um modelo perfeito do politicamente correcto

Aconteceu repentinamente uma fobia que atacou, com gravidade, o cérebro de muita gente. O vírus é silencioso mas os seus efeitos bradam aos céus.

Alguns sintomas são comuns, uma vez que os atingidos começam a protestar a propósito ou despropósito -tanto faz!- acerca de tudo o que lhes cheire a coisa histórica. Sobretudo, manifestam-se contra nomes e categorias, aplicando doses maciças de moralismo, numa doentia preocupação de sanidade.

Mal comparada, esta epidemia lembra-me o caso -isolado- daquele advogado belga que há uns anos tentou, sem qualquer sucesso, crismar Hergé de colonialista, desenterrando os fantasmas de Leopoldo, que vislumbrou escondido entre as páginas de Tintin no Congo. Porém, então, os exorcismos não funcionaram…

Entre nós, furiosos e moderados têm-se atirado como gato a bofe a um putativo museu alfacinha, cujos eventuais responsáveis já não devem saber com rigor o que podem abordar e como lhe chamar. As cretinices e as chamadas à razão atropelam-se sem cessar umas às outras, esgrimindo argumentos, baralhando razões e paralisando espíritos.

Depois, desta carnavalesca epidemia sobram sempre uns resíduos. Como na legionela.

Um destes encalhou há semanas nas páginas da revista Sábado, onde um empolgado e politicamente correcto historiador decidiu chamar os autarcas à razão, como se eles não tivessem assuntos verdadeiramente importantes a afligi-los. Acha aquele senhor que a toponímia colonial das nossas aldeias, vilas e cidades deve ser exterminada. Os nomes -devidamente contabilizados- dos assassinos e bárbaros colonialistas, todos metidos no mesmo saco, têm de ser banidos das placas toponímicas. Na sua fúria iconoclasta o senhor varre tudo…

Fascismo nunca mais!!!

Esta higiénica moda demolidora vai fazer mais vítimas. Na próxima leva estão previstos Afonso Henriques que, como se sabe, bateu na mãezinha dele, Humberto Delgado que declarou admirar Hitler, Dom Sebastião, compulsivo mentiroso que nunca cumpriu a promessa de regressar numa manhã de nevoeiro e o Marquês de Pombal, cuja estátua na rotunda deve ser demolida porque perseguiu os jesuítas e não só. Os maus não devem ser louvados, antes merecem ser remetidos para o silêncio de uma envergonhada memória fúnebre.

Alinhando nesta lógica, recomenda-se uma urgente revisão da História pátria e uma sanitária lavagem ao cérebro de todos os que ainda acham ter sido Nun’Álvares um valente patriota, Martim Moniz um tipo que se deixou entalar de propósito ou António Vieira um notável orador sagrado. Impor-se-á ainda o regresso da Santa Inquisição, para que as suas eficazes fogueiras possam exterminar todos os laudatórios manuais em uso nas escolas do país.

Aliás, talvez incursas na tal epidemia quase conspiratória em vigor, as programações curriculares -também na História- estão ameaçadas de um oficial apagão…

Enfim, das duas uma: ou isto pára depressa ou vai tudo para o manicómio mais próximo.