Nos 75 anos do regresso de um herói – 16 (fim)

Concluí a longa série de artigos dedicados ao grato e dilatado período da justíssima reabilitação cívica de João de Azevedo Coutinho. Aproveitei para isso uma efeméride, a dos 75 anos decorridos sobre esse conjunto de acontecimentos.

Naturalmente, como sempre tenho feito desde 2002, procuro que evocações deste tipo tenham uma diversa e mais ampla ressonância, muito para além das minhas limitadas e modestas possibilidades. E isso, na generalidade, tem acontecido. O último exemplo ficou patente nas dignas comemorações dos 150 anos do nascimento do herói, em 3 de Fevereiro de 2015, na Sociedade de Geografia de Lisboa, a que se associou a Armada Portuguesa.

Ao pedido de audiência devidamente motivado, subscrito por quatro familiares de João de Azevedo Coutinho e dirigido ao Ex.mo Senhor Chefe do Estado-Maior da Armada em 16 de Janeiro deste ano, correspondeu o mais absoluto silêncio. Enquadrando o facto em diversas outras similares diligências, é a primeira vez que esta ostensiva indiferença se verifica. Pela minha parte foi também a última, calando, para já, a interpretação pessoal que faço do comportamento da suprema autoridade da Armada.

Lamento ainda a indiferença que, com raras e honrosas excepções, sinto da parte dos parentes, familiares com quem partilho a herança do prestigiado nome de João de Azevedo Coutinho. Algumas sugestões com que tenho procurado empenhar a sua indispensável cumplicidade esbarram sistematicamente no mais vulgar alheamento.

Para já, neste particular, perderam-se agora sem remédio algumas oportunidades da parte da Marinha, da Sociedade de Geografia, do Turf Club de Lisboa e da Câmara Municipal do Porto. Relendo os recortes de imprensa patentes nos dossiers dos Fundos Pessoais de João de Azevedo Coutinho à guarda da Torre do Tombo agora reproduzidos, assim como a documentação que recolhi -e partilhei- de outras fontes, facilmente se compreenderá o que afirmo.

Daqui a vinte e cinco anos cumprir-se-á um preciso centenário sobre o acontecido. Ainda haverá entre nós memória e sensibilidade? Não especularei sobre tempos que já não serão meus.

Naquilo a que a consciência pessoal me impele continuarei, mesmo isolado e solitário. A próxima etapa está marcada no calendário dos afectos e acontecerá a 6 de Agosto de 2017, daqui a uns dois meses e meio. Nessa data passarão 125 anos sobre o casamento, em Portalegre, de João de Azevedo Coutinho com Maria Inês Barahona de Castelo Branco.

Portalegre tem para com a memória de João de Azevedo Coutinho uma prolongada e injustíssima dívida, traduzida na falta de reposição do seu nome na toponímia local. No material agora reproduzido encontram-se, aliás, sucessivas vozes de protesto contra esse facto.

Já tentei, em 2002, que tão flagrante injustiça comunitária fosse reparada, tendo então esbarrado numa inqualificável quebra de carácter que inviabilizou a pretensão. Já aqui em tempos expliquei, longa e documentalmente, tal incidente. Não o repito, por doloroso…

Portalegre disporá, um dia, de uma vontade colectiva informada, inteligente e corajosa que saldará a sua dívida de honra para com João de Azevedo Coutinho.

Por mim, jamais desistirei de sustentar esta pretensão.

António Martinó de Azevedo Coutinho

Obrigado, senhor presidente!

O meu conterrâneo e amigo João Miguel Tavares, um brilhante jornalista, assina uma crónica regular no jornal Público. Chama-lhe O respeitinho não é bonito e deve ser por isso que, mantendo intacta a estima, raramente concordo com o que ele escreve. Talvez seja porque sou do tempo em que o respeitinho era bonito. Que remédio tínhamos! Era enorme a lista das obrigatórias respeitabilidades, ainda que a diversos níveis. Sem uma rigorosa hierarquia, posso por exemplo recordar como modelos ou alvos de colectivo respeito os pais (mais o pai-chefe-de-família do que a mãe-empregada-doméstica!) e os professores mais as mestras, os velhotes, polícias, guardas republicanos e outras autoridades fardadas, todos os presidentes (sobretudo o do Conselho!), governadores, superiores, capatazes, directores, chefes e patrões, os sacerdotes e as catequistas, os santinhos, Nossa Senhora de Fátima, Deus Nosso Senhor, os fiscais dos isqueiros e os agentes da PIDE. Não sei se esqueci alguém, que me seja perdoada qualquer involuntária omissão…

Isto vem a propósito de uma crónica recente em que aquele jornalista sugeriu publicamente ao primeiro-ministro António Costa que tomasse conta dos seus quatro filhos, sem escola por causa da recente e governamental tolerância do ponto. E António Costa, que leu o provocatório texto, fez-lhe mesmo a vontade, acolhendo-lhe provisoriamente os filhos.

Ora como eu não sei a qual presidente agradecer, tenho a esperança de que Marcelo Rebelo de Sousa leia este texto e lhe dê condigna resposta.

A minha gratidão até será um pouco presunçosa porque parte do princípio de que teve algum efeito o artigo aqui colocado no Largo dos Correios há semanas acerca do mau estado de limpeza e de conservação da Fonte do Rosário, belo e ignoto monumento penichense. É que, anteontem, foi substituída a tábua partida que a entrada há muito ostentava e foi limpo o interior do recinto, pelo menos no piso térreo porque as paredes não foram suficientemente intervencionadas. Dava muito trabalho…

E a verdade, porque o respeitinho é bonito (caro João Miguel, desculpe lá o mau jeito!), é que quero aqui agradecer ao presidente, mesmo que ele não tenha ligado nada ao que escrevi e isto seja tudo uma mera coincidência. Como não sei se devo agradecer ao da Câmara, ao da Junta ou aos dois, vai assim em abstracto e a quem lhe servir que enfie a laureada carapuça.

E até nem é bem aqui que eu quero chegar.

É que falta cumprir o mais difícil, que é precisamente abrir regularmente o monumento ao público, turistas de dentro e de fora de Peniche.

Preciso de explicar em que reside a minha esperança, dado o exemplo atrás citado, que inaugurou um precedente? Suponhamos, desejavelmente, que o presidente Marcelo lê esta crónica, pois reside nele a única esperança de que a Fonte do Rosário, um dia, seja acessível ao povo. Dos presidentes de cá, ainda por cima em tempos de despedida e balanço, pouco há a esperar.

Está agora tudo bem explicado?

Entretanto, obrigadinho, senhor presidente, pela parcial limpeza que fica provada nas imagens anexas.

 António, de Peniche