1917 – há cem anos – doze

Continuou a abundante correspondência dirigida pelo capitão José Cândido Martinó, de França, para a sua filha Benvinda em Portalegre. Sempre em postais ilustrados preenchidos pela sua legível e elegante escrita, o pai ausente ia manifestando as suas opiniões sobre a experiência vivida, revelando a segurança e a tranquilidade possíveis e procurando interessar-se, com certa pedagogia à mistura, pelo quotidiano da filha.

Esta, nos seus infantis sete anos e com o manifesto apoio do avô e da tia Aurora, ia dando conta da saudade, num “diário” pessoal entrecortado pelos votos decorrentes da situação vivida…

20 de Fevereiro: “O tempo continua chuvoso. Fez ontem um mês que saí de Portalegre. Consta por aqui que os outros navios ainda estão em Lisboa. A mala grande, que não tornei a ver, é que me tem feito muita falta. O carnaval em França está proibido. Ninguém deu por tal; nem bailes nem divertimentos nas ruas.”

21 de Fevereiro: “O carnaval passou completamente despercebido. (…) O tempo continua muito mais ameno que quando chegámos. Recebi ontem um bilhete do Avozinho com data de 30 e ainda enviado para o ‘City of Benares’.”

Na sua edição de 22 de Fevereiro, o jornal “O Distrito de Portalegre” publica na primeira página um longo e dramático artigo com duas partes, dedicadas “Aos soldados que partem” e “Aos portugueses que ficam”. O seu autor é… Guerra Junqueiro!

24 de Fevereiro: “Os navios que tinham ficado em Lisboa já chegaram. Como nos vamos aproximando da primavera o tempo vai melhorando. A temperatura actual não tem comparação com a que sofremos à nossa chegada. Dentro do quarto está a 7 e 8 graus acima de zero.”

25 de Fevereiro: “Hoje fui novamente à missa, sendo também muito concorrida, mesmo pelos nossos oficiais e soldados. (…) Já hoje falei ao tenente Maltez, a quem tinha acontecido um desastre de automóvel em viagem, de Portalegre para Lisboa.”

26 de Fevereiro: “O tempo tem melhorado muitíssimo. Nesta terra ainda não houve vento, e já cá estou há mais de 15 dias. Hoje talvez aproveite para ir tirar o retrato. (…) Por enquanto, o serviço tem sido muito pouco. Amanhã tenciono vacinar-me.”

27 de Fevereiro: “Sempre fui tirar o retrato para depois te enviar. Ainda não recebi notícias algumas de casa…”

20 de Fevereiro – (dois postais) Portalegre: “Recebi os bilhetes de 12, 13 e 14. O Avozinho também recebeu duas cartas.” ; com carimbo de CensuraCá tenho rezado muito a N. Senhora para que conserve a saúde do meu Papá.”

28 de Fevereiro – “França. Até que enfim recebi notícias tuas, de que já estava privado há um mês (…) O bilhete que enviaste está muito mal escrito.”

A partir desta data, toda a correspondência de José Cândido começará pela palavra: França. As duras mas lógicas regras de segurança militar serão assim, neste particular, rigorosamente respeitadas.

Desenvolveram-se todos os esforços possíveis no sentido de identificar os locais referidos, cidades, vilas, aldeias ou simples lugares percorridos por José Cândido. As fontes bibliográficas e a pesquisa sistemática das Ordens quotidianamente emitidas pelo Quartel General da 1.ª Divisão, onde se integra o Regimento de Infantaria 22 juntamente com os seus homónimos 21 e 34 (formando inicialmente o 2.º Regimento da Divisão), não são explícitas a este respeito, até porque, a partir de Março/Abril de 1917, começam por “Em campanha”, omitindo geralmente  referências de localização rigorosas e precisas, a não ser em questões de mero pormenor sem interesse militar. Além disso, os acantonamentos e aboletamentos individuais ou colectivos eram quase sempre situados em zonas por vezes dispersas, simples quintas, “chateaux”, “villas” ou mansões isoladas, sem designações toponímicas específicas. Escassas certezas permanecem, não se ousando especular com meras, embora interessantes, teorias. Assim, nas raras situações em que se julga dispor de identificação segura, ela fica inserida entre parêntesis rectos [ ], usando-se legítimas e prudentes interrogações [?] nos muitos casos  onde a dúvida persiste.

21 de Fevereiro – Portalegre: “O Inverno aqui foi horrível, dia e noite durante mais de 15 dias; mas, mesmo assim, só um dia faltei à escola. Tenho estudado e recebo sempre as explicações que me dá a Tia Aurorinha, o Avozinho também já principiou a ensinar-me um pouco de princípios de música. Todas as noites rezo e peço a N. Senhora que conserve a saúde do meu Papá“.

1917 – há cem anos – onze

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1917 (Fevereiro) – Os anos da Guerra, em França. Bilhetes de José Cândido Martinó para a filha Benvinda e respostas desta:

9 de Fevereiro: “Passo bem de saúde e estou optimamente instalado, não calculas. Desde a chegada a França que ainda não deixei de ver muita neve. Tudo isto deve ser lindíssimo na primavera“. Com carimbo: Censurado.

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Como nota relativa a esta mesma data de 9 de Fevereiro, transcreve-se  um excerto final de “Crónicas Musicais“, VIII parte do capítulo II – A origem da música militar, da autoria de José Cândido Martinó, artigo que virá a ser publicado em “O Distrito de Portalegre” n.º 2.848, de 18 de Janeiro de 1924: “… Antes de terminar, permitam-nos lembrar a grande vantagem de unificar o diapasão do instrumental das bandas da Guarda Republicana e Marinha; pois, enquanto aquelas estão afinadas no diapasão brilhante, estas o estão no normal; e substituir os pistons (cilindros) nos instrumentos de metal pelo sistema de rotação; a fim de evitar a repetição dum facto passado em França: Quando na manhã frigidíssima de 9 de Fevereiro de 1917 o batalhão de infantaria n.º 22 atravessou Aire-sur-la-Lys, a banda de música, devido à temperatura, ficou impossibilitada de tocar, em virtude dos pistons não funcionarem; prejudicando assim o desfile dos primeiros soldados do C. E. P. que, ao pisar terra estranha, deixaram de ouvir o hino da sua Pátria e saudar a Bandeira que, em 14 de Julho de 1919 juntamente com a de outras nações aliadas, baniu o eco da genial e inspiradíssima marcha militar de Franz Schubert que as bandas, à frente do exército prussiano, executaram ao passar sob o arco do Triunfo em 1871…“.

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12 de Fevereiro: “Continuo passando muito bem. O frio já não se faz sentir tanto e mesmo já me vou habituando a esta temperatura. É preciso que me escrevas muitas vezes, pois já há muito tempo que não recebo notícias tuas“.

13 de Fevereiro: “Por enquanto tudo vai correndo muito bem. Levanto-me e tomo o café, depois dou um passeio pelo parque e jardim do palácio; às 12 almoço, às 6 janto e às 10 tomo o chá. O resto do tempo passa-se a jogar o bilhar ou qualquer outro jogo, a passear, etc. O tempo tem melhorado bastante“.

11-2-placa14 de Fevereiro: “Continuo passando muito bem. (…) A vivenda fica no centro duma cidade muito bonita e duma aldeia que também não é feia. Amiudadas vezes aí vou passear com fato de cotim e sem luvas e vou passando muito bem com todo este frio. As frieiras não me apoquentam. As mulheres é que guiam os carros e fazem a barba. Os carros são muito diferentes dos nossos e os cavalos são muitíssimo grandes. (…) O tempo continua muito bonito“.

15 de Fevereiro: “A vida aqui é caríssima. Estamos pagando a uma cozinheira 5 fr. por dia; a 300 reis o fr. são 1.500 reis por dia. (…) Tudo muito mais caro que em Portugal. A única coisa barata são artigos de vestuário e chapéus para mulher. É natural que só para o fim do mês possa receber notícias tuas e da família“.11-4-postal-fev17b

16 de Fevereiro: “Durante a viagem em caminho de ferro que durou 3 noites e dois dias, fomos obsequiados pelos franceses com café e conhaque, pelos ingleses com chá, comida, doce e mantas para nos agasalharmos e um grupo de meninas inglesas ofereceram lenços aos oficiais e soldados. Enfim por enquanto tudo vai correndo o melhor possível. As saudades de te não ver é que cada vez são maiores. Vai guardando tudo que escrevo para mais tarde leres“.

17 de Fevereiro: “Continuo passando bem. Apareceu a chuva mas o frio já não se faz sentir tanto. Tivemos ontem às 2 horas da tarde a 1.ª revista. A banda já tem tocado várias vezes. Os donos do palácio gostam muito de música. Têm um gramofone com discos muito bons e lindíssimos; todas as noites há sessão de gramofone. É preciso que estudes muito para conseguires fazer um lindo exame: não esquecendo o trabalho no mapa. (…) Próximo da minha habitação há uma escola de meninas; todas falam francês“.

José Cândido usará bastantes palavras e até frases sublinhadas, o que aqui se reproduz. 

Volta à Serra de Portalegre

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É o evento público da comemoração do 26.º aniversário do Atletismo Clube de Portalegre, uma corrida social não competitiva, em ritmos lentos, no que poderá vir a tornar-se em mais uma competição organizada pelo ACP, a Meia Maratona de Montanha “Volta à Serra de Portalegre”.

Partida pelas 10 h da Praça da República, volta inicial pela cidade (descida da Rua do Comércio, subida da Alexandre Herculano, Av Frei Amador Arrais, CAEP) e entrada na volta à serra propriamente dita, bastante alongada já que meterá na estrada de Alegrete para seguir para o Reguengo apenas no entroncamento do Carvalhal Barbudo.

A participação é aberta à população de um modo geral mas não será prestado qualquer apoio durante o percurso bem como não haverá inscrições nem será subscrito qualquer seguro.

Os interessados em correr com lobos devem aparecer com os alimentos de que necessitarem. A hidratação acontecerá nas fontes públicas.

1917 – há cem anos – dez

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O trajecto até à zona de operações, na Flandres francesa, vai ser efectuado pelo caminho de ferro. O itinerário Brest, Morlaix, Saint Brieve, Rennes, Laval, Caen, Rouen, Amiens, Abbeville, Étaples, Boulogne-sur-Mer, Saint Omer, Aire-sur-la-Lys, num total de 853 quilómetros, cumpridos em 3 intermináveis dias, será efectuado no início desse gelado mês de Fevereiro de 1917, em pleno rigor de um inverno a que os portugueses não estavam minimamente habituados. Basta lembrar que as temperaturas verificadas durante a viagem atingiram os 20º negativos!

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O sector que é entregue ao C. E. P. localiza-se no Sul da Flandres, precisamente no vale do rio Lys, entre Armentière a La Bassée e Merville a Bethune, estendendo-se por uma longa frente, que oscilará entre uma dimensão máxima de 11 Km e uma mínima de 4 Km, de acordo com a evolução e as incidências da campanha militar em curso.

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Os futuros combatentes são acolhidos por uma Proclamação dirigida pelo Serviço da República ao Corpo Expedicionário Português, assinada pelo seu comandante, general Fernando Tamagnini. A “guerra psicológica” instalava-se…

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Outras publicações fundamentais esperavam os combatentes. Com o respectivo equipamento, um cartão anexo (S. S. 535. P.) intitulado “A Defeza contra o Gaz“, recomendando expressamente que seja guardado na caderneta: “Lembre-se que, com excepção das suas armas, não há nada mais importante que o seu Respirador e Capuz. Conserve-os, pois, em perfeita condição. A SEGURANÇA DA SUA VIDA PODERÁ DEPENDER D’ELLES.” Numa edição de Lisboa, Imprensa Nacional, 1916, já encimada pelo “endereço” Corpo Expedicionário Português – Quartel General, o volume “Notas sobre a Guerra de Trincheira” ostentava na capa, em caixa destacada, um claro aviso: “Publicação reservada. É expressamente proibido divulgar à imprensa ou a qualquer indivíduo estranho ao exército as informações contidas neste livro. Igualmente não é permitido levá-lo para as trincheiras, a fim de evitar a sua apreensão pelo inimigo. Finalmente, numa edição de “Army Printing and Stationery Services” (a mesma do cartão anti-gás), há ainda um caderno intitulado “Extratos das Ordens de Execução Permanente distribuídas aos Exércitos  Britânicos em França“, pelo General Sir Douglas Haig, datado de Grande Quartel General, 31 de Dezembro de 1916. É interessantíssimo o conteúdo desta brochura com 40 densas páginas recheadas da mais diversa informação sobre aeroplanos, disciplina, censura, higiene, reclamações, serviço postal, aboletamento, transportes, informações, relações com o inimigo, etc.10-4-gas

No dia 1 de Fevereiro de 1917, “O Distrito de Portalegre” divulga a realização de missas dedicadas aos expedicionários, todos os sábados em S. Tiago e todos os domingos na Sé Catedral, “endereçando fervorosas preces à excelsa padroeira dos portugueses, pedindo o seu amparo para os nossos bravos soldados que marcham para a guerra“.

Entre José Cândido e a sua filha Benvinda vai então iniciar-se uma longa troca epistolar, de que o episódio de Tancos fora um simples prelúdio. Quase sempre envolvendo postais ilustrados, estes constituirão um fascinante conjunto de diversos temas onde a guerra assume natural predominância. Para além dos enviados por si da “frente”, o pai fornecerá à filha algumas outras colecções de bilhetes ilustrados que esta lhe irá devolver, devidamente preenchidos, numa sequência que se vai prolongar por tempos de paz…

O espólio que integra a correspondência enviada de França está quase completo, com algumas centenas de postais (cerca de 500), pois jornadas houve em que José Cândido repartiu os seus registos (quase quotidianos) por dois, três, quatro e até cinco desses bilhetes! Quanto às cartas e postais enviados de Portalegre por Benvinda, já o balanço não se revelará tão exacto, pois por diversas vezes as incidências do conflito produziram estragos e extravios no património acumulado em França por José Cândido.

A seguir se reproduzirá, mês a mês, a relação cronológica dos excertos considerados mais interessantes, sob os diversos e complementares pontos de vista desta relação epistolar entre um pai e uma filha preocupados com a dramática situação que vivem. Porque José Cândido permanentemente se procura manter informado sobre o que se passa em Portalegre e em Portugal, vai receber em França “O Século” e “A Plebe“, garantindo também as assinaturas das revistas e outras publicações de índole musical a que se tinha habituado, as quais continuarão a chegar à sua residência.

Na relação cronológica que se seguirá, procurou-se respeitar uma sequência tão rigorosa quanto foi possível, reproduzindo a ordem e o ritmo intercalares que teriam sido vividos por José Cândido, não só como emissor mas, também, como receptor de correspondência. Não se fará referência aos exemplares postais donde não conste qualquer conteúdo considerado relevante, à luz dos critérios seleccionados: relação pai/filha, nomeadamente sobre os estudos e a saúde, a vida quotidiana em Portalegre e em Portugal, comentários sobre a França, a Guerra, a Música, a política, as pessoas, os costumes e os factos.

Alguns apontamentos, datados, das “histórias” paralelas de Portalegre e suas gentes, da Guerra, do País e do Mundo pontuarão os registos epistolares.