1917 – Há cem anos – cinquenta

13 de Novembro – Portalegre: Já há tanto tempo que não recebo notícias suas; nos primeiros dias custou-me bastante; depois constou aqui que a fronteira franco-espanhola estava fechada, motivo esse por que a correspondência não transitava e assim fiquei mais tranquila; não era por doença que o meu querido Papá não escrevia“.

20 de Novembro – “França. Estimo bastante a continuação das tuas melhoras“.

21 de Novembro – “França. Estimo a continuação das tuas melhoras. Só hoje é que recebi a mala pequena que me tinha ficado no sítio donde ultimamente retirei. Já lá vão 10 meses que daí parti. A história das licenças parece-me que se complicou bastante“.

22 de Novembro – “França. Muito estimo a continuação das tuas melhoras. Temos nova encravação com o correio; não há maneira disto entrar nos eixos. Tens dificuldade em leres a minha caligrafia?

Agora, na posse de caneta e tinta, já é possível ao capitão Martinó abandonar a precária solução da escrita dos postais a lápis.

23 de Novembro – “França. Muito estimo a continuação das tuas melhoras. O bico de obra das licenças ainda não está resolvido“.

17 de Novembro – Portalegre: “Eu continuo passando bem“.

As dificuldades de ligação entre a França e Portugal provocaram atrasos, e até extravios, na correspondência travada entre pai e filha…

24 de Novembro – “França. Com as fronteiras fechadas ou abertas quero que me escrevas diariamente, como já bastantes vezes indiquei“.

25 de Novembro – “França. Há já dois dias que tem estado um frio e vento horríveis. Hoje principiaram os nevões. A história das licenças continua complicada. Parece-me que já não consigo passar aí o Natal. Hoje tive música“.

26 de Novembro – “França. Hoje fui dar um grande passeio, mas com todas as comodidades. Aonde actualmente me encontro a lavadeira rouba-me 1.100 reis pela lavagem da roupa duma semana; ficando a roupa com um cheiro nauseabundo“.

27 de Novembro – (dois postais) “França. O frio já vai sendo bastante. No meu quarto, o termómetro já marcou 5 graus positivos; porque não demorará muito que não sejam negativos.”;França. Realmente com 8 livros já tens bastante com que te entreter. (…) Realmente, a carestia da vida é um verdadeiro pavor. (…) A história das licenças está muitíssimo complicada. Já tenho 30 dias concedidos. Já sabia da tal história do músico Carvalho“.

A motivação representada pela hipótese de uma licença militar, tecnicamente já concedida, que permita ao pai, no “front”, rever a sua filha, em Portalegre, é o tema mais significativo nestes tempos de proximidade natalícia.

verdade ou consequência…

A vida cultural de Portalegre será amanhã enriquecida por duas distintas iniciativas. A primeira, na Biblioteca Municipal, consta de duas conferências organizadas pela Câmara Municipal de Portalegre e por um departamento da Universidade de Évora; a segunda, no Centro das Artes do Espectáculo, integra uma exposição, uma conferência e um lançamento literário, com organização da Câmara Municipal de Portalegre e apoio do Centro de Estudos Regianos de Vila do Conde.

É a todos os títulos louvável esta dupla iniciativa. Mas merece um pequeno reparo de “pormenor”…

A dupla conferência está prevista para as 16 horas. Num dia de semana e tratando-se de uma realização portuguesa, é suposto que apenas poderá começar (na melhor das hipóteses!) 15 minutos depois. O triplo evento regiano está marcado para as 17 horas e, quer a pé quer de automóvel, serão exigidos uns 15 minutos para cumprir a distância entre a Biblioteca e o CAEP.

A dedução restante é puramente aritmética.

Partindo do lógico princípio de que a apetência cultural dos portalegrenses a isso dedicados os impelirá ao usufruto de ambas as excelentes ofertas locais, as duas ilustres conferencistas na Biblioteca disporão, cada uma, de um quarto de hora para o seu desempenho. Isto é uma utopia. Ou uma caricatura.

Quem gere a agenda cultural portalegrense terá tido em conta esta circunstância?

Seguramente não, pelo que o resultado parece estar à vista, a não ser que seja atribuído aos interessados o dom da ubiquidade.

Ou que cada um destes escolha, em incompatível alternativa pela forçada coincidência, apenas um dos eventos…