Portalegre e o Desporto na BD – quatro (fim)

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A reduzida lista de separatas de jornais infanto-juvenis alusivas a desportistas relacionados com Portalegre finda hoje. São três as personalidades abordadas: mestre Cândido de Oliveira, Manuel Martelo e Pedro Polainas, as duas primeiras pel’O Mundo de Aventuras, a terceira pelo Cavaleiro Andante.
Qualquer destas figuras já aqui foram referidas em diversas circunstâncias, Cândido de Oliveira relacionado com o jornal A Bola, Manuel Martelo a propósito dos lambuzados cromos do futebol, Pedro Polainas alvo de dois textos sobre a sua personalidade e feitos velocipédicos.

Cândido de Oliveira, natural de Fronteira, Portalegre, começou a sua polifacetada carreira desportiva na Casa Pia, de Lisboa. Passou ao Benfica e chegou a internacional. Depois, lançou-se no jornalismo desportivo, atravessando vários títulos da sua época, como Football, Gazeta Desportiva, O Atlético, Os Sports e Stadium. Tendo ainda passado pelas redacções do Diário de Notícias e d’O Século, acabou por co-fundar A Bola, juntamente com Ribeiro dos Reis.
Foi ainda treinador de algumas das nossas melhores equipas e, também, tarrafalseleccionador nacional de futebol. Escreveu alguns livros da especialidade.
Como é óbvio, sobretudo pela época de publicação da separata, o breve sumário da vida de Cândido de Oliveira não faz qualquer referência à militante actividade cívica desenvolvida contra o regime do Estado Novo, que provocou a sua prisão e o internamento no campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde. O resistente fazia parte de uma organização clandestina preparada para sabotar e destruir instalações estratégicas nacionais, em caso de uma invasão e ocupação alemã nazi em Portugal, durante a II Guerra Mundial.
Cândido de Oliveira viveu e morreu no seio do futebol. Uma pneumonia, contraída em Estocolmo onde comentava o Campeonato do Mundo, matá-lo-ia em 23 de Junho de 1958.

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Quando a Manuel Martelo, filho de uma antiga glória desportiva portalegrense, com ele convivi em Évora, durante os meus estudos aí e a sua permanência na defesa das redes do Lusitano. Contribuiu decisivamente para a promoção deste clube ao escalão maior do nosso futebol, depois de se ter notabilizado com as cores do Desportivo Portalegrense. Um estúpido acidente de jogo que lhe provocou uma grave fractura numa perna, em Coimbra, teve influência no final da sua brilhante carreira.

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Pedro Polainas, natural de Portalegre, nasceu para o ciclismo em Torres Vedras, no Oeste, região muito dada a tal modalidade. Na equipa do Sporting Clube de Portugal, Pedro Polainas venceu inúmeras provas e foi campeão em diversos escalões. O seu feitio algo extrovertido e por demais descontraído prejudicou-lhe a carreira, que poderia ter sido bem mais significativa, pois não lhe faltavam invulgares predicados para as provas ciclistas.

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Muito cativante no seu trato humano, guardo de Pedro Polainas afectivas recordações de convívio de alguns anos, já após a sua retirada do desporto de competição.

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António Bentes, Carlos Canário, Cândido de Oliveira, Manuel Martelo e Pedro Polainas, nomes grandes do desporto nacional, foram aqui reunidos sob o denominador comum de terem sido tema de referência para a imprensa juvenil na sua “idade de ouro”, os anos 50 e inícios de 60 do passado século…

 

Um atleta portalegrense de eleição – II

Pedro Polainas, nas suas épocas de glória ao serviço do ciclismo sportinguista visitou algumas vezes a sua e nossa terra, em diversas edições da Volta a Portugal em Bicicleta. Nem sempre Portalegre foi final de etapa, durante esses anos, na década de 50 do passado século, e acontece que Pedro Polainas nunca conseguiu aqui vencer, como certamente tanto teria desejado.
Será que dele ficaram alguns ecos nos jornais portalegrenses da época? O desporto, especialmente o futebol, constituiu matéria jornalística a que os três semanários então existentes –O Distrito do Portalegre, A Rabeca e A Voz Portalegrense– dedicaram uma certa atenção, embora um pouco inconsequente. Com efeito, ao longo dos seus respectivos e ricos historiais, o lugar atribuído às crónicas desportivas dependeu sempre da “inclinação” do elenco de jornalistas disponíveis. Este caso das Voltas a Portugal é disso bem demonstrativo, uma vez que praticamente se reduzem às páginas d’A Rabeca as crónicas alusivas com interesse.
O primeiro artigo com interesse, A “Volta”, encontra-se n’A Rabeca de 24 de Agosto de 1955, onde se pode ler uma crítica à forma atrabiliária e desordenada como decorreu a XVIII Volta a Portugal em Bicicleta. Mas encontra-se aqui uma excepção, que se transcreve: “É de registar o comportamento do nosso conterrâneo Pedro Polainas na prova. Demonstrou ser um corredor valoroso, com que há que contar no futuro. Inscrito sob o número 38 e na equipa do Sporting, Polainas venceu, em primeiro lugar, as etapas seguintes: quinta, Vila Real – Covilhã; sétima, Estremoz – Beja; décima sétima, a última, Viseu – Porto. Na classificação geral por pontos, Camisola Verde, ficou em 2.º lugar; na classificação final em 8.º lugar, à distância de 15 minutos e 23 segundos do primeiro classificado, recebendo o prémio de mil escudos; na classificação final do Prémio da Montanha em 5.º lugar, com 3 pontos; na Camisola Rosa, como vencedor de etapas, obteve o 2.º lugar. Na última etapa, instalada no Estádio do Lima, no Porto, Pedro Polainas entrou em 1.º lugar. A Rabeca felicita o corredor portalegrense pela sua actuação na Volta a Portugal em Bicicleta e faz votos para que em futuras provas continue a merecer boas classificações.”
Alguns outros artigos integram várias páginas dos jornais portalegrenses. No entanto, no relativo a Pedro Polainas, será em 14 de Agosto de 1957 que voltaremos a encontrar nova referência, ainda em A Rabeca, no texto Volta a Portugal em Bicicleta – Em Portalegre triunfou Raul Motos (Espanha): “A etapa de Beja a Portalegre despertou, como se previa, assinalado interesse na região, dando à cidade movimento desusado, especialmente se atendermos à hora da chegada dos ciclistas, pouco depois das 14. Raul Motos, de Espanha, venceu no sprint, à frente de numeroso pelotão, postando-se nos 2.º e 3.º lugares, respectivamente, João Marcelino, do Benfica, e Pedro Polainas, o portalegrense do Sporting. Na classificação da etapa, por equipes, saiu vencedor o conjunto do Sporting Club de Portugal, mercê das posições de Polainas (3.º), Américo Raposo (4.º) e Calquinhas (10º).”

Uma semana depois, na edição seguinte, o mesmo jornal publicava uma pequena mas significativa nota, sob o título Um portalegrense no desporto: “Não queremos deixar de registar o comportamento do ciclista do ‘Sporting’: Pedro Polainas. Ele foi de molde a honrar e alicerçar o nome desportista como um dos bons ciclistas nacionais. E, porque Pedro Polainas é natural desta cidade, aqui ficam os nossos cumprimentos ao modesto cidadão, mas valioso ciclista.
Em 9 de Agosto de 1958, é a vez d’O Distrito de Portalegre relatar nas suas páginas a chegada da etapa da XXI Volta a Portugal em Bicicleta aqui verificada. E escreveu: “Como já é do conhecimento geral, o vencedor da etapa foi o corredor Alberto Carvalho, do Académico, um jovem de 18 anos que suportou os inconvenientes de ter que fazer o percurso de 90 quilómetros sozinho. Com 4 03 minutos de diferença chegou numeroso pelotão entre os quais Pedro Polainas, segundo classificado, José Carvalho, António Pedro Júnior, Sousa Cardoso, Alves Barbosa, José Firmino, etc.”
Mas A Rabeca não deixa os seus créditos desportivos por mãos alheias. Na edição de 13 de Agosto, no artigo Portalegre na Volta a Portugal, acrescenta: “Alberto Carvalho, do ‘Académico’ do Porto, cortou a meta com cerca de 3m e 30s de avanço sobre o segundo corredor, Pedro Polainas, que ganhou ao sprint este posto, na recta final, muito merecidamente.” Nesta mesma edição, em Últimas, o jornal comunica sobre a etapa Évora-Moura: “Ganhou a tirada, depois de uma fuga a perto de 50 km da meta, o corredor do Benfica, João Marcelino que, com Américo Raposo e Carlos Pinheiro, fizeram o tempo de 3h 28m e 27s. O pelotão veio com cerca de 5m de atraso, sendo comandado por Pedro Polainas e Sousa Cardoso, e onde se encontrava Alves Barbosa, que conserva a camisola amarela.”
25 de Julho de 1959 é a data que assinala a última referência local a Pedro Polainas. Encontrámo-la n’O Distrito de Portalegre de 25 de Julho de 1959, no artigo A Volta a Portugal em Bicicleta: “Ontem a cidade de Portalegre teve o prazer de ver passar a corrida da ‘Volta a Portugal’. (…) Alves Barbosa, à frente, como era de esperar. Corre também um outro, que está fazendo ‘boa figura’ e é natural desta cidade – Pedro Polainas. Que Deus o ajude na arte de pedalar!

Julgo não errar, considerando que, após esta curta nota, nada de significativo os jornais de Portalegre alinharam sobre o nosso conterrâneo Pedro Polainas. É, pois, quase total o desconhecimento que dele têm os portalegrenses, sobretudo os das mais recentes gerações.
Deixo pois aqui uma sugestão. Atendendo à boa prática de sucessivos elencos autárquicos de homenagearem toponimicamente os não-portalegrenses que aqui se distinguiram e de, embora em menor escala, lembrarem de igual modo os portalegrenses com relevo conseguido fora-de-portas, eis aqui uma excelente oportunidade para retomar esse salutar costume. Lembro, entre estes últimos, os casos de Benvindo Ceia, Emílio Costa, Beatriz Rente, Jorge de Avilez, Filipe Folque, Sousa Larcher ou Lucília do Carmo, por exemplo, personalidades aqui nascidas com evidência ganha por outros sítios. Não citei, propositadamente, Carlos Canário (outro desportista e, por coincidência, também sportinguista) para lembrar, com o merecido destaque, um notável precedente.
Um acto de homenagem e de público reconhecimento portalegrense para com Pedro Polainas seria correcto e digno. Mas, como comunidade, não somos nisto muito hábeis nem sequer justos.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Um atleta portalegrense de eleição – I

Foi um dos maiores ciclistas portugueses de todos os tempos. Embora muito generoso e intuitivo, era tacticamente pouco disciplinado, pelo que a sua carreira desportiva foi curta.
Tem hoje 80 anos e vive em Torres Vedras, que sempre foi a sua segunda terra.
Mas é portalegrense.
Pedro António Cereijo Polainas nasceu na freguesia de São Lourenço, em Portalegre, no dia 20 de Outubro de 1931.
Hoje, quando termina mais uma edição da Volta a Portugal em Bicicleta, que ele correu por cinco vezes, passando aqui, na sua e nossa terra, é oportuno recordar um notável atleta portalegrense, há muito entre nós esquecido.

Cedo deixou Portalegre, indo com a família para Torres Vedras, para ganharem a vida, difícil nesses tempos. No Oeste, pátria lusitana do ciclismo, as bicicletas entusiasmaram o jovem Pedro, que depressa se notabilizou pela sua vocação para essa modalidade desportiva.
A região era um autêntico viveiro, onde os grandes clubes que tinham então equipas profissionais de ciclismo recrutavam muitos dos seus atletas. Assim aconteceu com Pedro Polainas que, em 1949, tinha então 18 anos, ingressou no Sporting Clube de Portugal, pela mão de Inácio Bardalino, que também mais tarde levaria o grande João Roque para Alvalade.
Ainda como ciclista amador, já com as cores do SCP, ele venceu a Rampa do Vale de St.º António, um “clássico” da época. Depois, em 1951, foi Campeão Regional de Fundo de Amadores Seniores. Nesse mesmo ano, em Outubro, seria Campeão Nacional de Amadores, em velocidade.
Continuou a sua carreira vitoriosa, em Fevereiro de 1952, como Campeão Regional de Corta-Mato Ciclo-Pedestre em Amadores Seniores. Em Abril, repetiu o título do ano anterior, no Regional de Fundo e cometeu igual proeza no relativo ao Campeonato Nacional de Velocidade, no seu escalão.
Entretanto, nos intervalos dessas competições, venceu algumas provas “clássicas” regionais, como os Circuitos de Moscavide ou de Lourel.
Em 1953, voltou ao triunfo na Rampa do Vale de St.º António.
No mês de Novembro de 1953, perdeu para Américo Raposo o Campeonato Nacional de Velocidade, em luta “fratricida” até ao fim…
Na “clássica” Porto-Lisboa de 1954 ficou em 2.º lugar, apenas vencido, mais uma vez,  pelo seu amigo e companheiro de equipa Américo Raposo.
Foi em 16 de Julho de 1955 que obteria a sua mais mediática vitória, no Campeonato Nacional de Fundo, quando venceu num fantástico sprint, que ficaria registado nas crónicas do ciclismo desses tempos, os seus seis companheiros de fuga.
Em Novembro deste ano seria novamente Campeão Regional de Velocidade.

A 1 de Setembro de 1957, fez parte da equipa leonina que se sagrou Campeã Nacional de Fundo, na companhia de Américo Raposo e Manuel Graça, dois outros ciclistas de eleição. Esta prova tem uma notável crónica. Fui disputada em sistema de contra-relógio no percurso Porto-Caminha-Porto, numa distância total de 185 km. Na ida, os leões obtiveram apenas o terceiro lugar, mas na volta revelaram-se de tal modo imparáveis que deixaram o Académico do Porto a 11 minutos e o  Futebol Clube do Porto a 17 minutos de diferença!
Em Outubro desse ano, no Estádio do Lima, também no Porto, Pedro Polainas formou equipa com Américo Raposo, vencendo pela 4.ª vez tal competição.
Em 1958, ganhou a Volta a Lisboa, prova que sempre dispôs de uma extraordinária adesão popular, e ajudou o seu clube a nela triunfar por equipas. Também venceu o “clássico” Circuito da Malveira.
Em Fevereiro de 1959, ganhou a Prova de Abertura, mas agravou o litígio com o Sporting que já vinha travando desde há algum tempo. Assim, deixou Lisboa e ingressou na Secção de Ciclismo do Futebol Clube do Porto, após curta passagem pelo Pinheiro de Loures.
Em 1960, obteve um dos mais significativos triunfos da curta carreira, ao vencer a “clássica” corrida Porto-Lisboa, no tempo de 9h 47m 23s.
Em 1961, voltaria ao SCP, o seu clube do coração. Mas a sua carreira terminou ao fim de escassos seis meses de permanência, retirando-se do ciclismo aos 30 anos de idade, quando muito haveria ainda a esperar das suas excepcionais qualidades atléticas.
Participou em 5 Voltas a Portugal em Bicicleta, onde conquistou 9 etapas, mas nunca tendo ultrapassado um 9.º e um 8.º lugares na classificação geral.
Os seus triunfos aconteceram nas Voltas de 1955, com três vitórias em finais de etapas; 1956, com duas; 1957, com uma;  1958, com duas; e 1959, com uma.
Chegou no entanto a envergar a camisola amarela durante três dias.
Na prova de 1955, obteve o 2.º lugar na classificação por pontos, atrás de Alves Barbosa e à frente de Ribeiro da Silva.
O Overall Ranking of Contemporary Riders, organização ciclista internacional, atribuiu a Pedro Polainas um total de 103 pontos acumulados em função do seu palmarés, colocando-o no 647.º lugar entre 1128 ciclistas.

Fez parte do elenco do filme O Homem do Dia, realizado em 1957 por Henrique Campos, filmado em “cinemascope”, protagonizado por Alves Barbosa, Maria Dulce, Armando Cortez, Costinha, Camilo de Oliveira, Elita Martos, Mário Pereira, Rosinda Rosa, Alina Vaz e outros. Pedro Polainas, na companhia de outros grandes ciclistas do seu tempo, como João Marcelino, José Firmino, Fernando Maltez, António Catela, Júlio Ferreira, Arlindo Carvalho ou Manuel Graça integrou o elenco secundário. O filme começa com um Porto-Lisboa e termina com um longo sprint entre Pedro Polainas e Alves Barbosa, numa chegada ao Porto. O filme foi estreado nos cinemas Éden e Roma, em Lisboa, no dia 21 de Fevereiro de 1958.
O Núcleo Sportinguista de Torres Vedras, onde reside, atribuiu-lhe o Troféu Agostinho, criado como homenagem ao malogrado grande ciclista do Sporting e entregue a personalidades consideradas merecedores de tal distinção.

O Alcobaça Clube de Ciclismo, em Novembro de 2008, levou a efeito a II Semana do Ciclismo em Alcobaça, onde realizou algumas interessantes iniciativas, incluindo um concurso de montras alusivas, feira do livro, passeio ciclista, projecção do filme O Homem do Dia, tertúlias, colóquios-debate, evocação de ciclistas como Gil Moreira, Nicolau e Trindade, Ribeiro da Silva e outros, jantar de homenagem e convívio, com ciclistas ainda vivos, vencedores do Porto-Lisboa, entre os quais Pedro Polainas.

(conclui amanhã, neste blog)

 António Martinó de Azevedo Coutinho