Ver caras e ver corações…

Num artigo aqui inserido em Junho de 2015, a que chamei Raízes, lembrei o Aurélio Bentes e o António Ventura, dois amigos hoje fisicamente distantes, ainda que sempre próximos neste ponto de encontro que se chama memória. Eles, mais do que ninguém,  proporcionaram-me um intenso mergulho lagóia nas coisas em que a amizade pode tanto servir-nos como servir os outros. Em mil e uma aventuras, que cobriram outros tantos campos do desafio, de provocação e das respostas possíveis, percorremos juntos caminhos que perduram, nos jornais, nas revistas, nos livros, no audiovisual e no multimédia, enfim, na descoberta que fizemos e partilhámos. Recuperámos, juntos, memória. Construímos, juntos, futuro. Mesmo que este, hoje, já seja passado.

O António Ventura mantém com a nossa cidade uma ligação hoje mais precária e disso se ressentiu, e muito, Portalegre. Eu, pela força das circunstâncias, embora bem diversas, afastei-me dolorosa e definitivamente da minha terra. Nesta restou o Bentes e ainda bem.

A sua activa e interveniente presença nota-se. Está-lhe na massa do sangue, como diriam os beirões de que geneticamente descende, caso do seu avô de Trancoso.

A longa e frutuosa passagem do Bentes pelo saudoso Fonte Nova permitiu-lhe um primeiro mas indelével contacto com nomes, caras e obras.  Nomes, caras e obras são alma e já a dupla José Régio-João Tavares (um estrangeiro e um lagóia!) há muito nos ensinou que é a alma dos homens que dá corpo à cidade. E o Bentes, seu aluno, adoptou e adaptou o lema como ninguém.

Se nascer em Portalegre é, de facto, um privilégio não se resume ao berço a pertença lagóia. Esta distinta marca identitária não é um exclusivo atributo do sangue, do nome ou do sítio, porque nasce e projecta-se da alma e faz ganhar raízes onde se fixa. O Bentes é disso um claro exemplo porque, não tendo nascido em Portalegre, é um estrangeiro bem mais lagóia, e disso se orgulha, do que muitos naturais.

Este é o espírito que domina a galeria, ilustre, das Caras de Portalegre.

O Bentes faz deste aturado trabalho uma fabulosa e crescente colectânea de imagens e textos de gente e sobre gente, partilhando-a generosamente connosco.

O apelo que tem vindo a divulgar é justo e oportuno. A obra merce ser apoiada por todos aqueles que disponham de material biográfico, memórias em texto e/ou imagem, susceptíveis de contribuir para o progressivo e indispensável alargamento da galeria. Nem por se saber que a obra é inesgotável e infinda deve toda e qualquer oportunidade ser ignorada ou desprezada. Bem pelo contrário.

Já lembrei, a este propósito, uma meta que pode e deve motivar este e outros trabalhos sobre Portalegre e as suas gentes. Em 2050 vão cumprir-se 500 anos sobre a fundação da cidade. Já não os viverei, mas lembro-me bem do 4.º Centenário, em 1950, tinha então 15 anos…

Esta obra é, nesse sentido, uma das vale a pena prosseguir e desde já. Em Portalegre do Rio Grande do Norte, a nossa cidade irmã no Brasil, a comemoração dos seus 250 anos de vida foi marcada, entre outras inesquecíveis cerimónias, pela inauguração de um memorial onde constam 250 nomes significativos na comunidade, desde a fundação até à actualidade. Este é um exemplo que merece ser meditado, e imitado, pelo respeito da memória local e pela sua perpetuação.

Vejo as Caras de Portalegre também por este interessante prisma.

Daqui vai, portanto, um abraço de amizade, de solidariedade e de estímulo para o Bentes, com o veemente apelo a que a sua iniciativa seja assumida e participada pela comunidade lagóia.

Incluindo, obviamente, os estrangeiros que o mereçam.

Um Sindicato desmemoriado

O meu Sindicato, a organização da minha classe profissional enquanto professor, que servi como dirigente e a que me orgulho de pertencer como associado, tem a memória curta.

O Sindicato dos Professores da Zona Sul cumpriu 40 anos de vida no passado mês de Março. É um já longo período de luta e de afirmação na defesa dos legítimos interesses dos docentes.

A sua e nossa Revista –INTERVIR– trouxe nas páginas do mais recente número -34 da VI série, relativo a Setembro de 2017- um interessante e bem documentado dossier sobre as comemorações da efeméride. Fez-se ali uma breve retrospectiva do percurso, um sumário em imagens, uma descrição das actividades realizadas a propósito, uma alusão a eventos então organizados, incluindo exposições, uma das quais me tocou muito em particular, 100 anos de Banda Desenhada. Acontece que, ao serviço do SPZS, em Jornadas Pedagógicas, Colóquios, Encontros de Formação Contínua e Conferências Regionais, realizadas em Portalegre, Elvas, Lisboa, Évora, Faro e Beja entre 1981 e 1983, orientei eventos sobre Banda Desenhada.

Tudo isto parece muito, e é, mas revela-se incompleto e manifestamente injusto. A meu ver faltou-lhe uma incontornável referência, a destacada inclusão de um nome, a uma personalidade invulgar que muito contribuiu para a criação e implantação do SPZS. Refiro-me ao professor Manuel Pinho, que viveu e morreu ao serviço do seu, do nosso, Sindicato.

Já aqui evoquei, no blog, a memória desse homem que me merece uma indelével recordação de respeito e de admiração. Foi em Janeiro de 2015, num artigo que intitulei Obrigado, Manuel Pinho. Dali evoco breves passagens:

“Conheci-o pelo princípio dos anos 80, em Portalegre. Era eu então professor na Escola Preparatória Cristóvão Falcão e viviam-se tempos de dura batalha pela conquista ou consolidação de direitos profissionais dos docentes. Manuel Pinho era dirigente sindical e contactámos com frequência no seio das movimentações da classe.

Assumido militante comunista, nunca Manuel Pinho disso fez bandeira ou estribilho. Pelo contrário, foi sempre um homem de diálogo fácil e de consensos, que me habituei progressivamente a estimar, nele reconhecendo as invulgares qualidades de um líder de combate, esclarecido, persistente, corajoso. Quando me convidou para com ele integrar uma Direcção do SPZS, fiquei surpreendido. Foi em 1983 e os tempos, nas escolas, eram difíceis. Acabei por reconhecer a justeza dos seus argumentos e jamais me arrependi de o ter acompanhado, por todo o Alentejo e pelo Algarve, em múltiplas diligências sindicais, sobretudo nos campos da formação pedagógica e da cultura.

Pude por isso ganhar a testemunhal e progressiva certeza do muito que lhe fiquei devendo, daquilo que toda a classe docente lhe ficou devendo.

Quando a doença gravemente o tocou, todos sabíamos que o seu fim estaria próximo. E ele também estava ciente do implacável destino que o esperava, mas não interrompeu por isso a sua esgotante missão, quando lhe seria legítimo, e humano, fazê-lo. Manuel Pinho manteve, até ao fim, a sua coerência de sempre, como o lutador que hoje relembro, por cuja memória mantenho intacta a admiração que em vida me mereceu.

Sinto-me feliz por ter sido seu amigo.”

Faltou, nesta recente evocação dos 40 anos de vida do SPZS, uma palavra sobre Manuel Pinho. Dele apenas consta uma pequena fotografia colectiva no canto superior direito duma colectânea de imagens. Apenas…

Por isso, quero aqui lembrar parcialmente o que a mesma revista –INTERVIR– dele disse a quando do seu desaparecimento físico, precisamente para colocar em confronto essas duas perspectivas, a da justiça e a do “esquecimento”…

A morte de Manuel Pinho aconteceu em 6 de Janeiro de 1993. Portanto, em Janeiro de 2018 -já não falta muito!- acontecerão os precisos 25 anos sobre essa perda.

Espero que os responsáveis editoriais da excelente publicação do SPZS não deixem passar então em claro a oportunidade que agora se perdeu sem honra nem glória.

António Martinó de Azevedo Coutinho

Surf Mundial em Peniche e uma oportuna campanha alusiva

“Por um Oceano sem Plástico” será o título da campanha que irá decorrer em Peniche, de 20 a 31 de Outubro, durante o campeonato do mundo de surf, Meo Rip Curl Pro Portugal.

A situação grave da presença dos plásticos no oceano, com consequências para as espécies marinhas e para a saúde pública, é o mote da campanha.

Pretende-se sensibilizar a população para o que cada um, no dia-a-dia, poderá fazer para minimizar esta grave situação, através de comportamentos que reduzam o consumo de plásticos e, particularmente, de microplásticos.

São múltiplas as actividades que decorrerão durante o evento: Exposições, Ciclo de Cinema, “Tenda do Oceano” com actividades de animação, “Estação Oceano” para fotos/compromisso, Limpezas de Praias, Artes Plásticas a partir de Lixo Marinho, etc.

Nas diversas acções, pretende-se envolver os surfistas profissionais em competição, aproveitando-se o forte potencial de comunicação nas diversas plataformas Webcast, Broadcast e redes sociais. Para além dos voluntários envolvidos, a campanha, coordenada pelo Município de Peniche, conta com a colaboração de diversas entidades e empresas: ESTM – Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar, Associação MARMEU; ABAE – Associação Bandeira Azul da Europa; DGPM – Direcção-Geral da Política Marítima; Fundação Oceano Azul; MATTA Shapes; VALORSUL; SPEA – Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves e Oeste CIM – Comunidade Intermunicipal do Oeste.