O meu primeiro Museu dos Descobrimentos – I

O primeiro “museu” que conheci foi em São Bernardo, na cidade de Portalegre. Uma boa parte do vetusto mosteiro passou por desempenhar durante muito tempo essa função cultural e pedagógica, na prática limitada ao depósito e à singela exposição de peças antigas, sobretudo mobiliário, livros e quadros, para além da majestade do lugar e da monumentalidade anexa, arquitectónica e decorativa, particularmente representada nos fabulosos painéis de azulejos.

Em 1931 ali fora aberto ao público esse denominado, e oficial, Museu Regional de Portalegre, sempre condicionado pelo facto de se situar num quartel em actividade. Eu gozava do privilégio de o visitar sempre que acompanhava o meu avô nas suas idas à Cantina Militar, sobretudo pelos anos 40. Curiosamente, foi mais de duas décadas depois que aquelas peças museológicas mudaram para instalações “civis” adequadas, precisamente no tempo em que eu era vereador num elenco municipal.

Muito mudou desde então, sobretudo no conceito do que é um moderno museu, instituição ao serviço autêntico da comunidade e do seu desenvolvimento, não se limitando a adquirir, conservar e expor, mas sobretudo a proporcionar a comunicação pedagógica, o estudo e a investigação, enfim o deleite cultural em todas as suas vertentes, incluindo a experimentação, a sociabilidade, o espectáculo e o lazer. Para além disso, o desenvolvimento das novas tecnologias, em particular da informática e do digital, proporciona hoje aos museus uma moderna dimensão e um acrescido alcance.

Um museu nunca mais será um banal armazém de colecções, como era São Bernardo.

A esta luz, poderia entender a importância concedida à discussão pública em que se tornou a simples designação de um putativo museu a instalar em Lisboa. O pior é que a intenção quase generalizada não tem sido a de um contributo positivo e bem intencionado mas o da mais desenfreada politiquice virada para a deliberada confusão.

Estão em causa os nossos descobrimentos e, deles derivados, o colonialismo e o racismo. Parece, afinal, que se descobriu a pólvora.

É redundante falar da forma como, nos tempos do livro único, as lições estavam organizadas segundo um programa destinado a louvar as grandezas pátrias e os seus heróis. Assim se pretendia criar em cada aluno, futuro cidadão adulto, uma consciência nacionalista conforme aos superiores interesses da Nação, isto é, às conveniências dos seus (e nossos) governantes. Os heróis, os santos, os guerreiros, os descobridores, os mártires, os reis e outras figuras de exemplar destaque enchiam as páginas dos manuais de História, de Moral e Educação Cívica ou de Leitura. Era assim.

No entanto, pelos meus oito anos, portanto em 1943, deparei com um outro “museu” que me apresentou uma bem diversa visão.

Aí descobri o meu primeiro museu dos descobrimentos.

António Martinó de Azevedo Coutinho

Não há São João como o de Portalegre!

Não há São João como o de Portalegre RN, a Portalegre cidade irmã do Rio Grande do Norte, no Brasil, é preciso -e conveniente- acrescentar.

Em 8 de Dezembro de 1761, o Fundador, Juiz Miguel Carlos, ao sancionar São João Baptista como Padroeiro da Vila Nova de Portalegre, apenas manteve a antiga tradição local que vinha dos tempos da Missão do Apodi, tendo-lhe acrescentado Nossa Senhora da Conceição, em homenagem ao próprio dia.

Ainda hoje as datas alusivas aos Padroeiros são das mais festejadas na cidade.