo, letra e interpretação- prefiro deixar tal encargo ao crítico musical Afonso Rodrigues Pereira, transcrevendo o que escreveu no blog A Nossa Rádio… – Ouvintes da rádio pública com opinião!, na rubrica Galeria da Música Portuguesa: Pedro Barroso, divulgada a 28 de Novembro de 2007. Concordo plenamente com o texto e não saberia traduzir melhor nem com tal autoridade a minha opinião. Eis o magnífico e justo texto de Afonso Rodrigues Pereira:

Em 1990, surge o soberbo “Longe d’Aqui“, em edição da Discossete. O disco é orientado por um grande vector – a portugalidade –, pondo em confronto um passado em que fomos grandes e um presente mesquinho e pequeno, afinal uma reflexão crítica sobre o que podíamos ser mas não somos, muito por culpa da prevalência de poderes e interesses que fazem do país uma terra farta para alguns e madrasta para muitos. Pedro Barroso explica-se: “Este trabalho tem um tema geral, o ir e o voltar, a eterna aventura de ser português. Portugalidade que se percorre tanto no dia-a-dia atávico e sem horizontes, como na distância que se sofre num viver de emigrante, às vezes dentro de si mesmo. Depois de tantas histórias que nos deram sempre como heróis e santos, procura também admitir-se – eventualmente tolerar-se… – os erros de uma saga que nem sempre foi pura e desinteressada. Que foi cruel, impiedosa, altaneira, mas, apesar de megalómana, singelamente redutora, numa entronização sebastiânica da espera e das pequenas soluções de compromisso. Estar aqui ou “Longe daqui” é o dilema proposto. Assumindo a História, o Império, a tirania, mas também a prodigalidade, o doce desregramento e a emoção. Acompanhada, é claro, pela eterna sedução do improviso. Gostando muito de ser português, mas muito crítico face à demora de uma saga que houvera de ser colectiva e não apenas de alguns eleitos. E a aventura de viver hoje, bem mais difícil qfoto44ue o cruzar dos mares. […] Isto é, um ambiente onde o gesto é tudo e a gesta muito pouco […] Por tudo isso, se me perguntarem hoje, onde estou, para onde vou e de que me alimento, a resposta surge – longe daqui. E tenho de ir buscar diariamente à nossa História a alma vertical para poder continuar. E ao sonho impossível da doce e laboriosa utopia de São Nunca. Se me perguntarem também onde moro, a resposta continua simples. Moro em demanda permanente do Santo Graal entre os castelos de Deuladeu e as Áfricas de Prestes João, entre o absoluto dos corpos e o dissoluto das almas. Entre os gelos da Antártida e os calores do deserto. No país do espelho, onde habita a Grei. Lá, no sítio onde o último tabu se estabeleceu e decidiu construir família. É aí que moro. Por isso, amar mais e diferente. Viver mais e diferente. Exigir mais e diferente. E lembrar os heróis esquecidos que diariamente arrostam o peso milenar da Cultura Portuguesa, ao sabor de um viver sem subsídios que lhes sai do suor do rosto, das mãos, do sono e do pensamento. E, mau grado tudo isto, o gosto ainda de preservar cá dentro uma diligente e eterna saudade de futuro“.

Com direcção musical e produção de Pedro Barroso, no elenco de instrumentistasfoto41 contam-se o próprio Pedro Barroso (viola beiroa, viola, adufe, caixa, percussões, piano e coros), Pedro Fragoso da Silva (teclados/sintetizadores), António Chaínho (guitarra portuguesa), Sérgio Mestre (violas e flauta), Francisco Raimundo (acordeão), Luís Sá-Pessoa (violoncelos) e Nuno Fernandes (bombardino).

Além dos poemas de sua lavra (“Prefácio“, “Praia Portuguesa“, “Embaixador doentrada3 Mar“, “Excesso“, “Foi por Um Rasgo de Voz“, “Longe D’Aqui“, “O Velho Filarmonista” e “Eterno“), Pedro Barroso musica também um belo poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, intitulado “Não Sei“. Todos os temas deste álbum são de antologia, mas cabe destacar “Praia Portuguesa“, “Longe D’Aqui“, “Excesso” e “Eterno“, estas últimas duas belíssimas peças poético-musicais de tributo à mulher-amante. E a prova perfeita de que Portugal também tem um Patxi Andión. “Longe d’Aqui“, é um álbum excepcional: belíssimos os poemas, sedutora a voz de Pedro Barroso em perfeito estado de graça e magistrais as composições e arranjos instrumentais. Tudo neste disco se conjuga para o tornar numa obra-prima absoluta que se ouve em perfeito encantamento e se volta a ouvir, uma e outra vez, com o mesmo prazer e enlevo. Uma referência obrigatória da música portuguesa de sempre!

Afonso Rodrigues Pereira

Resta o convite para ouvir “Longe d’Aqui“, retirado do Youtube. A imagem “ilustrativa”, como o sábio autor da original colocação decidiu, é fixa, uniforme. As imagens autênticas, mais as emoções, essas serão as nossas, as interiores, as que a genial provocação provocará… E com que actualidade!

Pedro Barroso, o (último?) Trovador – II

Quem é Pedro Barroso? A fazer o resumo duma riquíssima e densa biografia, preferi -com a devida vénia- transcrever a constante da página oficial do cantor, ilustrada com fotografias que dali retirei . Ei-la:

00Pedro Barroso (Lisboa, 1950) vai com dias apenas para Riachos, terra natal de seu pai, que ali era professor. Regressa a Lisboa e, já adolescente, estreia-se fazendo teatro radiofónico com Odette de Saint-Maurice na ex-Emissora Nacional (1965) e, numa data que determina o seu início de carreira como cantor e autor, no programa “Zip-Zip” (Dez., 1969).
Grava o seu primeiro disco “Trova-dor” (1970) e integra durante alguns anos a companhia do Teatro Experimental de Cascais, sob a direcção de Carlos Avilez.
Volta entretanto a estudar piano com a Prof. Luísa Bruto da Costa e mais tarde canto com o tenor Carlos Jorge. Dirige actividades e lecciona no Orfeão Académico de Lisboa. Cursou em 1974 com o professor Schingelinge da Academia Mozart, de Viena de Áustria, num curso livre organizado pela Fundação Gulbenkian para instrumentistas de orquestra. Fez exame para aquisição de Carteira Profissional no Sindicato dos Músicos em 1978, tendo-lhe sido atribuída na ocasião a categoria de instrumentista e Chefe de grupo.
Conclui a sua licenciatura em Educação Física (INEF, 73) e será professor efectivo no Ensino Secundário durante 23 anos. Mais tarde viria a tirar uma post-graduação em Psicoterapia Comportamental (Hosp. Júlio de Matos, 88) tendo trabalhado na área da Saúde mental e Musicoterapia durante alguns anos. Foi, neste campo, pioneiro no ensino de crianças surdas-mudas, numa escola de Ensino Especial em Lisboa.

01Colabora activamente após o 25 de Abril em inúmeras actuações em todo o País e junto das Comunidades emigrantes. Escreve e apresenta programas de Rádio e Televisão, enquanto mantém com regularidade uma produção discográfica, ao longo de mais de trinta e cinco anos de carreira. Compôs grandes êxitos que o país aprendeu.
Cantou até hoje em praticamente todas as grandes salas portuguesas (Coliseu, Aula Magna, Fórum Lisboa, Rivoli, Pavilhão Atlântico…) e bem como em todo o país e ainda na Alemanha, Bélgica, Brasil, Canadá, Espanha, EUA, França, Holanda, Hungria, Luxemburgo, China, Suiça e Suécia. Em muitos destes países actuou também em cadeias de TV e Rádio. Foi igualmente convidado a dar palestras sobre a Cultura portuguesa nas Universidades Clássica e Católica de Lisboa, Nyemegen, Estocolmo, Toronto e Budapeste.
Recebeu até hoje alguns prémios nacionais e estrangeiros. Assim, recebeu o prémio para a melhor canção (“Menina dos olhos d’água”, prémio Eles e Elas 1986), melhor disco de 87 (Prémio Directíssimo), troféu Karolinka (Festival Menschen und Meer, RDA 81), diploma de mérito da Secretaria de Estado do Ambiente pelos serviços prestados à causa do Ambiente (Ano Europeu do Ambiente 88), Troféu Lusopress para o melhor compositor português (Paris 93), troféu Pedrada no Charco (Rádio Central FM Leiria, como compositor/intérprete em 93 e melhor Disco em 2005) e menção de Mérito Cultural do Município de Newark em 2003. Foi ainda distinguido com a chave da cidade de Danbury (USA),  Diploma de mérito da vila de Constância e é Maestro Honorário da Tuna de Veteranos de Viana do Castelo.
02Integrou a Grande Gala da Música e do Bailado (Teatro S. Luís, Lisboa, 93) junto com a Orquestra Gulbenkian e o Ballet de Monte Carlo. Foi convidado para actuar no Luxemburgo, integrado nas actividades do Ano Europeu da Cultura em 1994. No mesmo ano, foi agraciado pela Casa do Ribatejo com o título de “Ribatejano Ilustre”.
Cultiva um estilo pessoal onde a poesia, a independência, a frontalidade e a ironia têm o seu lugar. Os seus concertos são como que “encontros de amigos”, onde se estabelece uma funda cumplicidade. Normalmente escreve, arranja, orquestra e dirige os seus próprios trabalhos. Para tal, dirigiu em gravações, até hoje, entre outros, os corais Phydelius, Cramol e o Coro de Santo Amaro de Oeiras.
03Com a atribuição a José Saramago do Prémio Nobel da Literatura torna-se num dos muito poucos autores que com ele partilha obra publicada (após trabalho conjunto, o tema  “Afrodite“, in “Os poemas possíveis“,  foi musicado e integra o LP “Água mole em pedra dura“).
Vindo de uma área de intervenção crítica de expressão popular, é visível há muito tempo a progressiva opção temática de carácter mais abrangente, onde avulta a reflexão sobre os seus grandes temas de sempre – o Amor, a Solidariedade, a Mulher, a História, a Natureza, a Vida, a Portugalidade… – assumindo-se como um autor sério e rigoroso, cada vez mais respeitado enquanto cantor, poeta e compositor.
Tem colaborado em inúmeros jornais, revistas e blogs, e alguns Manuais escolares integram textos de sua autoria. Prefaciou inúmeros livros. É também um dos pioneiros na Internet com site pessoal de carreira. É solicitado frequentemente, enquanto homem de opinião, para sessões culturais, colóquios, encontros, tertúlias e palestras por todo o país.

Já no ano de 2000 é convidado para inaugurar o Café Literaire Fernando Pessoa em Genève; em 2001 para o Leitorado de Português em Toronto; em 2002 para Danbury, USA, onde recebe a chave de honra da cidade; em 2003 para a Gala da atribuição dos prémios literários Pró Verbo em Newark, USA; em 2004 para a Gala de aniversário da Casa de Portugal em S.Paulo, Brasil.
04Membro activo da comunidade artística e musical integrou a direcção do Sindicato dos Músicos e foi autor em 2002 do polémico Manifesto sobre o estado da Música Portuguesa que promoveu uma reflexão profunda do país sobre os seus Autores, com audições junto de todos os Grupos Parlamentares e audiência do Presidente da República.
Após trinta e quatro anos de Autor nela inscrito, torna-se, desde Setembro de 2003, membro eleito dos Corpos Gerentes da Sociedade Portuguesa de Autores, na direcção presidida por Manuel Freire.
A par com uma fecunda discografia como autor e compositor (cerca de 30 discos editados, entre Ep’s, singles, LP’s, CD’s, Antologias várias e discos colectivos), tem publicado também poesia (“Cantos falados” Ed. Ulmeiro, 1996; “das Mulheres e do Mundo” Ed. Mirante, 2003) e ficção, pois lançou em 2005 o seu livro “A história maravilhosa do País bimbo”, uma reflexão amarga e irónica sobre a sociedade portuguesa. Nesta conformidade tem integrado vários Júris literários onde avultam o Prémio Manuel Teixeira Gomes e o Concurso Calidum de Poesia Galaico-Portuguesa.
Como artista plástico amador, usa o heterónimo Pedro Chora e, como tal, tem exposto desenho e escultura em várias Galerias, tanto em exposições a solo como em colectivas, integrando várias colecções particulares e Museus Municipais.
Celebrou no ano de 2004 o seu 35º aniversario de autor, poeta e compositor lançando o CD “Navegador do Futuro”(Ed. Ocarina) e com actuações e concertos em Abrantes, Angra do Heroísmo, Barreiro, Benavente, Caldas da Rainha, Guarda, Leiria, Setúbal, Porto, Ponte de Lima, Riachos, Valença e Vila do Conde. O Museu do Trabalho de Riachos inaugurou, nessa ocasião, um sector onde passou a estar exposta a sua primeira viola e alguma documentação alusiva à sua vida e carreira.
Continua trabalhando em concertos pelo país actuando entre outros locais, no Rivoli do Porto, Pavilhão Atlântico, Teatro Lethes e Fórum Lisboa em 2006 e no Teatro Armando Cortês, em Lisboa, Centro de Artes de Sines e tantos outros espaços em 2007.
05Considerado como um dos últimos trovadores de uma geração de coragem que ajudou pela canção a conquistar as liberdades democráticas para Portugal, foi convidado da Associação 25 de Abril para integrar a noite de homenagem às “Vozes de Abril” no Coliseu de Lisboa, em Abril de 2008.
Esgota a sala Paul Valéry em Paris em Novembro de 2008 e desse concerto disse a crítica no dia seguinte “uma noite elevada de Arte, de Cultura e de Paixão”. CD Sensual Idade, saído em Outubro de 2008, é considerado pela crítica da RTP, no programa especial de fim de ano sobre Cultura, como um dos 5 melhores CD’s portugueses do ano 2008.
Celebrou em 2009 40 anos de carreira, em espectáculos a que deu o título” “40 anos de Música e Palavras” e que fizeram uma ampla cobertura do País – de Arcos de Valdevez a Ponta Delgada, encerrando no Teatro S. Luiz, em Lisboa.
Desde 2010 faz parte da muito exclusiva selecção – cerca de 300 personalidades – retratada no livro de “Retratos da República”.
Edita o CD Cantos da paixão e da memória (ed. Ovação) em 2012.
Continua a constituir-se como uma referência de sentido crítico e sensibilidade, um pouco a contra-corrente, nos seus concertos, repletos de ironia, comunicação e sensibilidade.

Pedro Barroso, o (último?) Trovador – I

Numa bela tarde do Verão de 2005, já lá vão quase uns oito anos, encontrei numa esplanada em Portalegre o cantautor Pedro Barroso. Vencendo a surpresa e alguma timidez aproximei-me e disse-lhe, simplesmente, que muito apreciava o seu jeito de cantar e o conteúdo daquilo que cantava. Acabei por ir a casa buscar os CD‘s que dele tinha nessa altura (agora já tenho mais!) e ele, com sincera disponibilidade, autografou-os todos, um a um. A gentileza, no culminar duma boa cavaqueira, completou-se na oferta do seu último livro –A história maravilhosa do País bimbo-, onde pedrobarrosoescreveu, como dedicatória: Os acasos merecem-se!
Nunca mais o encontrei.
Depois de José Afonso, é Pedro Barroso que preenche, talvez com José Mário Branco, o pódio das minhas predilecções nos domínios da moderna música portuguesa. E nenhum iguala Pedro Barroso na criação poética.
Vou dedicar-lhe, em curta série, algumas ligeiras crónicas, na convicção de que isso agradará a quem o conhece, e o desvendará a quem, porventura, ainda o ignore.
Começo pela transcrição de um texto pessoal datado de 1 de Julho de 2000, publicado no n.º 782 do jornal Fonte Nova, de Portalegre.

 CRITICA-MENTE

O país, de resto, é a TV. E, a bem dizer, só devem existir cinquenta portugueses importantes – aqueles que vemos todos os dias. Os outros, provavelmente analfabetos, terão de contentar-se com a inevitabilidade do que lhes impingem. E quem não aparecer é porque deve ter morrido. Não conta”.
Do texto de apresentação do disco Cantos d’Oxalá,
por Pedro Barroso (1996)

Há dias adquiri mais um disco do Pedro Barroso. Aprecio sobremaneira Pedro Barroso e sempre o oiço com o mesmo encantamento da primeira vez,  já lá vão uns bons trinta anos, quando lançou Breve Sumário da História de Deus, em conjunto com José Jorge Letria, António Macedo e Lídia Rita.

Por alturas da Expo, fiquei convencido de que o cantautor foi injustamente esquecido, ele que assinara em 1990 o álbum e a canção mais significativas da nossa crónica dos descobrimentos e da nossa relação com o além-mar, Longe d’Aqui.

Pedro Barroso é uma personalidade incómoda no seio do bocejante e bafiento quotidiano deste cantinho da Europa, sabendo como poucos utilizar a cultura poética e musical como poderoso instrumento de intervenção. Já o ouvimos cantar Saramago, Sá de Miranda, Cesário Verde, Sophia de Mello Breyner e outros consagrados autores, assim como dele escutámos magníficas versões de temas populares. Mas é na própria produção poética que encontramos os mais brilhantes capítulos da sua obra, já considerável.

Decidi unilateralmente ceder hoje este habitual espaço do “Há mais Mundos” a Pedro Barroso. Ele diz muito melhor do que eu o que penso sobre recentes e destemperadas intervenções públicas (escritas e faladas) de certas personalidades locais. Além de que não tenho pachorra para tanto… Aqui fica, como proposta para saudável meditação, um excerto de Critica-mente, poema de Pedro Barroso constante do seu álbum com o mesmo nome, editado em 1999:

Eu pecador me confesso injustamente atento, crentemente duvidoso, cepticamente optimista, candidamente deslumbrado com todas as coisas. Creio piamente nos prazeres da carne, do peixe, da fruta, dos doces e de todos os enchidos e queijos em geral, pelo que sou culpado, penitente e mártir.

Creio também no grande arquitecto universal que apenas errou ao permitir que outros ambiciosos arquitectos construíssem estranhos arranha-céus e embaraçadas cidades com toda a sua confusão, mas se redimiu ao sétimo dia construindo o mar e as montanhas, os homens, as mulheres e os cavalos, os rios, o céu e a terra, bem como presuntos e alheiras, o cozido à portuguesa, as feijoadas à transmontana, as sardinhas assadas com pimentos e o arroz de pato, em particular. (…)

À parte isso, creio na boa-fé de todos os homens, até dos vendedores de automóveis e dirigentes de futebol, tal como acredito no poder da palavra e do silêncio, no poder do exemplo e da acção, e no direito ao trabalho e à preguiça, com igualdade de acesso aos degraus mais elevados da justiça e da felicidade. (…)

Creio também na minoria escassa, mas intensa, que ainda pensa e escuta e sonha com futuros de seriedade e intenção e sofre com a incultura enorme e boçal que a cada dia nos afoga entre temperos de culinária patético musical de gosto flatulento e propósito duvidoso e portuguesmente suicida, com a conivência sorridente das mais altas instâncias culturais. (…)

Acredito no poder da deusa televisão e da Lisboa da noite onde cabem todos os negócios da opinião e da visibilidade, nos oportunistas e medíocres que têm sucesso e em todos os ricos e poderosos em geral, mas tu, natureza dos poetas, iluminai-me, mãe de todas as coisas perdoai-me e a minha alma, se existir, talvez ainda possa ser salva.

E, se esta garra camponesa for matéria, se esta lúcida recusa for temperança, se esse pôr-do-sol for divindade, andarei ainda aí por mais um tempo. Incomodando a sombra e o desleixo. Falando ao vento das pessoas. Fugindo contigo todos os dias para lugar incerto nas margens imaginárias do futuro. E que para todo o sempre o mar esteja connosco e todas as ilhas do mundo, todos os gelos e montanhas, todos os amantes, todas as crianças que brincam, todos os homens que fazem pontes e estradas, todos os desconhecidos a quem perguntamos uma coisa e nos dão uma resposta e um sorriso, todas as coisas difíceis de explicar mas que sejam cá de dentro, para que a razão dos tempos assim creia, assim viva e assim seja, por todo o tempo dos tempos que hão-de vir!