a cantiga é mesmo uma arma, pá! – Chico Buarque – Vai passar

A letra da música Vai Passar, do cantor e compositor Chico Buarque, foi escrita em meados da década de 80, num período conturbado da história brasileira que foi o fim da ditadura militar.

A letra faz uma crítica veemente ao Estado e ao período colonial brasileiro. Faz um enredo sobre a história do Brasil desde tal período com o “descobrimento” do Brasil até à ditadura militar em 1984.

Analisando a letra, especificamente em trechos como: “Que aqui sangraram pelos nossos pés, que aqui sambaram nossos ancestrais, num tempo página infeliz da nossa história…” é perceptível que o cantor faz uma referência ao período da escravidão vivenciada no Brasil, fazendo uma retrospectiva ao período colonial brasileiro, página infeliz como expõe a música, tempos de escravidão, com a exploração da mão-de-obra escrava por nós, portugueses.

Na parte da letra: “levavam pedras feito penitentes, erguendo estranhas catedrais” pode referir-se à exposição dos negros a uma cultura não vivenciada por eles, sendo imposta pelos portugueses.

O samba pode por isso ser considerada a representação da cultura negra, uma expressão artística, estilo musical dessa categoria então marginalizada.

Na parte da letra: “palmas pra ala dos barões famintos, o bloco do napoleões retintos e os pigmeus do boulevard” demonstra-se uma crítica aos colonos, a elite portuguesa que mantinha o poder na época. Assim, a letra da música mistura o período colonial brasileiro com o período de opressão da ditadura militar.

A liberdade obtida tanto pela alforria da escravatura quanto pelo período pós-ditadura surge exposto nos seguintes trechos da música: “Meu Deus, vem olhar, vem ver de perto uma cidade a cantar a evolução da liberdade até o dia clarear” (…) “Dormia a nossa pátria mãe tão distraída sem perceber que era subtraída em tenebrosas transacções”.

Enfim, aqui fica mais uma intervenção cívica e política de Chico Buarque.

a cantiga é mesmo uma arma, pá! – Chico Buarque – Cálice

CÁLICE ou CALE-SE

A música Cálice foi escrita em 1973 por Chico Buarque e Gilberto Gil, sendo lançada apenas em 1978. Devido ao seu conteúdo de denúncia e crítica social, foi censurada pela ditadura, sendo liberada cinco anos depois. Apesar do desfasamento temporal, Chico gravou a canção com Milton Nascimento no lugar de Gil (que tinha mudado de editora) e decidiu incluí-la no seu álbum homónimo.

Cálice tornou-se num dos mais famosos hinos de resistência ao regime militar. Trata-se de uma canção de protesto que ilustra, através de metáforas e duplos sentidos, a repressão e a violência do governo autoritário do Brasil de então.

A música começa com a referência de uma passagem bíblica: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice” (Marcos 14:36). Lembrando Jesus antes do Calvário, a citação convoca também as ideias de perseguição, sofrimento e traição.

Usada como forma de pedir que algo ou alguém permaneça longe de nós, a frase ganha um significado ainda mais forte quando reparamos na semelhança de sonoridade entre “cálice” e “cale-se“. Como se suplicasse “Pai, afasta de mim esse cale-se“, o sujeito lírico pede o fim da censura, essa mordaça que o silencia.

Assim, o tema usa a paixão de Cristo como analogia do tormento do povo brasileiro nas mãos de um regime repressor e violento. Se, na Bíblia, o cálice estava repleto do sangue de Jesus, nesta realidade, o sangue que transborda é o das vítimas torturadas e mortas pela ditadura.

Infiltrada em todos os aspectos da vida, a repressão fazia-se sentir, pairando no ar e atemorizando os indivíduos. O sujeito expressa a sua dificuldade em beber essa “bebida amarga” que lhe oferecem, “tragar a dor“, ou seja, banalizar o seu martírio, aceita-lo como se fosse natural.

Refere também que tem que “engolir a labuta“, o trabalho pesado e mal remunerado, a exaustão que é obrigado a aceitar calado, a opressão que já se tornou rotina.

No entanto, “mesmo calada a boca, resta o peito” e tudo o que ele continua sentido, ainda que não possa se expressar livremente.

Mantendo o imaginário religioso, o eu lírico se diz “filho da santa” o que, neste contexto, podemos entender como a Pátria, retratada pelo regime como intocável, inquestionável, quase sagrada. Ainda assim, e numa atitude desafiadora, afirma que preferia ser “filho da outra“.

Pela ausência de rima, podemos concluir que os autores queriam incluir um palavrão mas foi necessário alterar a letra para não chamar a atenção dos censores. A escolha de uma outra palavra que não rima deixa implícito o sentido original.

Demarcando-se totalmente do pensamento condicionado pelo regime, o sujeito lírico declara a sua vontade de ter nascido em “outra realidade menos morta“.

Queria viver sem ditadura, sem “mentira” (como o suposto milagre económico que o governo aclamava) e “força bruta” (autoritarismo, violência policial, tortura).

Nestes versos, vemos a luta interior do sujeito poético para acordar em silêncio a cada dia, sabendo das violências que aconteciam durante a noite. Sabendo que, mais cedo ou mais tarde, também se tornaria vítima.

Chico faz alusão a um método bastante usado pela polícia militar brasileira. Invadindo casas durante a noite, arrastava “suspeitos” das suas camas, prendendo uns, matando outros, e fazendo desaparecer os restantes.

Perante todo esse cenário de horror, confessa o desejo de “lançar um grito desumano“, resistir, combater, manifestar a sua raiva, na tentativa de “ser escutado“. Afinal, um protesto pelo fim da censura.

Apesar de “atordoado“, declara que permanece “atento“, em estado de alerta, pronto para participar da reacção colectiva.

Sem poder fazer outra coisa, assiste passivamente na “arquibancada“, esperando, temendo ,”o monstro da lagoa“. A figura, própria do imaginário das histórias infantis, representa aquilo que nos foi ensinado que devemos temer, servindo de metáfora para a ditadura.

Monstro da lagoa” também era uma expressão usada para referir os corpos que apareciam boiando nas águas do mar ou de um rio.

Aqui, ganância é simbolizada pelo pecado capital da gula, com a da porca gorda e inerte como metáfora de um governo corrupto e incompetente que não consegue mais operar.

A brutalidade da polícia, transformada em “faca“, perde o seu propósito pois está gasta de tanto ferir e “já não corta“; a sua força vai desaparecendo, o poder vai enfraquecendo.

Novamente, o sujeito narra a sua luta quotidiana em sair de casa, “abrir a porta“, estar no mundo silenciado, com “essa palavra presa na garganta“. Além disso, podemos entender “abrir a porta” como sinónimo de se libertar, nesse caso, através da queda do regime. Numa leitura bíblica, é também símbolo de um novo tempo.

Mantendo o tema religioso, o eu lírico questiona para que adianta “ter boa vontade“, fazendo outra referência à Bíblia. Convoca a passagem “Paz na terra aos homens de boa vontade“, lembrando que não tem paz nunca.

Apesar de ser forçado a reprimir palavras e sentimentos, continua mantendo o pensamento crítico: “resta a cuca“. Mesmo quando deixamos de sentir, existem sempre as mentes dos desajustados, os “bêbados do centro da cidade” que continuam sonhando com uma vida melhor.

Contrastando com as anteriores, a última estrofe traz um laivo de esperança nos versos iniciais, com a possibilidade do mundo não se limitar apenas àquilo que o sujeito conhece.

Percebendo que sua vida não é “facto consumado“, que está em aberto e pode seguir diversas direcções, o eu lírico reclama o seu direito sobre si mesmo.

Querendo inventar seu “próprio pecado” e morrer do “próprio veneno“, afirma a vontade de viver sempre segundo as próprias regras, sem ter que acatar ordens ou moralismos de ninguém.

Para isso, tem que derrubar o sistema opressor, a que se dirige, no desejo de cortar o mal pela raiz: “Quero perder de vez tua cabeça“.

Sonhando com a liberdade, demonstra a extrema necessidade de pensar e expressar-se livremente. Quer reprogramar-se de tudo o que a sociedade conservadora lhe ensinou e deixar de estar subjugado a ela (“perder teu juízo“).

Os dois versos finais fazem alusão directa a um dos métodos de tortura usados pela ditadura militar (a inalação de óleo diesel). Ilustram também a uma táctica de resistência (fingir perder os sentidos para que interrompessem essa tortura).

Cálice foi escrita para ser apresentada num show que reunia, em duplas, os maiores artistas da editora Phonogram. Quando submetido ao crivo da censura, o tema foi obviamente reprovado.

Os artistas decidiram cantá-la, mesmo assim, murmurando a melodia e repetindo apenas a palavra “cálice“. Acabaram sendo impedidos de cantar e o som dos seus microfones foi cortado.

Gilberto Gil partilhou com o público, muitos anos depois, algumas informações sobre o contexto de criação da música, as suas metáforas e simbologias.

Acho, pessoalmente, que só esta canção – isolada- justificaria para Chico Buarque o Prémio Pessoa.

E há tantas mais!…

 

a cantiga é mesmo uma arma, pá! – Chico Buarque – Tanto mar

Tanto Mar é uma canção de Chico Buarque composta em duas versões sendo a primeira, de 1975, uma saudação à Revolução dos Cravos, em Portugal. A segunda, com letra modificada, foi gravada em 1978 juntamente com Cálice e Apesar de você.

Naquela época, a inicial, Chico e Bethânia realizavam uma temporada de shows no Canecão, no Rio de Janeiro. A letra da versão original foi vetada pela censura e gravada apenas em Portugal. No Brasil ficou pelo tema instrumental.

Mas na última apresentação ao vivo, Chico decidiu cantar com a letra. Esta, no Brasil, apenas seria liberada em 1978.

Na letra, há um “eu” lírico que envia uma carta a um amigo de Portugal, a quem trata por “pá” (corruptela de “rapaz”, tratamento que corresponde, no Brasil, a “cara” ou “mano”). Os dois países estavam então em situações opostas, o que pode ser verificado pelos versos: “Lá faz primavera, pá, / Cá estou doente“. Portugal estava comemorando a Revolução, enquanto o Brasil estava triste e pesaroso por causa da Ditadura Militar.

Aqui ficam as duas versões e a “explicação” de Chico Buarque.