As nossas áreas desprotegidas

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Vivi durante alguns anos a experiência de integrar a equipa do Parque Natural da Serra de São Mamede, uma grata vivência que já por diversas vezes aqui referi. Conheci gente da mais elevada qualidade humana e técnica, quer ao nível da zona protegida quer nos mais altos quadros da instituição central.

Posteriormente, quando a relação com as questões ambientais se reflectiu noutra área pessoal de intervenção cívica, ao coordenar um festival internacional de audiovisuais e multimédia que ganhou dimensão europeia, pude consolidar e amplificar essa experiência inicial, no estreito convívio com personalidades do vasto e qualificado universo do estudo, defesa e protecção do Ambiente.

Tenho portanto conhecimento bastante do tema para poder afirmar convictamente que não deve ser atribuído às autarquias a gestão das áreas protegidas. Não têm vocação, nem capacidade ou quadros preparados para assegurarem a responsabilidade de gerir a vertente económica, social e cultural dos chamados parques naturais.

Todo um passado de sucesso se poderá perder sem remédio. A improvisação nacional terá aqui um belíssimo campo de experimentações destinado ao mais absoluto insucesso. E todos perderemos como isso, pelo que espero que acabe por imperar o bom senso prévio.

A degradação do nosso ambiente é de tal modo notória e progressiva que a solução não pode ser a agora preconizada pelo Governo. Recuperar as lições do passado nem sempre é retroceder, bem pelo contrário.

António Martinó de Azevedo Coutinho

AMERICA FIRST

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REVISTAS INTERNACIONAIS FAZEM BALANÇO DE DUAS SEMANAS DE PRESIDÊNCIA TRUMP – O RETRATO É NEGRO

As edições das grandes revistas internacionais que acabaram de sair ou que chegarão às bancas nos próximos dias fazem o balanço das duas primeiras semanas da presidência de Donald Trump. O retrato é negro. Literalmente, ou de forma figurada, as ilustrações, fotografias ou montagens nas capas são opções editoriais denunciando que a América está e perder a sua essência – a liberdade.

A Der Spiegel fez a capa de edição de anteontem com uma violenta caricatura do novo Presidente americano, que, com uma faca na mão, decapitou a Estátua da Liberdade. Como título, apenas America first (Primeiro a América), o mantra que Trump diz ser o fio orientador da sua política e da sua conduta como Presidente. A ilustração é do artista cubano Edel Rodriguez, de 45 anos, que nos anos de 1980 chegou aos EUA como refugiado, tornando-se cidadão americano. “É a decapitação da democracia, a decapitação de um símbolo sagrado”, disse Rodriguez ao Washington Post.

A caricatura gerou debate entre os jornais alemães. o Die Welt considerou que a capa “lesa o jornalismo” – que deve dar dados isentos e não “uma visão do mundo” -, o Frankfurter Allgemeine Zeitung criticou a “imagem distorcida” de Trump que este pode usar para alimentar a imagem distorcida que este tem na imprensa. O eurodeputado Alexander Graf Lambsdorff, do Partido Democrata Liberal e vice-presidente do Parlamento Europeu, disse à Reuters que a capa é “de mau gosto”. (…)

A.G.P., em Público 5 de Fevereiro de 2017

NOTA pessoal, que vale o que vale – Concordo em absoluto com a caricatura, no seu óbvio e forte sentido crítico. O que Trump está a fazer, em perfeita coerência com as loucuras que previamente anunciara, tem de merecer todo o nosso mais veemente e activo repúdio.  Há valores universais que devem ser defendidos e tudo o que pudermos fazer neste sentido nunca será demais. Cada um de nós deverá ser, em consciência e na prática do seu comportamento, um activo militante contra a violência de que Trump é arauto e mandatário.
Louvem-se pois a lúcida coragem criativa de Edel Rodriguez e a inequívoca tomada de posição da Der Spiegel.