CAPA DE REVISTA

Sou capa de revista. Convém deixar o aviso prévio de que não se trata da Caras, da Lux, da Nova Gente, da Vip ou da Maria. Nem sequer da TV 7 Dias, da Máxima ou da Cristina. A revista que me deu a honra de capa é muito mais ignota e modesta. Mas posso assegurar que a revista Agir vale infinitamente mais do que as outras, todas juntas.

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Já agora, convém deixar outros esclarecimentos complementares, como o de que não protagonizei qualquer proeza ou escândalo públicos, que não mendiguei o favor e que nem sequer paguei um cêntimo pela publicação.

Honra tenho e imensa e também é conveniente explicá-la devidamente.

Honrou-me a capa pela companhia, que será interessante destacar, sobretudo lembrando-a a muita gente que ainda acredita, por estúpida ignorância ou deliberada má fé, que os jovens do seu tempo é que detinham a exclusividade da coragem, da solidariedade e da empenhada defesa de causas positivas. A geração jovem actual conta com alguns estafermos, como em todos os tempos e lugares, mas integra no seu seio uma imensa maioria de adolescentes dominados pelos mais nobres ideais.

Honrou-me a capa por certificar a minha integração na Amnistia Internacional, instituição que se bate pela intransigente defesa dos Direitos Humanos, num impressionante colectivo que mobiliza vontades e desenvolve oportunas e organizadas acções em favor dos mais desprotegidos, em luta intransigente contra todas as formas de tirania, de corrupção, de violência e de abuso do poder por parte daqueles que o detêm e não sabem (ou não querem!) usá-lo ao serviço dos seus semelhantes.

Honrou-me a capa pela activa cidadania que revela quanto à comunidade penichense onde me integro. Peniche, no que significa quanto ao habitual e receptivo bom acolhimento às iniciativas do Núcleo local da Amnistia Internacional, bem merece o amplo destaque que tanto a capa como o interior da revista Agir lhe concedem.

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Quem tem capa sempre escapa – diz o povo (que nem sempre tem razão!). Mas que esta capa se torne, simbolicamente, uma empenhada renovação da nossa colectiva promessa de permanentes vigilância e luta pela defesa dos Direitos Humanos de todos os que precisem de intervenção da Amnistia Internacional.

António Martinó de Azevedo Coutinho

Ideias Imaginadas – dezassete

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MARKETING EMOCIONAL

Para vendermos uma ideia temos de compreender o que importa para as pessoas e saber o que precisam.

Não podemos alterar a forma como as pessoas interagem ou pensam, nem as suas rotinas e hábitos. Mas podemos alterar os seus desejos e criar novas necessidades onde elas ainda não existem.

O Marketing de qualidade é Marketing emocional. O Marketing desperta sensações e reações. O Marketing vende estados de espírito e transfere sorrisos e arrepios.

A nossa audiência tem de sorrir para os nossos produtos ou serviços. Tem de se emocionar e relacionar. Tem de se apaixonar e divulgar. E nós temos de os entreter e cativar. Temos de os entender e ouvir. Temos de os convencer e agarrar.

O nosso alvo pode ainda não saber que existimos ou que precisa de nós. Muitas vezes temos de alterar os seus comportamentos e necessidades. Temos de criar o hábito Nespresso, o hábito Uber, o hábito iPad, o hábito Netflix, o hábito Facebook, etc. Temos de criar rotinas e desejos novos.

Quando olhamos para trás já não sabemos viver sem Uber e Facebook. O que é certo é que há 15 anos não existiam e vivíamos na mesma. As marcas que nos marcam não nos deixam imaginar um mundo sem a sua presença. Não sabemos explicar o porquê.

O que nos move é a felicidade. O que faz a diferença é o Marketing Emocional.

 Filipa de Azevedo Coutinho

Nos 75 anos do regresso de um herói – 04

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Para obra de tal  monta, de pouco se dispunha, além do muito que era a coragem dos homens. Deu-lhe Coutinho a valentia e toda a resistência da sua juventude, a decisão segura e a prudência do seu carácter forte, o bem senso e o saber, e, além do mais, a modéstia e a bondade que tanto o impuseram a amigos e inimigos.

Dele disse Serpa Pinto em relatório enviado ao Ministro:

… sendo rigorosíssimo no castigo e fazendo-se amar de tal modo dos pretos que qualquer arrisca a sua vida por ele. Eu atrevo-me a chamar a atenção de V. Ex.ª para este heróico oficial, que tem apenas vinte e quatro anos de idade.

E, sobre a tomada de Chilomo, informou nestes termos:

Serviu debaixo das minhas ordens o tenente da armada real João de Azevedo Coutinho; se todos os oficiais que tive a honra de comandar foram dignos de elogio, nenhum se igualou ao tenente Coutinho em bravura e coragem. À frente da tripulação do vapor Cherim tomou a povoação fortificada de Chilomo, que era defendida por quatro mil macololos, pondo-os em debandada completa. A ele confiei o comando de uma coluna que submeteu o país até às cataratas, missão que desempenhou com a sua habitual coragem  e ainda com prudência superior a todo o elogio, porque conseguiu pacificar o país, convertendo os vencidos em amigos.

Só inteiro desinteresse de si próprio e inexcedível devoção ao serviço da Pátria podiam permitir levar a cabo quanto Coutinho fez em Moçambique. Nele concorreram, no mais alto grau, os grandes predicados dos que primeiro entraram no sertão africano e o desbravaram, cujo entusiasmo não era de ceder às privações e a quem o saber das coisas e dos mistérios de África dava força e prestígio para lutar e vencer.

Desse saber se armou em todas as campanhas; não menos que a bravura lhe serviu uma visão equilibrada e clara.

Sobre o ataque a Mafunda, em que, mal ferido já, seguia combatendo, escreveu Aires de Ornelas:

… experimenta-se um profundo sentimento de respeito por tamanha energia. Não fica mal mesmo se a compararmos à de D. Lourenço de Almeida, sentado no chapitéu da nau, com as pernas partidas e comandando tranquilamente o combate naval contra os rumes.

Mas o militar esforçado e valoroso das guerras da Zambézia não só em Moçambique vincou a sua acção. A pouca permanência por Angola não impediu que firmasse domínio entre povos do Zaire. Nem na vida do mar faltou a evidência, em provas repetidas do seu ser animoso e pleno de recursos.

E não se vá esquecer, por ver o militar, como continuou em seus governos a obra que pelas armas encetara. Fala Mouzinho do seu forte prestígio quando por duas vezes governou a Zambézia. Governador Geral e mais tarde Ministro, juntou por seu saber sucessos novos aos muitos conquistados, dos combates do Chire à campanha do Barué.

Não há que provar a justiça do projecto. Atestam-na os chefes junto de quem serviu Azevedo Coutinho e o apreço do Rei, do Povo e do Governo por quem com tal denodo soube servir a Pátria.

Informa este parecer a folha dos serviços que prestou. Não há comentário a acrescentar. O ilustre Ministro da Marinha, com sua autoridade, assim julgou também quando escreveu a carta que vem junta ao projecto.

Com promulgar a lei se enaltece a Nação. E com distinguir o heróico marinheiro se dignifica a Armada, por ser ele um dos seus, e porque se escolheu, para distinção, restituir-lhe a farda da Marinha.

Também, como o Ministro, a Câmara Corporativa, dando parecer favorável ao projecto, o faz com caloroso aplauso.

Palácio de S. Bento e Sala das Sessões da Secção de Defesa Nacional, 10 de Fevereiro de 1942.

Eduardo Augusto Marques (general)
João Baptista de Almeida Arez (general)
José de Almada (D.)
José Filipe de Barros Rodrigues (coronel)
Vasco Lopes Alves(capitão de mar e guerra) relator.”

A carta do ministro da Marinha, Ortins de Bettencourt, citada no parecer, é do seguinte teor:

Ex.mo Sr. Dr. Vasco Borges, ilustre deputado:

– Estou certo de que a Armada Portuguesa, orgulhosa de ter contribuído para a formação e consolidação do Império, verá com satisfação reaparecer na lista dos seus oficiais o nome glorioso de João de Azevedo Coutinho que, mercê de altos feitos praticados em terras de África foi então proclamado Benemérito da Pátria.

Restituir a farda a quem tão bem soube honrá-la, além de acto de justiça, é homenagem que não atinge somente o homem mas ainda a própria Armada em que serviu e que agora é meio através do qual a Nação procura distingui-lo.

Por mim, se em vez de ser Ministro ocupasse neste momento a minha cadeira de deputado, daria à proposta de V. Ex.ª não apenas o meu voto mas caloroso aplauso.

De V., etc.                                          20-1-942               

a) Ortins de Bettencourt

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O nosso “desasocego”…

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Fernando Pessoa escreveu desassocego, desasossego e desasocego, optando, nos últimos anos de escrita, por esta forma desasocego.

Portanto o jornalista cita, de modo duplamente impróprio, o título em questão do qual aqui se junta uma imagem. A Imprensa Nacional não errou.06-desassocego

Já quanto ao essencial do seu artigo, sou obrigado a concordar com o autor. Com efeito, a geração que aí vem não terá qualquer efectivo apelo às consoantes mudas. Provavelmente nem sequer às consoantes orais, mas apenas ao som onomatopaico de alguns grunhidos. Mas nem isso -a acontecer- será culpa, apenas, do miserando acordo ortográfico. Será uma responsabilidade de todos nós se não formos capazes de entender e aceitar o citado Fernando Pessoa, quando este afirmou “minha pátria é a língua portuguesa“.

O contexto da sua frase original é o seguinte:

Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha“.

Isto foi escrito precisamente no Livro do Desassossego (Bernardo Soares).

Saberemos, todos nós, estar à altura da situação, na era pós-acordo que se avizinha?

António Martinó de Azevedo Coutinho