SALVAR A ROBINSON! – é Público

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Este artigo do jornalista Carlos Dias, divulgado no jornal Público de ontem, assume para mim alguns relevantes significados.
Em primeiro lugar, constitui um grito de alerta que com rara oportunidade amplifica a campanha em curso para salvar a Robinson. Já que outros, a quem competia institucionalmente fazer algo para que o mais valioso património industrial da cidade de Portalegre, página incontornável do seu passado, se revelaram robinson 1impotentes ou incompetentes para o fazer, que sejam aqueles a quem sobra alguma lucidez e coragem bastante a tentá-lo. Para além de “Os Verdes” falta por isso aqui um justa citação ao vereador Luís Pargana como uma das personalidades que mais tem lutado para que aquilo que da Robinson ainda sobrou seja salvaguardado.
O Presidente Marcelo, pela sua cultura e pela sua sensatez, parece ser neste momento o mais sério e capaz interlocutor e, provavelmente, o mais autorizado mentor da desejada e urgente recuperação. O Público, jornal de intervenção cultural único no nosso meio, entendeu-o e participa activamente na campanha, alargando à opinião pública nacional uma questão que de há muito vem afligindo os portalegrenses que ainda se preocupam com os incertos destinos da sua terra.
É aqui que me sinto honrado pela associação ao drama da Robinson, razão pela qual tenho lutado com as armas de que disponho, nomeadamente através deste blog, Largo dos Correios, onde os posts alusivos se têm acumulado na cadência das oportunidades para tanto surgidas ao longo dos últimos anos. Juntando o meu modesto testemunho aos de António Ventura e de Manuela Mendes, o jornal confirmou a validade do nosso esforço e deu-lhe sentido. Pela minha parte, a gratidão pessoal será confirmada num ainda maior empenhamento.
A gratíssima lembrança dos Robinson, o afecto pelos seus colaboradores próximos Francisco e Manuel Ceia, familiares queridos, e o sentimento de pertença devido à Portalegre que a todos une justificam a nossa luta pela preservação de incontornáveis memórias comuns.

António Martinó de Azevedo Coutinho

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Fábrica Robinson de Portalegre:
uma história que “Os Verdes” vão recordar ao Presidente

Em 1868 Júlio Dinis publica o romance Uma Família Inglesa, com uma narrativa que decorre na cidade do Porto, e que realça as virtudes da família e do trabalho, matizada na ligação entre indivíduos oriundos de diferentes meios sociais. Mais a sul, em Portalegre, uma família Robinson materializava uma experiência empresarial concreta, no sector da cortiça, que iria prevalecer durante 162 anos e que na sua origem teve, como preocupação maior, para além da produção, a valorização e o bem-estar dos operários e das suas famílias.
A similitude entre a ficção e a realidade nos dois exemplos apontados acompanha os contornos de um fenómeno descrito por António Ventura, professor catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa, no ensaio Para a história da Fundação Robinson. O autor assinala que, no século XIX, “alguns britânicos se interessaram por um sector tradicional – o corticeiro – como sucedeu com George Robinson” em Portalegre.
Foi essa história que o Presidente da República, que esteve em Portalegre nesta quinta-feira, aceitou discutir, a pedido do Partido Ecologista “Os Verdes” (PEV) na reunião que manterá na terça-feira com esta força política. O PEV tem defendido a preservação do património industrial da Robinson e entregou um dossier sobre o assunto a Marcelo.
Trata-se de “uma história real que prevaleceu com um projecto notável”, acrescenta Manuela Mendes que desempenhou funções de direcção e administração na Corticeira Robinson. Manuela Mendes contou ao PÚBLICO que entrou em 1990 para a fábrica Robinson, onde permaneceu até ao seu encerramento, em 2009. “Era uma empresa velhíssima”, mas o prestígio da marca prevalecia “intocável” sobretudo nos mercado dos Estados Unidos da América e Japão, para onde eram exportados aglomerados e revestimentos de cortiça, “a referência maior da Robinson.”
A indústria corticeira instalada em Portalegre desde 1837, por iniciativa de um grupo de ingleses que se dedicavam ao trabalho da cortiça em bruto, recebeu um impulso decisivo em 1847 com a chegada de Robinson.
George William Robinson nasceu em Wakefield, Inglaterra, em 1815. A sua família tinha interesses ligados à importação de cortiça que era transformada em fábricas britânicas. Para contactar directamente com os produtores desloca-se a Portugal por volta de 1840. Visitou Moita, Setúbal, Sintra, mas foi em Portalegre que o seu interesse se revelou.
“Chegou a Portalegre numa parelha de mulas”, conta Manuela Mendes. E instala-se aqui, em definitivo, depois de adquirir uma pequena fábrica a Thomas Reynolds. Era o início de uma empresa que se converteria na maior unidade fabril da cidade. Não havia estradas para a cidade alentejana, uma lacuna que superou transportando de barco, entre Lisboa e Rossio ao Sul do Tejo, em Abrantes, e daqui para Portalegre em carros de bois, os equipamentos de grande envergadura para a reestruturação da fábrica.
Em 1857 nasce em Portalegre George Wheelhouse Robinson que viria a suceder ao pai na liderança da empresa e a marcar definitivamente a comunidade local. No início do século XX, a “Fábrica da Rolha” como então era conhecida, empregava mais de 2000 trabalhadores. É o próprio Wheelhouse (patrão) que cria o primeiro sindicato operário da história da actividade corticeira, mas também uma creche para os filhos dos operários e a cooperativa de abastecimento operária.
Entre 1910 e 1915 instala a primeira produção de aglomerados de cortiça para revestimento e deixa claro o seu pensamento como empresário: “Preciso da cooperação dos operários e confio em que não me faltará; bem como em que patrão e operários andarão sempre unidos, porque da sua união há-de nascer o bem de um e outros.” Introduz alterações tecnológicas, incorporando na linha de produção uma máquina a vapor, um gerador eléctrico, novos métodos de corte e brocagem de rolhas e racionaliza os métodos de trabalho. “Robinson” passa a ser uma referência mundial em aglomerados e revestimentos.
António Martinó que em 2012 criou o blogue Largo dos Correios, com a secção A “minha” Fábrica da Rolha, reconheceu ao PÚBLICO que a empresa nunca mais se modernizou e que os sinais de envelhecimento, “nas máquinas, nos edifícios e na vontade dos homens”, já eram patentes nos anos 70.
A ex-administradora Manuela Mendes, que viveu o problema, lamenta que a empresa não tenha sido incluída nas prioridades dos Governos dos anos 80 e 90 “como foram as multinacionais que se instalaram em Portalegre e que já desapareceram.” 

Peças no Space Shuttle

 A insolvência surge em 2009, lançando no desemprego 150 trabalhadores. Para trás ficaram mais de 160 anos da história corticeira que “interessa estudar e preservar do ponto de vista social e arqueológico-industrial”, reclama Manuela Mendes, do PEV que realizou em Fevereiro, o primeiro debate público no interior das instalações da Fábrica Robinson, para reivindicar a salvaguarda do seu património. “Fizemos o debate no meio de um dilúvio de cascatas de água que caiam sobre as máquinas” prossegue Manuela Mendes, alertando para o risco de as duas chaminés da fábrica caírem.
“Se não se intervier, acontece uma catástrofe” adverte, defendendo a preservação patrimonial dos sete hectares das área ocupada pelas instalações da Robinson, onde chegaram a ser fabricados “componentes para os Space Shuttle” revela.

 CARLOS DIAS
Público, sexta 22 Abril 2016

ROBINSON BROS ilimitada

robinson bros

O recente episódio autárquico portalegrense relacionado com a conturbada existência da Fundação Robinson acrescentou mais um indesejável capítulo à curta vida desta instituição. Destinada a altos voos e à concretização de legítimos e significativos projectos citadinos aptos ao enriquecimento e à projecção de Portalegre, sucessivos erros de planeamento e de gestão comprometeram o futuro da Fundação. E isto é lamentável a diversos níveis.
Mais do que procurar agora os responsáveis, porque certamente existem, o que para já importa é garantir a máxima dignidade no final anunciado, salvaguardando o que for possível, nas pessoas e no património. Ninguém poderá aceitar outra solução, sob pena de se constituir uma grave ofensa à comunidade e aos cidadãos envolvidos, assim como a todos os portalegrenses que amam a sua terra, sofrendo com os desvarios que a perturbam e prejudicam.
Os destinos daquela que foi uma grande empresa ligada por muitas décadas à vida e ao progresso de Portalegre, assim como o respeito pela memória dos Robinson, tudo isso não pode cair no torvelinho das precipitações, na loucura de impulsos primários ou na leviana irresponsabilidade de uns quantos. Portalegre e os portalegrenses de boa vontade terão de procurar e garantir a solução possível que, não sendo a ideal, seja a realisticamente concretizável, mantendo acesas todas as chamas da esperança num futuro possível.
Sabendo da sua intervenção, entre outras, solicitei ao vereador e amigo Luís Pargana o favor da partilha das declarações pessoais de voto exaradas a este propósito. Pretendo assim divulgar aqui, como há anos venho fazendo, dados pertinentes sobre a Fundação Robinson e a sua actividade.
A “minha” Fábrica de Rolha foi, no mês de Junho de 2012, a primeira das séries que aqui publiquei. Três anos e meio depois, quero, desejo, sonho, que esta Fábrica da Rolha aqui hoje transcrita seja apenas mais uma e nunca a última…
Ao Luís Pargana, com um abraço amigo e grato, a toda a edilidade portalegrense, em total solidariedade, daqui exorto à coragem, à lucidez e ao pleno exercício do espírito lagóia que possa ultrapassar mais esta dura provação. 

António Martinó de Azevedo Coutinho

 DECLARAÇÕES DE VOTO 

Proposta de extinção da Fundação Robinson

A presente proposta, inicialmente apresentada como “proposta de extinção da Fundação Robinson”, depois alterada para “proposta de intenção de extinção da Fundação Robinson” e finalmente fechada como “proposta de remeter aos respectivos órgãos sociais a intenção de resolução da Fundação Robinson” é mais uma “trapalhada” a que a maioria CLIP nos tem vindo a habituar em relação à Fundação.

Não é de mais recordar que a Fundação Robinson foi criada há 12 anos para requalificar os 7 hectares da fábrica Robinson, num projecto global de desenvolvimento do território, potenciando o património material e imaterial da corticeira Robinson, a sua mais-valia científica e tecnológica, a riqueza da sua arqueologia industrial e a sua vocação científica, cultural e turística, associada à identidade de Portalegre.

Afinal, em 12 anos nenhum destes objectivos foram cumpridos e agora, sem mais nem menos, a CLIP tenta resolver o problema “varrendo-o para debaixo do tapete”. Delibera “remeter aos órgãos da Fundação a proposta de resolução da Fundação”, quando sabe que nem sequer tem Conselho de Administração, que está demissionário porque ninguém aceita ser correia de transmissão da Presidente da Câmara numa Fundação posta em crise pela falta de transparência e legitimidade institucional e democrática.  

Efectivamente, as sucessivas maiorias na Câmara de Portalegre foram tratando a Fundação Robinson como um mero instrumento para fins políticos ou pessoais, com a mobilização e desbasto de milhões de euros, sem resultados visíveis na cidade e transformando o espaço Robinson num gigantesco “vazio urbano”, utilizado esporadicamente para exercícios militares, pela GNR, ou para largadas de toiros em ocasiões festivas.

O autismo político na gestão da Fundação Robinson atinge o expoente máximo no presente mandato autárquico em que durante dois anos a maioria CLIP recusa a possibilidade da Câmara reunir com o Conselho de Administração da Fundação Robinson, para análise do seu funcionamento e perspectivas de futuro. Simultaneamente, chumba a proposta de realização de uma auditoria externa e independente de âmbito administrativo, financeiro e patrimonial e vai gerindo a situação de modo autocrático e arbitrário, deliberando subsídios para pagamento de salários e nomeando sucessivos conselhos de administração à margem do executivo municipal (existiram três durante este mandato, um dos quais nomeado por despacho presidencial e só ratificado posteriormente à sua tomada de posse).

Responsavelmente, durante este tempo a CDU foi apresentando propostas e foi alertando que a sua sistemática rejeição pela maioria significava uma “estratégia suicidária” para a Fundação Robinson.

Confirma-se agora a pertinência dessas críticas e a assertividade dos avisos.

Sem resolver nenhum problema da Fundação Robinson e sem aviso prévio, a maioria CLIP vem agora preconizar a sua extinção, sem avaliar sequer os custos financeiros para a Câmara, as consequências para os trabalhadores e os impactos sobre a cidade de Portalegre. Sem perspectivar o destino a dar aos 7 hectares do espaço Robinson, localizados em pleno centro histórico da cidade de Portalegre e em progressivo estado de abandono e degradação.

Ao deixar que o espaço Robinson se torne um ”vazio urbano”, abandonando o património de arqueologia industrial, os interesses, imobiliários e outros, não hesitarão em deixar ruir as simbólicas chaminés da Fábrica, para lucrarem a seguir com a especulação imobiliária sobre os terrenos.

É esta a solução preconizada pela maioria CLIP com a medida agora apresentada? Se não é, parece e, avisadamente, a CDU alerta para a lesão do interesse público e da identidade portalegrense que tal situação representará.

O voto contra a presente proposta é, simultaneamente, um voto de protesto e de indignação para com o logro e a completa deturpação que significou e continua a significar a Fundação Robinson, no modo como tem sido gerida pelo poder político municipal.

Declaração de voto Caixa de Crédito Agrícola

Precisamente na reunião de Câmara em que a maioria CLIP agendou proposta para a “extinção da Fundação Robinson” (ponto 5 da OT), agendou também o plano de pagamentos à Caixa de Crédito Agrícola (ponto 7 da OT) relacionado com a primeira aquisição de prédios para desenvolvimento do projecto Robinson.

As competentes deliberações foram aprovadas por unanimidade de todas as forças políticas com assento no Executivo e na Assembleia Municipal – o PSD, o PS e a CDU. Corria o ano de 2003.

Das diversas posições então manifestadas por eleitos de todas as forças políticas incluindo o Presidente da Câmara retém-se:

“A aquisição dos terrenos em questão, contíguos às instalações fabris da Robinson, dada a disponibilidade da sua proprietária Caixa de Crédito Agrícola Mútuo para as vender, garantindo-se para o Município poder dispor sobre a recuperação e requalificação urbana daquela área dada a sua importância em termos estratégicos na cidade”…”é uma boa opção por forma a promover a requalificação urbana e ambiental daquela zona da cidade.” (sic Vereadores Amílcar Santos e António Chaparro);

“Uma medida que claramente trará benefícios para o município, pela recuperação e devolução à cidade de um espaço determinante da sua história e cultura portalegrense.” (sic Vereador Luís Pargana);

“Tal aquisição destina-se não só a trazer para a posse do Município uma importante área do centro histórico da cidade, mas também a possibilitar a recuperação empresarial de uma sociedade emblemática da região, que faz parte do núcleo restrito das cem mais antigas empresas industriais portuguesas, ainda em laboração.” (sic Presidente da Câmara Mata Cáceres).

“A Câmara Municipal passa a ser detentora de uma parcela que vai permitir a requalificação urbana de um perímetro que vai abranger o matadouro municipal. Mas se a requalificação urbana vai ser importante, a implantação no local da Escola de Hotelaria de áreas ligadas à investigação científica e tecnológica, espaços reservados à juventude, à cultura e ao lazer, vão contribuir para a dinamização de um espaço com mais de cento e cinquenta anos de história em Portalegre. Esta aquisição conjugada com a disponibilização de terrenos na zona industrial à Robinson permite a concretização de uma nova unidade fabril que garante continuidade de uma nova unidade fabril que garante continuidade de uma empresa de grande simbolismo em Portalegre e traz estabilidade a todos os que trabalham na Robinson, criando uma atmosfera de esperança a quem viveu muitos anos a angústia de ver desaparecer o seu posto de trabalho.” (sic Presidente da Câmara Mata Cáceres)

”A Câmara Municipal e os seus parceiros querem uma fundação que permita a Portalegre ter um espaço de reflexão e de prossecução de ações concretas no domínio cultural, educativo, social, científico, desportivo e filantropo.” (sic Presidente da Câmara Mata Cáceres)

Ora, aquele que foi um investimento consensual, tendo em conta pressupostos de grande retorno para o desenvolvimento de Portalegre, e que ficou associado à decisão de constituição da Fundação Robinson numa rede de parcerias que envolvia a Câmara Municipal, a Sociedade Corticeira Robinson, o Instituto Politécnico e a Região de Turismo do Norte Alentejano, revela-se hoje um esbanjamento financeiro sem precedentes, com encargos inaceitáveis para os portalegrenses.

Pela razão de que os objectivos subjacentes ao investimento e declarados por todos os intervenientes, ficaram por cumprir. De tudo o que foi então perspectivado, apenas a Escola de Hotelaria foi construída, sob responsabilidade do Instituto de Formação Turística (Inftur). E ainda assim, estão por concluir os arranjos urbanísticos da envolvente e até a entrada é feita “pelas traseiras”:

– Não foi feita a requalificação urbana e ambiental daquela importante área da cidade, hoje tornada um vazio urbano, degradado, abandonado e divorciado da cidade;

– Não possibilitou a recuperação industrial da Sociedade Corticeira Robinson, que entrou em insolvência, nem garantiu a esperança e a estabilidade aos seus trabalhadores, que viram desaparecer o seu posto de trabalho;

– Não assegurou a prossecução de acções concretas no domínio cultural, educativo, social, científico, desportivo e filantropo (paradoxalmente as iniciativas promotoras da formação de públicos e facilitadoras da apropriação do espaço Robinson, pelos portalegrenses aconteceram mais no período em que a fábrica estava ainda em laboração, do que após o encerramento das suas portas…);

– Não se honraram, nem preservaram, os mais de cento e cinquenta anos de história do espaço Robinson que permaneceu de portas fechadas. O espaço não foi dinamizado, não se criaram áreas destinadas à juventude, à cultura e ao lazer;

– Desperdiçou-se a imensa potencialidade de conhecimento científico e tecnológico associado à cortiça, à sua produção e transformação, desbaratando o mais importante traço identitário da cidade de Portalegre.

E quais as razões?

O investimento foi feito em 2003. Desde então a Câmara foi sempre governada por Mata Cáceres e pela sua seguidora Adelaide Teixeira. Em pelo menos dois mandatos ambos tiveram maioria absoluta, com a estabilidade governativa suficiente para fazerem o que entendiam dever fazer. E os financiamentos não faltaram… nos dez anos de existência formal da Fundação (os seus estatutos foram publicados em 2005) a Fundação Robinson terá sido, porventura, a entidade que mais fundos mobilizou em todo o distrito de Portalegre (embora o real alcance destes financiamentos, bem como os destinos da sua aplicação só possam ser realmente conhecidos com a realização da auditoria administrativa, financeira e patrimonial, que a maioria CLIP tem recusado e inviabilizado).

Não tendo sido cumpridos nenhum dos seus objetivos, este investimento revela-se, assim, muito caro para Portalegre e para os portalegrenses que têm agora para pagar perto de um milhão e quatrocentos mil euros. E a cessão de créditos entre bancos, nomeadamente entre a Caixa de Crédito Agrícola e o Banco Espírito Santo, continua a ter contornos obscuros e mal esclarecidos.

Voto, portanto, contra a proposta apresentada, que só responsabiliza a maioria CLIP.

 Luís Pargana (28/12/2016)

O futuro da Fundação Robinson

Acabei de receber a notícia a seguir reproduzida, com a devida vénia ao amigo Gabriel Nunes e à Rádio Portalegre, que continuo a ouvir e a ler, na sua página na WEB.

Ainda que pudesse ser esperada, é uma notícia dramática nas suas consequências. A cidade, os seus habitantes, a cultura local e também a nacional, os colaboradores da Fundação, enfim, um universo de pessoas e de interesses vai sofrer com a diluição de uma entidade vocacionada para projectos de invulgar dimensão. Alguns, apenas alguns destes, foram concretizados. Mas não é este o momento do balanço.

Aqui, no blog, já colocara esta mesmíssima e angustiada interrogação –Fundação Robinson, que futuro? Foi em 11 de Agosto de 2012 e tive agora a mais temida de todas as respostas.

Só posso por isso evocar o Poeta e reflectir sobre que erros, e de quem e quando, foram cometidos, sobre a eventual má fortuna encontrada, sobre os ardentes desamores acumulados e sobre a final perdição em que todos os males se conjugaram.

Foi um mau serviço a Portalegre e à memória dos Robinson. E não há responsáveis?

 António Martinó de Azevedo Coutinho

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O executivo da Câmara de Portalegre decidiu hoje passar para as mãos do Conselho de Administração da Fundação Robinson a decisão de extinguir a instituição, alegando não dispor de meios financeiros para a continuar a alimentar.

 Na reunião de câmara desta quarta feira a presidente do município, Adelaide Teixeira, chegou a apresentar uma proposta para a extinção da Fundação Robinson, mas o documento acabou por ser retirado, nos termos em que estava redigido, por sugestão da oposição PS.

 Em declarações à Rádio Portalegre, o vereador do PS, Miguel Monteiro, disse que a proposta apresentada por Adelaide Teixeira era “um cheque em branco” passado à Fundação, que “não defendia os interesses da Câmara porque obrigava o município a assumir todas as consequências do actual estado patrimonial da instituição”.

A nova proposta, que contou com o voto contra do vereador eleito pela CDU, foi aprovada com os votos favoráveis dos quatro eleitos da CLIP e dos dois vereadores socialistas e será remetida aos órgãos sociais da Fundação Robinson que terão que indicar à Camara qual o processo de resolução que defendem, tendo presente que a autarquia não dispõe de meios financeiros para continuar a assegurar as despesas da instituição.

 O socialista Miguel Monteiro afirmou ainda que o PS não fecha o cenário de extinção da Fundação Robinson, aliás considera que essa é a hipótese mais provável.

 A Rádio Portalegre tentou, sem sucesso, ouvir o vereador da CDU Luís Pargana e a presidente da Câmara de Portalegre, Adelaide Teixeira.

  Gabriel Nunes/Rádio Portalegre

A FÁBRICA DA ROLHA – XI

XI – robinson forever! 

Normalmente, e tal fenómeno também tem acontecido no seio destas reflexões, é costume destacar a riquíssima personalidade de George Wheelhouse e deixar o seu pai, o patriarca George Williams Robinson, numa injusta subalternidade.

Com efeito, este foi o pioneiro. Mas foi também o homem culto e perspicaz que formou de forma exemplar o carácter do seu sucessor. Por isso, citar Wheelhouse é tão oportuno quão injusto é olvidar Williams.

Este escreveu uma espécie de diário, onde anotou interessantes e judiciosas reflexões. Das suas “notas pessoais” relativas ao decénio 1840/1850, retirámos um magnífico e oportuno exemplo desses escritos: 

Não é o que ganhamos, mas o que poupamos, que nos torna ricos.
Não é o que comemos, mas o que digerimos, que nos fortalece.
Não é o que lemos, mas o que lembramos, que nos instrui. 

Tal filho, tal pai! Por vezes, nesta Portalegre cada vez mais entregue à vulgaridade, louvam-se os medíocres e rejeitam-se os melhores. Os Robinson, ingleses de origem, portugueses e sobretudo portalegrenses de pleno direito, merecem um estatuto de excepção. Por isso, toda a sua herança, onde avulta a fábrica, justifica o máximo empenho porque também envolve a correspondente responsabilidade.

A legítima herdeira do património portalegrense dos Robinson, pelas circunstâncias abundantemente conhecidas e descritas, é a Fundação que ostenta o seu nome. Só ela.

Por isso, evitando indesejáveis e prejudiciais colagens, a Fundação deve actuar em plena consciência, no respeito pelos objectivos definidos nos seus estatutos, que até justificam algumas correcções -e sobretudo actualizações- em face dos acidentes de percurso verificados.

Atrevo-me a acrescentar por conta própria o pensamento do patriarca Robinson, lembrando que não é o que prometemos, mas o que fazemos, que nos dignifica.

Pretendo acompanhar mais de perto a actuação futura da Fundação Robinson, desde que ninguém -autorizado- me exclua desse privilégio, situação que, embora em distinto contexto, já experimentei em passado recente. E sobrevivi.

A minha declarada intenção é, apenas, a de continuar a aprender e com isso crescer, em cidadania lagóia. Não expliquei -e provei- atrás como toda a vida tenho aprendido com a fábrica e as suas gentes?

A actividade, autêntica e quotidiana, da Fundação Robinson é praticamente desconhecida para uma imensa maioria de portalegrenses. Nem sequer interessará muito saber os porquês quando o que agora urge será criar as pontes e ajudar a transpô-las. A desejada cumplicidade com os cidadãos interessados apenas corresponderá, com inteira naturalidade, à prática dos Robinson. Nada do que agora for feito em seu nome poderá subverter a sua norma de vida, sob pena de incoerência.

Os denominados Novos Habitantes (nove associações, nove!) deverão assumir a honra dessa distinção. Neste breve contacto pessoal com a tal realização prática da Fundação não lobriguei um só representante dessas nove associações. Um só, para amostra! Mera coincidência? Talvez. Onde está a seu sentimento, ou desejo, de próxima integração numa estrutura cultural a que livremente se candidataram? Que esperança nos permitem de uma activa cooperação no futuro centro cultural onde colectivamente se projecte e execute a nossa afirmação comunitária no campo das artes, do espectáculo, da dança, da música, do teatro, da animação…?

A antiga fábrica, com carácter de urgência, tem de reviver e mostrar os sinais dessa mudança. Naturalmente, só por estultícia poderá alguém proclamar uma grotesca imitação do seu anterior funcionamento fabril. Mas deve ser ali a efectiva sede da Fundação, ali, bem à vista daqueles a quem a velha fábrica da rolha continua a sensibilizar, e são muitos, ainda. Depois, impõe-se a constituição do museu de arqueologia industrial, in situ, mesmo que este tenha de nascer por parcelas, recanto a recanto, sala a sala, máquina a máquina, peça a peça. Um plano rigoroso e inteligente deverá ser desencadeado para dotar a cidade de mais um equipamento cultural de excepção (que bonito ficou o Museu Municipal e que decisivo papel teve aí a Fundação!!!) e, sobretudo, para honrar com justiça e dignidade a memória dos seus patronos máximos.

Seria interminável a relação daquilo que poderia aqui arrolar, com maior ou menor consistência, com maior ou menor razoabilidade. Por isso, suspendo a escrita. A custo.

Termino como comecei, pelas chaminés.

Faço votos de que um dia, tão próximo quanto possível, a cidade possa rever-se nos seus tradicionais fumos brancos e negros. A moderna tecnologia, mesmo a cénica que apreciamos num banal concerto musical ou numa representação teatral, produz fumaças espectaculares. Prometo estender então alva roupa e esperar pela “mascarra”…

Se o suão não a trouxer no seu “hálito empestado”, irei reclamar junto dos responsáveis da Fundação pela sua falha no domínio dos efeitos especiais. De facto, ninguém é perfeito… 

António Martinó de Azevedo Coutinho

A FÁBRICA DA ROLHA – X

X – pelas obras se revela a vontade
de quem as pratica 

Entre desabafos, no meu espaçado ou intermitente silêncio sobre a Robinson -fábrica ou Fundação-, aconteceu recentemente mais um capítulo. O pretexto -há sempre um- foi um banal artigo dum jornal diário, onde a (indirecta) ilustração remetia para as míticas e incontornáveis chaminés lagóias.

Na consciência de que a fábrica é hoje apenas uma saudade, foi à Fundação que dirigi as minhas reflexões, sob a forma de questões, daquelas que qualquer vulgar portalegrense interiormente formula, de há muito, sobre a distante e enigmática organização local. Utilizei para o efeito o “blog” A Voz Portalegrense, que o amigo Mário Casa Nova Martins generosamente colocou à minha disposição e onde, antes da “autonomia”, deixei algumas centenas de pequenos textos de opinião sobre diversos temas que me apaixonam, como os direitos de cidadania, críticas político-partidárias, a banda desenhada, antigas colecções de cromos, José Régio e também José Duro, o desacordo com o Achordo Ortographico ou, sobretudo, uma sistemática campanha pessoal por uma Portalegre mais digna…

E ali acrescentei, embora redundantemente, que não esperava qualquer resposta explícita, pois até já passara pela experiência da carta aberta de Janeiro de 2007…

Para minha surpresa, tive resposta quase imediata e muito positiva, tanto na forma como no conteúdo.

Convidado ao diálogo pessoal por um elemento da Fundação, que nem sequer conhecia, aceitei o desafio, aliás colocado de forma bastante cordial.

Não me arrependi. Pela franca e aberta conversação que travámos, tomei progressivo contacto com uma realidade que, quase em absoluto, ignorava. E conheci, também, gente invulgar.

Naturalmente, não obtive uma resposta satisfatória em relação a algumas das questões que expusera. Nem isso seria o mais significativo. Mas devo confessar -e declaro-o com a mais absoluta franqueza- que alterei substancialmente alguns dos conceitos pessoais formulados ao longo dos anos sobre a Fundação Robinson.

Mantenho outros e, sobretudo, não retiro nada, rigorosamente nada, daquilo que ao longo desses mesmos anos escrevi e divulguei publicamente sobre o tema. É minha profunda convicção ter sido sempre coerente com a vivência que cada um dos sucessivos contextos locais me criou. Mais, estou igualmente convicto de que por vezes fui porta-voz de muitos outros anónimos conterrâneos, reflectindo sentimentos colectivos numa comunidade infelizmente pouco dada a cultivar uma opinião pública consistente e interventiva. Somos quase todos muito bons em convictas discussões críticas de café e, alguns, até mesmo em “corajosas” mensagens anónimas vomitadas em blogs, carregadas de frustrações, de mesquinhas invejas e de alguma malévola sordidez, mas tornamo-nos tímidos e inseguros quando nos responsabilizamos em públicos depoimentos, onde nos são exigidos rosto e assinatura.

Na sequência do diálogo inicial, fui convidado para participar numa realização já programada e próxima. Compareci, nos apertados limites da minha actual disponibilidade, e reforçou-se no meu íntimo a agradável convicção colhida nos primeiros encontros. A qualidade dos intervenientes e o oportuno interesse dos temas abordados atingiu a excelência, pouco vulgar entre nós.

Não me converti à crença numa mítica e exemplar Fundação. Creio que esta tem cometido erros e que o seu futuro poderá ficar aquém dos objectivos traçados. Mas também aprendi que lhe devemos algumas positivas realidades locais, que muitos portalegrenses nem sequer associam à sua influente intervenção. Percebi ainda que atravessa uma das mais delicadas fases da sua curta existência e que isso nada terá a ver com riscos associados às anunciadas avaliações governamentais sobre o tipo de instituição onde se integra.

A afirmação -convicta afirmação pessoal- que em súmula significa a minha própria e talvez inprecisa avaliação geral sobre a Fundação Robinson é a de que esta deverá, nos limites institucionais do seu próprio estatuto, garantir toda a autonomia possível em relação à Câmara Municipal de Portalegre.

Tem existido até agora uma espécie de nebulosa promiscuidade que não favorece a Fundação, bem pelo contrário. A confusão estabelecida entre as duas instituições presta-se frequentemente à criação de zonas mal definidas e até de equívocos onde as responsabilidades se diluem, onde as competências se baralham, onde os efeitos se reduzem ou se perdem…

Um exemplo muito claro desta “contaminação” situa-se nos domínios da cultura local. Desde há bastante tempo que em Portalegre não se tem a certeza de quem faz o quê, quanto a certas iniciativas culturais, isto é, onde começam ou onde findam os graus de intervenção e de responsabilidade, directas ou determinantes, do Município ou da Fundação, nesses acontecimentos.

Afinemos o exemplo e citemos um caso concreto. Para além da mera coincidência da efeméride -por acaso nasceram no mesmo dia- por que se festeja Régio no Dia Robinson (17 de Setembro)?

Sendo certo que José Régio é festejado todos os dias (excepto nas segundas-feiras!) na sua Casa Museu, para que serve o Centro de Estudos com o seu nome? E, para evitar inúteis sobreposições, por que não escolher para comemorar anualmente o poeta uma outra data, como a da sua morte (23 de Dezembro) ou a do seu escrito pioneiro n’A Rabeca (20 de Dezembro) ou então juntar as duas, dada a sua proximidade?

Separar claramente as duas instituições nesta celebração seria um acto de simples bom senso, até porque Régio, quanto se sabe, nada tem directamente a ver com nenhum dos Robinson…

Mas o distanciamento que defendo não se limita ao pormenor, regiano ou não. Proclamo o interesse, mesmo a urgência, dessa demarcação. A Fundação, já atrás o lembrei ironicamente, perdeu o pai Robinson no acto do nascimento, pois este já estava moribundo… A mãe, C. Municipal, que lhe sobrou, perdeu entretanto o norte e tem-se portado de forma irregular, atingindo mesmo um estado próximo da falência. Infelizmente, nos tempos que passam, a jovem Fundação não conseguirá com facilidade uns pais adoptivos, mas a manutenção deste umbilical laço materno em pouco pode hoje ultrapassar o meramente afectivo, no entanto carregado de indesejáveis aderências.

Cabe no entanto a ambos, mãe e filha, a lucidez e a coragem da livre escolha em ordem a uma “separação” por mútuo acordo.

E também lhes cabe a responsabilidade da decisão, seja qual for o seu sentido. 

António Martinó de Azevedo Coutinho