1917 – há 100 anos – vinte e cinco

10 de Junho – (dois postais) “França. Pediram-me por cada pêssego 3 francos e por duas couves muito pequenas 1 franco. Não calculas o quanto a vida está cara por estas paragens. As lavadeiras estragam a roupa; fica quase negra e levam caríssimo por tão belo servicinho“; “França. Diz ao Avozinho para te levar ao fotógrafo tirar o retrato (bilhete postal) igual ao meu que te mandei. (…) Tenciono ir hoje ver a Procissão do Corpo de Deus onde fui na 5.ª feira“.

11 de Junho – “França. Mandei hoje buscar as fotografias; se vierem, envio-te amanhã uma. (…) As jarras da mesa de jantar são dois ovos de águia. Ontem e hoje tem chovido bastante. O serviço, por enquanto, continua a ser pouco“.

Continua o uso de óbvias metáforas…

Em 12 de Junho, são enviadas duas fotografias de José Cândido Martinó, datadas de França: uma, fardado, num postal para a filha com dedicatória: “Ofereço-te mais este retrato, como recordação da minha peregrinação por estas santas terrinhas. Logo que recebas, avisa imediatamente“. Na outra, também fardado, apresenta-se com capa, capuz, capacete e máscara anti-gás.

Foi demolidor o efeito que esta fotografia produziu na pequena Benvinda, ao julgar o pai morto, sob aquela aterradora máscara e seu complementar “disfarce”… Demorou a recompor-se.

12 de Junho – “França. Ao lado da minha barraca, instalaram-se hoje mais dois vizinhos, e hoje mesmo brigaram. Um grande herói do 14 de Maio ficou contentíssimo por o ter eu enviado para ponto mais distante, e por isso menos perigoso“.

13 de Junho – “França. A noite de ontem e a madrugada de hoje foram uma coisa medonhamente horrível. A certa altura, fugi para a rua embrulhado numa manta. De vez em quando a Lua iluminava o grande arraial de S.to António. Será uma noite memorável para mim (…) A guerra é uma coisa medonha. Não há pena que possa descrever tal horror.

Este foi, de facto, o “baptismo de fogo” do militar, o que provará a sua instalação bem perto do sector de Ferme du Bois, na frente de combate…

Chegou a noite de 12 para 13, véspera de Santo António, o taumaturgo popular, glorificado em folguedos e descantes, e os alemães, como se quisessem solenizar essa noite, bombardearam com inaudita violência as nossas trincheiras, pondo fora de combate perto de 200 homens, atingidos por gases asfixiantes…” – assim descreve aquele dia a “História da Guerra Europeia“, de Manuel da Silva Ferreira (Edição da Tipografia de Francisco Luís Gonçalves, Lisboa, s/d).

14 de Junho – “ França. Vou hoje tocar ao tal palácio onde tenho ido ultimamente e que por sinal é bem bonito”.

4 de Junho – Portalegre: “Envio-lhe, junta, a minha prova escrita de 5.ª feira“.

15 de Junho – (dois postais) “França. Tem estado hoje um calor horrível(…)França. Ontem tive concerto onde já tive ocasião de ir várias vezes; fomos de automóvel (…) Tiveram uma boa ideia em me mandarem as provas escritas“.

16 de Junho – “França. O mau vizinho voltou novamente para o mesmo sítio, mas até à hora em que escrevo tem estado regularmente sossegado”.

17 de Junho –  (dois postais) “França. Hoje também há concerto musical. Comprei hoje um coelho por 2.500 reis. Não calculas o quanto a vida está cara por estas paragens; isto além das grandes dificuldades em encontrar qualquer coisa”; “França. Como já te disse, tive hoje concerto. Ao lado onde a banda estava tocando, há uma barraca onde os ingleses fazem os seu exercícios religiosos, de maneira que tive ocasião de apreciar os seus cânticos em missa, 3.as e 8.as. Fomos e viemos de automóvel“.

18 de Junho – “França. Tem estado muito calor e tem havido bastantes trovoadas. Tenho lido que por aí há bastante falta de gás. Por aqui, há gás em abundância, mas com uma pequena ou grande diferença; por estas paragens o gás elimina e aí serve para iluminar. Estou com bastante interesse em ver se o S. João e S. Pedro serão tão festejados como o S.to António“.

Curiosa a anterior metáfora sobre os efeitos do gás, assim como a alusão seguinte às “senhas” de reconhecimento e segurança usadas nas trincheiras…

19 de Junho – “França. Faz hoje 5 meses que eu me despedi de ti. Apesar de tudo, o bom humor do soldado manifesta-se a propósito de qualquer coisa. Quando em serviço das trincheiras, pergunta: Quem vem lá? Resposta: ‘Na minha Companhia ainda não pagaram ao preto’. Ou então: ‘Um pão para 3 quando não é para 5’… Isto é o suficiente para ter livre trânsito. Além disto, há outras partes muito engraçadas. E nisto se resume o santo e a senha. Cavar – é sinónimo de fugir“.

DIA da minha TERRA distante…

TOADA DE PENICHE    (fragmento)

Em Peniche, cidade
À beira-mar, plantada
De ondas, ventos, gaivotas,
Espuma e falésias,
Moro numa casa nova,
Que nunca quis nem sonhei
Feita para eu morar nela…

Vazia de antigas lembranças
Das casas que nada nos dizem,
Cheia da forte, e bem viva,
Obsidiante memória
De outras gentes e sítios,
Cheia de sol nas vidraças
E sem escuro nos recantos,
Cheia de dúvidas e sossego,
De perguntas e de espantos,
– Aceitei-a como se fora
Mais feita ao gosto de outrora
Que para o meu aconchego.

Em Peniche, cidade
À beira-mar, plantada
De ondas e de falésias
Ao vento norte gelada
(Lá vem o vento do mar,
Que enche a vida de temores
Gela, esfarela a fundo,
E atira aos pescadores
A onda com que se afogam
Nos perigos do mar profundo…)

Em Peniche, dizia,
Cidade onde então sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for,
Na tal casa nova e bela
À qual nunca quis que fora
Feita para eu morar nela,
Tinha, então,
Por genial diversão
(Quem sabe se por amor!),
Uma grande varanda
Diante de uma janela
– E mais um computador.

 Em Peniche, lembrando Portalegre e Régio, após uns anos de “exílio”…

António Martinó de Azevedo Coutinho

1917 – Há cem anos – vinte a quatro

Os bilhetes postais ilustrados de José Cândido Martinó (França) para a filha Benvinda (Portalegre) e as respostas desta continuaram pelo mês de Junho de 1917.

1 de Junho – (três postais) “França. Como já ontem te disse, fui tocar a uma terra bastante bonita. (…) Fomos e viemos de automóvel.”; “França. Também tive ocasião para ver os restos de algumas casas. Voltei para o mesmo sítio onde esteve a “Mess“. “; “ França. Quando retirávamos, encontrei uma música inglesa, que estava tocando ao marchar, e compunha-se de: à frente estava o tocador de bombo tendo dos lados 6 caixas (tamboris), seguiam-se 6 flautas e uns 12 flautins; cada executante tinha suspensa uma corneta (bluques). Executaram vários trechos, sendo o último o hino inglês; depois disto cada músico empunhou a respectiva corneta e tocaram o recolher, que por sinal é muito semelhante ao do nosso exército. Tudo executado com muita correcção e aprumo. O compasso era marcado pelo tocador de bombo que fazia várias habilidades com as duas macetas.”; “França. O tocador de bombo cruzava as baquetas, colocava-as na posição horizontal, vertical, etc., mas tocando sempre e cheio de grande importância. Os tocadores de caixa também faziam palhaças com as baquetas. O maestro de tal música estava ao lado dos executantes, mas sem fazer a mais leve indicação nem um gesto. À frente, e a certa distância, estavam os dois oficiais de serviço. Havia vários mirones a apreciar o interessante e original concerto”.

2 de Junho – “França. Disseram-me que ontem tinham caçado um dos tais pássaros; tive bastante pena de não ter visto“.

Desta data, 2 de Junho de 1917, consta um Boletim do Corpo Expedicionário Português relativo à entrega de 500 francos, remetidos por José Cândido ao pai,  Manuel Maria Martinó, Portalegre e datado de “Em campanha, 2 de Junho de 1917”.

Também deste dia, de Portalegre (Quinta Robinson) foi enviado a José Cândido Martinó um postal, com carimbo de Censura, agradecendo-lhe a lembrança  e retribuindo com um afectuoso abraço, do “amigo dedicado Manuel do Carmo Peixeiro”.

3 de Junho – “França. O museu foi enriquecido com mais uns exemplares novos. Continuo habitando a minha barraca, que é muito superior à de Tancos (…) O Joaquim foi ontem fazer compras à cidade que brevemente tenciono visitar“.

4 de Junho – “França. Tem-se estranhado bastante que em França ainda não haja enfermeiras portuguesas; assim como a acção nula da Cruzada das Mulheres Portuguesas. Os pássaros continuam a aparecer aos bandos mas não se deixam apanhar“.

Neste dia 4 de Junho de 1917, o nosso Batalhão de Infantaria 35 sofreu um forte raid alemão, que conseguiu repelir.

5 de Junho – “França. Recebi ontem o lindo postal com a 2.ª prova escolar que me enviaste. Gostei e fiquei muito satisfeito por verificar o quanto tens progredido. Brevemente enviarei mais 500 Fr. O dinheiro que aí for juntando é para mais tarde fazeres uma visita na minha companhia a França“.

Entre 7 e 14 de Junho aconteceu a Batalha de Messines. Depois de uma grande explosão de minas, as forças britânicas “limparam” o terreno para a seguinte importante ofensiva.

7 de Junho – “França. Ontem houve uma formidável trovoada acompanhada de muitíssima chuva; é a primeira desde que estou em França. Não pudemos jantar no retiro dos pacatos porque ficou tudo encharcado. Como a parte exterior da barraca é de ferro zincado, a chuva ao cair fazia um charivari medonho.”.

8 de Junho – (dois postais) “França. Fui ontem dar um passeio de que gostei muitíssimo. É uma cidade muito bonita com belos prédios e grandes edifícios. O interior da Catedral é imponente e com vitrais como ainda não tinha visto melhor. (…) Não calculas o estado em que vi alguns prédios; é tudo obra dos passarões“. [A cidade será Béthune, um pouco a sul, a localidade importante que mais perto se encontra da linha das trincheiras, junto ao sector de Ferme du Bois?]; “França. Vi belíssimas cerejas, mas a 4 francos cada quilo; batatas a 2,50 cada quilo e um peixe qualquer a 8 francos cada quilo, e tudo assim. França. Tirei novamente uma fotografia que depois te enviarei. Hei-de voltar qualquer dia à mesma terra; é perto e fui a pé com o secretário do ex-ministro do trabalho. Daqui a pouco tempo, Portugal muda-se para França“.

9 de Junho – “França. Quando ontem (dia 7) fui passear, contava assistir à Procissão do Corpo de Deus mas foi adiada para Domingo; se tiver vagar, volto lá novamente. A estrada parece uma sala: é varrida, alcatroada, regada e desinfectada. Tive conhecimento que a Fábrica das Rolhas fechou. É uma grande calamidade para Portalegre. Pobre gente; deve haver muita miséria. Quando alguém vá a casa pedir esmola, vai dando alguma coisa“.

Sobretudo desde fins de Abril de 1917, toda a imprensa de Portalegre vinha dando conta da crise laboral na Robinson e, ao mesmo tempo, tomando a iniciativa (nomeadamente “O Distrito” através do seu redactor Armando Neves) de instituir a “Sopa para os Pobres”, destinada a minorar as graves dificuldades do operariado no desemprego. O próprio industrial George W. Robinson associar-se-á ao meritório e colectivo empreendimento que vai mobilizar toda a comunidade portalegrense.