Régio – uma evocação em Lisboa

A evocação da vida e obra de José Régio, a pretexto da recente passagem do cinquentenário da sua morte, tem vindo acontecer um pouco por todo o país.

Com óbvio destaque para Vila do Conde e Portalegre, que por razões de sobejo conhecidas são as terras por excelência do literato, onde nasceu e morreu, a primeira, onde viveu e produziu a maior e mais significativa parte da obra, a segunda, a verdade é que também Porto, Coimbra e Lisboa, outras cidades ligadas a Régio, têm cumprido programações interessantes.

Foi o caso do evento na passada terça-feira concretizado na Sala do Arquivo Histórico -adequado “cenário”- da Câmara Municipal de Lisboa. A evocação regiana -iniciativa da Associação Portuguesa de Escritores- foi coordenada por Luís Machado e contou com a participação de José Manuel Mendes, consagrado literato e presidente da direcção da instituição, e de Fernando J. B. Martinho, ilustre académico e regiano portalegrense.

Para além das excelentes intervenções destes membros da mesa que dirigiu o evento, o mote previamente sugerido revelou-se bastante adequado aos objectivos da homenagem evocativa. Com efeito, aconteceram momentos de rara emoção e profundo significado.

Enquanto Luís Machado disse com sentida naturalidade o Cântico Negro, José Manuel Mendes assentou as suas palavras na Balada de Coimbra. Quanto a Fernando Martinho, é sempre um raro encanto ouvi-lo acerca do estreito convívio que por muitos anos travou com Régio, em Portalegre. Também soaram na sala as estrofes da Toada e alguns sonetos dos mais conhecidos entre a produção regiana, a par de obras menos citadas e nem por isso de menor interesse, bem pelo contrário. A prosa romanesca foi menos lembrada, e a dramaturgia ou o ensaio, a crítica assim como os textos cívicos e políticos tiveram lugar mais discreto. Como aliás seria lógico e natural dadas as características de evocação.

Creio que o modelo expressa e previamente apresentado –Traga um texto de Régio e leia-o connosco– funcionou na perfeição. O apoio da Antena 1 e do Município da capital justificaram-se em absoluto. O auditório, que preencheu os lugares disponíveis, manifestou totais interesse e agrado.

Pessoalmente, enfrentando os rigores de um dia imprevisível, a distância e algum cansaço, acho que tudo valeu a pena. Conviver com o Fernando, um velho e firme amigo de há uns bons 75 anos, é sempre a garantia de momentos de gratas lembranças, onde a comum “militância” no incontornável Amicitia é ponto de reencontro. Houve outra interessante e oportuna “coincidência”, porque tinha levado comigo um exemplar ainda sobrante do número especial de A Cidade – Revista Cultural de Portalegre dedicado aos 15 anos da morte de José Régio, em 1984.

Acontece que, entre a variada e qualificada colaboração dessa “antologia” hoje clássica devida ao labor da equipa onde apenas “secretariei” António Ventura e Aurélio Bentes, se contam textos de mim próprio, de Fernando Martinho e de José Manuel Mendes. Este, trinta e cinco anos depois, nem sequer tinha visto o volume!

Ficou por isso encantado com a oferta que lhe pude fazer.

A participação pessoal no evento foi distinta de todas as demais, muito menos “literária”, muito mais “vulgar” e personalizada.  O texto de Régio que levei comigo e que li foi o do original da carta dirigida ao seu irmão Júlio, em Évora, pedindo-lhe apoio para o jovem de 16 anos que, por finais de 1955, ali começaria a frequentar a Escola do Magistério Primário. Revelei assim o lado humano, generoso e solidário, do excepcional criador.

Pelo que recebi e pelo que dei -repito- bem valeu a pena.

E, quanto à imensa dívida de gratidão que tenho por José Régio, paguei apenas uns simbólicos juros…

Saudades do Brasil em Portugal – 00

No passado mês de Dezembro de 2019, acompanhado pelo meu neto Manuel, voltei à cidade brasileira de Portalegre, no Rio Grande do Norte.

Fi-lo pela quinta vez, na intenção de ser a última. Esta decisão ficou algo abalada, sobretudo em função de o Manuel planear o seu regresso em 2021. Se eu ainda estiver apto para tanto, talvez então o acompanhe.

Nas próximas semanas, de forma aleatória -não cronológica, à medida do que se for impondo ou apetecendo-, tenciono aqui relatar episódios dessa recente e inesquecível jornada. Pelo texto e pela imagem, registarei as impressões que a recordação dos sítios e a fraternidade das gentes deixaram nesta grata memória pessoal.

Tudo começou em 2004, quando em Portalegre – a de cá- um grupo ligado ao jornal Fonte Nova teve conhecimento -quase acidental- da existência de uma cidade brasileira com o mesmo nome. Não se tratava de Porto Alegre, a grande e florescente capital do Rio Grande do Sul, com a qual -enquanto docente na Escola Preparatória Cristóvão Falcão- tinha sido estabelecida uma interessante campanha de intercâmbio epistolar entre alunos portugueses e brasileiros. Por essa altura, vão cinquenta anos passados, julgávamos que era essa a nossa cidade “gémea” no Brasil…

A Portalegre de cuja existência apenas há uma década e meia soubemos é pequena, perdida no interior do sertão nordestino, numa montanha que afinal marcara de forma decisiva a sua toponímia. Ao que a tradição guardou, o seu fundador -um juiz de fora português- teria bradado “isto é Portalegre!” ao atingir essas encostas onde o seu dever de soberania o conduzira, nos distante finais de 1761.

Mal sabia eu, então, que esse homem era um directo antepassado.

Em Setembro de 2004, nas vésperas da pioneira partida para o Brasil que o Fonte Nova entretanto organizara, uma súbita inspiração tinha-me conduzido à pesquisa dos apelidos comuns ao meu avô paterno Miguel –Caldeira Castelo Branco– e ao juiz fundador, por coincidência também Miguel. Cinco gerações antes da minha a genealogia revelou a inequívoca constatação de ser este um meu pentavô!

Quando pelas terras brasileiras de Portalegre, de Olinda, Recife ou Bahia, tenho pisado pedras seculares, pergunto-me quais delas também foram percorridas por ele…

O contexto físico, geográfico ou ambiental, é sempre significativo nestas situações. Porém, muito mais influente é o calor humano, a fraternidade praticada em torno de crónicas partilhadas, de memórias comuns talvez inconscientes, mas reais, de uma história escrita em conjunto. E isto tem-se verificado desde o primeiro encontro, tem-se reforçado em cada nova oportunidade.

Estreitar antigas amizades e dispor de oportunidades para criar outras tem sido um lugar comum em cada reencontro. E já foram quatro…

Tenho plena consciência de que as palavras usadas serão sempre demasiado pobres, de que as imagens escolhidas fixam os momentos, mas não as vivências autênticas. Mesmo assim, vale a pena tentar.

Nas terças e sextas feiras das próximas semanas pretendo aqui partilhar memórias de uma fascinante jornada, admitindo uma ou outra falha em função de imprevistos, sempre possíveis.

No singelo cabeçalho que compus está o sentimento dominante, na fórmula que “roubei” ao grande e inspirado Vinícius de Moraes. Saudades do Brasil em Portugal é uma canção escrita e interpretada por ele e também por Amália Rodrigues em Lisboa, pelos finais de 1968, quando de uma sua passagem pela casa da nossa diva.

Nesta homenagem à fraternidade luso-brasileira marca-se e assinala-se a raiz comum a tudo o que nos une.

ecos da Portalegre do outro lado do mar

Uma permanente e clara noção de serviço público, uma antiga e entusiasta cumplicidade na relação entre as duas Portalegre’s e ainda uma forte amizade pessoal, fez com que o Director do semanário Alto Alentejo tornasse o seu primeiro exemplar do jovem ano de 2020 num porta-voz desta relação entre as duas Pátrias irmãs.

Com efeito, nada mais nada menos do que três páginas e meia da edição foram preenchidas com os ecos do recente encontro entre a Portalegre alentejana e a Portalegre norte-rio-grandense. Neles sobressai a entrevista conduzida pela jornalista Bernardete Cavalcante, uma “velha” amiga de 2004.

Aqui, neste outro e mais modesto porta-voz da mesma causa, fazemo-nos hoje num novo eco, ampliando na medida do possível o significado desta fraternidade entre duas terras, e muitas gentes, ligadas por um comum denominador que em muito ultrapassa a toponímia.

Propomo-nos, oportunamente, dar aqui conta mais detalhada de alguns episódios vividos na inesquecível jornada. Para já, e com a devida vénia e gratidão ao amigo Manuel Isaac Correia e ao “nosso” Alto Alentejo, aqui fica a reprodução dos registos alusivos publicados em 1 de Janeiro de 2020.