Saudades do Brasil em Portugal – 10

A evocação de hoje é dupla, recordando sessões públicas concretizadas no excelente auditório do Centro Administrativo de Portalegre RN, na tarde do dia 5 de Dezembro de 2019 e na manhã do dia seguinte.

Na primeira, coube ao Manuel a mais significativa componente, com a apresentação e descrição do que é a Amnistia Internacional Portugal, entidade da qual é o mais jovem dirigente nacional de sempre.

Em diálogo com os presentes, onde avultavam jovens alunos de escolas locais, o Manuel traçou um retrato da instituição internacional, onde recordou a sua criação na Inglaterra, no ano de 1961, através da militância pela causa da liberdade por parte de um advogado britânico, Peter Benenson. O pretexto fora encontrado em Portugal, no absurdo caso da detenção de dois estudantes que publicamente tinham brindado à liberdade.

A crónica histórica dos Direitos Humanos e os seus objectivos foram detalhados em animado diálogo com os presentes, que manifestaram o maior interesse. Deve recordar-se que a implantação da Amnistia Internacional (Anistia, segundo a ortografia nacional) no Brasil é quase residual, bastando dizer que a sua sede nacional foi inaugurada, apenas, em 2012…

Ficou no ar a eventual, embora difícil, criação de um núcleo local.

O Manuel, simbolicamente, fez sortear entre os jovens uma t-shirt da Amnistia Internacional.

Pela minha parte, a participação no encontro, entre outros temas, assumiu sobretudo a recordação, apoiada por imagens projectadas, de duas sessões organizadas na Portalegre portuguesa, com ligação pela Internet à Portalegre brasileira.

Estes eventos, sob a designação de Festas Escolares Portugal-Brasil, tiveram lugar em 29 de Maio de 2009, na Escola José Régio, e em 2 de Dezembro de 2010, na Escola Cristóvão Falcão.

Curiosamente, passados alguns anos sobre ambas as realizações que tiveram transmissões algo afectadas pelas condições da fraca Internet das respectivas épocas, foi possível reconhecer rostos e identificações de muitos dos seus participantes portalegrenses brasileiros. Aconteceu, portanto, mais um momento de rara emoção, onde as nossas terras ficaram mais próximas.

Nessa oportunidade, tanto eu como o Manuel fomos brindados pelos professores presentes com uma oferta de grande significado: o volume criado pelos alunos das escolas municipais locais intitulado Histórias e Lendas de Portalegre. Este livro, uma obra colectiva, foi editado em 2018 como resultado do Projecto Nas Ondas da Leitura, uma iniciativa da Editora IMEPH.

Entre outros responsáveis locais pelo excelente trabalho, que posteriormente detalharei pelo valor e pelo exemplo inerentes, estão o Prefeito Manoel Neto e o então Secretário da Educação, Afrânio de Lucena.

(Como notas sobre o livro Histórias e Lendas de Portalegre, acrescento o facto de ter noticiado no blog Largo dos Correios, em Março de 2018, o lançamento público do Projecto que lhe deu origem, assim como a circunstância, curiosa pela coincidência, de ter criado neste mesmo blog, em 2013, uma secção não regular intitulada Lendas e Histórias de Portalegre e seu Termo…)

Na manhã do dia seguinte, nova sessão ali aconteceu com bem diverso conteúdo. Desta feita, foram privilegiadas as relações entre as duas Portalegre´s.

Através de um filme, da autoria de Francisco Sardinha, foi recordada a primeira ida a Portalegre RN, em Outubro de 2004. O pretexto deu lugar a novas, gratas, e também saudosas evocações.

Um breve historial das relações entre ambas as cidades antecedeu a apresentação, sumária, do historial e locais de vida –em Portugal e no Brasil- do fundador de Portalegre RN, o juiz de fora Miguel Carlos Caldeira de Pina Castelo Branco.

Um apelo à intensificação de um melhor conhecimento do tema, aliciante para ambas as partes, ficou registado para um próximo futuro. Com efeito, em Portalegre RN, também no Rio Grande do Norte, na Paraíba, em Pernambuco, Recife, Olinda ou Salvador da Bahia, assim como em arquivos históricos brasileiros, haverá seguramente documentos e outros materiais que poderão complementar o conhecimento hoje já dominado, com lacunas, acerca da personalidade e das realizações de Miguel Carlos.

Devo destacar que, antecipando a intenção da visita já prevista, o antigo Prefeito Euclides Pereira de Souza honrou-nos com a sua presença no evento. Um abraço de renovada e grata amizade selou o encontro.

Um momento alto da sessão foi protagonizado por um grupo de alunos da Escola Municipal Filomena Sampaio de Souza, que declamaram um poema, em colectivo e sentido jogral, sobre a sua amada Portalegre.

O auditório do Centro Administrativo de Portalegre RN foi, portanto, um dos cenários mais significativos para o reforço da nossa recíproca amizade.

Saudades do Brasil em Portugal – 09

Na cidade brasileira de Portalegre, no Rio Grande do Norte, verifica-se uma grande veneração pelo dia 8 de Dezembro, porque Nossa Senhora da Conceição é Padroeira da cidade, conjuntamente com S. João Baptista, também pretexto para grandes festejos de diferente natureza.

Com efeito, o fundador, o juiz de fora alentejano Miguel Carlos Caldeira de Pina Castelo Branco, manteve o orago de São João Baptista, recebido da antiga Missão do Apodi ali sita, juntando-lhe a homenagem a Nossa Senhora da Conceição, santa do próprio dia da criação da Vila de Portalegre dos Índios, 8 de Dezembro de 1761.

Esta circunstância determinou a data da nossa recente ida a Portalegre RN, pois pretendemos associar a nossa estadia à celebração festiva e a uma simbólica homenagem ao nosso antepassado familiar, o fundador.

Acresce o facto de Nossa Senhora da Conceição, para os portugueses, estar ligada à Restauração da nossa independência, quando D. João IV lhe agradeceu essa dádiva, após a prévia invocação que os revoltosos de 1640 haviam feito. A partir de então, Nossa Senhora de Conceição tornou-se igualmente Padroeira de Portugal.

Na nossa chegada a Portalegre RN, no serão do dia 4 de Dezembro de 2019, eu e o Manuel ficámos desde logo inseridos no ambiente festivo em torno da Igreja Matriz, organizado pela Paróquia. Um dos primeiros amigos locais que encontrámos foi precisamente o Padre Dário Tórboli.

Todos os que fomos a Portalegre RN, em Outubro de 2004, ficámos logo fascinados com a cativante personalidade do Pároco, agora com 90 anos de idade e ainda activo. Natural de Trento, na Itália, está no Brasil desde 1971, tendo-se fixado em Portalegre cinco anos depois.

Em Setembro de 2005, no regresso de uma ida à sua terra natal, fez escala na Portalegre portuguesa, estando alguns dias entre nós. Teve então oportunidade para conhecer a nossa cidade e a região envolvente. Ficou alojado no Seminário Maior, onde pode fazer amizade com diversos colegas portugueses, entre eles o saudoso Padre José Heitor Patrão.

A última vez que eu estivera pessoalmente com ele foi durante as solenes comemorações dos 250 anos da Fundação de Portalegre RN, em Dezembro de 2011.

No programa agora traçado foi inserida a nossa participação em diversos momentos da novena então em curso, o que proporcionou excelentes oportunidades de convívio com a comunidade.

A devoção com que os portalegrenses brasileiros participam nas cerimónias religiosas é bem patente. O luso-tropicalismo concedeu aos nossos irmãos do outro lado do mar uma forma de estar mais intensa que a praticada entre nós. É assim nos actos públicos, nos eventos desportivos ou na prática política, onde a sua adesão se revela sincera, emotiva e próxima.

Também, curiosamente, a tolerância. Eu e o Manuel, espontaneamente, trocámos olhares de surpresa quando numa missa solene, onde nos seria concedida a palavra para um testemunho público, foi anunciada a entrada dos elementos da loja maçónica local. Em cortejo, impecavelmente trajados, os maçons desfilaram conduzindo uma imagem de Nossa Senhora da Conceição e tomaram lugar nas primeiras filas.

Entre nós, isto seria impensável, dado o absoluto “divórcio” entre a Maçonaria e a Igreja Católica. O Vaticano continua a não aceitar que os seus fiéis sejam maçons e já se opôs radicalmente a tal associação, sobretudo quando a envolvia um absoluto secretismo. Nos nossos dias permanece esta incompatibilidade oficial.

Passada a surpresa inicial perante o presenciado, concordámos ser positivo este sinal ecuménico de aproximação e fraternidade.

O momento culminante das festividades organizadas e cumpridas em torno da Padroeira foi o da procissão. Pelo início da tranquila noite tropical do dia 8 de Dezembro foi organizado o desfile religioso que se revelou muito participado.

No essencial, não há diferenças fundamentais entre aquela procissão e as que entre nós se realizam. O único toque local foi dado pela activa presença de um carro de som que fechava o longo cortejo, onde os sacerdotes, as autoridades e o povo participaram, com o andor, as confrarias, as opas e os pendões, os cânticos e os vivas e até “anjinhos”…

Partindo de junto da Igreja Matriz, a procissão ali regressaria após o tradicional percurso por algumas das ruas da cidade.

Registei um pequeno videograma que aqui fica como termo de mais esta crónica evocativa de uma inesquecível e gratificante estadia em Portalegre RN.

Portalegre RN está hoje em festa

COMUNICADO/CONVITE

A Prefeitura de Portalegre, por meio da Secretaria Municipal de Educação, comunica aos pais e responsáveis por alunos da Escola Municipal Filomena Sampaio de Souza que as aulas se iniciarão no dia 17 de Fevereiro, segunda-feira, nas novas instalações da instituição que fica localizada na Rua Raimundo Rodrigues Torres. Todos os que fazem a instituição e a comunidade escolar municipal convidam os pais para irem deixar os seus filhos no primeiro dia de aulas e assim conhecerem as novas instalações da escola.

Gostava de estar hoje em Portalegre. Entenda-se, na minha Portalegre do Brasil. O motivo está à vista. Na reprodução do comunicado/convite que a Prefeitura lançou oportunamente fica a razão mais do que suficiente. Como professor, como cidadão e sobretudo como admirador do esforço que toda a comunidade portalegrense do Brasil desenvolve, na quotidiana construção do seu futuro, por todos estes motivos devo expressar o meu júbilo e a minha admiração.

Num dos “capítulos” das memórias que tenho vindo a publicar no blog, tinha já aludido à magnífica impressão colhida na ida às obras de conclusão do edifício escolar que hoje vai ser inaugurado. Numa exacta e lúcida convicção de que cabe à Educação um papel crucial do desenvolvimento e no progresso, as autoridades de Portalegre RN concedem um particular carinho a este sector, como aliás procedem quanto à Saúde e a outros sectores da vida comunitária.

Resta-me daqui enviar um abraço de congratulação e de parabéns aos irmãos brasileiros, muito em especial ao Prefeito Manoel Neto, à Secretaria Municipal da Educação e a todos os estimados colegas da Escola Municipal Filomena Sampaio de Souza.

Nas novas instalações, que nada devem ao que de melhor se faz entre nós, os jovens alunos portalegrenses aprenderão e acrescentarão capacidades para a activa cidadania, garantia do um melhor futuro para a comunidade.

Saudades do Brasil em Portugal – 08

Dedico este “capítulo” de gratas evocações a alguns dos amigos e companheiros de jornadas, esta e outras, nas terras brasileiras do Rio Grande do Norte. Serão apenas mais cinco, agora citados pela ordem cronológica do encontro pessoal, representando todos os outros, e são muitos…

O arquitecto e urbanista Lúcio de Medeiros Dantas Júnior foi o primeiro deles. Pelos finais de 2004, quando foi preparada a primeira ida de portalegrenses portugueses ao Brasil, ele desempenhava as funções de Secretário de Estado Adjunto do Turismo. Foi decisiva a sua influência, pois ela fez-se sentir desde o magnífico acolhimento que nos proporcionou logo na chegada ao aeroporto, até toda a significativa companhia, pessoal e oficial, que nos prestou tanto em Natal como em Portalegre RN.

Tenho-o reencontrado, sempre com emoção e reforço da amizade que nos liga, em todos os meus regressos ao Brasil, nomeadamente neste último, quando os seus múltiplos afazeres profissionais tanto o prendiam. Embora já retirado das funções oficiais e das elevadas representações institucionais que ocupou com brilho, está hoje envolvido na coordenação de uma equipa técnica que intervém numa importante intervenção urbanística local, o Projecto da Arena do Morro, em Natal/RN.

Segue-se a jornalista Maria Bernardete Cavalcante, academicamente formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Trabalhou profissionalmente nos mais importantes jornais e revistas da cidade de Natal, muito em particular durante o delicado momento político da redemocratização. Escreveu ainda colunas em jornais regionais e assinou um apreciado blog, o DitoBendito.

Privilegiou temas ligados ao conhecimento e desenvolvimento de Portalegre RN. Ao tempo da nossa ida pioneira a esta sua cidade, ela desempenhava uma atenta e competente assessoria de imprensa junto da Prefeitura liderada, como hoje, por Manuel de Freitas Neto.

Acontece que só agora, embora a tenha reencontrado em diversas anteriores oportunidades, pude privar demoradamente com Bernardete e conhecer com maior proximidade a sua riquíssima personalidade, timbrada pela coragem e pelo desassombro. A hospitalidade que nos concedeu, nas suas residências em Natal e em Portalegre RN, representou momentos altos na recente nossa estadia.

Com Thiago Alves Dias vivi um fenómeno similar. Tal como acontecera com Bernardete, os nossos anteriores encontros tinham sido, talvez, ainda mais fugidios. De registar, para já, um inestimável serviço cultural prestado por ambos, quando, a propósito das comemorações, em 2011, dos 250 anos da Fundação, lançaram a magnífica e oportuna obra Portalegre do Brasil – História e Desenvolvimento, cuja iniciativa, organização e coordenação assinaram.

Thiago esteve envolvido, desde 2004, na sua formação académica, desde o bacharelato e licenciatura em História na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, onde se seguiu o mestrado. Já o doutoramento, entre 2012 e 2017, aconteceu na Universidade de São Paulo, em História Económica, com recente pós-doutoramento na sua Universidade de origem. Curiosamente, realizou por duas vezes estágios doutorais na nossa Lisboa. Já foi docente universitário, sendo presentemente bolsista e pesquisador nas suas áreas predilectas.

Tem assinado brilhantes estudos e artigos publicados em obras e revistas da sua especialidade e por mais de uma vez aqui o tenho citado, no blog, com admiração.

A sua personalidade é fascinante e foi um magnífico companheiro de jornada em Portalegre RN.

A convivência com Afrânio Gurgel de Lucena foi diferente no passado, por ter sido mais frequente a nossa relação de proximidade. É professor, portanto colega, graduado em Letras, com especialização em Linguística Aplicada e em Literatura e Estudos Culturais, possuindo um mestrado em Letras, pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, concluído em 2013.

O amigo Afrânio já desempenhou em Portalegre funções de vereador da Prefeitura assim como de Secretário da Educação.

Na notável comemoração que a cidade levou a efeito em 2011 a quando dos 250 anos da sua fundação, foi precisamente Afrânio de Lucena a principal alma de tão complexa como bem-sucedida organização. Pude apreciar ao vivo o resultado da sua inteligente e trabalhosa actuação, à frente de uma equipa coesa e funcional.

Sempre ele me provou uma fraterna amizade e me acompanhou em diversas oportunidades, agora repetidas em dedicação e solidariedade. Conto sempre com ele para um futuro a haver.

Last but not least, por último mas não menos importante, acrescento Gilton Sampaio de Souza. Relembro a inesperada mas gratificante visita que, com a esposa Lúcia e uma discípula, me fez em Peniche nos princípios de Novembro de 2017. Então aconteceu uma convergência de interesses culturais, criando-se amizade “à primeira vista” que os tempos posteriores têm reforçado.

Professor e pesquisador, Gilton Sampaio de Souza é linguista de formação e actuação, sendo graduado em Letras e especialista em Didáctica do Ensino Superior, ambos pela Universidade Estatal do RN. É mestre em Linguística Aplicada e doutor em Linguística e Língua Portuguesa. Possui ainda um pós-doutoramento em Estudos Comparados – Português/Francês pela Université Paris 8, Vincennes-Saint-Denis, em França. Pertence ao quadro efectivo de servidores da UERN, como professor adjunto IV, na área de Linguística, embora esteja neste momento destacado, desde Fevereiro de 2019, como Director-Presidente da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Norte (FAPERN).

Foi o nosso dedicado “hospedeiro” em Natal. A sua afabilidade iguala a competência sempre evidenciada, com inteira e simples naturalidade. Há sinais evidentes da dinamização e modernidade que introduziu na Fundação a que preside. A sua magnífica equipa, que tivemos a ventura de conhecer, merece e justifica uma forte expectativa de presente e de futuro.

Citei, com sumária brevidade, cinco das personalidades que me orgulho de ter como amigos do outro lado deste mar que nos une. O contacto que lhes foi proporcionado com o Manuel garante uma recíproca cumplicidade, reconfortante para quem, como eu, está nos finais da jornada, portanto interessado na passagem de um testemunho de honra.

A amizade centrada em valores comuns que se partilham com naturalidade constitui uma garantia de sempre, ontem como hoje e sobretudo amanhã.

Saudades do Brasil em Portugal – 07

Um dos expressos objectivos da nossa ida a Portalegre RN foi o de rever sítios fascinantes em que a cidade e o seu envolvimento são abundantes e diversificados.

Ao mesmo tempo interessava e urgia partilhar esse necessário conhecimento com o Manuel, a fim de que ele entendesse, ao vivo, algumas razões do meu encantamento.

Tal desígnio foi incorporado no programa estabelecido. E cumprido, embora se deva reconhecer que ficou ainda património por (re)descobrir… numa próxima oportunidade.

Os outros portalegrenses portugueses, que acompanhei nas duas idas colectivas em 2004 e 2005, conhecem apenas o que se situa no perímetro urbano da cidade, nomeadamente o Mirante da Serra, o Terminal da Bica e a Cachoeira do Pinga.

Porque ficámos (muito bem) instalados na Pousada Recanto-Alto da Serra, logo ao lado do Mirante, foi permanente a perspectiva das soberbas panorâmicas sobre o extenso vale e a seca planura, quase interminável, do sertão nordestino.

A época não deu para apreciar em pleno quão verdejante é a cobertura das encostas arborizadas nem brilhava tanto à luz do Sol a água retida nos inúmeros açudes que preenchem a planície. Pela noite, quando as luzes se acendem, percebe-se a localização de pelo menos uma meia dúzia de cidades próximas.

Anoto aqui a coincidência, mais uma, entre as duas Portalegre’s. Enquanto na norte-riograndense este mirante se encontra a uma altitude de 645 metros, o mais conhecido miradouro da Portalegre norte-alentejana se situa nos 628 metros!

As panorâmicas abrangidas, a planura sertaneja e a planura alentejana, enfim todo o envolvimento, têm uma flagrante semelhança. Fica plenamente justificada a expressa admiração do Juiz Miguel Carlos, ao atingir aquelas encostas potiguares da Serra do Regente, na familiar similitude que ali encontrou quanto às colinas de São Mamede, que bem conhecia.

Quanto à Fonte da Bica, onde foi instalado um Terminal Turístico, trata-se de um local muito atraente. Basicamente, dispõe de nascentes de água mineral, pura e cristalina, ali brotando naturalmente do solo, que algumas vozes chegam a considerar a melhor de todo o Rio Grande do Norte. Mesmo sem este comprovativo, perfeitamente desnecessário, é fácil reconhecer o complexo ali instalado como um excelente atractivo turístico.

A cuidada rampa de acesso, o magnífico envolvimento natural, as bicas e fontes, bem como as estruturas de apoio instaladas, têm no bar-restaurante disponível um adequado complemento. O banho apetece e o Manuel bem aproveitou…

Ainda ali voltaríamos para um animado, e gastronomicamente excelente, convívio. O famoso “pirão de castanha com galinha caipira”, que eu já conhecia de uma anterior visita em que o Afrânio me levara ao Bar do Aldo, continua a justificar um elevado apreço pela gastronomia local…

O conjunto está a sofrer obras de reforma e ampliação, cuja oportunidade se sente.

Como nota interessante e inovadora, registe-se que está a ser criada uma trilha ecológica pedestre que seguirá o curso das águas que saem da Bica a caminho da Cachoeira do Pinga onde, com outras, se despenham. Gostaria de um dia percorrer essa trilha natural, que antecipo como similar às das “levadas” na Madeira…

A Cachoeira do Pinga é umas das existentes em Portalegre RN. A sua queda de água é formada pela junção de fluxos advindos de algumas nascentes da serra, uma das quais, recorda-se, é a da Bica. É perene, isto é, permanece o ano inteiro embora com distintos caudais e a água despenha-se de uma altura de 96 metros.

O espaço envolvente é muito agradável, quase irreal, mas não é fácil o acesso.

As seis ou sete centenas de metros que separam a Cachoeira da estrada constituem uma trilha que inclui desníveis acentuados, escadarias e pontes de madeira sobre linhas de água. O natural desgaste destas peças, faltando mesmo algumas tábuas nos pisos e nos corrimãos, torna o percurso ainda mais difícil, talvez arriscado, mesmo perigoso, em alguns sítios. Acrescente-se que, tal como acontece no caso da Bica, também aqui está em curso uma intervenção que vai dotar a atracção turística de um parque de estacionamento e executar reparações diversas. Naturalmente, esta intervenção recuperará a devida segurança do percurso.

A trilha é muito interessante, dando mesmo para ver as piruetas de alguns pequenos macacos que pulavam entre as árvores, chegando no final à esplanada com uma pequena lagoa na base plana onde caem lá do alto as águas. Mas aqui não deu para o Manuel tomar banho, frustrando a sua expectativa…

A Ponta da Serra fica mais fora de portas, no Sítio Belo Monte, a uns 7 quilómetros da cidade, por uma estrada nem sempre confortável. Enquanto no Mirante temos oportunidade de apreciar um belo alvorecer, aqui podemos gozar do encanto de um pôr-do-sol tropical.

Na chegada, encontramos alongados e planos pisos rochosos onde foram implantados muros pequenos e pouco altos. Assim podem ser criadas lagoas ou tanques artificiais pelo aproveitamento das águas da chuva, ali retidas. Já vi essas lagoas que nesta altura do ano ainda não estavam formadas, dado ser o período seco do calendário.

O panorama é compensador pela visão do sertão potiguar, numa diferente perspectiva, aqui sobretudo abrangendo a zona dos municípios de Francisco Dantas e Pau-dos-Ferros, assim como das serras próximas.

Este foi mais um excelente passeio, ainda mais valorizado pela fraterna companhia da Bernardete e do Afrânio.

Porém, a descrição dos sítios visitados não termina aqui.

Falta ainda o mais significativo de todos…

PS – Como que de propósito, ontem mesmo encontrei nas redes sociais um “post” de Paulo Fonseca, guia turístico e amigo em Portalegre RN. Com a devida vénia, reproduzo uma das imagens por ele publicadas, dando conta de terem sido já reparadas as pontes de acesso à Cachoeira do Pinga. Foi depressa e bem!

Saudades do Brasil em Portugal – 06

A visita à Casa de Câmara e Cadeia de Portalegre RN constituiu outro ponto alto, mais um, da nossa estadia na cidade irmã. Aconteceu, conforme o programado, no sábado, dia 7 de Dezembro de 2019.

A instituição, de acordo com as normas colonialistas da época, constituía um sinal de soberania e poder na criação das novas vilas, conjuntamente com a Igreja e o Pelourinho. Na praça principal daquelas, eram o núcleo em redor do qual se estabeleciam as casas de habitação dos índios e dos colonos. Assim aconteceu, ali, em 1761.

Sede do governo local e da justiça, o prédio dispunha normalmente de dois pavimentos, várias salas e um plenário para reuniões dos vereadores e para julgamentos (sempre no segundo piso), sendo que no primeiro pavimento, térreo, ficavam alojadas a cadeia e a guarda.

A Casa de Câmara e Cadeia tornou-se um símbolo da comunidade portalegrense e não foi por acaso, bem pelo contrário, que a jornalista Bernardete Cavalcante e o historiador Thiago Dias escolheram essa imagem como contra-capa e folha-de-rosto da sua magnífica obra Portalegre do Brasil – História e Desenvolvimento, oportunamente lançada quando das comemorações dos 250 anos da Fundação, em 2011.

Sempre conheci, desde a primeira visita em Outubro de 2004, a edificação degradada com promessas de recuperação. Esta aconteceu no intervalo entre 2011 e 2019, precisamente com a festiva inauguração oficial em 30 de Dezembro de 2016, já sob a gestão do Prefeito Manoel Neto.

Integra Pinacoteca, Museu, Biblioteca e o Espaço Cultural Cantofa e Jandi, dispondo de um magnífico auditório. A sua direcção foi entregue ao jovem e dinâmico Marcksuel Oliveira e tornou-se palco de atenções, objecto de visita obrigatória para quem se desloque a Portalegre RN, em particular delegações escolares de diversos níveis.

A instituição, em virtude da sua estratégica localização e da funcionalidade conseguida na recuperação, tornou-se sede privilegiada de exposições temporárias e de eventos culturais diversos. Quanto ao conteúdo permanente disponibilizado ao público, podemos ali admirar imagens e textos alusivos a vários períodos da vida comunitária, peças de arte sacra e profana, assim com objectos do quotidiano, reveladores de usos e costumes locais.

Curiosamente, figuram em destaque recortes de jornais da época da ida pioneira dos portalegrenses portugueses à Portalegre brasileira, em Outubro de 2004. Testemunhos desta fraterna “irmandade” fazem parte do acervo da História e dos afectos patente aos interessados visitantes.

Deixei lá um exemplar original do jornal Fonte Nova de 30 de Outubro de 2004, contendo capa alusiva e um suplemento especial dedicado a esse encontro memorável. Fora isso, nas pen’s distribuídas, ficou ainda a rigorosa digitalização dessas 30 páginas, hoje “históricas”…

Foi esta mais uma oportunidade de reconhecer na cidade irmã de Portalegre RN uma marca da presença familiar e um testemunho do evidente progresso comunitário.

A Casa de Câmara e Cadeia, sinal de soberania instituído pelo Juiz Miguel Carlos, nosso antepassado, constitui hoje prova cabal do desenvolvimento da vila, hoje cidade, por si fundada em 8 de Dezembro de 1761.

um museu distante e próximo

Campanha de Arrecadação de Objectos Históricos
para o Museu Público Municipal

A Casa de Câmara e Cadeia da Vila de Portalegre, através do Museu Público Municipal Felisbela Rodrigues Cavalcante – Neta Germano, está lançando a campanha de arrecadação de objectos históricos para compor o seu acervo.

– Recebemos documentos, peças e fotografias que representem a história e memória do município e das famílias Portalegrenses.

– A iniciativa visa resgatar, preservar e valorizar a memória da colectividade social, além de aproximar o público da sua história.

– Logo após o recebimento das doações, será lavrado o termo de doação entre o doador e o museu, em seguida com data a ser divulgada será realizada uma exposição com amostras de todas as peças que foram doadas, para que a população possa conferir e relembrar as gerações passadas.

As doações poderão ser feitas pessoalmente na Casa de Câmara e Cadeia da Vila de Portalegre, Centro, de segunda a sexta-feira, das 7h às 17h.

 

Para seguir com segurança no presente e com vistas de futuro, é preciso conhecer, estudar e respeitar a sabedoria dos que vieram antes de nós.

Tradição e inovação são faces da mesma moeda. Uma alimenta a outra.

Só é possível inovar porque existe a tradição,

Para criar o futuro colectivo é fundamental honrar o passado comum. O exemplo, simples e prático, que nos chega de uma pequena cidade perdida nas serranias do interior sertanejo do Nordeste brasileiro encerra uma lição. Uma comunidade, através da sua instituição municipal, sente interesse e urgência no conhecimento daquilo que a antecedeu, não para mera contemplação, mas como projecção de futuro. O empenhamento de cada cidadão na construção deste projecto é um desafio, uma provocação, um contributo para um válido trabalho colectivo.

Por coincidência -ou talvez não!- recordarei aqui amanhã uma recente visita pessoal à Casa de Câmara e Cadeia, onde se encontra o singelo e digno museu agora em apreço. O referido texto já estava organizado e calendarizado, pelo que a sua convergência com a campanha agora em marcha ganha oportuna relevância. E constitui, sobretudo, uma eloquente sugestão a seguir por cá.

Obrigado, Portalegre do Rio Grande do Norte!