VIVER E CORRER NA PRAIA

AVISO PRÉVIO – Antes que um espírito mais sagaz e atento queira ler nas linhas seguintes um ignóbil e odioso ataque à autarquia penichense, deliberadamente agravado por acontecer em plena campanha eleitoral, quero desde já jurar pelas alminhas que não é essa a minha intenção. Apenas pretendo dar conta de uma justa –assim a julgo!- reclamação. Faço-o em nome pessoal e em representação –embora oficiosa- de alguns amigos e de outros anónimos cidadãos atingidos e prejudicados.

Trata-se da exigência, à boca das urnas, perdão!, das inscrições in loco, da posse do cartão de identidade pelo participante. A justificação de uma prudente inserção na listagem do seguro pareceria legítima não fora a possibilidade legal de outros tipos de contratos similares, não nominais. Ainda assim, tendo a organização prévia e publicamente disponibilizado uma detalhada série de pormenores alusivos, não deveria ter aí solicitado a obrigação de o candidato à corrida se fazer acompanhar do seu documento de identificação?

Tal cuidado teria evitado os sérios contratempos que muitos sofreram, alguns de forma irremediável, tendo virado as costas à sua legítima pretensão. Sei de amigos que o fizeram. Eu próprio o faria, não fora a pronta cumplicidade de um generoso companheiro que se prontificou a conduzir-me a casa a fim de ir buscar o documento exigido.

Ora este descuido organizativo lançou a expectativa do salutar convívio pessoal e desportivo de muitos numa inesperada e dispensável frustração. Não pode repetir-se tal episódio, sob pena de o incidente transformar uma prova notável, já tradicional na comunidade, num detestável pretexto de polémica…

E já agora, passando do qualitativo ao quantitativo e mantendo-se o percurso, será mais correcto anunciar oficialmente cerca de seis quilómetros de extensão em vez de sete.

A FESTA COLECTIVA PROPRIAMENTE DITA – Os sobreviventes da atrás descrita “prova” de inscrição viveram uma festa, como é a de correr ou caminhar pela areia, numa extensa e bela praia disponível. Devo rectificar, honrando o que recentemente aprendi: para correr ou caminhar numa sucessão de belas praias disponíveis. Um dia destes vou aqui detalhar este quase ignorado  “pormenor” toponímico penicheiro.

A pista é atraente e convidativa mas ilude o seu aparente facilitismo. Certas zonas do percurso, com a areia pouco compacta e revolvida por centenas de passadas, são particularmente difíceis e exigentes.

O balanço da iniciativa é francamente positivo e, não podendo nem querendo rivalizar com a invulgaríssima Corrida das Fogueiras (única no Mundo!), esta Corrida da Praia tem tudo para se tornar uma clássica. Aliás, entre as largas centenas de participantes não se contavam apenas indígenas… Por alguma razão.

A organização merece portanto um aplauso e um incentivo. [afinal este feroz maledicente também tem um lado algo ternurento...]

A FESTA PESSOAL PROPRIAMENTE DITAEsta prova tem para mim um especial significado. Aconteceu na sua edição de 2015 o momento zero da minha plena inserção no grupo que tão generosamente me acolhe e protege. Foi então que todos descobrimos, talvez com certo espanto, que mesmo quem começa a correr aos oitenta pode ter algum futuro na modalidade…

Decidi não citar aqui nomes pelo risco de uma involuntária omissão constituir uma injustiça. Todos os amigos e companheiros merecem por igual a minha gratidão.

Uma singular coincidência acontecida nesta recente edição foi o cumprimento, quase preciso (sobraram 700 metros!) do meu segundo milénio de quilómetros, devidamente cronometrados pelo fiel e rigoroso TomTom (passe a publicidade).

Aqui fica o respectivo registo, englobando treinos e provas de corrida mais umas duras e longas caminhadas.

No total, sintetizando, são mais de duzentas distintas actividades intensamente vividas em mais ou menos dois anos, com um pouco mais de uma hora de duração média, os tais dois mil quilómetros percorridos (umas voltinhas a Portugal…) e quase doze mil metros de subidas (davam para atingir, salvo seja, o cume do Evereste!). Tão simples como tudo isto, uma proeza absolutamente impensável para quem se dedicava, quase por inteiro e desde sempre, às “intelectualidades”…

A vontade própria e o são companheirismo fazem milagres.

ANEXOS FINAIS – Não vale a pena repetir a gratidão pessoal pela amizade dos companheiros, tanto os mais próximos na prática quotidiana como o colectivo do fabuloso Peniche a Correr.

Homem da imagem que sou, creio que é devida uma expressão de reconhecimento a quantos, por vezes anónimos, que captam as fotografias de cada acontecimento e que generosamente as partilham connosco nas redes sociais, tornando possível reviver cada momento fixado, cada irrepetível episódio desta tão salutar prática desportiva e de afectos. Devido a eles foi possível ilustrar de forma tão rigorosa e completa esta simples mas sincera crónica. É a imortalidade dos momentos que a fotografia permite, permanecendo como testemunho e herança para o futuro.

Obrigado a todos os autores destas imagens.

Finalmente, devo agradecer a quantos foram sensibilizados e se tornaram solidários com as minhas actuais limitações técnicas digitais. Quero dizer-lhes que estas permanecem, mas foi pelo seu incentivo que decidi recorrer a um computador de emergência, limitado e por isso mais ou menos retirado da circulação, onde com alguma dificuldade consegui resolver a contento, mínimo, os condicionalismos que talvez só daqui a dias estejam satisfatoriamente ultrapassados.

Final desta corrida. Que venha a próxima!

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

A Banda Desenhada vista por Carlos Gonçalves – onze

OS GRANDES MITOS DO OESTE (II)

OS GRANDES MITOS DO OESTE PUBLICADOS EM PORTUGAL

Esses mesmos Grandes Mitos do Oeste que José Ortiz desenhou seriam mais tarde recuperados por Roussado Pinto e apresentados nas páginas das revistas “Jornal do Cuto” e “Pantera Negra”, edições suas (Portugal Press), com umas belas capas da autoria de Carlos Alberto Santos, como sempre um dos melhores ilustradores e pintores portugueses. A primeira personagem a ser conhecida foi “Wild Bill Hicok” apresentada nos nºs. 146 (1/8/76) e 147 (15/8/76). A segunda personagem foi “Jesse James” que apareceu no nº. 153 (15/11/6) da mesma revista, seria continuada no nº. 154 (1/12/6) e terminaria no nº. 163 (15/4/77). Entretanto e no nº. 160 (1/3/77), surgem as aventuras de “Bat Masterson”. No que respeita à outra publicação e no seu nº. 1 (1/6/77), aparece a biografia de “Jim Bowie”, seguida da de “Wyatt Earp” no número seguinte. O nº. 3 traz-nos  a história de “Billy The Kid & Pat Garrett”, no nº. 8 é a vez de “Buffalo Bill” e finalmente no nº. 10, “Butch Cassidy. Recordamos agora tal facto, ao apresentar neste blogue um dos episódios desses Grandes Mitos do Oeste desenhado pelo José Ortiz sobre Jesse James.

JOSÉ ORTIZ

José Ortiz Moya nasceu a de Setembro de 1932, vindo a falecer a 23 de Dezembro de 2013, com 81 anos de idade. José Ortiz era portador de um estilo harmonioso, onde se destacavam os negros, de uma forma agressiva, num estilo barroco, vigoroso e minucioso no seu grafismo, onde a figura humana se destacava na sua opulência. O traço era minucioso e desde que trabalhou para a Warren (editora muito célebre nos Estados Unidos), destacou-se, soltou-se, atingindo a maturidade como grande desenhador que era. Os leitores sentiram que melhor era impossível e, como tal, o êxito da sua obra manteve-se por muitos anos, sendo convidado para produzir muitos trabalhos de qualidade.  

      

Filho de um pintor começou cedo a desenhar, tinha na altura 16 anos. Cedo libertaria a sua veia artística e em 1951 já desenhava histórias para as colecções “Aventuras de Guerra” e “Pantera Negra” (edição espanhola, claro). Como outros desenhadores experientes, os seus trabalhos fluem rapidamente das suas mãos e um ano depois já colaborava também nas revistas com “El Capitán Don Nadie” e “El Espia”. Em 1954/55 serão publicados trabalhos seus com “Juan Bravo”, “El Príncipe Pablo” e “Dan Barry”. A sua produção manter-se-ia a um ritmo invejável com trabalhos para a Editora Toray e também Bruguera, com a série “Sigur El Wikingo” para a primeira e “Los Viajes de Gulliver” e “Las Cruzadas” para a segunda. 

Os anos 60 marcam a sua expansão e reconhecimento como autor de histórias aos quadradinhos, passando os seus trabalhos a ser apreciados em Itália, Inglaterra e Estados Unidos. Para os ingleses começa a produzir a um ritmo alucinante, pois a sua produção espalha-se por uma série de títulos a saber; “Thriller Picture Library”, “Top Spot”, “War Picture Library”, “Battle Picture Library”, “War At Sea”, “Air Ace”, “Lion”, etc., os títulos multiplicam-se ao longo do tempo. Mas a sua série de maior sucesso seria publicada em jornais, chamava-se “Caroline Baker” e tinha argumentos de Willie Patterson, onde Ortiz alterava completamente o seu estilo.

Mais uma década passou, estamos nos anos 70, e Ortiz ultrapassa-se a si mesmo com a vasta produção destes anos, ao trabalhar para uma série de revistas espanholas: “Hazanas del Oeste”, “La Historieta”, “Rufus”, “Vampus”, “Dossier Negro”, “El Pequeno Selvaje”, “Vampirella”, “Kung-Fu”, “Blue-Jeans”, etc.. Mas para além do Mercado Espanhol, os Estados Unidos terão trabalhos seus a começar pelos Grandes Mitos do Oeste e, face ao seu êxito, as revistas “Creepy”, “Eerie”, “1984” e “The Rook” vão também apresentar-se com histórias da sua autoria. Pelo seu trabalho, receberá um prémio instituído pela Editora Warren, como o “Melhor Desenhador de 1975”. Depois desta longa produção, ainda irá desenhar mais uma série de obras, igualmente de excelente qualidade, pois com o argumentista António Segura vai criar novas personagens interessantes: “Hombre”, “Burton y Cyb”, “Morgan” e “Jack el Destripador”.

O sucesso irá manter-se por alguns anos, com esta parceria que daria os seus frutos, pois o argumentista soube desenvolver de uma forma magistral as personalidades de cada “herói” das histórias.

Nos anos 80, algumas das revistas espanholas em publicação iriam incluir nas suas páginas trabalhos seus, como seriam os casos da “Metropol”, “Mocambo” e “K.O. Comics” e para as quais criou duas personagens novas: “Bogey” e “Frank Cappa”.  Na década seguinte a recessão começa a sentir-se, mas Ortiz irá ocupar-se de outras personagens: “Bud Ó Brien” e “Ozone”. Será então que o desenhador irá trabalhar para o Sérgio Bonelli Editor, ao ocupar-se de algumas aventuras de “Tex” a partir de 1993, nunca mais parando. “Ken Parker” e “Mágico Vento” também terão histórias da sua autoria, mas em menor quantidade. Em 1998 recebe o prémio de Múrcia, em 2010 é a vez do prémio Expocómic e em 2012 o Grande Prémio del Salón del Comic de Barcelona.

                                                                                                       Carlos Gonçalves

A Amnistia Internacional e as eleições angolanas

Angola. Amnistia diz que novo Governo tem de respeitar os direitos humanos

O próximo Presidente de Angola deve resgatar o país à “espiral de opressão que manchou o brutal reinado” de 37 anos do Presidente cessante, José Eduardo dos Santos, defendeu hoje a Amnistia Internacional, em véspera de eleições.

Na quarta-feira [hoje], os angolanos vão às urnas para escolher um sucessor para José Eduardo dos Santos, “cujos mandatos se caracterizaram por repetidos ataques aos direitos de liberdade de expressão, de associação e de reunião pacífica”, sustentou a organização de direitos humanos, em comunicado.

A presidência de José Eduardo dos Santos é marcada pelo seu terrível histórico de direitos humanos. Durante décadas, os angolanos viveram num clima de medo, em que falar com franqueza era combatido com intimidação, prisão e desaparecimento forçado”, declarou a directora regional da Amnistia Internacional para o Sul de África, Deprose Muchena.

Qualquer que seja o resultado destas eleições, o próximo governo angolano tem de acabar com o abuso sistemático do sistema judicial e de outras instituições do Estado para violentamente silenciar a discordância”, prosseguiu a responsável da AI, citada no documento.

A organização não-governamental sublinha que, em Angola, criticar o Presidente é actualmente considerado um crime contra a segurança do Estado, e muitos daqueles que se atreveram a denunciar o Presidente e o Governo – como manifestantes pacíficos, activistas dos direitos humanos e jornalistas – foram postos na prisão por longos períodos ou desapareceram sem deixar rasto.

As leis de difamação criminosa “têm sido também regularmente usadas para silenciar os críticos do Governo, particularmente jornalistas e académicos, ao passo que a lei dos crimes contra a segurança do Estado é usada para justificar detenções arbitrárias daqueles que exibiram alguma forma de divergência”, aponta a AI no comunicado.

Durante anos, os angolanos sofreram violações dos direitos humanos simplesmente por terem a audácia de questionar o opressivo Governo do Presidente Dos Santos”, frisou Deprose Muchena.

A nova administração deve comprometer-se desde o início a respeitar e proteger os direitos humanos de todas as pessoas em Angola. Isso começa por pôr termo às ilegítimas restrições aos direitos de liberdade de expressão, reunião e associação pacífica, ao mesmo tempo que constrói uma atmosfera em que os defensores dos direitos humanos e a sociedade civil possam trabalhar sem medo de represálias”, rematou a responsável da Amnistia Internacional.

22 Agosto 2017
MadreMedia / Lusa