mil novecentos e sessenta e um – dia 239

1961239 DOMINGO 27

Com o dia de ontem ocupado por causa do juramento de bandeira, adiei para o próximo fim de semana a ida a casa do meu irmão, a Cascais. Portanto, hoje é mais um Domingo na pasmaceira de Mafra.

Por aqui, solitário porque o Caprichoso mesmo assim se foi embora, foi mais um Domingo rotineiro sem nada de jeito para fazer, apenas dar uma volta pelos mesmos sítios, beber um café numa esplanada, comprar o jornal, ler mais uns capítulos de um dos livros que trouxe. Agora nem há futebol para ouvir uns relatos…

Confesso que pensar no destino do Simões e do Zé Paulo se tornou quase obsessivo. Creio que o mesmo acontece a todos os que aqui estamos nesta situação, cada um esperando o dia em que será chamado para Lamego… Estes mil e duzentos que ontem mesmo ficaram prontos irão certamente para o Ultramar à nossa frente e pode ser que nos proporcionem alguma folga. É irónico pensar assim, que enquanto forem marchando os outros nos vamos safando…

Bem, a realidade é que em Angola não vai ser fácil nem rápido normalizar a situação e depois há a Índia, a Guiné e sei lá se também Moçambique. São Tomé e Cabo Verde, como são ilhas, estarão talvez mais livres de invasões terroristas… O nosso histórico Império está ameaçado.

Está quase a cumprir-se um mês nesta minha inesperada e radical mudança de vida. A diferença é brutal. Neste dia de solidão, até ao regresso da malta que ainda quis aproveitar um fim de semana de liberdade mais curto, sempre fui pensando nisto. Aliás, este é um pensamento pessoal quase permanente.

As saudades da minha mãe, da Adrilete, dos amigos, das rotinas portalegrenses que até achava vulgares e agora acho admiráveis, tudo está sempre presente e os dias que vão passando não resolvem os problemas do tempo e da distância…

Nestas alturas quase desejo a dinâmica da instrução militar, pois pelo menos tem a vantagem de distrair um pouco, de preencher os vazios… Amanhã voltamos a isso.

Entretanto vou dar uma volta imaginária pelo mundo, através das páginas do Diário de Lisboa.

No Brasil, a demissão do presidente Jânio Quadros tem provocado sérios problemas políticos e constitucionais. Parece que até se admite a instauração do estado de sítio.

Em Berlim, o chanceler Adenauer não aceita que os soldados alemães se batam sem armas atómicas contra um inimigo que as possua. Meu Deus, mas onde vamos chegar? Será uma terceira guerra mundial à porta?

Quanto a Angola, que continua a ser para mim o mais importante de todos estes graves problemas actuais, o jornal diz que os civis e os polícias da circunscrição de Cangola pediram autorização superior para reocuparem o posto de Bengo.

Os terroristas têm roubado café para o venderem em território congolês. Mucaba continua cercada e é abastecida apenas por via aérea, tendo sido reconstruída uma ponte na região do Uíge. Na zona da Pedra Verde terá sido abatido o chefe dos terroristas, ao que parece um europeu estrangeiro…

Já agora, uma oportuna curiosidade. No momento em que vai começar a ser construída a grande ponte sobre o Tejo, em Lisboa, os franceses e os ingleses discutem sobre a alternativa de um túnel ou uma ponte entre os seus países, sob ou sobre o Canal da Mancha. A notícia de hoje diz que poderosos interesses financeiros franceses advogam a ideia da construção de uma ponte porque permite o trânsito ferroviário simultâneo nas duas direcções, enquanto o plano do túnel apenas apresenta uma ligação.

Afrânio de Lucena, um amigo portalegrense

No início do período legal em que começa no Brasil a propaganda eleitoral gratuita27 afranio 0 através da rádio e da televisão, quero aqui aludir às próximas autárquicas no país irmão.

Estas eleições vão acontecer, na sua primeira volta, no dia 2 de Outubro de 2016 e o meu interesse é exclusivamente motivado pela cidade nordestina de Portalegre RN, a que estou ligado por profundos laços pessoais e da qual sou cidadão honorário.

Naturalmente, esta condição não me permite votar, mas nem por isso me são indiferentes a gestão e o progresso daquela linda cidade, que acompanho à distância sobretudo através dos contactos pessoais que mantenho e dos meios que a Internet progressivamente coloca à nossa disposição.


27 afranio 2Os processos eleitorais de Portugal e do Brasil são bastante distintos. Cada um dos sistemas oferece, a meu ver, vantagens e desvantagens. No que diz respeito às autarquias, prefeituras para os brasileiros e câmaras para nós, o processo eleitoral assenta aqui nos partidos e lá nas pessoas. Enquanto em Portugal são listas colectivas partidárias de entre as quais a aplicação do método de Hondt forma os elencos finais, no Brasil é cada cidadão que se propõe individualmente, ainda que quase sempre contando com cobertura e apoio partidários. Há portanto votações distintas e individualizadas para os cargos de prefeito, vice-prefeito e vereador.

Pessoalmente, concordo com este último sistema, pois assenta muito mais na responsabilização personalizada, tanto no relativo à eleição como, sobretudo, na permanente actuação posterior dos eleitos. No nosso caso, são quase sempre diluídas as incompetências pessoais e é praticamente ignorado o desrespeito pelas promessas eleitorais. Tudo se esvai e perde num acéfalo conjunto, onde as culpas não cabem a ninguém…27 afranio 3

O Afrânio é, de há anos, um meu bom amigo em Portalegre RN. Colegas de profissão, unem-nos diversos interesses para além dos pedagógicos.

Justificando na prática quotidiana a sua dedicação à cidade onde há muito vive, Afrânio Gurgel de Lucena integra o actual elenco da prefeitura como vereador. Tenho acompanhado o seu permanente e informado labor em vistas ao progresso de Portalegre RN.

Agora, no termo deste desempenho, o Afrânio dispõe-se a continuá-lo, pelo que é candidato a um novo mandato, integrado no PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro) no seio da coligação Portalegre no Caminho Certo.

O activo papel que ele tem desempenhado como dinâmico colaborador do prefeito e como diligente e responsável membro da câmara legislativa municipal nestes quatro anos é consensualmente reconhecido, pelo que acredito que a sua reeleição vai acontecer com inteira naturalidade.

Os objectivos que ele anunciou e vai prosseguir falam pela sua vontade política. Espero que o Afrânio, após a eleição, lhes junte um permanente desígnio de intensificação das fraternas relações com a cidade irmã alentejana e portuguesa de Portalegre. Não podemos deixar perder essa ligação…

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Na notável comemoração que Portalegre RN levou a efeito em 2011 a quando dos 250 anos da sua fundação, foi Afrânio a principal alma de tão complexa como bem sucedida organização. Pude apreciar ao vivo o resultado da sua inteligente e trabalhosa actuação, à frente de uma equipa coesa e funcional.

Sempre ele me dedicou uma fraterna amizade que agora recordo num momento importante da sua repetida disponibilidade ao serviço da cidade de Portalegre RN.

Entre os amigos que guardo dos sucessivos encontros pelas terras da costa e do interior serrano do Rio Grande do Norte como das montanhas do Norte Alentejano, o Afrânio tem um lugar especial.

Por isso, à distância que o mar separa mas a memória comum anula, daqui lhe envio um abraço de amizade e os sinceros votos de uma campanha eleitoral de merecido e justo sucesso.

António Martinó de Azevedo Coutinho

mil novecentos e sessenta e um – dia 238

1961238 SÁBADO 26

Nesta semana foi reduzido o tempo de folga. Tudo se junta numa altura crucial para aumentar o nosso desespero. Não tenho falado nisso, mas tem vindo a funcionar em paralelo aqui na Escola Prática de Infantaria um curso de sargentos milicianos que agora é mais abreviado do que era no nosso tempo de Tavira, reduzido praticamente a metade do tempo de duração, apenas cerca de três meses. Já estava em funcionamento quando aqui cheguei quase há um mês (parece um ano!) e foi hoje o juramento de bandeira de cerca de 1.200 novos sargentos milicianos que já têm o seu destino traçado.

No sítio do costume, o embandeirado Largo D. João V, frente ao palácio, reuniu-se a tropa quase toda daqui. Até veio o presidente Américo Tomás, depois houve missa solene e, no final da cerimónia do juramento de bandeira, foi condecorada a EPI com a Ordem Militar de Cristo.

Cantou depois toda a gente em coro a marcha Angola é nossa. Confesso que não achei nenhuma graça a isto e se algum sentimento me dominou não foi certamente o do amor à Pátria. Tudo isto me vai parecendo cada vez mais absurdo…

Espero que um dia, se alguém vier a ler estas linhas, possa entender-me. Sou precisamente o mesmo que ainda há uns meses vibrava com a peregrinação das relíquias do Condestável. Mas ninguém se preocupa agora com uma explicação pessoal, a sério, das razões pelas quais vale a pena morrer por um pedaço distante da Pátria… Para quê tantas mortes e tanto sofrimento? Não há outras soluções? Quando o mundo todo parece estar contra Portugal, quem tem razão? Seremos mesmo nós?

A angústia de pensar nisto domina-me e perturba-me.

Em Angola, segundo o Diário de Lisboa, nada aconteceu de significativo. Um grupo de civis conseguiu recuperar a posse de uma fazenda nos arredores de Carmona e foi entregue à Força Aérea uma pista de aterragem de emergência voluntariamente construída pela população de Sanza Pombo. Estes dois exemplos revelam a eficaz cooperação civil com a tropa. Acho bem.

O primeiro-ministro britânico afirmou que não haverá uma nova guerra por causa de Berlim. Porém, não fico mais tranquilo com estas palavras…

Jânio Quadros, o presidente do Brasil, demitiu-se do seu cargo. Confesso que, preocupado com outros assuntos, não tinha prestado grande atenção ao que se passava pelo Brasil e por isso fiquei bastante surpreendido.

Amanhã é mais um sábado vivido (ou sobrevivido?) neste exílio.

Fraternità

26 sismo itália

Do blog e facebook “Planète Tintin”, de Dimitri Drugmand, reproduzo com a devida vénia esta montagem.
Entendi-a como uma homenagem coerente e simples, que subscrevo.
A força e o simbolismo da banda desenhada dispensam aqui palavras e inscrevem-se na simplicidade de uma comunicação directa, quase espontânea.
Numa vinheta arrancada ao universo dos quadradinhos, transferindo a experiência virtual de um aventuroso episódio de Tintin para a dramática realidade da Itália central nos tempos que decorrem, fica expressa a solidariedade humana num conjunto tricolor de flores, quase irreais no seu colorido, carregadas porém de expressividade na simbólica representação de um país martirizado pela tragédia, de onde não pode nem deve ser arredada a esperança.