Dito e feito…

O seu a seu dono. Do mesmo modo, embora dominado por um diferente sentimento, sinto-me impelido a dar conta da satisfação que me causou a pronta reparação do “buraco” ontem mesmo aqui denunciado.

Nem sequer assumo a veleidade de admitir que terá sido tal denúncia a causa motivadora da reparação, pois ter-se-á tratado de uma mera coincidência. Apenas sobra uma inevitável pergunta: – Por que esteve o “buraco” ali patente durante tanto tempo, incluindo um fim-de-semana?

Já agora, e dando amplificação à justa reclamação de um amigo, continuarei a usar o blog nesta função cívica de colaboração pública com as autoridades autárquicas.

Entre outros “buracos” aqui se revela outro, este sito na Rua Amália Rodrigues, mesmo junto a um ecoponto diariamente frequentado pelos serviços públicos de recolha. No entanto, este “buraco” está ali há cerca de um mês, num passeio onde peões circulam e crianças brincam…

Para além dos riscos de queda, acresce aqui a instalação eléctrica, desprotegida, agravando consideravelmente a situação. A tábua que alguém mais preocupado ali colocou constitui uma precária medida de segurança.

Aqui está, portanto, mais um “buraco” que, há muito, já não devia estar aberto.

Ficará assim até quando?

1917 – há 100 anos – treze

1917 (Março) – Os anos da Guerra, em França. Bilhetes de José Cândido Martinó para a filha Benvinda e respostas desta:

1 de Março – “França. Ontem fui às compras com o nosso impedido pois até ao dia 10 sou o director do rancho dos oficiais que estão juntamente comigo. Hás-de dizer à S.a D. Ema que o Sr. Alferes Pereira perdeu o pau e a lança da bandeira do Regimento” [Obviamente, as tropas continuam ainda na zona de concentração, em Aire-sur-la-Lys e proximidades].

2 de Março – “França. Fui ontem vacinar-me contra a varíola e febre tifóide. É obrigatória a vacinação“.

3 de Março – (com a fotografia de J. C. fardado) “França. Só ontem, já bastante tarde, é que me mandaram as fotografias. Eu mando-te hoje uma, que me parece não terem ficado más. O frio voltou outra vez“.

4 de Março – “França. O frio tornou a voltar, mas não tanto como no princípio. Hoje tenho tido muito que fazer, além das compras que tive de ir fazer para a nossa comida“.

6 de Março – “França. Ontem não pude escrever pois já retirámos do tal palácio. Ontem caiu um grande nevão: estava tudo coberto de neve. Diz ao Avozinho que me mande os jornais de Portalegre. Ontem recebi um e dois ou três Séculos“.

7 de Março -“França. Continuo passando bem, apesar de ligeiramente incomodado com a vacina. A terra onde agora estamos é muito feia. [O R.I. 22, com o R.I. 21 e o R.I. 34, deve ter-se deslocado de Aire, provavelmente para mais próximo do futuro Q. G. da 1.ª Divisão, a instalar em Thérouanne ?] O frio voltou. No quarto onde durmo, ponho um lençol impermeável sobre a cama e pela manhã aparece cheio de cacimba e poças de água. (…) O modelo de edifícios escolares é muito semelhante aos de Portugal. (…) Um frango custou 8 francos e a carne de porco fresca custa cada quilo 5 francos. Enfim, haja saúde porque dinheiro não falta. O Joaquim continua a ser meu impedido“.

8 de Março – “França. Recebi hoje dois postais com as datas de 27 e 28 do mês passado e dois Séculos. (…) No meu actual quarto, esplendidamente mobilado, entra a claridade por meio duma telha de vidro, que também serve para renovar o ar, pois é móvel“.

8 de Março – “França. Recebi ontem carta do Dr. Sampaio e um bilhete do Sr. Garção. Durante a noite de ontem caiu um grande nevão, que continua ainda à hora em que te estou escrevendo. No alojamento onde, com outros soldados, dorme o meu impedido, ao acordarem pela manhã têm de pentear o cabelo por estar empastado de gelo, e também despejar os bonets que ficam voltados para cima pois estão cheios de neve gelada“.

9 de Março – “França. Ontem fui novamente vacinado. (…) Agora estou muito mal instalado. A gente da casa é muito pobre. A mulher tem o marido na guerra. (…) Já por mais duma vez lhes tenho enviado alguma comida que sobra das nossas refeições. Se aí abrirem alguma subscrição a favor dos capelães que partirão para aqui diz ao Avozinho que quero que tu contribuas com 2.500 Reis. Na lista ou relação deverá figurar o teu nome todo. Da mesma forma deverás contribuir para qualquer subscrição a favor dos mobilizados ou suas famílias“.

10 de Março – “França. Ontem recebi alguns Séculos. Alguns dias atrás também recebi três Séculos e a Plebe para eu ler a despedida do Alferes Correia. (…) Parece-me que há esperança de voltar para o Chateau onde já estive. A correspondência expedida para mim é isenta de franquia. A nova direcção é: E. P. C. 8 – C. E. P.”.

4 de Março – Portalegre: “Continuo a pedir a N. Senhora a saúde do meu bom Papá. O Avozinho manda sempre os jornais e espera resposta às suas cartas“.

12 de Março – “França. Ontem fui, com a Banda, tomar parte numa festa que fizeram num dos nossos Batalhões à nossa Bandeira. A casa do ensaio fica muito próxima das duas escolas de maneira que nos intervalos das aulas a petizada dos dois sexos enche-me a casa do ensaio“.

13 de Março – “França. Vamos mudar outra vez de localidade, para melhor. (…) Fui reconduzido como director da messe. Como o meu actual quarto é tudo quanto há de mais detestável, passo o dia e parte da noite no Estaminet onde instalámos a nossa Mess, de maneira que a dona da casa onde vou dormir disse ao Joaquim – que já fala muito bem o francês -: o seu patrão é muito bom oficial mas mais chefe de família porque passa o tempo todo no Estaminet! Hoje temos revista, comparecendo todos com capacete de aço“.

DÉJÀ VU

Uma intervenção, considerada como acto artístico, destruiu ritualmente sete embarcações de pesca artesanal na sala oval do MAAT – Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia, em Lisboa.

Foi na passada quarta-feira, há precisamente uma semana. A iniciativa pertenceu ao artista plástico mexicano Héctor Zamora e contou com 30 trabalhadores negros, fardados com macacos cinzentos e alvos capacetes. A frenética actividade destruidora durou duas horas e foi aplaudida pelo público presente. Por qualquer motivo que me escapa, o trabalho foi baptizado de Ordem e Progresso.

Como “explicação”, terá confidenciado o autor da ideia que aquele trabalho é arte e que acha mais bonitas as ruínas do que os farrapos, embora os farrapos sejam bonitos. Uma outra opinião publicamente divulgada, acrescentou que aquilo foi como aplicar o óleo na tela, sendo preciso que as técnicas e os procedimentos estivessem adaptados à matriz conceptual do trabalho. Foi necessário pensar seriamente em tudo e ao detalhe. O cheiro a madeira e a petróleo assim como toda a perfomance foram as componentes sensoriais, onde houve um batimento, quase uma música…

Foi a terceira vez que Héctor Zamora levou a cabo uma obra similar. A primeira vez foi em Lima, no Peru, em 2012. Então usou apenas um barco, destruído no centro da cidade por 8 trabalhadores, durante 12 dias.

Em 2016, repetiu a iniciativa no Palais de Tokio, em Paris, usando então vários barcos.

Comecei a perceber quase tudo quando meditei mais seriamente nas suas motivações de natureza política, social e cultural. Ao que parece, para além de toda a discutível parafernália “artística”, há  qualquer coisa bem mais séria. Em Lima, tratou-se de um protesto contra o abate de barcos de pesca artesanal depois do governo peruano assinar um acordo de pesca industrial com os EUA e o Japão. Em Paris, onde a equipa foi toda negra, pretendeu-se evocar os recentes e dramáticos desastres migratórios.

Agora, em Portugal, foi muito difícil reunir barcos para abater. É que, quando entrámos na Comunidade Europeia e nos subordinámos às suas imposições económicas, fizemos isso aos nossos barcos e tractores…

Passei então a achar muito mais coerente a metáfora. Porém, aquela “escultura” sobrante, feita de destroços, não é novidade.

Há umas décadas, um tipo que nos desgovernou e que agora anda por aí a espalhar memórias “escavacou” os nossos barcos pesqueiros. E foram muitos mais, sem qualquer perfomance artística e espectacular envolvente. Com custos pesados que ainda pagamos… e pagaremos.

Em conclusão, Héctor Zamora não foi nada original.
E quanto a reflexão colectiva estamos conversados.

António Martinó de Azevedo Coutinho

PENICHE – um buraco de estimação

Estava assim há pouco, no início da tarde. Como aliás se tem mantido há quase uma semana, ainda que, na “inauguração“, alguém piedosamente tivesse colocado os blocos da calçada em torno do buraco, como alerta.

Furo de prospecção de petróleo on shore, sondagem para o futuro metropolitano urbano ou simples e vulgar desleixo autárquico?

Partindo da óbvia constatação de que o sítio é diariamente frequentado por pessoal da limpeza urbana e por muitos peões, é difícil aceitar a ignorância dos responsáveis durante um já apreciável período temporal. Provavelmente, só depois de alguém -mais distraído- ali partir uma perna é que virá pressuroso o devido arranjo.