mil novecentos e sessenta e um – dia 271

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Já não escrevi mais nada no diário de ontem, porque as coisas não me correram nada bem ao jantar.

A cabidela de galinha estava espectacular e soube-me a pouco. Bebi uns dois copos de vinho tinto que devia ser um pouco forte. Mas o pior foi um prato de arroz doce, excelente, que os sargentos me aconselharam a acompanhar com um cálice de bagaceira. Nunca tinha bebido aguardente e aquilo caiu-me mal, mesmo muito mal. Fui ficando cada vez mais agoniado e com a cabeça a andar à roda, até ter vomitado tudo. Fui-me deitar, devo ter dormido como uma pedra mas doía-me muito a cabeça quando ainda de madrugada me acordaram a toque de cornetim. O dia pareceu-me insuportável até porque hoje não tive a mesma sorte e não me chegou às mãos o Diário de Lisboa.

Vou deitar-me mal possa, porque amanhã logo cedo temos de desmanchar isto tudo e regressar ao casarão de Mafra.

Hoje não tenho notícias, nem de casa em Portalegre, nem da Adrilete no Lousal, nem do país ou do mundo. Estou isolado e entregue aos restos da minha indisposição. Acho que nunca mais vou beber aguardente…

Lá me fui aguentando no decorrer do dia. O tenente Vigário, percebendo o meu estado, poupou-me. É uma boa altura para falar dele. O Caprichoso não se cansa de louvar as qualidades do tenente Eanes e eu não duvido dele. Mas o tenente Vigário não lhe deve ficar atrás. Tem vindo a impor-se, dia a dia, à consideração de todos os instruendos do pelotão, sem excepções. É muito exigente mas igualmente compreensivo e defende sem qualquer hesitação os homens que comanda. Competente, por trás de uma imagem de austeridade e rigor, tem um coração muito sensível e mostra-se atento a todos os pormenores. Sou seu admirador e amigo. As habituais e duras hierarquias da tropa não se notam na relação com ele. Como é evidente, é muito fácil trabalhar sob a sua chefia, pela segurança e humanidade que revela em todos os momentos.

E agora vou descansar, tentando dormir para recuperar forças e sobretudo disposição para as tarefas de amanhã.

O DIÁRIO POPULAR morreu há 25 anos

Cumpre-se hoje mesmo um quarto de século sobre a morte daquele que foi um dos mais prestigiados jornais da tarde em Portugal: o Diário Popular. Estive de algum modo ligado ao jornal, pelo que me não foi indiferente o seu desaparecimento. Por isso, evocando a triste efeméride, reproduzo hoje e aqui um texto já publicado no Largo dos Correios em 28 de Setembro de 2013, há três anos.

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ESTA CRÓNICA É DE MORTE (ANUNCIADA)

O Diário Popular foi um dos vários vespertinos nacionais outrora em voga, hoje todos desaparecidos.

Lisboeta e diário, nascera em 1942, tinha uma distribuição nacional e chegou a atingir grandes tiragens. Foi mesmo pioneiro no campo da reportagem, onde fez escola. Ficaram célebre as narrações “ao vivo” da erupção do vulcão dos Capelinhos, em 1957, ou da tomada de Goa pela União Indiana, em 1961-62. Também ficou ligado a eventos e iniciativas de sucesso como as noivas ou as marchas de Lisboa. Foi o primeiro órgão de comunicação social a dispor de um suplemento regular dedicado à informática, o Bit-Bit.

Alguns erros de gestão, sobretudo o imposto pelo Governo ao separar a lucrativa tipografia do então deficitário jornal, conduziram à extinção do Diário Popular.

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Pelo jornal passaram alguns nomes famosos da imprensa nacional, como Urbano Carrasco, Fernando Correia, José de Freitas, Maria Antónia Palla, Acácio Barradas, Adelino Cardoso, Jacinto Baptista, Luís de Forjaz Trigueiros e muitos outros.

28-dp-3No dia 28 de Setembro de 1991, precisamente há 22 anos e era também um sábado por mera coincidência, foi publicado o derradeiro número do jornal, após meio século de vida. Não me lembro de situação similar acontecida com qualquer outro título em que o fim fosse tão tranquilo, quase uma espécie de morte assistida, de assumida eutanásia.

Com efeito, em função do desenrolar da operação de desmantelamento da empresa, a expectativa não englobava qualquer tipo de surpresa ou alternativa. O Diário Popular apagou-se tranquilamente ou, melhor, apagaram-no…28-dp-4

Daí que, quase estranhamente ou talvez não, o conteúdo do último número não integre qualquer palavra de despedida, de revolta, de promessa, de saudade, por parte dos responsáveis editoriais ou administrativos.

A capa seria o único sinal visível do fim, não fora a “indiscrição” de um simples colaborador, Bernardo de Brito e Cunha, signatário de uma coluna regular intitulada Crónica de BBC.

A capa reproduz “telegraficamente” o ofício há dias recebido da Gerência onde era contida a “sentença”, sem recurso: suspensão da publicação do Diário Popular a partir da edição de sábado, 28 de Setembro de 1991.

Vale a pena ler o texto de um jornalista “incómodo“, ainda por cima encimado por um título que não engana: Esta crónica é de morte.

Ironicamente, com uma simples mudança de umas vírgulas, um ou outro acerto em nomenclaturas e ligeiras correcções nos contextos, o artigo serve para explicar o que tem acontecido, agora mesmo, com uma infinidade de empresas nacionais.

Não é tristemente verdade?

 António Martinó de Azevedo Coutinho
 “Os jornais também se abatem
28 de Setembro de 2013

 Adenda – Fui correspondente do Diário Popular em Portalegre. A partir de 1986 e praticamente até ao fim do jornal, desempenhei essas funções. Para ser sincero, não guardo daí grande memória ou qualquer orgulho pessoal. Nem chego a considerar o facto como merecedor de uma especial citação curricular…

28-dp-5Vivia por esses tempos iniciais o entusiasmo da construção do Fonte Nova, colaborando com o Aurélio Bentes nesse aliciante projecto, o de um novo jornal na nossa terra. Estava portanto no seio das notícias e muitas para Lisboa enviei, na convicção do interesse geral do acontecimento narrado. Em vão ou quase. Quase não recordo as raras vezes em que, entalado num perdido cantinho (da província…) no grande jornal lisboeta, surgia, transformado em lacónica súmula, o meu bem intencionado labor. Fui percebendo que a dimensão da notícia tinha dois pesos e duas medidas, o que até era racional. Pelo menos vista do lado de lá.

Fui rareando os meus envios. Em 1988, recebi do então director do jornal -o prof. José Hermano Saraiva, imagine-se!- o ofício que reproduzo. Significava, a meu ver, uma aproximação dos tais “desavindos” critérios, o nacional e o regional.

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Voltei a enviar as minhas notícias, mas o “superior” acolhimento não revelou qualquer sensível alteração… Desisti.

Quando o jornal desapareceu, não senti qualquer especial emoção.

Mas lamentei, continuo a lamentar, o significado da perda das vozes livres que possam denunciar as incompetências, os caprichos, as prepotências e os abusos de todos os poderes, o da política, o da justiça, o da polícia, o da corrupção, o do crime, o da imprensa, o das redes sociais, o da sociedade em geral…

 Quando um jornal verdadeiramente autónomo morre ficamos todos mais desprotegidos.

mil novecentos e sessenta e um – dia 270

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Isto da antiguidade na tropa é um posto. Assim rezam as crónicas de caserna e é verdade. Enquanto a malta em geral come o rancho, neste caso de campanha rações de combate enlatadas, há quem se banqueteie de grande e à francesa. Os sargentos da Companhia, falo naturalmente do pessoal do quadro, profissionais e não milicianos como eu e uma boa parte aqui em Mafra,  esses sargentos safam-se bem. Hoje para o jantar têm galinha de cabidela e bem acompanhada. Não me posso queixar, porque até fui convidado. Por isso estou a escrever estas linhas antes do jantar, hoje melhorado.

Estivemos quase todo o dia fora do acampamento, precisamente nas linhas cavadas pelos cadetes, em fogo simulado, a correr e a rastejar e em mais manobras desta guerra a fingir. A única nota positiva tem a ver com a diferença do armamento em relação ao que conhecia. Tirando as granadas de mão, quer as ofensivas ou as defensivas, tudo mudou, sobretudo as armas anti-carro, os morteiros e os canhões ditos sem recuo, de pequeno calibre. Por simples exemplo, recordo o tenebroso PIAT que nos arrancava os botões da farda ao arrastar-nos violentamente por terra. Agora, em troca, o lança-foguetes do tipo bazooka parece um brinquedo de criança, porém um brinquedo altamente mortífero.

Deixemos esta bélica reflexão e passemos a correr pelo jornal. Tive uma grata surpresa, quando voltei do campo ao final da tarde, pois tinha o Diário de Lisboa, dobradinho, à entrada da tenda. Foi o mesmo ordenança, que é alentejano de Pias, que se lembrou de mo trazer mesmo sem lho ter hoje encomendado. Já lhe agradeci a inesperada gentileza.

O grande assunto do jornal é o discurso ontem proferido pelo ministro dr. Adriano Moreira em Moçambique. Ocupa meia capa e mais uma página inteira lá dentro. Não tive ainda tempo de o ler todo, mas devo realçar uma frase, dele destacada, que diz: Não se podem lavar as mãos do presente com o ar de quem não tem nada a ver com o passado. Li isto como uma corajosa confissão dos erros que cometemos.

Depois, é dito no DL que a recuperação económica do Norte da Angola tem de ser conseguida à custa da garantia de muito trabalho. Acho que nem poderia ser de outra forma…

Continua um certo receio de que haja ataques terroristas em massa, coincidindo com os debates na ONU, para servirem de propaganda das causas independentistas.

Houve mais 3 mortos nas nossas tropas, na zona da Pedra Verde, que deve ter sido uma epopeia dramática e muito dura.

Só mais uma notícia internacional, a de que um ministro alemão ocidental agradeceu a Kennedy o seu interesse por Berlim.

E agora vou já, já, a correr para a jantarada. Depois, se ainda tiver vagar, darei aqui conta do banquete…