CIDADES

Ontem passou, discretamente, mais um Dia Internacional dos Monumentos e Sítios. Compreende-se, pois monumentos e sítios são locais para visitar e desfrutar ao vivo e em directo, atitude agora quase impensável. Por isso mesmo, também nada lhes dediquei aqui no blog. Mas não esqueci o pretexto.

Um jornal diário e uma revista semanal começaram há pouco a publicação de uma série de cadernos ilustrados sob a designação genérica de Memórias de Portugal – Dois Séculos de Fotografia. Trata-se de uma iniciativa muito interessante, ainda que o interesse dos diferentes títulos seja algo desigual. As edições são cuidadas, com textos adequados e bem ilustrados com magníficas imagens de arquivo.

O último, por coincidência, tem bastante a ver com monumentos e sítios, pois o seu tema foi Cidades. Transcrevo a sua súmula, patente na contracapa:

Cidades leva-nos à descoberta das principais paisagens urbanas para além da capital, observando as mudanças que, ao longo dos últimos séculos, ajudaram a construir a nossa identidade. Percorrem-se memórias, marcos do pioneirismo e identificam-se momentos de expansão e crescimento, num percurso pelas ruas e pelo património, mas também pela vivência social, à descoberta da enorme diversidade de um país que foi aprendendo a conciliar tradição e progresso”.

O Prefácio, assinado por Lídia Brás Dias, vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Braga e responsável pelo seu Museu da Imagem, trata com rigor a importância dos registos visuais. Este pedagógico texto deveria ser lido, obrigatoriamente, por todos os autarcas de Portugal. Talvez assim percebessem a urgência dos arquivos, sobretudo fotográficos, mas não só, para o entendimento da história das respectivas comunidades, das regiões e do país em geral.

Infelizmente, aquilo a que se assiste, na generalidade, é lamentável. O desprezo, a ignorância ou o desleixo constituem o comportamento “oficial” autárquico quanto às imagens, embora incontornáveis e insubstituíveis, que registam a memória das pessoas, dos factos, das datas, dos eventos, enfim, da vida passada em cada cidade, vila, aldeia, lugar… O esforço, isolado mas altamente louvável, de alguns cidadãos não basta para garantir o futuro desse passado.

O volume Cidades não encerra apenas este interesse. Para mim constituiu uma autêntica revelação. Com efeito, habituado como estou, ao generalizado olvido da minha terra, Portalegre, fiquei reconfortado porque a cidade de Régio foi ali citada pelo texto e pela imagem.

Disse a cidade de Régio porque o escrito patente lembra com oportunidade a “cidade do Alto Alentejo, cercada de serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros”. Depois do clássico excerto da Toada, ostenta uma fotografia bem conhecida, a do plátano do Rossio, num primeiro plano que enquadra o fundo, o inconfundível perfil da cidade de Portalegre, com visibilidade para o casario, o Palácio Amarelo, a Sé Catedral e torres do Castelo, antes da mutilação. Não dá para ver as chaminés da Fábrica Robinson nem a ermida de São Cristóvão, paciência…

Também se desculpa o exagero de ali se afirmar que a delegação da Caixa Geral dos Depósitos e o Café Alentejanos são vizinhos do secular Rossio…

Passou ontem discretamente o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios. Apesar do confinamento, os meus sítios predilectos chegaram-me de perto.

o saudoso senhor Paulino

Foi há dias ou há semanas, nem sei ao certo porque a noção do tempo nesta época confusa já não se mede com rigor. A notícia, breve, chocou-me. Depois, na imparável torrente das redes ditas sociais, perdi-a sem remédio, apenas ficando uma mágoa na memória e a intenção de aqui dela me fazer eco.

Lembrei-me de uma antiga imagem onde constava o motivo da notícia e decidi por isso procurá-la entre outro torrencial universo, caixas e caixas de cartão cheias de fotografias. Só ontem, com alívio, a encontrei.

O José Paulino está ali, entre outros seus e meus companheiros de saudosas épocas e outros lugares. No verso da fotografia está escrita a data: 22 de Junho de 1989. O local, inconfundível, é o refeitório da Escola Preparatória de Cristóvão Falcão, em Portalegre. Nessa altura, já próxima da época em que me reformaria, eu leccionava na Escola Superior de Educação. Devo ter regressado, não me lembro com rigor, por ocasião do tradicional convívio do final de mais um ano lectivo.

Daquele grupo já alguns nos deixaram, sobretudo senhoras no primeiro plano, a Natércia, a Lourdes, a Sílvia… E agora foi o José Paulino, o senhor Paulino como sempre ali foi conhecido. Sobramos provisoriamente os restantes, eu, a Isabel, a Joaquina (não tenho a certeza!), o Lino, o Matos Pereira, o José Malpique…

O senhor Paulino foi sempre discreto, calmo, eficaz, leal, um competente colaborador, empenhado participante nas múltiplas tarefas que constituíam o dia-a-dia dum estabelecimento de ensino dinâmico e modelar, ou quase. Foi uma escola que me marcou, aquela onde vivi a maior parcela dos mais gratos momentos e episódios da minha vida de professor, onde encontrei as mais entusiastas equipas, sempre prontas para a inovação e mesmo para a audácia de fascinantes aventuras pedagógicas. E onde sempre contávamos com as capacidades do senhor Paulino.

Fora da escola e portanto da ocupação profissional, ele dedicou uma especial atenção ao seu Grupo Folclórico da Boavista. Foi esta a principal intervenção comunitária do senhor Paulino, outra vez e sempre discreto e eficaz.

Sei que os seus últimos anos de vida foram atormentados pela partilha do sofrimento da esposa, Balbina, que também servira com o mesmo empenho a nossa escola comum.

A notícia da morte de José Paulino chocou-me. Lembro agora um homem bom, que me orgulho de ter tido como companheiro e amigo.

Na imagem que aqui coloco em homenagem de amizade e gratidão, como que premonitoriamente, ele está de camisa negra e olhos cerrados.

Foi há mais de trinta anos, parece que foi ontem…

Mais uma excelente e oportuna iniciativa na minha terra!

Portalegre lança agenda online “Cultura de Quarentena”

No quadro das medidas adoptadas no âmbito da COVID-19, com o encerramento dos equipamentos culturais da cidade, a Câmara Municipal de Portalegre, em reunião no dia 1 de Abril, aprovou a criação de uma agenda online com o nome de “Cultura de Quarentena” que permite a quem está em casa ter acesso regular a alguns conteúdos.

Entre a Biblioteca Municipal, o CAEP, a Casa Museu José Régio, o Museu Municipal, o Museu da Tapeçaria de Portalegre – Guy Fino e o Turismo partilhamos conteúdo diverso online para que possa conhecer o melhor de Portalegre no conforto da sua casa.

Este ano, em que evocamos o cinquentenário da morte de José Régio, abrimos a programação com a apresentação da casa do poeta, aquela “(…) casa velha, à qual quis como se fora feita para eu morar nela… cheia dos maus e bons cheiros das casas que têm história”.

Em breve estaremos também em condições de partilhar alguns poemas por personalidades diversas do concelho”, refere a nota de imprensa divulgada.

Programa imediato

Segunda-feira, dia 6 de Abril, pelas 16h horas, venha conhecer melhor a Casa Museu José Régio.

Dia 7, terça-feira, se ligar para a Biblioteca Municipal através 245 307 520, contamos-lhe uma história ao ouvido, entre as 14 e as 17 horas.

Na quinta-feira, dia 9, voltamos a Régio, com a retransmissão do teatro radiofónico “Rosa Brava”, às 14:30 horas.

Continuamos na segunda-feira de Páscoa, com uma peça do Museu Municipal, a imagem de Nossa Senhora da Conceição, Rainha e Padroeira de Portugal, às 17 horas.

Na quarta-feira, dia 15 de Abril, fica o convite para assistir connosco a um concerto que Ana Bacalhau deu no CAEP em 2019, às 21 horas.

Mesmo antes do fim-de-semana, sexta-feira, dia 17, vamos passear pelo património com o Turismo de Portalegre, pelas 15 horas.

PARABÉNS!