PENICHE. Uns tais equívocos… ou revelações!

O facebook, uma vez mais, prestou-se a uma guerrilha indígena penichense. Talvez por vocação, certamente por equívoco.

Recapitulemos. Um cidadão colocou on line um reparo, devidamente apoiado numa imagem. A praia da Gamboa estava atafulhada de limo, causando algum incómodo aos banhistas, por isso ausentes. Naturalmente, o texto dava conta de que a situação se mantinha há dias (o que era verdade!) sem o facto ter merecido a atenção devida, plenamente justificada no contexto da oferta turística local.

Ora tudo isto é justo, legítimo e deve englobar-se no constitucional direito de qualquer cidadão à crítica.

Respondeu um outro cidadão no mesmo meio de comunicação social, o facebook. Como vereador, sentiu-se este no direito, igualmente legítimo, de corrigir as afirmações anteriores. Começou por considerar a acumulação de limo como o resultado natural do normalíssimo e não controlável funcionamento da natureza. Interpretou seguidamente o reparo como uma intenção de lançar sobre a autarquia o odioso da situação, acrescentando que muito limo tinha entretanto sido removido da dita praia e de outras. Bastaria lá ir confirmar com os próprios olhos. Finalmente concluiu que não pode valer tudo só com finalidades de maledicência, para mais em época de eleições.

Creio que esta resposta contém uma catadupa de disparates, equívocos e dispensáveis insinuações.

O limo, efectivamente, não é um problema ambiental. Mas ninguém pode recusar a evidência de que a sua excessiva acumulação pode causar os incómodos referidos. A verdade é que o próprio vereador o admite, pois foi determinada a sua remoção por parte dos serviços da autarquia. Portanto, reconheceu e assumiu implicitamente a razão essencial da crítica.

A questão temporal é significativa. Não foi desmentido o essencial do reparo, pois é óbvio que a remoção do limo apenas aconteceu após a divulgação pública daquela crítica, ainda que possa não ter sido sua consequência directa.

É evidente a confusão entre a “não problemática” acumulação do limo e a sua retirada porque esta nada teve a ver com o funcionamento do ecossistema ecológico. O ciclo natural seria a sua retirada pela mesma força das marés que o trouxera… E este fenómeno tornar-se-ia temporalmente incompatível com a pronta disponibilidade de areia limpa ao serviço dos banhistas.

Só uma mentalidade parcial e restritiva poderia ler naquele justo reparo uma intenção eleitoralista. E, sobretudo, só uma formação fundamentalista poderia utilizar uma fórmula intencionalmente atentatória da dignidade pessoal do cidadão autor do reparo. O tratamento formalmente desprezível e miserabilista de “um tal cidadão” parece medieval, remetendo-nos para uma divisão classista de castas em que um vulgar elemento do povo nunca ousaria beliscar o intocável membro da nobreza…

Numa época de eleições, e não podemos esquecer que os cidadãos em questão são nelas activos participantes, devemos todos nós -eleitores- levar em activa linha de conta a lição prática que este episódio revela.

O limo não é certamente um problema social e ambiental tão importante como a escolha de quem queremos que localmente nos governe.

O ecossistema político deve funcionar.

Viva Peniche!

António Martinó de Azevedo Coutinho