Vasco Pulido Valente (1941-2020)

Vasco Pulido Valente morreu esta sexta-feira num hospital em Lisboa. A notícia, avançada pelo Público, foi confirmada pelo Observador. O escritor e cronista tinha 78 anos.

Pulido Valente foi cronista do Observador de Outubro de 2016 a Junho de 2017. Colaborou, ao longo de mais de cinco décadas, com muitos outros jornais portugueses, como o Público, Expresso, Diário de Notícias e o já desaparecido O Independente. Escreveu vários livros dedicados à história e política.

Escritor e cronista, Vasco Pulido Valente nasceu Vasco Valente Correia Guedes, em Lisboa, a 21 de Novembro de 1941, no seio de uma família de comunistas ligados à oposição ao salazarismo.

Por não gostar do seu nome, optou por outro, quando tinha cerca de 17 anos. Licenciou-se em Filosofia pela Faculdade de Letras de Lisboa, onde se envolveu nas lutas académicas contra a ditadura e integrou o Movimento de Acção Revolucionária (MAR), liderado por Jorge Sampaio.

No final da década de 60, uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian permitiu-lhe estudar em Inglaterra, onde se doutorou em História, pela Universidade de Oxford. Da sua carreira académica, destaca-se também o cargo de investigador-coordenador que ocupou no Instituto de Ciências Sociais.

OBSERVADOR

 DIÁRIOS (JÁ NÃO) HÁ MUITOS

Admirava o estilo e o desassombro de Vasco Pulido Valente. Por isso, aqui coloquei, partilhando-as com os leitores, as suas notas semanais do Público, o seu Diário. Foram precisamente 50. Acabaram e lamento a causa.

Perdemos uma figura de âmbito nacional. Curvo-me perante a sua memória.

 

Saudades do Brasil em Portugal – 10

A evocação de hoje é dupla, recordando sessões públicas concretizadas no excelente auditório do Centro Administrativo de Portalegre RN, na tarde do dia 5 de Dezembro de 2019 e na manhã do dia seguinte.

Na primeira, coube ao Manuel a mais significativa componente, com a apresentação e descrição do que é a Amnistia Internacional Portugal, entidade da qual é o mais jovem dirigente nacional de sempre.

Em diálogo com os presentes, onde avultavam jovens alunos de escolas locais, o Manuel traçou um retrato da instituição internacional, onde recordou a sua criação na Inglaterra, no ano de 1961, através da militância pela causa da liberdade por parte de um advogado britânico, Peter Benenson. O pretexto fora encontrado em Portugal, no absurdo caso da detenção de dois estudantes que publicamente tinham brindado à liberdade.

A crónica histórica dos Direitos Humanos e os seus objectivos foram detalhados em animado diálogo com os presentes, que manifestaram o maior interesse. Deve recordar-se que a implantação da Amnistia Internacional (Anistia, segundo a ortografia nacional) no Brasil é quase residual, bastando dizer que a sua sede nacional foi inaugurada, apenas, em 2012…

Ficou no ar a eventual, embora difícil, criação de um núcleo local.

O Manuel, simbolicamente, fez sortear entre os jovens uma t-shirt da Amnistia Internacional.

Pela minha parte, a participação no encontro, entre outros temas, assumiu sobretudo a recordação, apoiada por imagens projectadas, de duas sessões organizadas na Portalegre portuguesa, com ligação pela Internet à Portalegre brasileira.

Estes eventos, sob a designação de Festas Escolares Portugal-Brasil, tiveram lugar em 29 de Maio de 2009, na Escola José Régio, e em 2 de Dezembro de 2010, na Escola Cristóvão Falcão.

Curiosamente, passados alguns anos sobre ambas as realizações que tiveram transmissões algo afectadas pelas condições da fraca Internet das respectivas épocas, foi possível reconhecer rostos e identificações de muitos dos seus participantes portalegrenses brasileiros. Aconteceu, portanto, mais um momento de rara emoção, onde as nossas terras ficaram mais próximas.

Nessa oportunidade, tanto eu como o Manuel fomos brindados pelos professores presentes com uma oferta de grande significado: o volume criado pelos alunos das escolas municipais locais intitulado Histórias e Lendas de Portalegre. Este livro, uma obra colectiva, foi editado em 2018 como resultado do Projecto Nas Ondas da Leitura, uma iniciativa da Editora IMEPH.

Entre outros responsáveis locais pelo excelente trabalho, que posteriormente detalharei pelo valor e pelo exemplo inerentes, estão o Prefeito Manoel Neto e o então Secretário da Educação, Afrânio de Lucena.

(Como notas sobre o livro Histórias e Lendas de Portalegre, acrescento o facto de ter noticiado no blog Largo dos Correios, em Março de 2018, o lançamento público do Projecto que lhe deu origem, assim como a circunstância, curiosa pela coincidência, de ter criado neste mesmo blog, em 2013, uma secção não regular intitulada Lendas e Histórias de Portalegre e seu Termo…)

Na manhã do dia seguinte, nova sessão ali aconteceu com bem diverso conteúdo. Desta feita, foram privilegiadas as relações entre as duas Portalegre´s.

Através de um filme, da autoria de Francisco Sardinha, foi recordada a primeira ida a Portalegre RN, em Outubro de 2004. O pretexto deu lugar a novas, gratas, e também saudosas evocações.

Um breve historial das relações entre ambas as cidades antecedeu a apresentação, sumária, do historial e locais de vida –em Portugal e no Brasil- do fundador de Portalegre RN, o juiz de fora Miguel Carlos Caldeira de Pina Castelo Branco.

Um apelo à intensificação de um melhor conhecimento do tema, aliciante para ambas as partes, ficou registado para um próximo futuro. Com efeito, em Portalegre RN, também no Rio Grande do Norte, na Paraíba, em Pernambuco, Recife, Olinda ou Salvador da Bahia, assim como em arquivos históricos brasileiros, haverá seguramente documentos e outros materiais que poderão complementar o conhecimento hoje já dominado, com lacunas, acerca da personalidade e das realizações de Miguel Carlos.

Devo destacar que, antecipando a intenção da visita já prevista, o antigo Prefeito Euclides Pereira de Souza honrou-nos com a sua presença no evento. Um abraço de renovada e grata amizade selou o encontro.

Um momento alto da sessão foi protagonizado por um grupo de alunos da Escola Municipal Filomena Sampaio de Souza, que declamaram um poema, em colectivo e sentido jogral, sobre a sua amada Portalegre.

O auditório do Centro Administrativo de Portalegre RN foi, portanto, um dos cenários mais significativos para o reforço da nossa recíproca amizade.

Dia Internacional da Língua Materna

O Dia Internacional da Língua Materna é comemorado em 21 de Fevereiro e foi proclamado pela UNESCO em 17 de Novembro de 1999.

Em 21 de Fevereiro de 1952, correspondendo a 8 Falgun de 1359 num calendário tradicional, estudantes que faziam campanha para a recuperação do Bangla como uma das línguas do estado do Paquistão foram mortos quando polícias abriram fogo sobre eles.

A actual comemoração deriva desse massacre, absolutamente condenável.

Presentemente, a língua materna portuguesa encontra-se nos cuidados paliativos, vítima do massacre provocado pelo chamado Acordo Ortográfico.

Agora, com a eutanásia, pode mesmo recear-se a sua morte…

Fernando Pessoa, se ainda vivesse, teria de emendar o seu inspirado aforismo.