Estudos Regianos – Vila do Conde

Em 9 e 10 de Maio de 2017 realizou-se um congresso na Faculdade de Letras de Lisboa, com organização do Centro de Estudos Regianos e do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias daquela faculdade. Foi seu pretexto e tema mais um debate sobre a vida e morte da revista Presença, que contribuiu de forma decisiva para a renovação estética da arte e da literatura portuguesas no segundo quartel do século XX.     

90 anos depois, a revista onde José Régio pontificou foi lembrada com a elevação merecida. Agora, num prolongamento que guarda para o futuro o que foi esse congresso, publicando as intervenções ali apresentadas e discutidas, o Boletim Estudos Regianos número 24/25 (Junho /Dezembro de 2018) acaba de ser editado. Manifestando uma vez mais a oportuna gentileza com que me distinguem, as Dr.as Isabel Cadete Novais e Manuela Laranjeira, enviaram-me esse precioso exemplar, o que registo e vivamente agradeço.

É excelente o trabalho que, em permanência, é desenvolvido pelas estruturas regianas de Vila do Conde, com destaque para o seu Centro de Estudos, onde pontificaram mestres como Eugénio Lisboa ou João Francisco Marques.

Destaco para já, sem que isso signifique o mínimo desprezo pelo restante, rico e diversificado conteúdo do Boletim, as presenças portalegrenses de Maria José Maçãs, Fernando J. B. Martinho, Maria José d’Ascensão, Maria Filomena Barradas e Vanda Grácio Ribeiro.

Aliás, todas as comunicações agora partilhadas constituem um inestimável manancial de informações, críticas, comentários e apreciações sobre a vida e a obra de José Régio, numa oportunidade que antecipa um ano de expectativa, 2019, onde se vai comemorar o cinquentenário da sua morte.

Tintin no Congo – dezoito

Outra das cenas “polémicas”, e também das mais discutidas e criticadas do álbum é a passada na sala de aulas da missão católica. Talvez seja mesmo, como imagem, a que mais vezes tem sido reproduzida. E a verdade é que apresenta vários motivos de inegável interesse.

Um deles refere-se à mudança temática da própria aula, da versão inicial, de 1930, em que Tintin substitui o padre Sebastião numa lição de Geografia, até à remodelação de 1946, onde o nosso herói ministra uma lição de Cálculo em vez do mesmo polivalente mestre.

Como lógica sequência desta alteração curricular, mudou o discurso pedagógico de Tintin. Assim, o original (1930) : “Meus caros amigos, vou falar hoje da vossa pátria: a Bélgica!…”, passou a (1946): “Vamos começar, se o desejarem, por algumas adições. Quem sabe dizer-me quantos são dois mais dois?… Ninguém?… Vejamos, dois mais dois?… Dois mais dois igual a?…”

Segue-se a cena da insólita intromissão de um leopardo na normalidade escolar. Também aqui se notam diferenças nas duas versões em confronto. Em 1930, Tintin interrompe uma frase didáctica e completa-a de forma simbólica, obtendo um oportuno e metafórico slogan… patriótico: “A Bélgica é aquilo a que eu chamo… …um leopardo!”. Já na versão de 1946, a sequência tornar-se-á mais vulgar: “Então, quem pode responder-me?… Dois mais dois são?… São?… Um leopardo!!!

A vinheta seguinte ainda é mais curiosa. A história original integra um significativo discurso moral, um apelo íntimo à heroicidade e uma invocação divina: “Atenção, Tintin, deves salvar os teus alunos. Prepara-te para te sacrificares! Meu Deus, dai-me forças para sustentar este duro combate!”. A remodelação posterior apagou, pura e simplesmente, todo este interessante desabafo, deixando Tintin só e mudo perante a fera…

Após o breve mas movimentado interlúdio que envolveu a inesperada aparição do leopardo e a feliz solução do incidente, Tintin retoma tranquilamente a aula: (1930) “Pronto, já está!… Ora falávamos na Bélgica!… A Bélgica é…”; (1946) “Pronto, já está… Dizíamos… Dois mais dois são?…”.

Nova interrupção, desta feita da responsabilidade de um humano que irrompe pela sala: (um negro, em 1930) “Bandido!… Foste tu que maltrataste o meu leopardo domesticado, um leopardo meigo e inofensivo, que vinha comer à mão. E agora ele chora e geme! Vais pagá-las, a mim, Jimmy Mac Duff, director do Grande Circo Americano!”; (um branco, em 1946) “Ah! Bandido!… Foste tu que maltrataste o meu pobre leopardo domesticado!.. Vais pagá-las, a mim, Jimmy Mac Duff, fornecedor dos maiores zoos da Europa!…”

Finalmente -já não é sem tempo!-, Tintin julga poder retomar a abalada tranquilidade pedagógica. E a aula prossegue, como se nada tivesse acontecido: (1930) “Pela terceira vez, repito-lhes, a Bélgica é…” ou (1946): “Pela terceira vez, pergunto-lhes, dois mais dois são?…”

Aqui, para aumentar a curiosidade, pode introduzir-se uma terceira versão, intermédia, relativa à divulgação de Tintin em Angola, n’O Papagaio. Publicada entre nós em 1941, esta cena dispõe da seguinte fala do improvisado professor: “Repito-lhes, pela terceira vez, que Portugal é o que…”

E eis que surge o superior da missão, ignorante de tudo o que sucedera, agradecendo a disponibilidade do improvisado professor. Assim terminaram a prometedora carreira pedagógica de Tintin e este agitado episódio.

Creio, uma vez mais, que quase nada aqui escapa à filosofia que norteou, primeiro, a aparição da obra, depois, a sua reformulação. Tanto na linha original que descrevia e louvava a implantação e a obra das missões católicas no Congo Belga, como no conjunto dos posteriores objectivos de “descongolização” do álbum, tudo parece coerente e lógico.

Assim, a evocação da pátria distante deu lugar a uma banal adição, tal como poderia ser substituída por uma lição sobre o corpo humano, uma revisão de regras gramaticais (bem necessária!!!) ou uma clássica redacção sobre a Primavera. Talvez possamos reprovar, no concreto, a deficiente qualidade das lições do padre Sebastião, pelo menos no que respeita à tabuada ou ao cálculo mental, uma vez que ninguém na turma sabia quantos são 2+2…

Esta adição não é uma operação matemática simbólica; é o seu grau zero de dificuldade. Poderemos concluir, portanto, que os (pequenos) congoleses eram intelectualmente incapazes? Na dúvida, talvez seja conveniente entender o episódio como mais uma subliminar crítica aos malefícios do colonialismo…

Já atrás se deixou uma alusão aos aspectos “místicos” que impregnam a obra, aqui patentes no “dramático” desabafo de Tintin. Pode ocorrer-nos a interpretação da responsabilidade paternalista para com os africanos, atribuída na época aos colonialistas. Ao tempo, a função civilizadora do homem branco era, também, uma missão divina… O oportuno desaparecimento deste balão mostra, pois, uma óbvia mudança de mentalidades nas épocas em confronto.

Resta analisar a radical alteração na personalidade -raça e profissão- de Jimmy Mac Duff. Em diversos álbuns posteriores, foi muito frequente esta mudança -aplicada a personagens pouco simpáticas- de um negro para um branco. Hergé, tal como demonstrou em vários testemunhos pessoais, sentiu-se injustiçado perante sucessivas acusações onde o seu suposto racismo foi tema dominante. É assim natural que algum sentimento de auto-censura o condicionasse, tentando antecipar-se a tais críticas, adivinhando-as, evitando-as ou resolvendo-as…

Aliás, um dos aspectos essenciais e desmistificadores no caso de Jimmy Mac Duff é o facto, provado pelas indiscutíveis ressonâncias da própria onomástica saxónica, de este -negro ou branco- ser mais um estrangeiro e não um congolês. Talvez, quem sabe, alguém do bando de Al Capone…

António Martinó de Azevedo Coutinho
Segunda-feira, Setembro 27, 2010

Há cinquenta anos foi sufocada a Primavera de Praga

Estação do desabrochar das flores, a Primavera é frequentemente utilizada para expressar tempos de esperança. Em 1968, o mundo viveu um período de profundas mudanças.

Entre os muitos terramotos sociais que sacudiram a época, estava a Primavera de Praga, movimento que prometia um “socialismo de rosto mais humano” na Checoslováquia. Depois da aurora, no entanto, vem sempre o crepúsculo. Após sete meses de experiência liberalizante, nos quais o novo líder do Partido Comunista local, Alexander Dubcek, eliminou a censura, libertou presos políticos e encorajou a democratização do país, o Outono abateu-se sobre a nação na forma de tanques. Há precisamente 50 anos, em 21 de Agosto de 1968, tropas da União Soviética e do Pacto de Varsóvia invadiram Praga, destruindo aquela experiência inovadora e iniciando uma ocupação que só terminou em 1989, com a queda do Muro de Berlim.

Na época, a acção confundiu a esquerda, que relutou em escolher um lado para apoiar. Para muitos, a Primavera de Praga foi uma oportunidade perdida, algo que poderia transformar a trajectória do socialismo e da União Soviética.

O livro “Insustentável Leveza do Ser”, de Milan Kundera, reflecte o optimismo que contaminou o período entre Dubcek assumir o cargo até à invasão de Praga. A canção Modlitba pro Martu (Oração para Marta), de Marta Kubisova, que fala em “deixar a paz permanecer no país” e “nuvens que lentamente se dissipam do céu”,  tornou-se o hino da luta pacífica contra a ocupação. Assim como em outras revoluções, a música fazia parte da revolução. Com o fim de muitas proibições, discos do Ocidente chegavam no país, assim como livros. Nos breves meses em que durou, o novo regime permitiu a liberdade de expressão e movimento, inclusive para outros países.

Porém naquela madrugada fatídica, lideradas pela URSS, tropas de Polónia, Bulgária, Alemanha Oriental e Hungria – o Pacto de Varsóvia – cruzaram a fronteira da Checoslováquia e antes do amanhecer do dia 21 de Agosto de 1968, entraram na capital. Indefeso, em poucos dias o país rendeu-se. Gradualmente, as reformas eram revertidas e a inflexibilidade soviética retornou.

Dubcek deixou o cargo em 1969, e Moscovo afastou momentaneamente  o perigo daquela Primavera alastrar a outras nações do leste europeu. Pelo menos até uma nova onda de insatisfação ter derrubado de vez os escombros dos regimes comunistas.

Pedagogia aos Quadradinhos – Memórias dos Outros Tempos – vinte e quatro

Em dois distintos momentos seguintes procurei conhecer o grau de conhecimento dos alunos, enquanto leitores de quadradinhos, quanto ao significado das metáforas visualizadas contidas em balões, assim como quanto à descodificação das onomatopeias gráficas.

Aqui estão dois excelentes exemplos daquilo que hoje não me atreveria a repetir. Nessa fase do meu entendimento dos fenómenos da comunicação, acreditava em “catálogos” ou “dicionários” fixos tanto de metáforas como de onomatopeias, onde a cada símbolo correspondesse uma dada significação. Acredito hoje, sobretudo a partir da aceitação e prática das teorias do processo ICAV (Iniciação à Comunicação AudioVisual), que é em cada um de nós, receptores de uma mensagem, que se situa a capacidade -e inerente responsabilidade- da sua livre interpretação.

Nos inícios da década de 70 do passado século foi assim…

da, narrando a teimosia de duas personagem, desentendidas na banal travessia de uma ponte. A proposta consistiu na reposição da ordem espácio-temporal das vinhetas desorganizadas.

Nesta fase das “provas” seguiu-se um duplo desafio que, tal como atrás reconheci e pelos mesmíssimos motivos, hoje considero irrelevante. Reduzir as múltiplas funções do denominado “signo cinético” ou a tradução icónica das emoções patentes num rosto a uma singela -e exclusiva- leitura parece-me agora abusivo. Porém, em 1972, achava isso perfeitamente natural e irrepreensivelmente lógico.

Entendia o mesmo quanto às restantes provas a que, com absoluta honestidade intelectual, nessa época sujeitei os meus alunos.

António Martinó de Azevedo Coutinho