1918 – Há Cem Anos – oitenta e cinco

12 de Julho – “França. Já aí terá chegado o músico Serra? O tempo tem estado horrível. Continuo aguardando o resultado do meu requerimento“.

13 de Julho – “França. Consta que vão restabelecer as licenças de campanha. Se for verdade, requeiro imediatamente licença pois estou na ver que nunca mais chega a solução do meu requerimento. Deram-me hoje notícias do filho do major Piedade. Está bom“.

14 de Julho – “França. Entreguei hoje um requerimento pedindo licença; talvez com este novo requerimento se lembrem de dar despacho ao primeiro que fiz. Há mais de um mês que deixei de saber notícias tuas“.

Nesta precisa data, apesar dos sinais militares prometedores, ninguém se atreveria a prognosticar que dali a um ano preciso, em 14 de Julho de 1919, um contingente de 150 soldados do Corpo Expedicionário Português, integrado nas forças aliadas do marechal Foch, marcharia no Desfile da Vitória, na Place de L’Etoile, em Paris, sob o comando do coronel de Infantaria Adriano Ribeiro de Carvalho, tendo precisamente como porta-bandeira o tenente de Infantaria Perestrello D’Alarcão e Silva, do Regimento de Infantaria n.º 22, de Portalegre.

15 de Julho – “França. Cada vez me sinto mais desanimado. Actualmente aguardo a solução dos dois requerimentos. Já perdi as esperanças de assistir aos teus anos“.

A denominada 2.ª Batalha do Marne ou Batalha de Reims começou neste dia 15 de Julho de 1918, prolongando-se até 5 de Agosto. Foi a última importante ofensiva alemã na Frente Ocidental e falhou quando um contra-ataque maciço dos Aliados, liderados pelas forças francesas e contando com várias centenas de tanques, oprimiu os alemães no seu flanco direito, infligindo-lhes pesadas baixas.

16 de Julho – “França. Mudei de casa onde me deram quarto com uma bela cama. É um luxo que eu há mais de 3 meses não apreciava. Já hoje partiram alguns de licença mas eu cá vou continuando a esperar o resultado dos meus dois requerimentos“.

Um pormenor interessante dá conta de que, apesar do evidente estado de angústia vivido pelo capitão José Cândido Martinó, isso não lhe perturbou o permanente sentido cultural. Neste preciso período, dia-a-dia, enviou à filhita Benvinda uma preciosa colecção de 7 postais ilustrados, alusivos à Criação do Mundo…

17 de Julho – “França. Hoje não recebi jornais nem qualquer outra correspondência. Se tal facto não é devido aquilo que eu suponho, acho isto muito extraordinário! Nada de solução aos dois requerimentos .

Nesta mesma época, com os alemães a perderem coesão a olhos vistos, o general francês Ferdinand Foch -nomeado comandante-chefe dos exércitos aliados durante a pior fase dos ataques alemães- declara que chegou o momento certo para uma ofensiva. Vai iniciar-se agora, portanto, um contra-ataque dos Aliados em grande escala.

João Semedo

Tive um único encontro pessoal com João Semedo. Foi em Portalegre, no serão do dia 30 de Março de 2011.

Por ter aceitado o convite para participar no sarau onde foi evocado o 75.º aniversário da estreia da peça Sonho duma Véspera de Exame, de José Régio, esteve presente no auditório da Escola Superior de Educação.

Ali teve oportunidade para presenciar a homenagem concretizada a este propósito no seu tio, Artur Semedo, ao tempo aluno de Régio e principal intérprete da peça, estreada em 30 de Março de 1936, no antigo Teatro Portalegrense.

Foi escasso o tempo de contacto pessoal, ainda assim mais do suficiente para todos podermos ter percebido a discreta dimensão do homem superior que era João Semedo.

Prolonguei o diálogo com ele, à distância, por alguns meses. Depois, a doença obrigou-o a um natural afastamento, de onde ainda regressaria para retomar a sua luta de sempre por todos nós. Até ter perdido o combate. Mas deixa uma perene memória, na lembrança de alguém que se entregou até ao fim acreditando em ideais profundamente humanistas.

O que ficamos devendo a João Semedo é demasiado para que simples palavras de circunstância possam descrevê-lo.

Lembro-o na serena, lúcida e corajosa firmeza de quem pensou muito mais em todos nós do que em si próprio.

João Semedo é merecedor do nosso reconhecimento. Como homem, como profissional e como político ele foi uma mais excepcionais personalidades do seu e nosso tempo.

António Martinó de Azevedo Coutinho

Pedagogia aos Quadradinhos – Memórias dos Outros Tempos – dezanove

Recordei atrás que o ano de 1970 ficou assinalado por três “momentos” muito significativos na minha vida, um dos quais absolutamente determinante para o futuro. Os dois primeiros consistiram, como revelei, na “descoberta” de uma obra literária fundamental para a sistematização e sedimentação do gosto pessoal pelos quadradinhos, assim como na regular colaboração em programas da Rádio Escolar/Telescola, onde pude introduzir -de forma pioneira entre nós- a problemática pedagógica da BD.

O terceiro momento, aquele que foi determinante no meu próprio futuro, consistiu no ingresso no Ensino Preparatório.

Como já aludi, em 1968-69 experimentara este novo Ciclo quando aí ministrei aulas de Matemática e Ciências da Natureza, não me tendo seduzido essa prática docente, que voluntariamente abandonei.

Porém, nos princípios de Outubro de 1970, surgiria uma nova e aliciante oportunidade.

Nunca esqueci o momento em que o José Malpique, colega e amigo de há anos, me convidou para essa inesperada “aventura”. Ele era ao tempo sub-director da Escola Preparatória, dirigida pelo Dr. Plínio Serrote, que comigo integrara uma edilidade portalegrense nos anos 60. A questão era muito simples: havia na Escola dois horários completos e livres como professor de Desenho e um destes estava à minha disposição.

Reencontrar-me com a vocação de sempre era um desafio pessoal quase incontornável. Apenas existia um alternativo “obstáculo”: a aceitação implicava a exoneração do Ensino Primário e o ingresso na base de uma nova carreira com um futuro incerto…

O vencimento era superior, mas não era pago nas férias grandes, renovando-se o contrato em cada ano lectivo, até uma eventual profissionalização com contornos então ainda não definidos. Ou até à saída…

Tratava-se de uma decisão difícil, para a qual me foi concedido -apenas- o prazo de um fim-de-semana. A Adrilete, na sua activa cumplicidade, teve um papel determinante na minha aceitação daquele que era um autêntico desafio, pelos riscos inerentes.

No dia 17 de Outubro de 1970 assinei o pedido de exoneração como professor efectivo do Ensino Primário, tendo subscrito três dias depois um contrato como professor provisório do 5.º Grupo (Desenho) no Ciclo Preparatório.

O meu objectivo, assumido em família, era o de iniciar uma nova carreira, provavelmente a que teria seguido se o meu destino tivesse possibilitado o sonhado Curso das Belas-Artes. Se este propósito falhasse, por qualquer insuspeito motivo, ficara então decidido que não voltaria ao Ensino Primário. Apesar da minha aversão a trabalhos rotineiros de secretaria, tentaria ingressar num banco -era então o emprego mais desejado!- ou nos serviços das Caixas de Previdência para os quais tanto me aliciara o malogrado primo João José.

Assim entrei na Escola Cristóvão Falcão, que deixara as precárias instalações de São Francisco e se alojara no excelente espaço do anterior Colégio Feminino, nos inícios da Estrada do Bonfim.

Senti-me muito motivado na nova missão pedagógica, onde a vocação natural se aliou à vontade de acertar e, acrescente-se, ao apoio recebido.

Da novel programação curricular do Ciclo constava a iniciação à Banda Desenhada, como modo de expressão tratado no Desenho e na Língua Pátria. Os manuais desta disciplina incluíam uma espécie de “catecismo” dos quadradinhos, quase sempre reduzido ao formal e a “receitas” prévias, pouco deixando à criatividade. Nas turmas que leccionei, sempre em estreita cooperação com o colega do Português, tratámos do tema de modo bem diverso.

O director da Escola, que já me conhecia das lides autárquicas, depositou inteira confiança no meu trabalho. Pouco a pouco, a nossa instituição foi enriquecendo o seu património com forte aposta nos meios audiovisuais da época, projectores de diapositivos e de cinema (super 8), máquinas fotográficas, gira-discos, gravadores de som, retroprojectores, episcópios e pouco mais. A aquisição de uma máquina de filmar, sonora, foi um autêntico requinte…

Algumas embaixadas, nomeadamente as do Canadá e da França, forneciam-nos por empréstimo material de excelente qualidade e oportunidade pedagógica.

A minha sala de aulas teve mesmo direito a cortinas de feltro negro que permitiam grande autonomia nas frequentes projecções que ali praticava.

Assim, nos anos imediatos, vivi a progressiva transformação do espírito da disciplina, do Desenho para a Educação Visual.

Pareceu premonitório um programa –O Desenho e a Vida– que elaborara para a Rádio Escolar em Março desse ano da 1970. Um outro –Viagem ao Reino da Fantasia – A Linguagem das Linhas, das Formas e das Cores– demonstraria, em Dezembro do mesmíssimo 1970, a minha própria evolução…

Com efeito, creio ter plenamente assumido a passagem de uma prática clássica, da régua, do compasso e do esquadro, para a pura criatividade, o gozo estético, a não-directividade ou a ligação ao meio ambiente, em suma, passando do deleite das linhas e das sombras, da luz e do espaço, da textura, da estrutura e da cor, à Vida propriamente dita, nas suas essenciais componentes expressiva e comunicacional.

E, aqui, o cinema e em especial a banda desenhada têm um lugar privilegiado.

António Martinó de Azevedo Coutinho

1918 – Há Cem Anos – oitenta e quatro

1 de Julho – “França. Do meu requerimento, ainda nada. Hoje, para me distrair, fui dar um grande passeio de que muito gostei e assisti à inauguração de um Club e escola“.

2 de Julho – “França. Faz hoje 17 meses que cheguei a França pela 1.ª vez, e nunca me senti tão aborrecido e desanimado como actualmente. Ainda não chegou a solução ao meu requerimento“.

3 de Julho – “França. Continuo aguardando a solução do meu requerimento. Com tanta demora, vou perdendo um pouco a esperança de retirar“.

5 de Julho – “França. Já me vai dando bastante cuidado o não receber correspondência tua e de casa. Assim como recebo jornais, também poderia receber o resto, se me escrevessem. Estou aguardando ordens“.

6 de Julho – “França. Ainda não veio resposta ao meu requerimento. Já vai demorando bastante“.

7 de Julho – “França. Cada vez estranho mais o não receber correspondência tua. Hoje fui dar um grande passeio de automóvel. Ainda nada veio relativamente à minha retirada para Portugal“.

Estes regulares passeios de automóvel permitem, de certo modo, reconstituir os percursos do capitão José Cândido Martinó por terras francesas, sobretudo através dos postais ilustrados que ele sempre adquiria em todos os locais visitados. Pelas colecções que conservou é também possível conhecer um pouco da mentalidade social francesa patente nessa iconografia. Curiosamente, pelo confronto com a imagem nacional revelada por postais portalegrenses da mesma época, deduz-se uma notável semelhança, pois em ambas as sociedades urbanas se revela o particular gosto por uma certa pose colectiva.

Para memória futura…

8 de Julho – (dois postais) “França. Além de gerente de mess perpétuo também sou censor. Ontem à noite, quando estava desempenhando o meu ingrato papel de censor, fui obrigado a interromper tal servicinho, por 3 vezes, e os últimos vidros do meu quarto voaram.“;” Na ocasião em que procurava um pequeno abrigo, fui intimado a sair duma forma bastante singular. Nunca como desde que vim para França apreciei, nos devidos termos, o que é a boa camaradagem e o verdadeiro egoísmo!… Já quando da minha estada em Tancos, tinha tirado grandes ensinamentos; mas nunca como agora eu apreciei tal intimidade!…

Os sublinhados existem no original!

9 de Julho – “França. Hoje fiquei apenas com 2 músicos! Será conveniente que o Avozinho se informe com o Aspirante Pestana se eu já poderia passar a receber correspondência da minha família“.

10 de Julho – “França. Ainda nada de ordem para partir. Já vou estando outra vez bastante desanimado“.

Neste mesmo dia, em Portugal, é publicada a portaria que nomeia o novo comandante do C. E. P., o general alentejano Garcia Rosado.

11 de Julho – “França. Não compreendo a razão porque recebo jornais e não recebo correspondência tua ou de casa. Ainda não veio resposta ao meu requerimento. Requeri para remeterem para Portalegre as duas malas vazias e o arquivo“.

A prolongada ausência de notícias de casa, sobretudo da filha, agrava a angústia do pai…

Pedagogia aos Quadradinhos – Memórias dos Outros Tempos – dezoito

A última rubrica da “trilogia” de programas radiofónicos sobre os quadradinhos permitiu-me uma abordagem mais profunda à problemática do contexto, da evolução e da linguagem da Banda Desenhada.

Esta rubrica -Sabes ler uma história em quadradinhos?– foi desdobrada em três sucessivas emissões: 14 de Março, 18 de Abril e 16 de Maio de 1974.

Historicamente, situou-se portanto entre dois regimes políticos…

Na prática, foi integralmente concebida e escrita antes do 25 de Abril, pois o prazo de entrega do último “capítulo” terminou em 22 desse inesquecível mês.

Neste programa, mais complexo e aprofundado que os anteriores, onde me cingira sobretudo aos conteúdos, num confronto entre o ficcional das historietas e o real dos episódios históricos, ou à diversidade do léxico específico usado na construção de uma banda desenhada elementar, procurei agora atingir outros objectivos, descrevendo a evolução da figuração narrativa através dos tempos, assim como analisando os elementos fundamentais da linguagem da BD, desde a morfologia individualizada até à complexidade da sua interacção sintáctica.

Para isso, “inventei” três personagens, o senhor Fabião, um conhecedor e apreciador dos quadradinhos, o Zé Luís, um gaiato vulgar de Lineu, e a dona Simplícia, uma feroz crítica da BD.

Com eles construí uma narrativa simples, onde procurei apoiar e “passar” a mensagem pretendida, numa evolução sequencial que levasse os ouvintes (alunos de todas as classes e… professores) a compreender -mais por dentro- a riqueza e as potencialidades de um género literário então ainda pouco conhecido e apreciado, sobretudo do ponto de vista pedagógico.

No primeiro dos programas (14 de Março de 1974), parti da realidade então vivida, destacando a implantação social dos quadradinhos e chamando a atenção para os seus códigos narrativos. Daí, surgia a óbvia necessidade de uma alfabetização, tal como acontece na linguagem que usamos no dia a dia. Um breve historial da sua evolução histórica, das pinturas rupestres à iconografia divulgada por algumas civilizações, da arte pictórica aos exemplos mais tradicionais como a “tapeçaria” de Bayeux ou à “tábua” Protat,  até às relações com ao confronto com a linguagem cinematográfica. Terminei esse programa com uma alusão, significativa, às adaptações de obras literárias clássicas, sobretudo nacionais, em BD.

O programa seguinte (18 de Abril de 1974) foi dedicado a uma iniciação à linguagem verbo-icónica dos quadradinhos, passando pela análise possível às complexas relações entre a imagem e o texto. Sobretudo, tive a preocupação de apresentar a interactividade vivida no seio de cada vinheta entre os diversos elementos da linguagem aí utilizados, numa relação -digamos- vertical. Assim foram surgindo os balões, as onomatopeias, os signos cinéticos, as legendas, a cor, enfim, toda a vasta panóplia dos recursos criados ou adaptados pela Banda Desenhada.

Por fim (16 de Maio de 1974), procurei divulgar toda a riqueza contida na montagem de uma historieta, abordando a complexa e fascinante sintaxe dos quadradinhos, na sequência horizontal das tiras e das páginas, segundo os nossos códigos logográficos. O apelo à evolução cronológica da BD, assim como às suas relações com o cinema ou a literatura em geral, fizeram aqui parte essencial do programa. Assim, destaquei o papel das personagens num argumento devidamente organizado e planificado, logicamente inserido nas noções de tempo e espaço que decorrem da leitura. Os géneros ou temáticas mais vulgarmente abordados pela BD constituíram a parte final do programa, onde curiosamente se integrou uma sugestão de continuidade do tratamento do tema.

Assim não viria a acontecer, sobretudo porque a situação pessoal e profissional que eu vivia nessa precisa época, o primeiro trimestre de 1974, inviabilizou tal pretensão.

A seu tempo darei conta disso…

António Martinó de Azevedo Coutinho