Hergé, Tintin e a Medicina – seis

7. L’Ile Noire

Surgiu em Le Petit Vigtième entre Abril de 1937 e Junho de 1938, sendo publicada a preto e branco no final de 1938 e republicada a cores em 1943, sendo então reduzido a 62 o número de pranchas 62. Este foi o número de páginas que permaneceu em seguida. O álbum passou por uma revisão total em 1965 ao realizar-se a tradução para Inglês. A editora deste país, Methuen, apontou alguns erros a Hergé, que redesenhou integralmente o álbum, seguindo as correcções que seu colaborador Bob de Moor compilou na Inglaterra.

Argumento: Tintin é atacado por tripulantes de um avião em fuga, que aterrou na Inglaterra. Depois de recuperar no hospital, foi para a Inglaterra em busca dos seus atacantes e terminou no rasto de Doutor Müller, que o capturou. Tintin estava prestes a ser levado para um hospital psiquiátrico, mas escapou e recomeçou a sua busca, o que o levou até ao povoado escocês de Kitloch. Ali embarcou rumo a uma ilha próxima, onde se acreditava que habitaria um monstro. No entanto, trata-se  da base de um bando de falsificadores de dinheiro, que usava um gorila para afastar os curiosos com os seus rugidos amplificados.

Comentário: O argumento é bem construído e demonstra a experiência adquirida por Hergé no campo da narrativa, neste caso, uma pura aventura policial. A originalidade da história é essencialmente baseado na comparação de dois universos incompatíveis tidos como incompatíveis. O primeiro é o mundo das técnicas mais modernas e sofisticadas, que desempenham um papel fundamental no álbum; o segundo refere-se a mitos antigos: uma ilha misteriosa, um castelo em ruínas, um monstro.

8. Le Sceptre d’Ottokar

O conteúdo deste álbum foi originalmente divulgado entre 4 de Agosto de 1938 e 10 de Agosto de 1939 em Le Petit Vingtième. Nesta aventura é introduzido pela primeira vez a personagem Castafiore. É muito provável que a Bordúria seja uma versão da Alemanha nazis e a Syldavia da Áustria. São numerosas as referências que aparecem e sugerem a comparação: as aeronaves, os uniformes, as tácticas para tomar o poder, etc.

Argumento: Müstler quer anexar a Syldavia à Bordúria. Para conseguir isso, ele quer que o rei não empunhe o ceptro de Ottokar IV durante a Parada do Dia de São Wladimiro, porque isso -segundo a tradição- significaria perder o trono.  Roubando o ceptro, “roubariam” a monarquia e poderiam anexá-la. Tintin, acompanhando um professor, viaja para Syldavia e descobre a conspiração. Então, avisa o rei e evita a anexação.

Comentário: Provavelmente, o que melhor caracteriza este álbum, é o facto de este está preenchido por magníficos desenhos. A história começa como muitas outras aventuras de Tintin: depois de um acto aparentemente vulgar fica-se envolvido progressivamente num tema poderoso cujo significado não se vai plenamente entender até ao final. Além da “invenção” dos dois países que terão continuidade em histórias futuras, a grande dama Bianca Castafiore aparece pela primeira vez em cena.

 9. Le Crabe aux Pinces d’Or

Hergé criou esta história durante a ocupação alemã da Bélgica. O jornal Le Petit Vingtième, que tinha sido publicado as aventuras de Tintin desde 1929, foi encerrado pelos ocupantes. Hergé rapidamente encontrou trabalho no jornal Le Soir, cuja circulação era ainda maior, mantendo uma linha editorial claramente colaboracionista (o que viria a causar muitos problemas a Hergé depois do fim da guerra). Esta história interrompeu a que estava a publicado em Le Petit Vingième, Au Pays de l’Or Noir, por causa das suas implicações políticas. Le Crabe aux Pinces d’Or foi publicado pela primeira vez em 17 de Outubro de 1940, no suplemento semanal do Le Soir. Devido à escassez de papel, o suplemento cessou a publicação em 23 de Setembro de 1941, passando a publicar-se como uma tira diária em Le Soir, ao ritmo de três ou quatro vinhetas de cada vez. Nesse mesmo ano foi publicado integralmente, sendo o último álbum de Tintin a preto e branco. A reedição em 1943 apresenta cortes significativos no argumento, em relação ao original, para ajustá-lo ao modelo de 64 páginas, em comparação com as 130 da edição original.

Argumento: Na história, Tintin vai até ao cargueiro Karaboudjan, onde é capturado por um bando de criminosos que utilizava latas de conserva de caranguejo para o tráfico de ópio. Tintin consegue escapar do camarote em que o tinham trancado, e encontra o capitão do navio, Haddock, completamente embriagado e vítima das maquinações da tripulação. Tintin e o Capitão conseguem escapar do navio e, por fim, acabam estatelados numa avioneta em pleno deserto do Sahara, onde são salvos por um tenente da Legião Estrangeira. Eles acabam em Marrocos onde, com a ajuda de Dupont e Dupont, descobrem o chefe dos contrabandistas e detêm toda o bando.

Comentário: Destaca-se a primeira aparição do álbum do Capitão Haddock, com muitas das suas características essenciais: o gosto por álcool (embora visto aqui com alguns tons dramáticos, ao contrário do que vai acontecer mais tarde) e o seu gosto pelos insultos bizarros. Também se produziu aqui um ponto de viragem na obra de Hergé, que se viu brutalmente obrigado a transformar as suas condições de trabalho com a ocupação alemã da Bélgica.

Memórias de José Lourenço Carvalho – 01

Por motivos familiares fiquei ligado a José Lourenço Carvalho, homem bom, professor competente e cidadão exemplar, que deixou uma aura de qualidade pessoal em Portalegre e por diversos motivos.

Servindo-me da sumária e interessante biografia que dele o amigo Aurélio Bentes colocou em Caras de Portalegre, a seguir reproduzida, destaco a riqueza do seu espólio, que nós (herdeiros materiais e sobretudo espirituais) estamos decididos a tratar devidamente, em sua justa homenagem.

Por exemplo, as colecções de bonecos etnográficos e de emblemas (alguns raros), as mais significativas, serão objecto -assim o pretendemos- de exposição pública itinerante depois de devidamente organizadas e tratadas, como merecem. Isso ainda vai levar, necessariamente, algum tempo.

Para já, e aludindo a outro tipo de recordações de José Lourenço Carvalho, há as fotografias de interesse colectivo, social e comunitário que juntou.

Aqui, regularmente, delas se dará conta, partilhando-as com os leitores, na expectativa de que estes lhes acrescentem uma mais valia em reconhecimento, identificação, eventual datação e outros contextos que as possam tornar memória viva da comunidade portalegrense e adequada documentação de uma época.

Hoje reproduzem-se duas fotografias, uma das quais já vi publicada por mais de uma vez, a datada de 1929. Figura, por exemplo, na interessante e bem documentada obra de Isilda Garraio Histórias da História – 125 anos da Escola Secundária de S. Lourenço em Portalegre. Este original está em mau estado, rasgado de alto a baixo e colado com evidentes falhas. Procurei retocá-lo o melhor que pude.

A outra fotografia -em bom estado- tem no verso, a lápis, a indicação Escola Industrial Portalegre 1927 e foi fixada, segundo tudo leva a crer, no pátio do antigo Liceu. O “corte” do grupo é do próprio original…

Aqui ficam, depois da sumária biografia que pedi “emprestada” ao amigo Aurélio Bentes.

 José Lourenço Carvalho

Filho de José Maria Carvalho e de Maria do Carmo Dias de Carvalho, nasceu em 15 de Março de 1915, na Rua 31 de Janeiro, em Portalegre. Faleceu no Hospital desta cidade em 18 de Janeiro de 2000. Era casado com Mariana da Conceição Boleta Ramalho Carvalho, ainda viva e quase centenária.
Com apenas 12 anos de idade, inicia-se na música e aos 19 anos constituía a Trupe Jazz “ Os Lisos”, onde tocava flauta e, mais tarde, acordeão, ao mesmo tempo que tirava o seu curso na Escola Industrial Fradesso da Silveira. Aos 24 anos emprega-se nesta Escola e pouco tempo depois é nomeado professor de Trabalhos Oficinais, lugar que ocupa até à sua aposentação, depois de 44 anos de serviço. Nesta altura foi alvo de grande homenagem por parte dos colegas, alunos e amigos que quiseram realçar as qualidades de bondade, saber, experiência e valor profissional, tendo-lhe sido oferecida uma peça de estanho com a inscrição “Um pouco a lembrar o muito que nos ensinou. Obrigado. A sua Escola. 21-06-1985“.
Pelos seus cursos técnico-profissionais de carpinteiro-marceneiro passaram dezenas de alunos que ainda hoje recordam com saudade o mestre que os preparou para a vida.
A sua habitação em Portalegre era um verdadeiro museu, onde tinha diversos móveis por ele executados nas horas livres, nomeadamente um contador de mogno estilo século XVIII, caixas de relógios, mesas e móveis para guardar as suas numerosas e diversificadas colecções: moedas, lápis de reclame, esferográficas, emblemas, calendários, etc.
A colecção de bonecos de madeira, com base etnográfica e folclórica, que produziu é de uma perfeição impressionante e rigorosa, sendo de realçar ainda o grande e artístico painel esculpido numa só peça de madeira que se encontra a decorar as paredes de uma casa bancária em Belmonte. Notabilizou-se em delicados trabalhos de restauro de móveis e, sobretudo, de peças de arte sacra.
A deliberação camarária para atribuir o seu nome a uma artéria da cidade é de 14 de Agosto de 1996.