Albano Martins (1930-2018)

Albano Dias Martins nasceu na aldeia do Telhado, Fundão, distrito de Castelo Branco, em 6 de Agosto de 1930, tendo falecido em Mafamude, Vila Nova de Gaia, em 6 de Junho de 2018, apenas há dias.

Formado em Filologia Clássica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi professor do Ensino Secundário de 1956 a 1976. Exerceu o cargo de Inspector-coordenador da Inspecção-Geral do Ensino desde 1980.

Tendo passado, em 1993, à situação de aposentado, era professor na Universidade Fernando Pessoa, do Porto.

Foi inspirado e laureado poeta e um dos fundadores da revista Árvore, para além de colaborador da Colóquio-Letras e da Nova Renascença.

Fez também algumas traduções como O Essencial de Alceu, Cantos de Leopardi, Cântico dos Cânticos, Dez Poetas Gregos Arcaico, O Aprendiz de Feiticeiro, Dez Poetas Italianos Contemporâneos, O Aprendiz de Feiticeiro e Os Versos do Capitão.

Da sua vasta obra poética, destacam-se os seguintes título:

1950 – Secura Verde
1967 – Coração de Bússola
1974 – Em Tempo e Memória
1979 – Paralelo ao Vento
1980 – Inconcretos Domínios
1982 – A Margem do Azul
1983 – Os Remos Escaldantes
1987 – Poemas do Retorno
1987 – A Voz do Chorinho ou os Apelos da Memória
1988 – Vertical o Desejo
1989 – Rodomel Rododendro
1990 – Vocação do Silêncio, Poesia 1950-1985
1990 – Os Patamares da Memória
1992 – Entre a Cicuta e o Mosto
1993 – Uma Colina para os Lábios
1995 – Com as Flores do Salgueiro
1996 – O Mesmo Nome
1998 – O Espaço Partilhado
1998 – A Voz do Olhar
1999 – Escrito a Vermelho
2000 – Agenda Poética 2000
2000 – Antologia Poética
2000 – Assim São as Algas. Poesia 1950-2000
2001 – Castália e Outros Poemas
2004 – Três Poemas de Amor Seguidos de Livro Quarto
2004 – Frágeis São as Palavras
2005 – Agenda Poética 2005
2006 – Palinódias, Palimpsestos

Albano Martins merece uma especial citação. Já poeta consagrado, foi generoso para com o grupo de anónimos activistas que em Portalegre sonhava e vivia a difícil aventura de construir uma revista cultural. Foi em 1982, quando aceitou o convite para colaborar em A Cidade. A gentileza do poeta levou-o mesmo a criar um poema que dedicou à nossa terra, Portalegre.

No momento em que desaparece, creio justa a menção da sua grandeza de alma. Para além de poeta, ele foi para nós um amigo solidário que, com alguns outros, reconheceu e estimulou a nossa iniciativa.

Aqui reproduzo, da página 33 do n.º 4 de A Cidade o poema inédito que nos ofereceu. E, a seguir, Uma Cidade, recolhido de Castália e Outros Poemas (2001).

Obrigado, Albano Martins!

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

Uma Cidade

Uma cidade pode ser
apenas um rio, uma torre, uma rua
com varandas de sal e gerânios
de espuma. Pode
ser um cacho
de uvas numa garrafa, uma bandeira
azul e branca, um cavalo
de crinas de algodão, esporas
de água e flancos
de granito.

                      Uma cidade

pode ser o nome
dum país, dum cais, um porto, um barco
de andorinhas e gaivotas
ancoradas
na areia. E pode
ser
um arco-íris à janela, um manjerico
de sol, um beijo
de magnólias
ao crepúsculo, um balão
aceso

numa noite
de junho.

Uma cidade pode ser
um coração,
um punho.

 Albano Martins, in “Castália e Outros Poemas”