mil novecentos e sessenta e um – dia 344

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Cumpriu-se o meu triste fado domingueiro. Já voltou, entretanto, o Caprichoso. Contou ele que em Lisboa não se fala de outra coisa que não seja a fuga dos dirigentes comunistas de Caxias. O ano passado tinha sido Álvaro Cunhal e outros a evadirem-se do Forte de Peniche, mas agora, com este pormenor de ter sido utilizado um carro blindado que Hitler tinha oferecido a Salazar, o caso ainda é mais badalado e gozado.

Por aqui, a única coisa que melhorou foi o tempo porque, embora mais frio, não chove.

Estamos a duas semanas do Natal e nada se sabe sobre o nosso futuro. Não vamos, não podemos, ficar aqui para sempre.

Falei com a minha mãe para Portalegre e também à Adrilete para o Lousal. Ela foi com uma colega passear a Grândola e Alcácer do Sal e gostou. Eu limitei-me a uma espécie de monótona volta dos tristes aqui por Mafra, quando fui buscar o jornal.

Diz o Diário de Lisboa que esta manhã houve troca de tiros entre forças portuguesas e indianas no perímetro Norte de Goa, assim continuando as provocações da União contra nós. As notícias do Katanga são idênticas, com as tropas locais envolvidas em conflitos com as da ONU.

Em Angola, segundo o jornal, paraquedistas e forças do Exército restabeleceram a tranquilidade na região do Úcua, nos Dembos. Parece que os terroristas tinham ali atacado, destruído ou incendiado algumas sanzalas nativas. Em conclusão, regressou a intranquilidade que parecia afastada…

Mudando para um tema mais positivo, não cessam os ecos levantados pela sugestão jornalística do 13.º mês. Mas aqui, infelizmente, os tiros são de pólvora seca…

Ainda mais positivo é o artigo, outro, do prof. Calvet de Magalhães. Desta vez intitula-se A formação dos professores para a Educação pela Arte. Este conjunto é um notável manual de práticas pedagógicas que me podem ser muito úteis.

Dos Estados Unidos chega a notícia dos primeiros ensaios de um foguetão gigante com que os americanos esperam igualar a Rússia na tal corrida ao espaço.

A propósito disto, eu nunca mais falei no tal folhetim em quadradinhos, Marlo – o Homem do Espaço, que continua a arrastar-se sem honra nem glória em tiras diárias no fundo de páginas aqui no DL. Não tem piada alguma…

Sou um homem terrestre e também me arrasto sem honra nem glória aqui por estas terras de exílio, no fim do mundo…

Dia Internacional dos Direitos Humanos

O Dia Internacional dos Direitos Humanos é celebrado anualmente a 10 de Dezembro, portanto hoje.

A data visa homenagear o empenho e dedicação de todos os cidadãos defensores dos direitos humanos e colocar um ponto final a todos os tipos de discriminação, promovendo a igualdade entre todos os cidadãos.

A celebração da data foi escolhida para honrar o dia em que a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou, a 10 de Dezembro de 1948, a Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Esta declaração foi assinada por 58 Estados e teve como principais objectivos promover a paz e a preservação da Humanidade após os conflitos da 2.ª Guerra Mundial que vitimaram milhões de pessoas.

A Declaração Universal dos Direitos do Homem enumera os direitos humanos básicos que devem assistir a todos os cidadãos.

Este dia é um dos pontos altos na agenda das Nações Unidas, decorrendo várias iniciativas a nível mundial para promoção e defesa dos direitos do homem.

Este dia 10 de Dezembro é também marcado pela solene entrega do Prémio Nobel da Paz.

Em Portugal, a Assembleia da República reconheceu a grande importância da Declaração Universal dos Direitos do Homem ao aprovar, em 1998, a Resolução que vigora até hoje, na qual deixou instituído que o dia 10 de Dezembro deveria ser igualmente considerado o Dia Nacional dos Direitos Humanos.

mil novecentos e sessenta e um – dia 343

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Um sábado passado em Mafra, mais um. E este ainda mais vazio de gente, porque os cadetes, aqueles que por aqui costumavam ficar, também partiram para sempre. O vácuo…

Continuo confuso e tento organizar as ideias. Os sinais de controle dos rabiscos da PIDE nas cartas privadas, a confusão gerada por esta rocambolesca história da evasão de Caxias e a certeza de que só sabemos aquilo que quem governa quer que se saiba, tudo me parece irreal. Mas é verdade, uma verdade que baralha e faz perder confiança precisamente em quem manda. Nunca fui político, quero continuar assim, mas há situações em que a gente quase percebe a indignação e mesmo a revolta de alguns. Sinto que as minhas convicções estão abaladas. E nem sei como tudo isto vai acabar.

Por outro lado, a guerra. Já não nos bastava Angola, de vez em quando uns sinais ameaçadores na Guiné e agora, depois de anos e anos de morna expectativa, esta grave situação vivida na Índia. Tão longe!

O resto do Mundo também está inquieto, sobretudo em África. Basta ver o que acontece no Congo, com o caso do Katanga, ou na Argélia, com a França… Não esquecendo Berlim, cá na Europa.

E a minha geração foi apanhada entre estes fogos todos.

Bem, deixemos isto tudo. Hoje não tenho nenhum jornal de Portalegre para ler. Por isso passo ao Diário de Lisboa.

A situação na Índia tem prioridade, mas as notícias são contraditórias, não se percebendo com clareza o que acontece. A rádio e a televisão também não ajudam, porque as fontes informativas devem ser as mesmas e a censura idem. Sabotagens, tiros e granadas, comunicados e notas oficiosas. O que estará a acontecer, de facto?

Mais um paquete partiu para Angola e Moçambique, desta vez o Infante D. Henrique, com funcionários e colonos. Não tem havido notícia de transporte de tropas.

No Katanga começou a evacuação dos belgas residentes, sinal claro do agravamento da situação no terreno.

O 13.º mês continua a despertar esperanças, acho que enganadoras. Infelizmente.

O mar continua a devolver corpos de pescadores. Este naufrágio de Sines foi uma grande tragédia…   

Os jornais, assim como as rádios e a televisão, nunca mais falaram nos evadidos de Caxias, o que até se compreende, porque a única notícia digna de registo seria a da sua captura. E esta, pelos vistos, torna-se cada vez mais uma miragem, à medida que os dias vão passando…

Também a liberdade é para mim uma miragem. Infelizmente. Diz-se pelos corredores que nos vão deixar ir a casa pelo Natal, numas curtas férias. Por outro lado, ainda nada se sabe sobre a data da incorporação dos cadetes para o próximo curso a decorrer aqui no casarão.

Amanhã é Domingo. Acho que há uma canção com este título, talvez um fado.

Amanhã é Domingo e isso significa, para todos os efeitos, o meu triste fado…