Cartas pela Humanidade – Lisboa – Intendente

A Maratona de Cartas da Amnistia Internacional já está a circular! E tu, já assinaste? Se não, esta festa é para ti!
 De tarde ou de noite, vai haver de tudo para todos.
 Vem passar a tua tarde de sábado connosco, onde teremos várias actividades para todas as idades, artistas ao vivo, e a oportunidade de conheceres e fazeres parte deste movimento global!
 Para os mais nocturnos, teremos poesia e muita música durante a noite para festejar os direitos humanos!

 15h00-19h30:
– Espaço para crianças – pinturas faciais, balões e outras surpresas;
– Espaço Maratona de Cartas;
– Espaço Amnistia Internacional;
 – Restart Your Speech;
 – Direitos Trans;
– Espaço artístico;
 21h30 – 23h30:
 Espaço Poesia – PORTUGAL SLAM
 A partir das 23h30 – DJ Black Gordon: soul, funk, hip hop

1917 – Há cem anos – cinquenta e quatro

Neste Dezembro de 1917, com o começo do Inverno, os nossos soldados vão-se apercebendo de que não chegam reforços, que não se dá a prometida substituição de unidades, que as licenças em Portugal ficam sem efeito e, o que é ainda pior, que umas dezenas de oficiais com amigos conseguem regressar a Portugal e não voltam para as trincheiras. Assim rezam as crónicas hoje escritas sobre esses duros tempos na frente francesa. A óbvia desmoralização e uma certa revolta começam a gerar-se.

O capitão José Cândido Martinó vai percebendo a situação e o sonho de passar o Natal em família desvaneceu-se. Agora, toda a sua esperança fica adiada para o Janeiro seguinte…

14 de Dezembro – Portalegre: “Continua fazendo muito frio“.

22 de Dezembro – “França. As frieiras têm-me apoquentado alguma coisa. A dificuldade a vencer relativamente à licença ainda subsiste, mas ainda não perdi a esperança. Só com um passaporte civil aí poderei ir, mas isso tem grandes inconvenientes”.

23 de Dezembro – “França. Espero poder partir para aí nos primeiros dias de Janeiro. Logo que este recebas suspende a tua correspondência para cá, pois só por motivo de força maior deixarei de ir a Portugal“.

24 de Dezembro – “França. Fui hoje dar um grande passeio, pois com facilidade consigo meio de transporte e económico. Tenho esperança de poder estar em Portalegre de hoje a 15 dias. A temperatura continua a 2 graus negativos mas dentro do meu quarto, porque na rua é de respeito. Fui convidado para um grande jantar amanhã”.

25 de Dezembro – “França. Na madrugada de hoje apareceu alguma coisa dentro dos teus sapatinhos? A única forma de aquecer é fazer uso duma grande botija cheia de água a ferver. As damas brasileiras também nos enviaram as B. F.. De Portugal, nada, nem mesmo a tal cruzada! B. F. e B. A.”.

Este dia de Natal é “assinalado” pelas baterias portuguesas com um intenso bombardeamento às posições inimigas. Os alemães retribuirão as bélicas “Boas Festas”, respondendo com o seu fogo cerrado na passagem do ano!

26 de Dezembro – “França. O jantar de ontem, para que tinha sido convidado, decorreu muito animado; junto envio o “menu”. Ontem e hoje tem caído muitíssima neve. Estou muito esperançado em partir para aí no dia 1 ou 2 de Janeiro. O sítio onde estamos é muito plano de forma que a neve não deixa distinguir as estradas dos campos”.

O menu deste Natal, 25 de Dezembro de 1917, vivido no Quartel General da 1.ª Brigada de Infantaria é magnífico: Canja, Galinha corada com ervilhas, Ostras recheadas, Vitela assada com couves, Frutas Secas, Doce e Vinhos.

No dia 27 de Dezembro de 1917, a República Nova de Sidónio Pais decretou alterações à Constituição Portuguesa de 1911, introduzindo um regime presidencialista, no qual o Presidente do Ministério assumia as funções presidenciais enquanto não fosse eleito pelo futuro Congresso o legítimo Presidente da República.

Hélder Pacheco – Crónicas de Vida

Transcrevo parcialmente a seguir, de um artigo aqui publicado em 14 de Outubro de 2016 (Viseu 1973-1974 – um), os parágrafos que resumem o meu encontro e conhecimento com o professor Hélder Pacheco. Hoje, quase quatro décadas e meia depois, recordo ainda com incontornável emoção o cúmplice comportamento de um homem a quem devo boa parte da minha sobrevivência profissional.

Aos mais novos, os que sempre viveram na Democracia possível aqui instituída após Abril de 1974, será provavelmente difícil o entendimento das posições autoritárias e discriminatórias em curso no Portugal do Estado Novo. O doentio corporativismo praticado pela hierarquia escolar que encontrei em Viseu apenas foi quebrado pela visão progressista de um homem superior, coerente, avançado para o seu tempo e, sobretudo, para o clima vivido no seio do ensino de então.

Durante os seis meses anteriores a Abril de 1974 foi Hélder Pacheco, inspector e metodólogo, quem me defendeu das prepotências então reinantes na Escola Oliveira Salazar, permitindo as condições mínimas para a minha afirmação pessoal e profissional. A Revolução e as drásticas mudanças provocadas limitaram-se por isso a testemunhar o meu triunfo final, então já conquistado.

Fica assim sumariado o início de uma relação de amizade que nos levaria, e a outros, a aventuras pedagógicas, sociais e culturais antes impensáveis em domínios educativos. Como o ICAV, Iniciação à Comunicação AudioVisual, projecto inovador que se traduziu  numa saudável e prolongada relação com a Academia de Bordéus, sob a liderança de René la Borderie. Também já aqui deixei o testemunho do que foi esse contributo decisivo na formação de muitos professores e alunos.

A obra de Hélder Pacheco em muito ultrapassa tudo o que a Educação em Portugal lhe ficou devendo, pois o seu inquieto espírito de investigador e publicista têm-nos brindado com uma quantidade (e qualidade!) já impressionante de obras sobre o nosso património cultural, onde o Humanismo se mantém como tónica permanente de coerência pessoal. Por isso, registei com imenso agrado o destaque, mais um!, com que a nossa imprensa diária de qualidade há dias o lembrou.

Vale bem a pena ler a longa e significativa entrevista que o Público divulgou no passado dia 10. Por isso, com a devida vénia ao jornal, aqui fica a sua reprodução, antecedida da transcrição atrás aludida e de gratas imagens do arquivo pessoal, colhidas em Novembro de 1977 em Bordéus, na companhia, entre outras, de mais um comum amigo de excepção, infelizmente já desaparecido, o arquitecto e professor José Antunes da Silva.

António Martinó de Azevedo Coutinho

Em 1970 decidi aceitar o convite, algo arriscado, de abandonar o meu seguro lugar no Ensino Primário pela aliciante aventura de ingressar no novel Ensino Preparatório. Dispunha das condições “técnicas” para tanto exigidas, atraía-me o facto de reencontrar e aprofundar a paixão pessoal e a vocação de sempre, as artes plásticas, assim como a possibilidade de refazer uma carreira profissional mais aliciante.

Depois, o programa da disciplina de Desenho, logo a seguir denominada e bem de Educação Visual, continha desafios incontornáveis como por exemplo a prática de iniciações à linguagem do Cinema e da Banda Desenhada.

Não me arrependi da drástica decisão tomada, que concedeu um total e acertado sentido à minha vida profissional. Mas, como consequência da mudança, impunha-se a (re)conquista da segurança na nova carreira, onde se colocava a necessidade de frequência de um estágio e a sujeição a um Exame de Estado.

Assim, após a obtenção das condições exigidas, concorri a tais provas públicas. Para o ano lectivo de 1973-74, fui colocado para o efeito em Viseu, depois do tempo cumprido na Escola Preparatória de Cristóvão Falcão, em Portalegre.

Cheguei à cidade de Viriato embrenhado nos meus melhores sonhos, carregado das melhores expectativas, para aprender e para provar o mérito pessoal, conquistando com isso a garantia de uma definitiva estabilidade profissional.

O que aconteceu, logo à partida, foi um pesadelo.

Todos aqueles de quem iria depender, a orientadora do estágio, o inspector da zona e o próprio director da escola, foram unânimes na sua mensagem de “boas-vindas”: eu era um simples intruso, alguém desprovido do grau de “doutor” em Belas Artes como eles, um incauto e inculto professor primário que se atrevia a tentar abrir uma brecha na sua fortaleza de inexpugnável qualidade. Portanto, além e acima da lei, absurda, que permitira tal desplante, ali estariam eles, vigilantes, para a corrigir. Estava pois explicitamente traçada a minha sentença, mesmo antes de me ser permitida qualquer defesa.

Quando muitos anos mais tarde, tive em Portalegre ocasião de longamente discutir este episódio com o saudoso Professor Veiga Simão, ao tempo ministro e autor da reforma educativa que permitira a “revolução” chamada Ensino Preparatório, ele sorriu e disse-me que tivera conhecimento de muitos casos semelhantes ao meu. E garantiu-me que nunca se arrependera das inovadoras decisões legislativas  assumidas a tal propósito, porque entre os melhores profissionais com que então contou estavam precisamente os professores oriundos do Ensino Primário.

Mas em Viseu foram necessários o ânimo e o apoio com que a minha mulher nunca me faltou, o encorajamento dos amigos e a íntima convicção de ser preciso lutar contra tudo e contra todos para sobreviver e, se possível, me impor.

Impunha-se, pois, que não desistisse de acreditar em mim.

Encontrei um solitário mas poderoso aliado no professor metodólogo dos estágios do Norte que com regular frequência visitava a Escola Preparatória de Oliveira Salazar, assim se denominava -quase premonitoriamente- o estabelecimento de Viseu onde fui (mal) acolhido. O professor Hélder Pacheco, do Porto, constituiu o único mas bastante suporte local da minha resistência. Devo-lhe daí uma cumplicidade que se transformaria na sólida amizade de hoje e para sempre.