largo dos correios

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Tenho a sorte, cada vez mais rara, de uma família inexcedível em carinho e de amigos pródigos em manifestação da mais autêntica e reconfortante solidariedade. Se à família me dispenso de agradecer, já aos amigos devo aqui confirmar o profundo sentimento de gratidão a todos devido. É-me impossível dirigir a cada um, em particular, o testemunho pessoal de quanto tem sido para mim significativo senti-lo ao meu lado. Por isso, aqui fica o registo do íntimo reconhecimento aos que, presentes, me falaram de viva voz, me telefonaram e enviaram mensagens pelo telemóvel ou pelas diversas modalidades informáticas a isso vocacionadas.
Conheço, infelizmente, a receita pessoal que permite resistir (ou sobreviver!?) à inenarrável adversidade de perder alguém que se ama. Aplico-a em permanência desde há muito e isso explica o que a alguns pode surpreender. Quando exijo de mim, em projectos ou em sonhos, uma aplicação quase sem limites e a ocupação motivada do tempo útil e da energia disponível, praticamente na totalidade, deixo muito pouco espaço ou energia sobrantes para a memória que desgasta e para a lembrança que dói até ao indizível. Sinto, porém, que a receita experimentada não está agora a funcionar. Iludi-me, ou fingi-o, durante alguns dias, numa falsa e fácil aparência…
O blog Largo dos Correios nasceu nos domínios dessa estratégia pessoal. A sua mais recente continuidade cumpriu os prévios desígnios traçados, até quando por amor deixámos o querido torrão natal e emigrámos para estas terras, belas, dominadas pelo mar, como uma espécie de prolongamento pessoal, sobretudo, da minha circunstância e das suas incidências. Mas, antes de comunicar através dele com os outros, preciso agora de comunicar comigo próprio, de tentar arrumar em mim mesmo a tremenda confusão de sentimentos que me domina, de ensaiar o preenchimento dos vazios que me assustam, de aceitar, afinal, o irremediável, brutalmente definitivo. Ninguém, nisto, me pode valer.
Devo por isso interromper o passeio quotidiano pelo Largo dos Correios. Tenho de parar, ainda que tal pareça contraditório. Um dia voltarei aqui ao vosso convívio – eis a promessa que quero cumprir, o mais cedo possível.
Obrigado a todos, os que quiserem ou puderem esperar.

António Martinó de Azevedo Coutinho

CAPA DE REVISTA

Sou capa de revista. Convém deixar o aviso prévio de que não se trata da Caras, da Lux, da Nova Gente, da Vip ou da Maria. Nem sequer da TV 7 Dias, da Máxima ou da Cristina. A revista que me deu a honra de capa é muito mais ignota e modesta. Mas posso assegurar que a revista Agir vale infinitamente mais do que as outras, todas juntas.

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Já agora, convém deixar outros esclarecimentos complementares, como o de que não protagonizei qualquer proeza ou escândalo públicos, que não mendiguei o favor e que nem sequer paguei um cêntimo pela publicação.

Honra tenho e imensa e também é conveniente explicá-la devidamente.

Honrou-me a capa pela companhia, que será interessante destacar, sobretudo lembrando-a a muita gente que ainda acredita, por estúpida ignorância ou deliberada má fé, que os jovens do seu tempo é que detinham a exclusividade da coragem, da solidariedade e da empenhada defesa de causas positivas. A geração jovem actual conta com alguns estafermos, como em todos os tempos e lugares, mas integra no seu seio uma imensa maioria de adolescentes dominados pelos mais nobres ideais.

Honrou-me a capa por certificar a minha integração na Amnistia Internacional, instituição que se bate pela intransigente defesa dos Direitos Humanos, num impressionante colectivo que mobiliza vontades e desenvolve oportunas e organizadas acções em favor dos mais desprotegidos, em luta intransigente contra todas as formas de tirania, de corrupção, de violência e de abuso do poder por parte daqueles que o detêm e não sabem (ou não querem!) usá-lo ao serviço dos seus semelhantes.

Honrou-me a capa pela activa cidadania que revela quanto à comunidade penichense onde me integro. Peniche, no que significa quanto ao habitual e receptivo bom acolhimento às iniciativas do Núcleo local da Amnistia Internacional, bem merece o amplo destaque que tanto a capa como o interior da revista Agir lhe concedem.

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Quem tem capa sempre escapa – diz o povo (que nem sempre tem razão!). Mas que esta capa se torne, simbolicamente, uma empenhada renovação da nossa colectiva promessa de permanentes vigilância e luta pela defesa dos Direitos Humanos de todos os que precisem de intervenção da Amnistia Internacional.

António Martinó de Azevedo Coutinho