III Caju Agro Fest – um evento de êxito em Portalegre RN

Terminou ontem à noite, na Portalegre brasileira do Rio Grande do Norte, a III edição de Caju Agro Fest, uma aposta em boa hora retomada pela actual Prefeitura, muito bem secundada por toda a comunidade. As diversas vertentes abrangidas -sobretudo o turismo, o negócio, a gastronomia, o espectáculo e a diversão- encontraram respostas adequadas que justificaram plenamente o investimento feito.
Deve recordar-se, a este propósito, que foi ali construída do zero uma nova Praça de Eventos, baptizada de Praça da Integração Serrana, estrutura adequada para organizações comunitárias de diversas natureza. A aposta que a cidade faz em termos de futuro pode bem perceber-se por esta decisão, planeada e concretizada em pouco tempo.
Os responsáveis por mais este êxito comunitário merecem e justificam o júbilo com que os seus amigos portalegrenses portugueses acompanharam o evento.
Dando conta do que foi a III Caju Agro Fest algumas publicações potiguares divulgaram já hoje sumárias reportagens sobre o evento. Aqui se reproduzem duas destas: Jornal Potiguar e Portal Rota Turismo RN.

III Caju Agro Fest abriu em Portalegre RN

ABERTURA DA III EDIÇÃO DO CAJU AGRO FEST EM PORTALEGRE

 Aconteceu ontem ao serão, em Portalegre RN, a abertura da III Edição do Caju Agro Fest na novíssima Praça da Integração Serrana, inaugurada pelo Prefeito Manoel de Freitas Neto, com a presença de Secretários, Vereadores, Secretária de Turismo do Rio Grande do Norte, Aninha Costa, representando também a Governadora Fátima Bezerra, Deputado Federal Beto Rosado, Deputada Estadual Isolda Dantas, Deputado Estadual Alyson, Director Técnico do SEBRAE, Prefeitos da Região Oeste e demais autoridades.

A festa iniciou-se com a feira de negócios, apresentações culturais na Carreta do IMEPH pelas escolas do município, apresentações artísticas no Palco Potiguar e o Festival Gastronómico.

No palco principal Dorgival Dantas e Banda Feras animaram a primeira noite do Caju Agro Fest.

Voltou e voltou com força, bem evidente pelas imagens, um dos maiores e melhores eventos do interior do Estado do Rio Grande do Norte, e na noite de ontem, 15 de Novembro, a nova praça de eventos foi elogiada por todos os portalegrenses e visitantes.

A primeira noite foi portanto um verdadeiro sucesso de público, prolongando-se os espectáculos com: Banda Magníficos, Bruno Martins, Felipe Grillo, Amanda Gomes, Br27 e Frequência 2, que se apresentarão durante todo o evento.

A linda cidade serrana de Portalegre RN provou uma vez mais que alguns dos seus atractivos -clima, cultura e festa- se encontram em plena forma.

Que assim continue!

Nomes da Terra – IV (fim)

O caso da institucionalização de Vila Flor é interessante.

Câmara Cascudo, que alude ao facto nas páginas 267 e 268 da sua obra Nomes da Terra, garante que a promoção da Aldeia de Gramació a Vila Flor não se deve a qualquer homenagem ao anterior governador de Pernambuco, D. António de Souza Manoel de Menezes, conde de Vila-Flor, mas a um igual topónimo, então sede de Concelho no Distrito de Bragança, em Trás-os-Montes, Portugal.

Terá provavelmente razão quanto à afirmação inicial mas a sua segunda conclusão pode ser contestada. Com efeito, junto à Arez (ou Arês) alentejana encontramos uma localidade denominada precisamente Vila Flor.

Acontece que, por alturas do nascimento da Vila Flor brasileira, a Vila Flor transmontana sofria ainda os efeitos da política anti-judaica do rei D. Manuel I, que expulsara os judeus da localidade, com graves consequências económicas, sócio-culturais e até urbanísticas. Por outro lado, a Vila Flor alentejana, embora de pequena dimensão demográfica, pertencia à Ordem Militar de Cristo e possuía um castelo integrado na linha defensiva do Tejo.

Hoje, decadente, esta Vila Flor está integrada na Freguesia de Amieira do Tejo, Concelho de Nisa, e quase desapareceu… Curiosamente, a Vila Flor potiguar também passou por um prolongado período de crise.

O Juiz Miguel Carlos, conhecedor de toda aquela região onde dispunha de muitos familiares, seus directos antepassados, estaria logicamente muito mais inclinado para uma alusão toponímica relacionada com esta Vila Flor do que com a transmontana. Nada indica, nos seus anteriores dados biográficos já conhecidos, que alguma vez tivesse estado em Trás-os-Montes ou que dispusesse de qualquer relacionamento com essa zona de Portugal.

Mas não se esgota neste pormenor o interesse da institucionalização de Vila Flor, pois uma outra questão merecerá alguma pesquisa complementar.

Retomemos a Carta Topográfica datada de 1766 e oferecida pelo governador de Pernambuco, Luís Diogo Lobo da Silva, ao governante Francisco Xavier de Mendonça Furtado, a qual se encontra no Gabinete de Estudos Arqueológicos de Engenharia Militar em Lisboa. Aí constam as novas vilas formadas a partir dos antigos aldeamentos e missões indígenas: Vila de Extremoz (1760), Vila de Arez (1760), Vila de Portalegre (1761), Vila de São José do Rio Grande (1762) e Vila Flor (1769). Todas estão referenciadas no momento de sua criação e denominadas como “Vila Nova de Índios”.

O historiador Thiago Alves Dias, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, num interessantíssimo e bem documentado artigo -O espaço cartográfico enquanto escrita do poder- publicado em 2011, analisa as localizações dessas novas vilas fundadas na Capitania do Rio Grande do Norte expressas na Carta de 1766. Com excepção da Vila de Portalegre que fica no sertão da Capitania, regista-se que todas as outras vilas fundadas estão a Norte da cidade de Natal. No entanto, se compararmos essas mesmas informações com um mapa actual, verificamos que todas as localidades, com excepção da Vila de Extremoz, ficam a Sul dessa mesma cidade.

E como explicar a inscrição de Vila Flor num mapa de 1766 se apenas foi criada em 1769? Teria havido uma outra Vila Flor?

Não posso garanti-lo. No entanto, em documentos que pude consultar sobretudo através do material que está partilhado na Internet, encontrei um registo solto, sem qualquer enquadramento histórico, que alude a 10 de Outubro de 1762 como a data da fundação de Vila Flor, na Capitania de Rio Grande, por iniciativa do Juiz Miguel Carlos.

A dispor de alguma credibilidade, não confirmada, esta pista conduzir-nos-ia a uma outra Vila Flor ou a um eventual erro na datação da institucionalização da que conhecemos.

Miguel Carlos, depois de passar pela Bahia já como Desembargador, regressaria a Portugal. Foi em 1775, com 43 anos de idade, 17 dos quais vividos no Brasil. Como Juiz Desembargador, continuou a sua carreira na Relação do Porto.

Em 1778 voltaria ao Alentejo, para casar em Arronches, a terra natal do seu amigo, o Bispo D. Francisco Xavier Aranha, que entretanto falecera em Pernambuco, no ano de 1771, quando Miguel Carlos ainda estava no Brasil.

Poucas gerações após, eu próprio viria a descender do casamento de Miguel Carlos. Mas esta é uma outra história, pois trata de Nomes de Gente e não de Nomes da Terra.

António Martinó de Azevedo Coutinho

Nomes da Terra – III

A fundação a seguir relatada por Câmara Cascudo, nas páginas 235 e 236 da sua obra Nomes da Terra, é a de Portalegre.

Como habitualmente, o autor fornece uma interessante súmula dos acontecimentos locais anteriores à fundação ou instalação da nova Vila.

A intervenção do Juiz Miguel Carlos aconteceu em 1761, portanto no ano seguinte ao da fundação de Arez.

Câmara Cascudo, a este propósito, escreveu: “Fundou então, a 9 de Dezembro de 1761, a VILA DE PORTALEGRE, e não PORTO-ALEGRE. Portalegre era uma vila do Alentejo, em Portugal, denominando um distrito, de onde vieram muitos nomes para povoações no Nordeste do Brasil, Crato, no Ceará, Campo-Maior, no Piauí, Estremoz e Arez no Rio Grande do Norte, além da própria Portalegre, recém-instalada. O Juiz não teria a ousadia de desobedecer instruções do Rei. O nome já estava escolhido e não foi improvisação nenhuma. A tradição explica que a origem do topónimo deve-se à frase do magistrado, subindo a serra e descortinando a ridente paisagem: É uma PORTA ALEGRE do sertão!

Podia tê-la dito mas não determinaria título denominador. É puro folclore”.

Nada mais equívoco!

Do mesmo modo que o topónimo Arez está plenamente justificado por uma libérrima opção pessoal e familiar do Juiz Miguel Carlos, Portalegre corresponde plenamente à semelhança do contexto ambiental resumida na frase que tradicionalmente lhe está atribuída. Com efeito, quem conhece as implantações da Portalegre portuguesa e da Portalegre brasileira facilmente aí encontra uma flagrante identidade, em vales, colinas e planuras cobertas de vegetação. Como é evidente, são diversas as espécies botânicas num e noutro dos locais, mas revela-se bastante similar a panorâmica global.

Além disso, vindo o Juiz do litoral, aquela “porta” seria “alegre” em relação à ridente montanha e nunca quanto à desolada charneca sertaneja… Mas esta minha conclusão é puramente subjectiva.

Porém, existe um documento que Câmara Cascudo não conhecia, em absoluto conclusivo quanto a esta matéria. Trata-se da provisão constituinte, assinada pelo Bispo D. Francisco Xavier Aranha, quanto à nova Paróquia da Imaculada Conceição da Vila de Portalegre. Datada de 6 de Dezembro de 1761, reza: “… irmã da nossa Portalegre alentejana, nos traços comuns da sua nomenclatura, da sua alma, do seu corpo geográfico e do seu fundador”.

Como indiscutível atestado de certificação da rigorosa e fundamentada escolha pessoal de Miguel Carlos, dificilmente se poderia aspirar por melhor e mais claro documento.

Uma nota oportuna tem a ver com a pertinente chamada de atenção de Câmara Cascudo quanto à exacta grafia da vila de Portalegre, e não Porto-Alegre. Com efeito, e a propósito, são reproduzidos a seguir dois mapas do Rio Grande do Norte, publicados em 1892 e 1923, onde se lêem duas disparatadas grafias de Portalegre…

A Portalegre alentejana tinha sido residência do jovem Miguel Carlos, quando o seu pai ali fora magistrado. A sua provável morada terá sido o solar de família, os Caldeira Castelo Branco há muito ali residentes, precisamente onde está hoje instalado o magnífico Museu da Tapeçaria – Guy Fino, que ostenta por cima do portão de entrada o brasão contendo o leão rampante dos Castel-Branco.

Acrescente-se que em 8 de Dezembro de 1761, véspera da instalação, o Juiz assinara o auto relativo ao solene levantamento do pelourinho da Vila de Portalegre e à instalação da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição e São João Baptista. O pelourinho foi então solenemente levantado sob vivas a aclamações ao Augusto Soberano Rei e Senhor D. José de Portugal. O auto ou termo de assentamento foi assinado pelo Juiz e pelo escrivão Francisco Xavier Gaio, João Franco Dinis, José Gonçalves da Silva, Manoel de Mello Falcão, Manoel Pereira Villaça, João Lourenço Brandão, Estêvão Alves Bezerra, José Rodrigues da Silva, José de Meneses Nabo e João Alves Ferreira.

Miguel Carlos ainda se demoraria alguns dias na nova localidade antes do regresso a Olinda. Com efeito, em 6 de Janeiro de 1762, ele presidiria ao lançamento da 1.ª pedra (ou pedra fundamental) da construção da Igreja Matriz da Vila de Portalegre, na presença do Capelão da Armada, Padre Lourenço Xavier de Souza Carvalho (1.º Vigário), Tenente Coronel José Gonçalves da Silva (Director dos Índios do Apodi) e de outras personalidades.

A Matriz foi construída naquele ano, mas em 1884 estava bastante arruinada, pelo que foi demolida pelo padre italiano Annunciato Servídio, começando a construção de uma nova igreja, mais tarde concluída pelo frade capuchinho Frei Venâncio Maria Ferrara.

Após Arez e Portalegre virá Vila Flor.

Nomes da Terra – II

A razão de ser desta curta série tem a ver com interessantes actualizações quanto a dados impossíveis de conhecer em profundidade, na prática, nas décadas de 30 a 60 do passado século. Entre a infinidade de referências contidas na densa obra Nomes da Terra, apenas serão abordadas três, relativas à fundação das Vilas de Arez, Portalegre e Vila Flor, onde se contém um denominador comum, precisamente o fundador, o Juiz de Fora de Olinda, Dr. Miguel Carlos Caldeira de Pina Castelo Branco.

Este, ao tempo, era apenas um quase anónimo funcionário do rei de Portugal, destacado na colónia do Brasil. As imprecisões sobre ele eram, e ainda são, tantas que o seu próprio nome ainda hoje surge grafado como Miguel Caldas e não Miguel Carlos em documentos impressos e em registos digitais.

A quase incrível “descoberta” pessoal da personalidade, genealogia, dados e datas da sua biografia e outros elementos identitários daquele Juiz permite-nos explicar, ou corrigir, algumas afirmações assim como reduzir certas hipóteses colocadas na obra agora em apreço, actualizando-as.

Sumariemos os dados fundamentais da identidade do Juiz de Fora.

Miguel Carlos Caldeira de Pina Castelo Branco nasceu em Portel, comarca de Vila Viçosa, onde foi baptizado em 29 de Janeiro de 1732.

Os seus pais foram Miguel Lopes Caldeira Artur, natural (n. 21 de Setembro de 1703) de Arez (Nisa), e D. Maria Rita de Pina Castelo-Branco, natural de Arraiolos (n. 1710).

Os seus avós paternos foram Manuel Lopes Caldeira, natural de Arez (Nisa) e Brázia Gonçalves Artur, também natural de Arez.

Os respectivos bisavós foram Domingos Lopes Caldeira, natural da Aldeia de Chamisso (Crato) e Leonor Vaz Caldeira, natural de Aldeia da Mata (Crato); Miguel Rodrigues, natural de Arez, e Maria Artur, natural de Amieira (Crato).

Os seus avós maternos foram o P.e Francisco de Abreu e Pina, natural de Portel, e Maria Ribeira, natural de Arraiolos.

Os respectivos bisavós foram André da Veiga Pina, natural de Portel, e Maria de Meyreles, natural de Vila Viçosa; António Gonçalves, natural de Terena, e Bárbara Ribeira, natural de Arraiolos.

O pai, Miguel Lopes Caldeira Artur (1703 – 1770), jurista formado em Coimbra (Direito Cesareu, em 31 de Julho de 1729), foi Juiz de Fora em Arraiolos, mais tarde em Serpa (1734) e em Tomar (1740), depois Provedor da Cidade de Portalegre e Provedor Togado da Cidade de Évora, onde morreu.

Miguel Carlos, após estudos de Direito (provavelmente em Coimbra, como o pai, durante o tempo da residência em Portalegre), começou a sua carreira na magistratura como Juiz de Fora em Beja.

Desejoso de “emigrar”, o jovem magistrado rejeita um convite para a Índia, alegando “o dilatado da viagem”…

Mas aceitará a nomeação para o cargo de Juiz de Fora em Pernambuco, para o qual foi nomeado pelo rei D. José I, por mercê datada de 14 de Março de 1758.

Registe-se, por ser um facto significativo, que no dia 17 de Novembro do ano anterior, 1757 (pouco depois do Terramoto de Lisboa), o prelado natural de Arronches D. Francisco Xavier Aranha tinha sido nomeado Bispo de Olinda.

Os dois alentejanos vão encontrar-se aí, criando e desenvolvendo uma amizade que vai perdurar.

Após este necessário “preâmbulo” regressemos à obra Nomes da Terra, de Luís da Câmara Cascudo.

A fundação da Vila Nova de Arez, devida ao Juiz Miguel Carlos (então com 28 anos de idade), vem relatada na página 162. Aconteceu em 15 de Junho de 1760.

Historiando brevemente os antecedentes da povoação, mesmo antes da colonização portuguesa e depois, durante o domínio holandês, o autor dá conta da designação da missão jesuíta anterior à intervenção do Juiz: Aldeia de São João Batista de Guaraíras, sobretudo em alusão a uma grande lagoa próxima.

Acontece que, por determinação real datada de 1755 e ratificada em 1758, os nomes nativos dos novos municípios instalados deveriam ser substituídos por denominações de localidades portuguesas.

Nesse mesmo sentido, o então governador geral de Pernambuco, Luís Diogo Lobo da Silva, recebera recentíssimas ordens de Francisco Xavier de Mendonça Furtado, ocupando a Secretaria de Estado da Marinha e dos Negócios Ultramarinos, exigindo que fosse observado, em relação aos índios, o anteriormente disposto.

A partir dessa determinação de Mendonça Furtado, o governador de Pernambuco expedira uma longa instrução ao Juiz de Fora para que ele executasse as ordens relativas à transformação das aldeias em vilas: “A todas as vilas e lugares que erigir denominará Vossa Mercê com os nomes das de Portugal que lhes parecer mais conformes aos sítios em que se acharem, ou a formar, procurando não fiquem com aqueles que já se tem dado a outras novamente criadas neste continente”.

Assim, segundo Câmara Cascudo, Miguel Carlos repetiu ali o nome de uma vila do Alentejo, distrito de Portalegre, em Portugal, mais precisamente Arez.

O que não disse, porque o ignorava, é que esta Arez portuguesa era a terra de naturalidade do pai, dos dois avós paternos e de um bisavô do fundador.